terça-feira, 11 de março de 2008

Ciranda

É para ti esta carta. Pena que não terá envelope nem selo. Mas não deixará de ser uma carta, mesmo sem existir, no meio do caminho, um correio, uma fila e um atendente feio. A carta é como se fosse lançada para todos os lados, e lerás, de qualquer jeito. Se tocará tua alma? Sim, toco sempre tua alma, desde que a conheci. Mas chega! Como bem disse Quintana, "Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma". Os mistérios de tua alma são confusos demais, me deixam tonta! Já os mistérios de teu corpo, por que não desvendá-los como quem brinca de ciranda? É tão fácil, é tão fácil, deixe-me brincar... É tão fácil...: mãos que se apoiam, corpos que rodam, rodam, e cantam. Assim verás como eu era, quando criança; terás a felicidade de me ver menina, seios nascendo; e agora mulher... imensa, gigantesca, sobre ti, cantando, rodando, sorrindo...

domingo, 9 de março de 2008

Morrendo um pouco...

O que fazer para fugir do tédio, ou para enfrentá-lo? Fazer um poema cuja temática é aquela da vida besta, inventada por Mário de Andrade e que teve em Drummond o seu grande momento? Eta vida besta, meu Deus, repito sem o cuidado de colocar aspas. O que direi amanhã para o psicólogo? Que continuo doente? Que sou uma doente sem cura? Que nunca mais terei alta? E que seu consultório precisaria de uma janela? Que aquele ar condicionado me deixa gelada por dentro? E que aquele divã não tem beleza estética? Que tudo lá dentro é um simulacro? E que tudo aqui fora também é? E que dialogar com alguém, por cinqüenta minutos, uma vez por semana, é uma cena teatral? Que tento sempre dizer a verdade, mas que esta não existe, assim como eu também não existo? Nem ele? Que tudo é tão óbvio, que tudo é de uma previsibilidade chata, que tudo é nojento, que tudo são fezes e urina?... É, estou em fase de morrer um pouco. E tentando captar esse momento para podermos encontrar o caminho das subjetivações psicanalíticas, dos significados metafóricos, das portas de saída. Ah, por que estou aqui?, me diga; me responda o que nunca entendi: a vida, a vida, a vida, repetição exaustiva. E que ele não me venha com olhar compassivo de quem conhece tudo isso e que conseguiu sua cura! Não, nunca ninguém se curou, não há auto-ajuda, nem Freud, nem Jung, nem ninguém que cure essa doença. Só a literatura, acredito. E ela vai me remendar por dentro, tecido por tecido...
Desligo o computador...
Busco um livro...

"Quem sou eu?"

Eu estava na sétima série, e a professora passou uma redação cujo tema era: "Quem sou eu?" Não me lembro o que escrevi, acho que tentei filosofar barato dizendo coisas como "inexprimível", "indizível", sei lá. Nunca me esqueci desse tema. Parece que foi ele que me deu os primeiros sinais de alerta de minha mortalidade. Eu não saía, eu era um bicho do mato, eu tinha pavor de gente. Eu usava uma trança, a trança era enorme. Eu tinha vestidos horríveis que minha mãe, empenhada em me enfeiar, comprava para mim. Ela fazia questão de deixar eu e minha irmã completamente feias e fora da moda: se nossas amiguinhas vestiam minissaia, ela mesma costurava para nós um grande vestido longo, de pano grosso, para esquentar bem no calor, e assim nos desencorajar a sair. Funcionou comigo, mas não com minha irmã - que saía de qualquer jeito, e ainda arrumava namorado.
Ah, como eu sonhava ter um tamanquinho francesinha! Todas as minhas amigas ostentavam os barulhinhos do tamanco pela calçada, pelo clube, pelas ruas... E eu só fiquei na vontade. Juro que se um dia esse tamanco voltar a ser vendido nas lojas, compro um e saio andando para lá e para cá, só para sentir aquele barulhinho gostoso saindo de meus pés!
"Quem sou eu?"... A pergunta persiste. Sou talvez ainda a "maria trançuda", que era assim como me chamavam na escola. Ou a "menina que tem medo de gente", que era assim como me chamavam em casa...
... Sou a "aeronauta", que é assim como agora me chamo. "Quem é a aeronauta"? Não sei, juro que não sei quem é.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Intervalos

A FESTA

Não, hoje não tenho nada para dizer.
Feche a porta, vá embora, me deixe só.
O dia escureceu... Os homens vão de paletó,
As mulheres de salto alto, os meninos de cachecol.

O dia é enorme, e eu quero ficar só.
Deixe-me na varanda, a cor do céu é estranha:
levemente branca misturada com uma tamanha
dor... Não quero ir, vá só...

Vá sozinho, amor, para a festa desse dia.
Se eu for contigo, não terás companhia.
Estou agora longe, muito longe...
Minha voz calou-se um instante, e um anjo

assobiou para mim, de uma nuvem lá adiante...

terça-feira, 4 de março de 2008

O destino dos amantes

Um dia, conversando com alguém, saí com a seguinte afirmação: "É, Deus deve impedir, sim, que o destino dos amantes, depois que morram, seja o umbral". (Para quem não sabe o que é umbral, segundo a doutrina espírita é o lugar parecido com o inferno psíquico: lama, lama, lama, sofrimento, desordem local e mental, para onde vão, em primeira instância, aqueles que morrem por excessos cometidos contra si e os outros. Todos nós certamente iremos para lá.) A pessoa que ouviu isso levou um susto e perguntou se a frase era minha. Claro, é minha sim, saiu agora, nova em folha. Mas esse não é um pensamento original, já vi variações dessa frase em muitas leituras que fiz. Os amantes não devem ir ao purgatório, coisas desse tipo, como: Deus vai sempre perdoar os pecados de amor, etc. Chega a ser meio brega se o pensamento não for bem articulado,e, claro, se o amor também for por aí. Ah, se o amor for pequeno então, umbral na certa: não há perdão de Deus para mesquinharias, para amor sem beleza poética, sem entrega, sem encantamento, sem amor mesmo. Por isso acredito que Vinícius de Moraes não passou pelo umbral: foi direto para o lugar que merecia: um lugar onde a música e a poesia e as mulheres lhe enlaçavam em festas e arroubos de felicidade celestial. Pode ser uma heresia o que estou dizendo, mas é o que sinto agora. O poetinha não cabe dentro de um umbral, lugar fétido, onde estão os seres (lembrando Bandeira)"terra-a-terra e sem nenhuma fumaça de literatura". O poetinha merece ouvir o canto dos anjos, com suas harpas harmoniosas, e um colóquio sentimental, no fim da tarde, com seu amigo Rubem Braga, comentando, ambos, sobre a beleza do Rio e as atuais garotas de Ipanema.
Imagino um Deus complacente nos casos de amor impossível; um Deus que sabe ser a vida não cartesiana; que entende o sofrimento como algo não exclusivo, mas de todos os que aqui estão, com seus destinos entrelaçados feito nuvens que se encontram e se diluem, e sem ao menos saberem por que isso acontece. Deus, com certeza, tem piedade de todos nós, humanos que somos e não anjos: pobres seres que se encontram com o indizível apenas por algumas vias, como a intuição, a poesia e o amor "que não pode ser".

sábado, 1 de março de 2008

Ao meu grande amigo

João,

Sempre gostei de seu nome, mesmo antes de lhe conhecer. Uma vez até escrevi um conto chamado "Ela, João e o Terno"... E escrevi um poema, aos vinte, que começava assim: "Oh João, eu te amo tanto..." Parece que eu já pressentia... O amor se fazia presente antes mesmo de eu lhe ver vestido nesse nome, nome que amo, indefinidamente.
Porém gosto muito mais ainda de você, João, que de seu nome. Agora tente imaginar o quanto. Não dá. Não se mede tais coisas, como não dá para medir a ternura que há na história de um menino de cinco anos que andava para cima e para baixo, nas ruas de Muritiba, com um peniquinho azul na cabeça. Oh, que coisa mais linda. Nas horas das necessidades, no lugar em que estivesse, o menino abaixava o peniquinho e ali mesmo cumpria seu destino. Há coisa mais doce que isso? Não, não há. A gente ri, João, é porque o riso tem ligações com o amor, com a ternura. A gente ri porque você nos faz rir, sempre. O amor vive em você disfarçado em várias maneiras, e todas elas nos faz dar risadas: numa dancinha de fricote, no meio da sala, a la anos oitenta; no café da manhã quando você nos espera com um abraço jocoso; na maneira de você falar de si mesmo e dos outros... Ah, João, você é impagável. De ti a maldade escapou com medo de rir e foi embora correndo. Como disse um personagem de Zé Lins do Rego, você é uma pessoa "sem bondades", o que quer dizer exatamente o contrário para quem vem da roça, e nós sabemos muito bem disso. O "sem bondades" se aplica na maneira nunca formal de você cuidar das coisas formais; de rir na hora do almoço, do jantar, do acordar, do dormir; de ir trabalhar como quem vai passear na praça: sem paletó e sem pompas; de estar sempre ajudando a quem somente lhe olha... O menino do peniquinho azul ainda existe em você, João: pleno, sábio, e cabe dentro do meu coração, para sempre.

Tanto amor

Quem não tem medo do amor?
Parece uma frase colegial, mas sinto ela arder na minha pele todos os dias.
Tenho um potencial de amor que às vezes me assusta. Imagine aos outros. Amo tanto, meu Deus, tanto... Os olhinhos infantis do homem que se deita no meu colo para dormir; os olhos inquietos de meus alunos no primeiro dia de aula; o amigo que me esconde, cifradamente, sua grande história de amor; o outro amigo que se distanciou há meses que parecem milênios; a minha amiga de infância que ficou lá na praça me vendo partir; minha irmã, amiga revestida de 'parentagem', que foi a mais paradoxal das amigas e que hoje é a mais verdadeira; o amigo virtual que vem lá de Petrópolis me aquecer sempre com sua presença fiel; e aquele outro do Ceará, com sua prosa em verso... Ah, são tantos, tantos os que amo... E os que não conheço, milhares... pessoas que passam por mim pelas ruas, chamando, chamando... Ah, meus queridos, um dia irei aí, abraçarei vocês com todo o meu ser...
Mas, continuando: quem não tem medo desse amor?
Eu tenho. Mesmo assim continuo amando, insistentemente, à revelia de minha vontade. Há alguns anos, num átimo de segundo, vi uma alma inteira num olhar. Uma alma como nunca tinha visto antes. Uma alma grande, plena. Carregada, abundantemente, de amor. Como uma cesta de frutas, ou como uma mangueira repleta de mangas, caindo pelo chão. Ah, logo me deu vontade de catar uma manga daquelas, e me lambuzar. Não consegui. A alma não saía do olhar, mesmo sendo abundante. Mas continuei embaixo da mangueira. O meu olhar saboreando sempre aquele amor imenso, milenar. Aí deu-se que a minha fome continuou, mas se deteve no olhar, em somente olhar...
Cá continuo olhando: e vejo tanto amor, meu Deus, tanto amor, tanto amor, que o medo fica paralisado, no ar; e eu, repleta de tudo, de um mundo inteiro, não preciso fazer mais nada... Apenas, serena, durmo.