terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Quando meu avô morreu

Quando meu avô morreu, minha avó teve um comportamento considerado estranho, principalmente por sua cunhada, irmã de meu avô, que não gostou nem um pouco do que viu.
Era noite quando chegamos lá na roça. Eu abraçava mãe e não acreditávamos naquilo tudo: a casa cheia, uns candeeiros clareando a imensa sala, e muita gente chorando. Minha avó foi nos receber na porta, assim como ela estava fazendo com todas as pessoas que chegavam. E também repetiu o que dizia desde que ali entrou a primeira pessoa: "Parem com essa besteira de chorar, gente! Que chororô que nada! Todo mundo um dia vai morrer! Hoje foi ele, amanhã sou eu, depois serão vocês! Entrem, entrem, mas nada de choro, nada de choro!" A repetição empolgada do "entrem, entrem", fazia parecer que ela abria as portas para uma festa. Claro que achei estranho, mesmo sabendo que minha avó sempre foi tirada a engraçada, quase seca para a vida, fazendo desdém das coisas, mas naquele dia ela ultrapassava todos os limites.
Fomos para o quarto: eu, mãe, minha tia, minha prima... Mãe estava mal, chorava muito. E minha avó, depois de receber as últimas pessoas que chegavam, entrou com um rompante no quarto que estávamos e tratou logo de explicar como meu avô morreu: "Assim, ó, de repente, sem quê nem pra quê! Depois dei banho, tá lá todo limpinho, cheiroso, ninguém pode dizer que não cuidei!" Dizendo isso, foi se sentando na cama junto com a gente, sem uma lágrima no olho, numa excitação juvenil: "Deixem eu falar pra vocês o que sofri com esse véi a vida toda!" Daí abriu sua vida, contou tudo, desde o casamento até aquele dia. "Ah, minhas filhas, esse véi nunca prestou, não é porque morreu que eu não vou contar tudo". E abriu mesmo o verbo: todas as traições, os filhos que ele teve fora do casamento, as pensões para as outras que ela sempre lhe obrigou a pagar... "Na primeira traição desmanchei o jirau e nunca mais dormi com ele! E digo mais, minhas filhas: tomara que não tenha ninguém na família que puxe a este homem!"
Assim foi a noite toda: minha avó, lavando a alma, contou o que queria com muita graça, e nós não conseguimos deixar de não rir. Até mãe chegou a rir numa determinada ocasião, mesmo com o rosto inchado de chorar.
Na casa todos comentavam aquele comportamento de Dona Calu. Que coisa! Nem uma lagrimazinha! "Esse véi foi ruim demais, minhas filhas, e que Deus lhe perdoe!", ela repetia. Minha tia-avó (irmã de meu avô),diante de todo esse teatro, se sentou na cozinha e ficou lá com a cara amarrada de ressentimento.
No outro dia, bem cedo, acordamos com as ladainhas tiradas, na sala, por minha avó bastante animada. As rezas eram tristes, mas ela alteava no tom e a coisa perdia um pouco a dramaticidade. Na hora do adeus final, foi ela quem ordenou aos filhos fazerem uma fila para darem a benção ao "véi" que estava partindo. "E os netos também, têm que vir", ela gritou. Lá fui eu na fila. Minha irmã fingiu que ia, aproveitou a distração de minha avó e não foi não, se escondeu no meio do povo. E a ordem continuava: "Dêem a bênção e beijem a mão dele!" Todos obedeciam. As pessoas presentes buscavam lágrimas nos olhos dela e, nada achando, murmuravam entre si: "Como é que pode? Que velha dura é essa?"
A fila dos parentes todos se despedindo foi grande. Isso levou mais ou menos uns trinta minutos. Depois ela voltou ao comando: "Tampem o caixão, está na hora!"
Na porta, uma caminhoneta com o fundo aberto esperava. O cemitério era longe, o enterro seria acompanhado de carro. Os filhos pegaram o caixão e foram saindo, colocando-o, a seguir, na caminhoneta. Minha avó no batente da porta olhava, com o olho seco. Fecharam a caminhoneta. O motorista ligou o carro. Minha avó no batente da porta olhava para tudo aquilo, dura. Depois mexeu no lenço da cabeça e começou um choro longo, doloroso, entrecortado de soluços.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O "motivo da rosa"

Esqueçam! Esqueçam tudo que eu disse até agora sobre esse negócio de amar e ter que ser amada, fui muitíssimo leviana. Isso porque só hoje tive acesso a uma verdade extraordinária. Quem me disse foi alguém de outro mundo pela boca de uma pessoa próxima, que tem a missão de me ajudar nessa milésima vida que estou vivendo. Eu, no meu primarismo existencial, querendo receber amor a qualquer custo, a ponto até de desejar voltar a passar facão na cabeça de gente que não me amava, aprendi, hoje pela manhã, algo sublime. Sabe dessas verdades que a gente não ouve todos os dias? Que os ventos escondem atrás das pedras em dias de muito sol? Que nas noites de tempestade os trovões fazem questão de esconder dos nossos ouvidos? Que Deus embaralha nas cartas do tarô para que não possamos saber senão na hora certa?
Eis a hora, Aeronauta. Desculpem, leitores, mas não posso contar, é segredo.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Rimas desagradáveis

Sempre amei muito. E sei que ainda tenho uma propensão grande para amar. Mas o amor é algo tão difícil que aos quinze anos eu já dizia para mim aquele poema de Drummond: "Carlos, sossegue, o amor/ é isto que você está vendo:/ hoje beija, amanhã não beija"... etc. E completava, à maneira minha e do poeta: "Aeronauta, sossegue","depois de amanhã é domingo/ e segunda-feira ninguém sabe o que será". Cruel esperança, essa do amor. E repito o que disse Mário de Andrade no conto "Vestida de preto": "Minha impressão é que tenho amado sempre..." Frase simples, mas que desde a primeira vez que li me causou um impacto enorme. Sabia, secretamente, que essa seria a minha verdade mais íntima e dolorosa.
Isso tudo porque aquela história de dizer que o que vale a pena é só amar sem esperar amor de volta é apenas uma história bonitinha e inverossímil. Eu amo e quero amor de volta, sim... Por que senão como sobreviverei? Morrerei de fome, morrerei triste e perdida, chorando igual a uma condenada...
(Nesse instante me lembro de uma coisa risível: aos onze anos eu tinha um caderno de pensamentos, rimazinhas pobres, versinhos bobos, e um deles dizia: "amar e não ser amado é melhor morrer crucificado" (ah, ah, ah). Toda vez que me lembro desses pobres versos me dá vontade de rir. Puxa, eu, aos onze anos, com um gosto miserável para a poesia, já acreditava nessa verdade secreta, e mal-formulada em rimas tão desagradáveis...)

Orações

Li, uma certa feita, Harold Bloom dizendo numa entrevista algo muito interessante, e que era mais ou menos assim: decore poemas como você decora orações, e sempre fale para você mesmo em todos os momentos, seja os difíceis e os maravilhosos. Quando li esse conselho, lembrei que eu já fazia isso há muito tempo, desde que me apaixonei pela poesia. Decorei principalmente "Consolo na praia", de Drummond e falo para mim, constantemente, bem baixinho, em qualquer lugar: no ônibus, na fila do banco, na rua, sob a chuva e sob o sol...
Me vem agora, de lá das bandas de Pernambuco, esses versos de Mauro Mota:

AUSÊNCIA

Vestias diante do espelho
o vestido de viagem,
e o espelho partiu-se ao meio
querendo prender-te a imagem.

Prendo esses versos na memória e vou soletrando palavra por palavra. Lá fora a chuva veio fora de hora. É sábado. Tudo fica em estado de alerta para ouvir o poema que minha memória recita.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Bate-papo num final de tarde

O que escrever num final de tarde de quarta-feira? Tudo, menos sobre a falta de assunto, que já tem tradição na crônica brasileira. E o pior é que há muito assunto nas mãos. Há assunto demais, eis o problema grave. Como retirar tudo de dentro de mim para gravar no mundo? É falta de modéstia isto? Creio que não, pois o que tenho dentro de mim não é lá grande coisa, mas precisa sair, eu preciso limpar o terreno. É algo parecido com varrer aquele grande terreiro onde eu brincava com minha irmã, aos dois anos, na frente de lá de casa. Varrer bem varridinho para depois brincar, pular macaco (amarelinha) até dar dor de facão. Quando criança adorava girar, girar, girar, até ficar tonta e cair. A sensação de vertigem sempre me acompanhou como sedução, vontade de ir ao outro mundo e saber como é. Por isso amei tanto. Por isso de mim tenho essas notícias - palavras que se arrastam no meu ouvido e voam nas teclas do computador. Ah minha Drummondina... Onde estás agora? Você que eu cuidava como se cuida de um filho, sujando minhas mãos de vermelho quando ia trocar a sua fita... Você que sabia de minhas ambições de um dia me tornar escritora. Não é tão fácil como eu pensava, Drummondina. A "Manuela" de Mário de Andrade teve mais sorte que você, que eu. Tenho alguns poemas engavetados, tristes, buscando passear em letras impressas. Tenho essas croniquetas aqui, que se estivessem sido escritas em você, querida Drummondina, ninguém iria ler. Mas tenho alguns dez ou onze leitores assíduos que lêem essas besteiras que escrevo e comentam, isso porque estamos em dois mil e sete e eu finalmente aderi ao computador.
Escrever é mesmo buscar a vertigem, como eu fazia na infância: girar, girar, girar, ficar tonta e cair. É a mesma sensação de amar, amar, amar, e

domingo, 25 de novembro de 2007

Para a posteridade


Duas meninas lindas, com o mesmo tipo de vestido. Pressinto que vocês já devem saber quem é a Aeronauta aí.
Minha mãe encerava a casa com uma cera vermelha e um escovão. Ficava lustrando. E adorava forrar latas e enfeitá-las com plantas. Cenário ideal para tirar retrato das duas meninas. Nesse dia tenho a vaga lembrança de que brincávamos na varanda, perto do quintal. Mãe nos chamou, correndo: Mozart, o retratista, estava passando na rua, vamos aproveitar, disse ela, para tirarmos um retrato... Qual o lugar? Aqui, no corredor, junto dessa planta. Ah, eu com medo do retratista, com medo do retrato, com medo de tudo que era do mundo! Minha irmã, linda, sorria e estalava os dedos, sua mania preferida; enquanto o que eu desejava mesmo era entrar na parede e fugir daquele retrato e daquela máquina que tinha um bojo branco enorme olhando para o meu rosto. Os cabelos assanhados, vim correndo, mãe tinha pressa e o retratista não poderia esperar. O jeito era encarar para ficar livre logo: juntei minhas mãos em situação de desespero e resignação... Era para a posteridade, poderia estar pensando minha mãe...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O lirismo de meu pai

A imagem de meu pai é a imagem do lirismo. Sorriso terno, bigodinho a la anos sessenta, calçados vulcabrás e calça estilo social. Usava óculos e me chamava de "papai". A minha irmã ele chamava de "pai". Via, nessa diferença de apelidos mimosos, mais carinho por mim: óbvio, "papai" é mais carinhoso que "pai". Depois cresci e comecei a desconfiar: achava que "pai" demonstrava algo mais sólido, mais seguro, mais firme. E "papai", não-confiança. Coisas de semântica amorosa, ciúmes e intrigas de amor. Triângulo que cedo se formou entre mim, ele e minha irmã. Minha irmã sempre ganhou na esperteza: fazia cálculos, estratégias, e conseguia dele tudo o que queria. Eu não, nunca soube nada de técnica, medidas, era impulsiva, levava o coração na frente sem pensar antes, e só resultava em burradas.... Resultado: em todas as fotos antigas minha irmã está ao seu lado. Em todas as minhas lembranças minha irmã está ao seu lado, sempre sorridente, a chata, grudando nos dois braços dele. O que me restava mesmo eram o carinho e os beliscões de mãe. Mas cadê o lirismo?
Ah, o lirismo... Meu pai gostava de ler. Gostava de poesia. E no meu primeiro dia de aula comprou para mim um caderno de desenho e uma caixa de lápis de cor. Quando comecei a escrever poesia, ele mostrava para todo mundo. Porém, nessa mesma época, minha irmã quis aprender a dirigir. Que orgulho também para esse pai! Ter uma filha que dirigia carros, que sabia resolver coisas em bancos, que lhe ajudava no sindicato, que sabia falar para pessoas estranhas. Claro, essa filha não era eu. Eu era a filha que sabia escrever poesia, e que aos vinte e dois anos publicou seu primeiro livro. Ah, que orgulho também! Mas nesse tempo já era, talvez, tarde. Ela me roubou ele na infância, em algum momento completamente esquecido por mim. As fotos nada dizem, só mostram: eu com mãe, ela com pai. Sempre. Nas festas, nos batizados, nas fotografias oficiais que ficavam penduradas na parede da sala... Uma das minhas últimas lembranças de infância de nós dois juntos foi ele me trazendo no colo, aos seis anos, depois de eu ter dançado a noite inteira numa festa. Vinha suada, no seu ombro, pelas ruas, quase dormindo... Um colo tão bom, tão terno, que nesta parte da lembrança minha irmã não aparece. Sei que ela também vinha da festa, mas não me lembro como, a interesseira. Ah, era um colo tão bom, tão límpido, tão amoroso, tão reconfortante, tão lírico...