domingo, 9 de setembro de 2007

O encanto das perguntas

XLIII

Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?

Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?

E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?

Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?

Esses dísticos perguntadores e maravilhosos são de Pablo Neruda, do seu imperdível "Livro das perguntas". Gosto do livro todo, mas esse poema me visita desde ontem. Talvez porque fale dos sonhos. Talvez porque pergunte de um pai "que vive nos sonhos" e que "volta a morrer quando despertas"... E é uma pergunta, não uma afirmação: por isso o encanto. A pergunta se insere no reino do que poderia ser, do sonho. Todo sonho é uma grande pergunta, não sei se Freud disse isso, mas deve ter sugerido.
Não quero propor aqui uma interpretação do poema - assim como faço com meus alunos, e sempre acontece, por conseguinte, o encanto: o encanto de encontrar muitas respostas e continuar perguntando... A poesia é assim: tem tantas portas, janelas, varandas... E constantemente uma estrada não-vista a ser revelada.
Não, agora não quero propor nada. Apenas deitar e sonhar: perguntar ao mundo, enquanto durmo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Casamento feliz

Desde cedo descobri que o meu grande amor, para a vida toda, seria mesmo a literatura. Nas férias, deitada no sofá de lá de casa - um sofá antigo, desses que não existem mais - eu passava o dia lendo, ninguém me importunava. Pai passava quando vinha da rua, mãe quando varria a sala, minha irmã quando vinha da casa das amigas, e eu lá, no mesmo lugar, lendo, sendo feliz. Ninguém me tirava daquele mundo... Minha família sempre entendeu isso muito bem. Acho que sentiam orgulho. Pai, que sempre foi leitor fervoroso de Jorge Amado, e lia jornal todas as noites, sentia-se orgulhoso por ver que tinha filhas que gostavam de ler, e uma que chegava a lhe preocupar, pois lia demais da conta: eu. Ele perguntava a mãe, "e essa menina não sai não, não brinca com suas amigas, não passeia"? Mãe não entendia muito bem aquele negócio meu com os livros, mas achava melhor assim: melhor dentro de casa que aprontando na rua. E dessa maneira iam passando os dias. Descobri que, mesmo morando numa cidade sem biblioteca nem livraria, poderia ler. As famílias vizinhas, e pai também, compravam coleções de grandes autores através dos vendedores de livros que apareciam na cidade de tempos em tempos. Eram coleções encadernadas, bonitas. Lembro que as que pai comprou foram as de Jorge Amado, Aluísio Azevedo e Machado de Assis. E uma vizinha comprou José Mauro de Vasconcelos e José Lins do Rego. Li as coleções de casa e depois fui às coleções da casa vizinha: não podia perder tempo... Como chorei e como reli Meu pé de Laranja Lima... A fala terna e dolorosa do personagem principal: "...e eu, Godóia?" até hoje soa no meu coração, doendo...
Sei que a minha compreensão do mundo, o meu sentimento do mundo, como diria Drummond, vieram de lá: dos primeiros livros lidos. E também da bela compreensão de minha família por essa união que a infância selou para toda a vida: meu casamento, com total comunhão de bens, com a literatura.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Conversando no divã

Para que diabos procuramos nos tratar numa sala de terapia? É essa a pergunta que me faço, eu que sou adepta de uma dessas salas. Para que diabos se procura um psicólogo? Para que diabos temos depressão? Os palavrões todos são formas de desabafo, como se agora eu estivesse numa dessas salas, o psicólogo à minha frente, eu em frente ao psicólogo, com todas as minhas dores. O que diabo ele irá fazer com a minha dor? Passar remédio ele não vai, pois quem passa é o psiquiatra. O psiquiatra trata da depressão em sua forma cerebral, diria assim, remédios para a famosa serotonina, etc.; enquanto que o psicólogo trata da depressão com perguntas mais auspiciosas, profundamente existencialistas, filosóficas, coisas que possam encontrar a alma do paciente, sua gênese familiar, a criança que está lá entalada querendo brincar de qualquer jeito... Os psicólogos estudam muito, lêem Freud, Lacan, Jung, têm até autoridade para negar as posições de cada um desses famosos e ter a sua própria posição. Aliás, eles tem tudo nas mãos: um ser. O que fazer com um ser? Ouvir o seu choro convulsivo? Arrumar-lhe um lencinho branco de papel? Dizer-lhe palavras auspiciosas? Meu Deus, o que fazer... Pronto, já sei: o bom psicólogo encontra a alma de seu cliente, sabe sua história, lhe diz o que deve fazer, o que não deve, sugere caminhos... Há no seu olhar algo humano, percebe-se. Em alguns casos ele simpatiza com sua história, tem uma devida compaixão. Mas ele não pode fazer mais nada. Não pode lhe dar um abraço. Não pode lhe transmitir afeto. Às vezes o afeto se dissemina no olhar, mas ele retrai. Porque não pode. Porque isso conseqüentemente se transformará em contra-transferência. Porque o que acontece ali é uma relação profissional: há um doente e há um médico. Só que o doente é doente da alma e o médico também é da alma. Eis a encruzilhada. A alma exige não-profissionalismo, a alma implora afeto, abraço, cumplicidade com seu destino. Por isso me pergunto, de novo, e me perguntarei a vida inteira: para que diabos procuro um psicólogo?

domingo, 2 de setembro de 2007

A Pasárgada de meu sobrinho

Estava doente, e meu sobrinho, que acabou de fazer dez anos, sabia que eu estava doente. Ele sabia que eu precisava melhorar. E a estratégia dele foi boa, inteligente, sensível.
Primeiro passo: ele me acordou. Ao meio-dia eu estava dormindo, e ele me telefonou.
Segundo passo: ele me disse assim:

"Titia, escute isso:

'... E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada' "

E no finalzinho do verso, no "vou-me embora pra Pasárgada", ele quis imitar a risada de Juca de Oliveira recitando o poema no cd que ouvimos juntos, há um mês atrás. Não agüentei: morri de rir. Aí ele disse que naquele momento estava lendo o poema no seu livro da escola, e que adorava encontrar poemas - que ele já conhecia - em outros lugares. E disse mais: que adorou essa parte de deitar na beira do rio e chamar a mãe-d'água... E imitando Juca de Oliveira, desligou com uma gargalhada: "Vou-me embora pra Pasárgada!"

domingo, 26 de agosto de 2007

Nunca me esqueci disso

A televisão demorou a chegar à minha cidade. Eu devia ter uns oito, nove anos quando isso aconteceu. Poucas pessoas possuíam o aparelho. Assim, tínhamos platéia todas as noites. As pessoas chegavam às seis e saíam às dez. Na época passava a novela "Maria Maria", em preto e branco, uma imagem enorme pois que a televisão que pai comprou era gigante. Mãe tratou logo de fazer uma capa de feltro verde para a digníssima da casa: desenhou um galo também gigante e escreveu com letras caprichadas: "TV Aratu Canal 4". Mãe sempre foi adepta do rádio, e demorou muito para assumir o seu amor pela televisão. Todos os anos, antes da televisão chegar, ela fazia questão de comprar um rádio novo. Colocava na cozinha, ligava pela manhã e só desligava à noite. A voz de Valdir Vieira ecoa até hoje, quando vejo o velho rádio sobre o guarda-louça de sua cozinha. Pois bem, encurtando a história: nunca me esqueci de uma conversa que ouvi de mãe com sua amiga, logo que pai comprou a famosa televisão. Ela dizia para a amiga que jamais trocaria o rádio por "aquilo". A outra ficou espantadíssima e perguntou o motivo de tal despautério. Ela argumentou que a televisão exigia sua presença na sala o tempo todo, enquanto que o rádio não - era só aumentar o volume e ela podia cozinhar, lavar pratos, ir ao quintal, fazer tudo. Minha mãe, sem saber, falava talvez sobre a liberdade... Ou sobre tantas outras coisas... Nunca me esqueci disso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Jogo perverso

Esse homem é incorpóreo, já atravessei seu corpo como se atravessasse o corpo dos ventos. Ele foi algo que inventei desde menina quando, insone, insistia em criar rosto de gente nas formas esquisitas do telhado de lá de casa. Ele insistiu em me acompanhar, em todos esses anos. Desde que saí de casa, invento seu rosto ao relento, sob as nuvens. O que é ainda lúdico, na maioria das vezes se transforma em jogo perverso, pois que as formas das nuvens não têm a estabilidade das formas do telhado...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

... para a lua, num foguete

Num dos posts de Renata Belmonte, há um elenco de medos. Muito corajosa, Renata, gritar ao mundo os seus medos. Hoje à tarde, olhando uns retratos meus de quando era criança, me lembrei desse post de Renata. Em todas as fotos tenho um ar assustado. De que tinha medo essa pequena Macabéa?
- "Tinha medo de soldado". Como a própria Macabéa, eu talvez pensasse: "será que ele vai me matar"? Brincadeiras à parte, essa pequena tinha medo de homem fardado, até de guarda da Sucam ela tinha medo.
- "Tinha medo de desgrudar da mãe". Mesmo apanhando, eu não queria me desgrudar dela. (Lembro de uma cena clássica: acordei de manhã e ela não estava. Saí pela rua, pela chuva, chorando e gritando seu nome, até cair numa poça d'água.)
- "Tinha medo de sua irmã". A menina era do outro mundo, me batia e não queria graça comigo. Era do time das fortes da escola, da rua, da galáxia.
- "Tinha medo de retratista". Aquele clique amarelo que saía do "aparelho"(eta palavra antiga) não era nada confiável.
- "Tinha medo de 'João da Jega'". Este morava numa loca e me disse, aos seis anos, que me levaria para a lua, num foguete.