sexta-feira, 2 de maio de 2008

Essa chuva silenciosa

As Elegias de Duíno são a melhor companhia para esses domingos prolongados. Pego na estante a edição bilíngüe que comprei há poucos dias e me deito, em meio a chuva, para encontrar Rilke. Saio desse mundo e encontro outro. Cheio de anjos e palavras imateriais, sugerindo orações caindo em meu espírito...

TODO ANJO É TERRÍVEL. No entanto, ai de mim, eu vos invoco,
pássaros quase mortais da alma, sabendo quem sois.


... Eis o início da Segunda Elegia. A chuva, uivando com o vento lá fora, ensaia um coro também terrível, que escuto como se de tudo eu já soubesse...

O sentir em nós, ai, é o dissipar-se -
exalamos nosso ser; e de uma a outra ardência
nos desvanecemos. (...)


A transitoriedade do meu rosto se deixa mostrar na vidraça coberta de pingos de chuva. Vejo, nesse reflexo, um rosto que não é mais meu... Depois me lembro dos mais belos rostos que já vi, e que um dia ganharam novas formas...

(...) Inutilmente procuram nos reter.
Evolamos. E aqueles que são belos, oh, quem os
deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto
e se dissipa. Tal o orvalho da manhã
e o calor do alimento, o que é nosso
flutua e desaparece. (...)


Rilke nos diz sobre algo que vemos, mas que de nada sabemos: tudo nos é ocultado. Somos espectros de nós mesmos, passando dia após dia, indo embora sem nada entender.

Se o soubessem, os Amantes diriam
estranhas coisas no ar noturno. No entanto, parece
que tudo nos oculta. Olhai, as árvores 'são'; as casas
que habitamos, resistem. Somente nós passamos,
permuta aérea, em face de tudo. E tudo conspira
para que silenciemos: o pudor, ou
quem sabe que indizível esperança.


Ah, Rilke, nada sabemos, de verdade. Nem sobre o que vemos, ou o que sequer intuímos.
O que vejo e sinto hoje é apenas essa chuva. Essa chuva em mim. Essa chuva silenciosa.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Imagens

Porta e janela estavam sempre de frente para a rua e dentro de casa. Ou melhor, da sala da casa via-se, com a porta e a janela abertas, o mundo todo, as pessoas passando, a chuva caindo, e, ainda mais, as mangueiras da casa paroquial. Era assim, como chamavam antigamente: casa-de-porta-e-janela. Na janela eu me apoiava para timidamente saber o que se passava na rua: quando chovia, uma ou duas pessoas saltando as poças d'água, com um guarda-chuva na mão; um carro azul, todo molhado, indo para a praça principal; um som de Waldick Soriano saindo de algum outro local, bem perto... Era assim. E porta e janela tinham trancas, pesadas trancas. Firmes. Quando faltava luz e chovia muito, fechávamos tudo. E ficávamos, todos mudos no sofá, iluminados por um candeeiro no corredor. Ninguém conversava. Mãe proibia, por causa dos relâmpagos. Ela saía cobrindo todos os espelhos da casa. Por causa dos relâmpagos.
No outro dia, chuva que passa, tanajuras na calçada. E muitas borboletas. Amarelas, entremeadas de cinza. Pétalas perdidas. Da janela eu avistava todas elas. Com a porta fechada, eu nem imaginava como seria bom tê-las deixado entrar, para sempre, dentro de casa.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Verdade


Sonhava que ias comigo ao Pati. Logo ali em frente. Com as mãos dadas, subíamos e descíamos ladeiras. Chegando no vale uma cena inteira nos esperava: a casa de seu Eduardo, com aquele imenso morro ao lado. Levávamos na mochila, rapadura. E poucas coisas, algumas blusas bem velhas, duas mudas de roupa, uma fartura de quase nada. Diante da primeira pedra, para atravessar o rio, tu me ajudavas: tuas mãos estão molhadas, sinto cada partícula d'água na alma, bem fundo, na alma. No cheiro de mato e vento, alguma coisa nos aguardava. Meu eco respondia, quando tu perguntavas.
Naquela imensidão de fragas tu me abraçavas, eu era tua, como sempre fui, em todas as idades. E a paz absoluta que reinava me dizia que aquele sonho era a única verdade.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sísifo que sou

Comecei a escrever poesia, aos doze anos, a fim de conquistar um amor. O menino tinha quinze anos e o nome esquisito, e eu me apaixonei por ele. Fiz um montão de poemas. E nenhum conseguiu lhe conquistar. Mesmo assim continuei escrevendo. Continuei amando. Mas nenhum poema meu jamais conseguiu me dar o amor que eu queria. O destino me deu outros amores, mas não pelos caminhos da poesia. Porém, continuei escrevendo, continuei amando... insistente que eu sou, Sísifo que sou, subindo e subindo com esse peso lírico nos ombros.
Descobri hoje, depois de todos esses anos, que a poesia nunca vai ser minha aliada nos caminhos desertos do amor. Eu poderei escrever um montão assim de poemas. Como o menino de quinze anos que amei, ao ler o meu poema, o Amor apenas sorrirá, cheio de si... e seguirá seu caminho sem mim.

domingo, 20 de abril de 2008

PaLaVrAs

Ah... palavras. A vida inteira nossa é costurada (e deslumbrada) por elas. Principalmente na infância. Nunca me esqueço que, nas noites que faltavam energia na nossa cidade, eu e minha irmã inventávamos música com as palavras mais banais que encontrássemos pela frente. Numa noite, o que achamos foi um talco cashmere bouquet em cima da mesa. Começamos logo a cantar, num coro legítimo:

Talco Casmere [assim mesmo]
Bouquete [assim mesmo], perfume em pó
Floral, peso líquido
setecentas gramas, gramas...


Essa melodia acompanha os nossos ouvidos até hoje. E, quando resolvemos entoá-la novamente, rimos muito.

Minha irmã teve, certa feita (acho que aos oito, nove anos), um chamego especial por "Ouça!" Assim, nas férias, não saía do alto-falante da praça, mandando música para Deus e o mundo: "Ouça, fulano, essa música é só sua..." Foi nesse ritmo que, numa manhã nublada, ela mandou para pai: "Ouça, pai, essa música é só sua". A música era "Cale-se"... só porque Chico Buarque começava assim: "Pai, afasta de mim esse cale-se (ou cálice)"...

Ah, palavras. Eu adorava catar palavras desconhecidas nos dicionários para poder colocar nos meus pobres versos. Todo mundo lia e perguntava o significado. Claro que eu tinha de decorar para responder no ato da pergunta, senão ficava desmoralizada. Já disse aqui que "constância" foi uma delas. E eu empregava também "constantemente": palavra cantante, doce, macia, repleta de saliva. As pessoas me achavam culta: uma menina de apenas doze anos e sabendo tantas palavras difíceis!

Um nome que minha irmã adorava, aliás, um nome com sobrenome: "Branca Alves de Lima". Era a autora do livro "Caminho Suave", que líamos na escola. Minha irmã chegou a dizer, na época, que se tivesse uma filha colocaria o nome BRANCA ALVES DE LIMA. Até hoje busca o CAMINHO SUAVE nos sebos. Lembro muito bem desse livro: era de alfabetização, e contava a história de uma família feliz: com mãe, pai, avó, avô, cachorro e amiguinhos, numa casa linda e fofa... Tudo muito arrumadinho, perfeito, como a vida, de fato, jamais seria. O cachorro se chamava Totó e tinha também uma casinha linda, verde...

Nesse tempo admirávamos até os cacoetes. Pai tinha o "né" no final de cada frase. Nas noites em que ficava na sala conversando com um compadre seu, resolvíamos contar os "né" ditos por ele. Do quarto, querendo dormir e não podendo com o falatório dos dois, começávamos a contar os "né". Quando chegávamos a uns duzentos, dávamos gargalhadas. o compadre se tocava e dizia que estava tarde, ia embora, pois "as meninas querem dormir".
"Aí" também sempre foi nosso mais querido cacoete. Quando uma fala a outra conta, e vice-versa.

Ah palavras, cheias de graça, continuem perto de nós. Amém.

"Peregrina paloma imaginaria"

Jorge Luis Borges nos fala da suficiência do verso por sua própria existência, não como plenitude de sentidos. Diz que alguns versos "não são destinados a ter nenhum sentido", e subsistem apenas por ser "belos".*
Nós temos uma mania de procurar sentido nas coisas, principalmente na arte; rastrear significações, pontuações, tudo. Enquanto que o ideal é que ficássemos calados, sentindo apenas. Como nos sugere Borges com esses despretensiosos versos de Ricardo Jaimes Freire, poeta boliviano:

Peregrina paloma imaginaria
Que enardeces los últimos amores
Alma de luz, de música y de flores
Peregrina paloma imaginaria.


O que significam? Faço eco a Borges:
"Não significam nada".
São maravilhosos.

*BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sábado, 19 de abril de 2008

É quase maio

Vai estar sempre mesmo faltando algo. Viajo, vou para além das montanhas, mas sinto falta. De alguma coisa desgarrada de mim, que nem sei o que é. Vou conviver com esse espaço em branco até a eternidade. Lá, na ausência de tempo, talvez eu não sinta mais tal lacuna, e sobrevoa os campos, cidades e pessoas sem precisar sustentar esse vácuo. Pois imagino uma eternidade repleta de leveza, nem eu vou me sentir... vou ser pluma, sem precisar pensar em qual direção seguir... O dia não será mais peso, tudo será eternidade: relógios não mais existirão... Mas até eu chegar lá, é preciso todos os dias conviver com esse negócio que falta e dói, e que nem eu mesma sei o que é.
Será Deus?
O que será Deus?
Tanto desenhamos Deus como homem que não conseguimos enxergá-lo fora dessa limitada imagem humana.
Deus será um sopro bem leve no nosso ouvido?
Um cheiro de café, num finalzinho de tarde?
Ou será algo macio, mas tão macio como um estado de alma?
Ou algo tão gostoso como um tablete de chocolate meio amargo?
Ou nada disso, nada disso, nada disso?
Apenas será um buraco dentro da noite? Onde eu sempre caio?
Ah, Deus, diga-me logo, é quase maio, e o Mundo pode acabar em fogo.