
Desde ontem que sofro e sou feliz, tudo na mesma medida; desde ontem faço tour pelas livrarias de Salvador, que não são muitas. E sofri muito e fiquei muito sorridente. Isso porque ocorreram vários arrebatamentos, e arrebatamentos significam compras, e compras significam dinheiro e dinheiro significa gasto, e gasto significa... Ah, deixo a enumeração por conta do ginge da tpm. Só sei é que, tendo em vista um livro ambicionado, deterioro dinheiro sem culpa, sem traumas. Mesmo quando vejo a cara de exploração dos donos de sebos. Ah, como odeio ser explorada! Mas tudo bem: pra ter um livro esgotado (e desejado) passo por todo tipo de humilhação. Peço menos, faço chantagem, choro, digo que sou cliente há muito tempo, até que consigo um desconto. O pior (ou melhor) é que meu olho só bate em livros que irão me arrebatar; livros que procuro há anos, que acabei desistindo, e que, sem mais nem menos, me olham da estante me chamando.
Hoje aconteceu isso. Há muito, mas há muito tempo busco "A literatura e o mal", de Georges Bataille. Para mim que sente, profundamente e na carne, como o mal atravessa a literatura no sentido da possível redenção, não acreditei. Claro, livro esgotado. Olho a folha de rosto, está lá um papelzito amarelo com o preço: cem reais. Edição portuguesa. Abro a primeira página e leio:
(...) A literatura é o essencial, ou não é nada.(...)
Murmuro, com empolgação: A literatura é tudo!, já tomada pelo arrebatamento. Aí continuo a leitura interrompida pela alegria:
(...) O Mal - uma forma pungente do Mal - de que ela [a literatura] é a expressão, tem para nós, creio, valor soberano. Mas esta concepção não envolve a ausência da moral, exige uma "supermoral".
É isso! É isso, disse pra mim mesma, com euforia. Porém, voltei ao preço: cem reais! Pois vou me humilhar, pensei. Escolhi mais dois livros que me arrebataram e fui pedir menos para o vendedor. Resultado: tal livro de Bataille saiu por quarenta reais, depois de muito choro e argumentos.
Sair de livrarias com livros debaixo dos braços me dá a sensação de onipotência, de saber muito sobre a vida e a morte, de ter voz para o vento, que me olha de banda, e para o tempo, que me engole no relógio da sala. Mas principalmente me dá a simples certeza de poder amar tudo que existe.
*BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Lisboa: Editora Ulisseia, 1967.




