É como se meu pai estivesse aqui.
Às vezes, no meio da noite, ouço o ruflar do jornal passando pelos seus dedos - ele que só ia dormir depois de ler todos os cadernos.
Às vezes, às onze horas da noite, sinto ele chegar da rua, entrar no quarto para ver se eu e minha irmã já dormimos, e desligar, mais uma vez, o ventilador.
Nas noites de muita chuva, noto ele andando pela casa com medo do rio entrar na cozinha. E de manhã escuto sua voz vindo da janela da sala falando sobre a enchente com as pessoas que passam na rua.
É mesmo como se meu pai estivesse aqui.
Perguntando, todo dia, sempre nervoso, onde está sua agenda. Sua agenda, aquela que ele colocava na estante e sumia. "E a caneta, Té, cadê?", perguntava desesperado.
E quando chegavam as contas quilométricas de telefone? Sentava-se nos degraus da sala e fazia sempre a mesma pergunta: "Quem ligou para Embu?" Era o enigma da família. "Quem ligou para Embu?" Todos os lugares apareciam com seus respectivos ligadores, mas Embu era diferente: ninguém sabia quem ligou.
E nas segundas-feiras, a briga na sala da frente: mãe querendo mais dinheiro para a feira, ele negando e ela reiterando no final da briga: "Ô home ruim!"... Ele por fim dizendo: "Você não é mais aquela que eu conheci no Valha-me Deus!"
Sinto, ele está aqui, é verdade.
Nos livros de Jorge Amado na estante da sala. Na maneira de ler movimentando os lábios. Nas melancolias. Nas manhãs da semana, quando lerdo, quase sempre perdia o ônibus para a roça, com mãe gritando da janela: "lá vem o ônibus, Bino, corre!", e ele lá na cozinha comendo. "Lá vem o ônibus, Bino, já está na praça, corre!" E a correria dele pelo corredor para pegar o ônibus. Todos os dias sempre a mesma coisa.
Ah, ele está aqui.
As sandálias estão no mesmo lugar à sua espera. Sua roupa pendurada no cabide do quarto e ele tomando banho. Mãe aproveita e vai lá na sua calça retirar, clandestinamente, um dinheirinho extra. Daqui a pouco ele vai jantar e assistir ao jornal nacional. Depois lerá todos os cadernos do jornal, madrugada adentro.
domingo, 20 de janeiro de 2008
sábado, 19 de janeiro de 2008
Conversando no divã novamente
Muitas coisas aprendi com a terapia. A primeira delas: declarar amor. Antes eu não tinha coragem, hoje vivo dizendo: "amo você", "amo vocês", sem nenhum pudor, sem ficar vermelha. E com isso aprendi a dizer também cruéis verdades, na cara. Claro que com a mais doce voz que é possível, como um canto, mas digo. Dizer que ama desconcerta o ouvinte, ele fica sem saber o que falar depois, fica sem graça... Dizer o desagradável desconcerta mais ainda, mas nos liberta mais ainda também.
Com a terapia aprendi muitas outras coisas. Todas sobre mim. Coisas terríveis, coisas de cigana dissimulada, com olhos oblíquos e tudo. A dissimulação é algo que me seduz. Ontem mesmo disse uma "mentira" na frente de um grupo de pessoas e me senti o máximo. Alguém me perguntou se eu tinha blog e eu disse "não, não tenho blog". Não pensei que tal declaração poderia me dar tanto prazer. Ah, a dissimulação, não a mentira... A dissimulação como fetiche, como forma de existir e de se proteger, de se libertar.
Uma certa feita o psicólogo me deu alta. Me senti como que saindo do hospital depois de uma longa temporada, e com um diagnóstico: "estou sã". Que nada, que sã que nada. Voltei logo depois, às pressas, porque não conseguia escrever o último capítulo de minha tese. A mulher "sã" estava novamente doente. E acabei voltando várias vezes, e cada vez mais gravemente doente...
O psicólogo funciona como se fosse um duplo meu: olhar para ele é como olhar para um espelho. E muitas vezes esse espelho irrita demais. Se antigamente eu não tinha coragem de me dizer certas verdades, aprendi a dizê-las para o psicólogo. Claro que é desconfortante ver alguém ali na sua frente olhando para você como se você fosse um rato de laboratório. Porém percebi que o cientista, que é o psicólogo, pode amar o rato de laboratório, e não ter nojo dele. Não adianta, pelo menos no meu caso, não desisti da história do amor. Abaixo Freud, e etc e tal. Quero me sentir amada, porque só assim conseguirei me amar. É a coisa do reflexo mesmo.
Desde o primeiro dia de terapia faço manifesto. Esse manifesto é semanal: "quero amor", "me dê amor", "eu só fico aqui se não sentir frieza em você", etc. Não, não estou falando do amor sexual, mas da ternura. Quero olhar para o psicólogo e ver, nos seus olhos, ternura pela minha tragédia de existir.
Com a terapia aprendi muitas outras coisas. Todas sobre mim. Coisas terríveis, coisas de cigana dissimulada, com olhos oblíquos e tudo. A dissimulação é algo que me seduz. Ontem mesmo disse uma "mentira" na frente de um grupo de pessoas e me senti o máximo. Alguém me perguntou se eu tinha blog e eu disse "não, não tenho blog". Não pensei que tal declaração poderia me dar tanto prazer. Ah, a dissimulação, não a mentira... A dissimulação como fetiche, como forma de existir e de se proteger, de se libertar.
Uma certa feita o psicólogo me deu alta. Me senti como que saindo do hospital depois de uma longa temporada, e com um diagnóstico: "estou sã". Que nada, que sã que nada. Voltei logo depois, às pressas, porque não conseguia escrever o último capítulo de minha tese. A mulher "sã" estava novamente doente. E acabei voltando várias vezes, e cada vez mais gravemente doente...
O psicólogo funciona como se fosse um duplo meu: olhar para ele é como olhar para um espelho. E muitas vezes esse espelho irrita demais. Se antigamente eu não tinha coragem de me dizer certas verdades, aprendi a dizê-las para o psicólogo. Claro que é desconfortante ver alguém ali na sua frente olhando para você como se você fosse um rato de laboratório. Porém percebi que o cientista, que é o psicólogo, pode amar o rato de laboratório, e não ter nojo dele. Não adianta, pelo menos no meu caso, não desisti da história do amor. Abaixo Freud, e etc e tal. Quero me sentir amada, porque só assim conseguirei me amar. É a coisa do reflexo mesmo.
Desde o primeiro dia de terapia faço manifesto. Esse manifesto é semanal: "quero amor", "me dê amor", "eu só fico aqui se não sentir frieza em você", etc. Não, não estou falando do amor sexual, mas da ternura. Quero olhar para o psicólogo e ver, nos seus olhos, ternura pela minha tragédia de existir.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
"A galinha degolada"
Na noite do Réveillon, meu amigo, com uma faca na mão para cortar o peru, disse:
- Aeronauta, você já leu "A galinha degolada", de Horacio Quiroga?
- Não, respondi.
- Ah, vou te emprestar.
Foi lá na estante e me entregou aquele que seria o conto mais terrível que já li na vida.
2008 havia chegado. Agora só nos restava comer aquele peru que estava à mesa já com a faca no corpo. Comi tranqüila e calma, como se diz por aí. Não sabia que aquele peru metaforizaria a dor que eu iria sentir em meados desse mês de janeiro num dia de sábado à tarde, quando resolvi ler o conto.
Estava sozinha numa casa que não era a minha, e em nenhum momento imaginei o que me esperava. (Não gosto de contar enredos de filmes, romances, novelas, muito menos contos. Mas dessa vez você, leitor, vai precisar saber - se ainda não sabe - o que nos causa essa história...)
O conto traz "quatro filhos idiotas do casal Mazzini-Ferraz", que ficavam sempre sentados "o dia todo num banco do pátio", "olhando para o sol com uma alegria bestial, como se fosse comida".
Nas quatro tentativas de ter um filho, o casal "falhara": quatro idiotas nasceram.
Na quinta tentativa "acertaram": veio uma menina "saudável", e que foi muito mimada por isso, enquanto que os quatro idiotas ficavam lá largados e sujos, olhando para o nada, olhando para um muro de tijolos, "demitidos de todo e qualquer carinho"...
Um dia os quatro idiotas resolveram sair do banco e ver a empregada degolar uma galinha para a refeição, "dessangrando-a lentamente" (a patroa lhe disse que só dessa maneira "conservava-se o frescor da carne")... E os meninos olhando...
A menina cresceu: forte e cercada de atenção. Porém, nesse mesmo dia que a ave foi degolada, ela driblou os olhares dos pais e foi tentar subir o muro. E os quatro idiotas olhando, afinal ali era o lugar deles existirem. A menina buscou subir o muro mas os quatro idiotas "lentamente avançaram". A menina gritou pelos pais, mas seu grito não foi escutado. Os idiotas tinham nas mãos, agora, a menina: "um deles apertou seu pescoço, separando os bucles como se fossem penas, e os outros a arrastaram por uma perna até a cozinha, onde naquela manhã tinham dessangrado a galinha, tirando-lhe a vida aos poucos, segundo a segundo."
O conto não termina aí, mas não vou contar o resto. Não vou.
Esse conto me deixou petrificada no sofá daquela casa que não era minha, daquele sábado que não era meu.
Ah, a literatura não nos traz gratificações; nos ensina, isso sim, tudo sobre a nossa mais terrível miséria humana.
- Aeronauta, você já leu "A galinha degolada", de Horacio Quiroga?
- Não, respondi.
- Ah, vou te emprestar.
Foi lá na estante e me entregou aquele que seria o conto mais terrível que já li na vida.
2008 havia chegado. Agora só nos restava comer aquele peru que estava à mesa já com a faca no corpo. Comi tranqüila e calma, como se diz por aí. Não sabia que aquele peru metaforizaria a dor que eu iria sentir em meados desse mês de janeiro num dia de sábado à tarde, quando resolvi ler o conto.
Estava sozinha numa casa que não era a minha, e em nenhum momento imaginei o que me esperava. (Não gosto de contar enredos de filmes, romances, novelas, muito menos contos. Mas dessa vez você, leitor, vai precisar saber - se ainda não sabe - o que nos causa essa história...)
O conto traz "quatro filhos idiotas do casal Mazzini-Ferraz", que ficavam sempre sentados "o dia todo num banco do pátio", "olhando para o sol com uma alegria bestial, como se fosse comida".
Nas quatro tentativas de ter um filho, o casal "falhara": quatro idiotas nasceram.
Na quinta tentativa "acertaram": veio uma menina "saudável", e que foi muito mimada por isso, enquanto que os quatro idiotas ficavam lá largados e sujos, olhando para o nada, olhando para um muro de tijolos, "demitidos de todo e qualquer carinho"...
Um dia os quatro idiotas resolveram sair do banco e ver a empregada degolar uma galinha para a refeição, "dessangrando-a lentamente" (a patroa lhe disse que só dessa maneira "conservava-se o frescor da carne")... E os meninos olhando...
A menina cresceu: forte e cercada de atenção. Porém, nesse mesmo dia que a ave foi degolada, ela driblou os olhares dos pais e foi tentar subir o muro. E os quatro idiotas olhando, afinal ali era o lugar deles existirem. A menina buscou subir o muro mas os quatro idiotas "lentamente avançaram". A menina gritou pelos pais, mas seu grito não foi escutado. Os idiotas tinham nas mãos, agora, a menina: "um deles apertou seu pescoço, separando os bucles como se fossem penas, e os outros a arrastaram por uma perna até a cozinha, onde naquela manhã tinham dessangrado a galinha, tirando-lhe a vida aos poucos, segundo a segundo."
O conto não termina aí, mas não vou contar o resto. Não vou.
Esse conto me deixou petrificada no sofá daquela casa que não era minha, daquele sábado que não era meu.
Ah, a literatura não nos traz gratificações; nos ensina, isso sim, tudo sobre a nossa mais terrível miséria humana.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Amo, amo, amo...
O amor.
Não sei dizer o que é. Sei amar. Amo você que me lê agora, amo quem me olha de soslaio, amo meus alunos como só uma mãe ama. Amo as salas de aula e as paredes aguardando, na sua dissimulada superfície, os poemas que serão ecoados. Amo ensinar, como disse o professor Keating no Sociedade dos Poetas Mortos. Amo comer bolo de cenoura com chocolate. Amo mais ainda tabletes e tabletes de chocolate. Amo a Festa do Divino na minha cidade e a coroação do menino. Amo as lembranças de minha antiga casa, onde, nos meus seis anos, espiava meu pai tomar banho. Amo a minha libidinosa memória infantil, a força pura dos amores pulsando, os sonhos que só meus sentidos alcançam. Amo minha vidinha normal, você acordando e eu lhe vendo.
Não sei dizer o que é. Sei amar. Amo você que me lê agora, amo quem me olha de soslaio, amo meus alunos como só uma mãe ama. Amo as salas de aula e as paredes aguardando, na sua dissimulada superfície, os poemas que serão ecoados. Amo ensinar, como disse o professor Keating no Sociedade dos Poetas Mortos. Amo comer bolo de cenoura com chocolate. Amo mais ainda tabletes e tabletes de chocolate. Amo a Festa do Divino na minha cidade e a coroação do menino. Amo as lembranças de minha antiga casa, onde, nos meus seis anos, espiava meu pai tomar banho. Amo a minha libidinosa memória infantil, a força pura dos amores pulsando, os sonhos que só meus sentidos alcançam. Amo minha vidinha normal, você acordando e eu lhe vendo.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Bilhete encontrado numa gaveta
Não tenhas medo de meu amor. Em dias de chuva ele se veste das sombras deixadas pela ausência dos transeuntes. Em dias de calor despe-se do vermelho e sonha o nu absoluto, mais obsceno, vertendo-se em sonho... Para isso servem os amores impossíveis: para nutrir a natureza, celebrar a noite e a morte como vínculos com o eterno sentimento do mundo.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Mariquinha
Desde criança fui dada a melancolias. E mãe me mandava para a rezadeira. Não só eu, mas minha irmã também. As duas sempre com o corpo mole, sem vontades de levantar da cama. Mãe dizia que era quebranto. E comprava figas, laços de fita vermelhos, tudo para driblar o olhado do povo. Mesmo assim, lembro que até os quinze, dezesseis anos, a moleza ainda nos pegava e mãe nos enviava para a rezadeira da cidade: Mariquinha. Ela morava na Rua dos Sete Pecados, atrás do sobrado verde, ao lado da praça principal. Mariquinha era uma senhora de uns setenta e muitos anos, negra, dona de um repertório de rezas e performances bem interessante. Chegávamos na sua casa e íamos entrando, porta adentro. A casa era comprida, escura, cheia de móveis velhos e santos estupefatos, nos olhando dos oratórios com olhos de espanto e eternidade. Entrávamos chamando seu nome: "Mariquinha, ô Mariquinha..." Ela estava sempre nos fundos da casa, próxima ao quintal. Bem magra, forte, lúcida, dizia: "Vão entrando, meninas..." E completava assim: "Ah, são as meninas de Terezinha, entrem, entrem..." E nem precisava a gente dizer mais nada. Ela nos levava para o meio do quintal e ia procurar um ramo de folhas verdes. Era uma de cada vez: primeiro minha irmã, depois eu. Pronunciando uma reza engraçada, ela nos rodava e nos rodava e nos rodava, dando uma surra em nossos rostos, costas, braços, pernas com o ramo de folhas verdes, ritualmente falando: "... Se o quebranto é no olhar, é no calçar, é no vestir..., saia olhado, quebranto, plasmado". E terminava: "...Onde Jesus põe a mão, Nossa Senhora põe a vertude", não se importando nem um pouco com as nossas risadas. Era essa (além, claro, de muitas outras) a grande virtude de Mariquinha.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Cecília...

Outro dia sonhei que o coche fúnebre
Outro dia sonhei que o coche fúnebre
vinha buscar-me e eu não me achava preparada:
não estava nem morta nem doente,
e sentia que tinha de partir.
Então, disse para o cocheiro:
"Espere um pouquinho,
que estou acabando de ler este livro."
E o cocheiro concordou e esperou.
Deve estar esperando.
(Cecília Meireles)
Entrar em 2008 com a poesia de Cecília! Ah, Cecília, o que seria de mim sem tua existência, sem tua poesia? Tenho certeza que não seria quase nada. Tudo o que sonha em mim e pulsa, e diz, e não diz, tem teu nome, tua marca, teu olhar. Cheguei a acreditar, na pretensão de meus dezesseis anos, que eu era a tua encarnação! Já pensou a maravilha de ser Cecília Meireles?
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