Ela sabe - das manhãs de teu corpo, acordando breve, morno. Do curso dos dias passando nos teus olhos, enquanto chove. Da noite vasta, sentindo em ti as primeiras horas de um sono largo. Do alcance do teu braço num abraço imprevisto...
Ela sabe tudo - disso tudo que teu corpo sonha e diz, quase num sussurro... a textura de tua pele, as fissuras nos teus dedos, cada pátina em tua unha revestida. As vírgulas imprecisas no teu rosto, como num rápido senão. E o dorso, então, de tua alma? É fácil, para ela, tocá-la - tua alma, tua alma... como remendar um vaso, peça por peça, um vaso raro, e nessa tarefa nenhuma pressa de terminá-la.
Ah, ela também sabe da temperatura que arde, quando teu corpo acende e se parte. De cada parte de teu cabelo um fio que se distende e se perde; de teus velhos sonhos - todos eles que nesse momento se abrem...
E como será fácil para ela abraçar-te, e no abraço morrer um pouco, como num salto... Ouvir, de perto, teu hálito transformando em atos palavras tão simples... Como um vento que simplesmente existe...
E como será farto para ela almoçar ao teu lado, com o braço perto do teu, num toque adivinhado; um riso que se intercala entre uma fala e um silêncio; um olhar distante, porém apaziguado de qualquer ausência premente... Um estar, mesmo ausente.
E depois - todas as noites - com a mão na tua, ela sentirá tudo: teu mundo de foices e mortes, a bravura de poder ser tua quando tudo, em todos os instantes, se desfalece; e a certeza de que poderá reter-te, em partículas de memória, para sempre.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
A lamparina
Segundo Ricardo Piglia (em "O último leitor"), Kafka enviou à sua possível pretendente Felice (como a preveni-la) o seguinte poema chinês do século XVIII, de autoria de Yan Tsen-tsai:
NA NOITE PROFUNDA
Na noite fria, absorto na leitura
de meu livro, esqueci-me da hora de ir deitar.
Os perfumes de minha colcha bordada em ouro
se dissiparam e o fogo se apagou.
Minha bela amiga, que até então a duras penas
dominara sua ira, toma de mim a lamparina
e me pergunta: Sabe que horas são?
Tomar a lamparina é mesmo a terrível "cena da interrupção". Quero ler, me deixem em paz, deixem eu amanhecer o dia com meu livro!!!!!!!
NA NOITE PROFUNDA
Na noite fria, absorto na leitura
de meu livro, esqueci-me da hora de ir deitar.
Os perfumes de minha colcha bordada em ouro
se dissiparam e o fogo se apagou.
Minha bela amiga, que até então a duras penas
dominara sua ira, toma de mim a lamparina
e me pergunta: Sabe que horas são?
Tomar a lamparina é mesmo a terrível "cena da interrupção". Quero ler, me deixem em paz, deixem eu amanhecer o dia com meu livro!!!!!!!
domingo, 27 de janeiro de 2008
O grande susto de estar viva
Sofro por coisas aparentemente anódinas: um dia que chega, um dia que vai, um amigo que não liga, a sensação do tempo passando, a angústia de estar viva, o livro que eu comprei e ainda não consegui ler, a pia cheia de pratos sujos olhando para mim... Ah, é sem fim a lista. Há três dias atrás resolvi encarar todas as coisas pendentes a fim de sofrer menos, mas não adianta. Lavei todas as roupas, passei, arrumei. Mas e os livros comprados que estão me chamando da estante? Oh, Bandeira, logo logo chego aí. Preciso, Cecília, antes de ler "O estudante empírico", arrumar as pastas de trabalho. Oh, Jorge de Lima, há quanto tempo marcamos nosso encontro? Ainda não vai ser hoje. Que droga! Eu queria estar lá com eles, mas a própria vida me empurra pra outro lugar...
Os felizes de plantão, os bem-aventurados saúdam o dia que nasce. Eu não. Detesto acordar. Só à tardinha é que vou me adaptando ao dia. E à noite me sinto em casa, me sinto em mim, coisa que também não é fácil. Mais fácil é ler Clarice Lispector. Hoje pouco leio Clarice. Acho que não tenho mais a predisposição que antes tinha. Já aprendi que não sou imortal, já sei, como Macabéa, que ser feia dói, já vivi todos "Os desastres de Sofia", já tive, também, quando pequena, uma amiga com muitos livros e que não gostava de ler e que não me emprestava... Ah, já vivi muitas "felicidades clandestinas", o Livro aberto em "êxtase puríssimo", Livro que pai trazia na pasta quando vinha de Salvador...
Não sei, mas desde os sete anos é a mesma angústia: alguém está doente, um carro virou, fulano está no hospital, beltrano foi preso... Tudo isso aos sete anos me tirava o sono. Mesmo bebendo chá de erva-cidreira o sono não vinha, o sono não queria saber de chá, o sono queria saber da vida, do sofrimento do mundo... Desde os sete anos trago olheiras profundas, e um susto, o grande susto de estar viva.
Lembro quando, aos dez anos, me arrumando para ir à escola, toquei no meu peito e vi uma pedra. Toquei no outro peito e vi uma outra pedra. Meu Deus, que pedras são essas? Me assustei. Uma colega do grupo escolar me disse que era peito nascendo, peito de moça. E mãe pediu à professora que nos instruísse sobre a puberdade. Nunca me esqueci dessa palavra estranha e dura: puberdade. Odiei essa palavra logo de cara. Não, não queria a puberdade, queria continuar como eu era, sem puberdade. Mas ela veio, e me trouxe espinhas pelo rosto, e eu virei a própria Macabéa, com "panos" na cara, procurando um certo Olímpico. Que nunca veio. Ainda bem. Pelo menos me livrei de ser derrubada na lama.
Ah, foi sim aos sete anos. Antes mesmo de ler Clarice. Descobri aos sete anos a minha condição de vivente. Via gente morrendo na cidade, via gente adoecendo, via gente chorando, sofrendo, e rezava por todos eles, e não conseguia dormir. Daí nasceram a minha compaixão e a minha dor. "Essa menina é diferente", diziam todos. Minhas insônias faziam pai brincar, ao passar no meu quarto antes de dormir: "todo mundo está dormindo... por que só tu, olho arregalado, é que não dorme?" Parece que escutei, agora, ele dizer isso novamente, rindo para mim...
Os felizes de plantão, os bem-aventurados saúdam o dia que nasce. Eu não. Detesto acordar. Só à tardinha é que vou me adaptando ao dia. E à noite me sinto em casa, me sinto em mim, coisa que também não é fácil. Mais fácil é ler Clarice Lispector. Hoje pouco leio Clarice. Acho que não tenho mais a predisposição que antes tinha. Já aprendi que não sou imortal, já sei, como Macabéa, que ser feia dói, já vivi todos "Os desastres de Sofia", já tive, também, quando pequena, uma amiga com muitos livros e que não gostava de ler e que não me emprestava... Ah, já vivi muitas "felicidades clandestinas", o Livro aberto em "êxtase puríssimo", Livro que pai trazia na pasta quando vinha de Salvador...
Não sei, mas desde os sete anos é a mesma angústia: alguém está doente, um carro virou, fulano está no hospital, beltrano foi preso... Tudo isso aos sete anos me tirava o sono. Mesmo bebendo chá de erva-cidreira o sono não vinha, o sono não queria saber de chá, o sono queria saber da vida, do sofrimento do mundo... Desde os sete anos trago olheiras profundas, e um susto, o grande susto de estar viva.
Lembro quando, aos dez anos, me arrumando para ir à escola, toquei no meu peito e vi uma pedra. Toquei no outro peito e vi uma outra pedra. Meu Deus, que pedras são essas? Me assustei. Uma colega do grupo escolar me disse que era peito nascendo, peito de moça. E mãe pediu à professora que nos instruísse sobre a puberdade. Nunca me esqueci dessa palavra estranha e dura: puberdade. Odiei essa palavra logo de cara. Não, não queria a puberdade, queria continuar como eu era, sem puberdade. Mas ela veio, e me trouxe espinhas pelo rosto, e eu virei a própria Macabéa, com "panos" na cara, procurando um certo Olímpico. Que nunca veio. Ainda bem. Pelo menos me livrei de ser derrubada na lama.
Ah, foi sim aos sete anos. Antes mesmo de ler Clarice. Descobri aos sete anos a minha condição de vivente. Via gente morrendo na cidade, via gente adoecendo, via gente chorando, sofrendo, e rezava por todos eles, e não conseguia dormir. Daí nasceram a minha compaixão e a minha dor. "Essa menina é diferente", diziam todos. Minhas insônias faziam pai brincar, ao passar no meu quarto antes de dormir: "todo mundo está dormindo... por que só tu, olho arregalado, é que não dorme?" Parece que escutei, agora, ele dizer isso novamente, rindo para mim...
sábado, 26 de janeiro de 2008
Aquele sorriso
Ele é a memória dos meus inocentes dezessete anos. Lindo. Olhos verdes. E namorava a menina mais bonita da cidade. Ainda hoje vejo-os de longe, abraçados, felizes. Ele cantava com a voz de Chico Buarque e me mostrava, como verdadeiro amigo que sempre foi, os mistérios que a arte sugere e não revela. Na verdade ele é, o quanto dura a quimera dos meus dezessete anos, uma inventiva vida vivida pelas sendas das palavras ocultas e enternecidas. Talvez, se ele não tivesse passado com o seu voyage azul pela minha rua, com aquela camiseta verde tão bela, eu nunca teria escrito um só verso. Talvez, se ele não tivesse tocado a "valsinha" eu nunca teria sentido aquela dor essencial. Eu escrevia poemas para ele. Ele lia e sorria. Era o suficiente. O Destino sabia. Ah, eu escrevia poemas para ele, repito, pois que esta é a sina de quem se apaixona. Ele passava todos os dias lá em casa e lia os poemas. Sorria. Seus dentes ficaram para sempre na minha alma... cravando, eternamente, a poesia.
Vestígios da Senhorita B.
A Senhorita B. fugiu por tudo que não pode ser: um abraço, um aviso, um beijo, um esconderijo, uma nuvem, um céu. Partiu. Num trem invisível, num dia distante, frio e absoluto. Deixou apenas vestígios, para os amigos: um par de sandálias abandonadas, o filme encontros e desencontros, e muitas, muitas palavras, como poemas em prosas contadas. Aqui e ali se lê um sonho: de natal, de festa de aniversário, de toda uma vida que poderia ter sido, e que nunca será - porque uma vida nunca será, de verdade. A Senhorita B. sabia disso, calma e dolorosamente. Por isso fugiu num dia de inverno, num trem invisível. Dos últimos vestígios deixados, encontrei um livro, "O amante"... Completamente marcado.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Das lembranças roubadas
Guardo uma lembrança que não é minha. É de minha irmã. E ela sempre fez questão de frisar isso: "é MINHA a lembrança, não é sua, você não tinha idade para se lembrar disso". Mas a cena entrou na minha memória de uma maneira irrevogável, visceral; tanto que posso assumir a propriedade da lembrança, mesmo minha irmã não gostando nem um pouco.
A cena é em preto e branco.
Mãe, no fundo do quintal, debruçava-se sobre uma bacia, lavando roupas. Eu em pé à porta de nossa casa, na roça, com um vestidinho curto, os cabelos assanhados. Do meu lado minha irmã se esgoelando de chorar. Magrinha, com os cabelos também assanhados, dois anos, e já vivenciava sua primeira tragédia:
À nossa frente, um homem ia se distanciando, e quanto mais ele se distanciava mais minha irmã chorava.
O caminho era estreito, dava apenas para uma pessoa passar. E longo, nossas vistas alcançaram aquela partida por muito tempo, até hoje ainda alcançam.
....................................................................................
Minha irmã retruca que me lembro disso porque ela contou muitas vezes essa história para mim. Daí, por sugestão de imagens, a cena ficou na minha memória.
Não vou mais discutir isso com ela. Mas em mim essa imagem também dói. Por ela. Por meu pai. Eles se amavam muito, eram grudados um no outro, e ele precisava partir. Para onde? Todos sabem. Dizer qual o lugar seria só mais um clichê nordestino.
Ele foi.
Voltou em menos de um mês, dizendo, dizendo, dizendo que voltou por ela, por minha irmã, não agüentou a saudade. Lá, ele só se lembrava dela, lá era um mundão estranho, muito carro, muita gente, e não arrumou emprego algum, e o que ele queria mesmo era voltar. Voltar para ela.
Essa é a dolorosa e grande lembrança de minha irmã, e que eu roubei. Por despeito, talvez. Por compaixão, quem sabe. Por inveja... Não sei.
A cena é em preto e branco.
Mãe, no fundo do quintal, debruçava-se sobre uma bacia, lavando roupas. Eu em pé à porta de nossa casa, na roça, com um vestidinho curto, os cabelos assanhados. Do meu lado minha irmã se esgoelando de chorar. Magrinha, com os cabelos também assanhados, dois anos, e já vivenciava sua primeira tragédia:
À nossa frente, um homem ia se distanciando, e quanto mais ele se distanciava mais minha irmã chorava.
O caminho era estreito, dava apenas para uma pessoa passar. E longo, nossas vistas alcançaram aquela partida por muito tempo, até hoje ainda alcançam.
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Minha irmã retruca que me lembro disso porque ela contou muitas vezes essa história para mim. Daí, por sugestão de imagens, a cena ficou na minha memória.
Não vou mais discutir isso com ela. Mas em mim essa imagem também dói. Por ela. Por meu pai. Eles se amavam muito, eram grudados um no outro, e ele precisava partir. Para onde? Todos sabem. Dizer qual o lugar seria só mais um clichê nordestino.
Ele foi.
Voltou em menos de um mês, dizendo, dizendo, dizendo que voltou por ela, por minha irmã, não agüentou a saudade. Lá, ele só se lembrava dela, lá era um mundão estranho, muito carro, muita gente, e não arrumou emprego algum, e o que ele queria mesmo era voltar. Voltar para ela.
Essa é a dolorosa e grande lembrança de minha irmã, e que eu roubei. Por despeito, talvez. Por compaixão, quem sabe. Por inveja... Não sei.
Cantiga para tua alma
Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.
(Cecília Meireles, no poema "Anatomia")
Tua alma foge a todos os encontros. Rodopia pelas ruas que acolhiam tua infância e nunca mais quer voltar. Tua alma muda de lugar, a todo instante, a todo momento, por isso é tão difícil a ti te acompanhar. Estás quase que completamente perdido, como todo mundo, e a voz de Cecília ecoa nos teus ouvidos: "É triste ver-se o homem por dentro:/ tudo arrumado, cerrado, dobrado/ como objetos num armário./ A alma não." Tua alma não vem, não adianta eu ir buscar. Deixemos ela lá, no imprevisível de um sopro que o tempo possa exalar.
Quem sabe um dia terei mãos de vento e dedos de nuvem e assim conseguirei tua alma tocar? Quem sabe um dia não toparei com ela nas ruas de tua infância e roubaremos juntas as frutas da vizinhança? Ou, quem sabe, nas andanças de um redemoinho eu possa a ela dar o braço e trazê-la de volta para cá?
Não, nunca conseguirei tal façanha. Tua alma, intermitente e vária, pertence à vigília das solteironas que, debruçadas nas gretas das janelas, sonham encontrá-la.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.
(Cecília Meireles, no poema "Anatomia")
Tua alma foge a todos os encontros. Rodopia pelas ruas que acolhiam tua infância e nunca mais quer voltar. Tua alma muda de lugar, a todo instante, a todo momento, por isso é tão difícil a ti te acompanhar. Estás quase que completamente perdido, como todo mundo, e a voz de Cecília ecoa nos teus ouvidos: "É triste ver-se o homem por dentro:/ tudo arrumado, cerrado, dobrado/ como objetos num armário./ A alma não." Tua alma não vem, não adianta eu ir buscar. Deixemos ela lá, no imprevisível de um sopro que o tempo possa exalar.
Quem sabe um dia terei mãos de vento e dedos de nuvem e assim conseguirei tua alma tocar? Quem sabe um dia não toparei com ela nas ruas de tua infância e roubaremos juntas as frutas da vizinhança? Ou, quem sabe, nas andanças de um redemoinho eu possa a ela dar o braço e trazê-la de volta para cá?
Não, nunca conseguirei tal façanha. Tua alma, intermitente e vária, pertence à vigília das solteironas que, debruçadas nas gretas das janelas, sonham encontrá-la.
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