sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Arrebatamentos


Desde ontem que sofro e sou feliz, tudo na mesma medida; desde ontem faço tour pelas livrarias de Salvador, que não são muitas. E sofri muito e fiquei muito sorridente. Isso porque ocorreram vários arrebatamentos, e arrebatamentos significam compras, e compras significam dinheiro e dinheiro significa gasto, e gasto significa... Ah, deixo a enumeração por conta do ginge da tpm. Só sei é que, tendo em vista um livro ambicionado, deterioro dinheiro sem culpa, sem traumas. Mesmo quando vejo a cara de exploração dos donos de sebos. Ah, como odeio ser explorada! Mas tudo bem: pra ter um livro esgotado (e desejado) passo por todo tipo de humilhação. Peço menos, faço chantagem, choro, digo que sou cliente há muito tempo, até que consigo um desconto. O pior (ou melhor) é que meu olho só bate em livros que irão me arrebatar; livros que procuro há anos, que acabei desistindo, e que, sem mais nem menos, me olham da estante me chamando.
Hoje aconteceu isso. Há muito, mas há muito tempo busco "A literatura e o mal", de Georges Bataille. Para mim que sente, profundamente e na carne, como o mal atravessa a literatura no sentido da possível redenção, não acreditei. Claro, livro esgotado. Olho a folha de rosto, está lá um papelzito amarelo com o preço: cem reais. Edição portuguesa. Abro a primeira página e leio:

(...) A literatura é o essencial, ou não é nada.(...)

Murmuro, com empolgação: A literatura é tudo!, já tomada pelo arrebatamento. Aí continuo a leitura interrompida pela alegria:

(...) O Mal - uma forma pungente do Mal - de que ela [a literatura] é a expressão, tem para nós, creio, valor soberano. Mas esta concepção não envolve a ausência da moral, exige uma "supermoral".

É isso! É isso, disse pra mim mesma, com euforia. Porém, voltei ao preço: cem reais! Pois vou me humilhar, pensei. Escolhi mais dois livros que me arrebataram e fui pedir menos para o vendedor. Resultado: tal livro de Bataille saiu por quarenta reais, depois de muito choro e argumentos.
Sair de livrarias com livros debaixo dos braços me dá a sensação de onipotência, de saber muito sobre a vida e a morte, de ter voz para o vento, que me olha de banda, e para o tempo, que me engole no relógio da sala. Mas principalmente me dá a simples certeza de poder amar tudo que existe.

*BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Lisboa: Editora Ulisseia, 1967.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Abelhas


Mal comparando, estou me sentindo hoje com se eu estivesse dentro de um quartinho cheio de abelhas me mordendo, tirando jatos de sangue. Que horror! Mas só assim pra explicar a reiva, a gastura que me pega nesse exato momento. Primeiro, um calor do cão; segundo, abro as janelas pra me refrescar e o vento derruba tudo quanto é papel e quadro na parede; terceiro, o computador lento; quarto, emails e mais emails pra responder e cadê coragem?; quinto, preciso ter ânimo pra viver, ficar deitada o tempo todo não dá, pois tem um monte de plano de curso pra fazer, minicurso pra preparar, ai Deus. E sexto, o último, a bendita da tpm. E aí eu me lembro de Vitalina, antiga Vitalina de minha infância. Morava na minha rua sozinha e fazia renda cantarolando na janela. Um dia resolveu, não se sabe por que, levar flores pra mortos alheios no cemitério abandonado. Na porta, quem a recebeu foi um enxame de abelhas alucinadas. As mesmas que anunciei no início desse texto. Pois bem: as abelhas pegaram Vitalina e fizeram uma miséria com ela. Resultado: só depois de muito tempo (o cemitério como disse estava abandonado) encontraram a coitada jogada no chão, sendo comida por todo tipo de abelha: furiosa, lenta, suave, zoadenta... Todo mundo credita a um milagre de Deus sua salvação. Levaram-na para o hospital, e, pelas ruas, foram cortando roupas, cabelos, que estavam empesteados de abelhas. Nunca me esqueci de uma trança dela que vi no meio da rua. E pequetita do jeito que a sortuda era, a salvação foi coisa de Deus mesmo.
Agora acho que dá pra vocês perceberem a trabulagem (essa palavra é a cara de mãe, que adora utilizá-la) que estou sentindo hoje. Não se importem não: esse blogue pra mim é divã, por isso é que não mostro a cara.

Imagem: www.imagens.de

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ontem, no almoço

Nosso almoço ontem foi engraçado. Por conhecer minha irmã há anos, já imaginava onde e como seria, e como transcorreria. Ela é fidelíssima às coisas que gosta. Fomos almoçar no mesmo restaurante do shopping barra (só não vou falar o nome pra não fazer propaganda grátis), depois tomamos sorvete na perini (epa, não é propaganda não, e eu não tomei sorvete dessa vez), depois passeamos um pouco, e depois ela me deixou em casa para poder tirar seu sono da tarde em paz. Quem estava no almoço? Claro, os mesmos: eu, ela, mãe e meu sobrinho de onze anos. Como este se comportou? Carinhosamente, como sempre, e falante também como sempre. Ele começa a falar na hora que me vê e, sem interrupções, só pára na hora de me deixar. Mãe no mundo da lua, olhando para o oriente, e comendo muito, que ela não é besta. Acho que da turma toda quem é mais besta sou eu, que não vejo lá grandes graças em grandes pratos. E ontem o negócio foi brabo: comi mais da metade de um prato que alimentaria um gigante. Até hoje estou com a barriga nos mundos. E olhe que nem tomei sorvete! Claro, a turma toda tomou sorvetão depois, mesmo estrebuchando e virando os olhos. Minha irmã ratificou que estava se despedindo de comida, pois hoje ia começar o regime. Mãe não falou nada, e meu sobrinho também não: tomaram sorvete se regalando, sem nenhuma culpa. Ele, sem parar de falar um só segundo. Claro, coisas instrutivas, afinal é um leitor de enciclopédia e de tudo quanto é letra que vê pela frente: seja em revista, seja em livro, seja em computador. No meio do almoço, minha irmã disse: Deus me concede tudo que peço. E eu: O quê? Ela: Pedi a Deus pra esse menino puxar duas coisas do pai: a inteligência e as orelhas. Aí me lembrei do trauma de suas orelhas de abano, que ela sempre esconde com os cabelos. Mãe só ria, entre uma garfada e outra, comendo devagarzinho, coisa de seu feitio, sem nenhuma presa. Saímos de lá e meu sobrinho no trelelê. Mil perguntas do mundo para mim que não acertava nada. Quem inventou o fusca, quem foi não-sei-quem, o que aconteceu em mil novecentos e não sei quantos, e lá vai. Eu não sabia, e ele dava a resposta com um riso de felicidade, como a atestar minha bendita ignorância e sua linda sabedoria. Muito fofo! Na vinda, enquanto esperávamos sua mãe passar no banco, ele se sentou no meu colo e confidenciou: Titia, acho dar flores de presente algo tão romântico! E eu: Também acho. Ele: Mamãe me disse que só quer ganhar flores com um outro presente acompanhando! E eu: Esse é o jeito dela, meu amor. Ele: É, ela disse que flor murcha logo e o presente acompanhante não. Adorei, me acabei de rir. Essa é minha irmã!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dia de minha irmã



Hoje, como vocês todos já sabem, é o aniversário DELA. Dela quem? De minha irmã, ora! Ou vocês se esqueceram? Ah, se esqueceram não vai ter perdão; é capaz de ela dar muito murro nas costas e beliscão nos braços de todos vocês. E olhem que virtualmente os beliscões doem mais.
Meninos, acordei cedo pra cumprir o ritual: ligar pra ela! Nesse dia 04, a digníssima acorda cedo, se arruma toda e se senta no sofá esperando as ligações. Ai de um desavisado que atender ao telefone antes. Foi o que aconteceu hoje pela manhã. Mãe correu pra atender e eu só ouvi de cá: Mãe, hoje é meu aniversário, eu é que atendo! Se eu sei que é pra mim! Convencida, como sempre. Liguei e aquele lero lero: felicidades, feliz aniversário, blá blá blá. Ela toda feliz. Vai passar umas onze horas aqui pra almoçarmos juntas.
Olho para as fotos aí em cima: como esquecer aqueles dias? Nas duas eu estou com ela, só que buscando hoje tais fotografias para postá-las vi que eu tinha desaparecido. Na primeira foto, dia 04, ela comemorava os 13 anos! Fomos para a beira do rio. Clique! Dessa vez pai acertou!
Na outra fotografia, dia 04 também, tiramos no quintal de lá de casa. Ela completava 18 anos! Estão vendo a lordeza? Não foi besta e mostrou logo o sapato, de última moda! Essa foi a vestimenta da manhã. Contratou uma amiga nossa e tirou foto na cidade inteira. Quando não tinha mais lugar, tirou uma dentro do fusca (que hoje está escondidíssima).
Lembro de todas as nossas brigas. Uma, inesquecível, foi quando mãe mandou ela pentear meu cabelo e a cara de pau achou de dar vários nós na minha trança. Mas não lembro de uma briga no dia dos nossos aniversários. Nesse dia o sol é sempre forte, e percebemos o grande presente que nos foi dado: de não sermos "filha única" e, assim, termos alguém com quem podemos rir de nossas histórias conjugadas.
Parabéns, fidalga irmã!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O retratista amador


Pai comprou uma máquina de tirar retrato e passava o dia inteirinho procurando paisagem. Só que ele era muito nervoso: com as mãos tremendo, pegava na máquina, mirava e não acertava o alvo. Foi por isso que na festa de São João cortou minha cabeça e a cabeça de meu par, além de cortar as pernas de outros colegas que dançavam "rancheirinha".
Eis a razão de eu não estar "de corpo presente" na foto aí em cima. Da esquerda para a direita: minha irmã, Aninha, Gal e Fátima. Cadê eu? Resposta: Nos pés das meninas. Segundo pai, era a localização perfeita para que eu pudesse sair no retrato.

O pierrô suburbano


Adoro ler entrevistas concedidas por Nelson Rodrigues. Há algo nele extremamente visceral, romântico, terrível. Suas respostas não são nunca cor-de-rosa, são sempre trágicas. E eu me identifico bastante com a tragédia, com o moço ou a moça que estão lá em cima do décimo andar pula não pula; com a mulher que "ateou fogo às vestes" (acho ótimo esse clichê antigo); com aquel'outro, Torquato Neto, que fechou a porta do banheiro, abriu o gás, deixando o famoso bilhete: "Pra mim, chega!"
Se sou romântica? Miseravelmente romântica. Mas voltemos a Nelson. Diante daquela célebre pergunta que se faz a escritores "O que significa escrever para você"?, nosso querido dramaturgo responde: "Se eu não escrevesse, seria um desgraçado". E complementa: "A rigor, se você examinar bem, todos os meus personagens são tristes. Salvo algum esquecimento, não vejo ninguém alegre." Não há alegria na literatura, tenho a ousadia de afirmar: o que há é a alegria na descoberta de quão funda e produtiva pode ser a tristeza. Por isso é que se escreve - para não se tornar um completo desgraçado.
À pergunta final "Quem é o Nelson Rodrigues?" a resposta que me deixou pensativa durante todo o dia (e logo ontem, dia de todas as solidões reunidas na sala, sem nenhum amigo chamando à porta; sem nenhum amor querendo voltar):

O sujeito mais romântico que alguém já viu. Desde garotinho sonho com o amor eterno. Na minha infância profunda, os casais não se separavam. Havia brigas, agressões de parte a parte, insultos pesadíssimos, mas o casal não se separava. A separação era uma tragédia. Em último caso, a mulher apelava para o adultério. Sou romântico como um pierrô suburbano. (...)

(In: RODRIGUES, Nelson. Entrevista concedida a VAN STEEN, Edla. Viver e escrever. Vol.3./ 2. ed. Porto Alegre:L&PM, 2008.)


*Imagem: site www.iccacultural.com.br

domingo, 2 de novembro de 2008

Uma dama deslocada

So-li-dão. Nos finais de semana essa palavra tem ares de madame antiga, la belle époque, daquelas que bem sabiam como desmaiar (quem me lembrou esse detalhe da época dos desmaios foi Nelson Rodrigues, lido ontem). No final de semana essa palavra (So-li-dão) me lembra que estou morando na cidade grande, e que as pessoas se fecham nas suas casas verticais, adorando seus vivos, os do seu próprio sangue. Na cidade pequena não. Todos se encontram, vão para a praça falar da vida alheia com o mais doce sentimento de solidariedade. Lá seus amigos chegam, puxam o trinco da porta e vão entrando. Não precisam telefonar, porque com certeza você vai estar em casa. Se não, como disse, estará na praça. Para onde fugiria quem você procura? A cidade é pequena, com dois gritos ele lhe escutará na beira do rio e virá correndo.
Ah, por aqui o negócio é bem diferente. Por aqui a Solidão é uma dama deslocada, usando sapatos fechados em plena praia. Desmaia a cada sol na cara, a cada onda que bate em seus pés. Chora a plenos pulmões, mendigando a qualquer um que seja dois dedos de prosa, ou melhor, uma simples "conversação". Porém, em terra de axé não há lugar para remanescente da belle époque. Sai, fantasma!, gritam todos, e se enclausuram com seus vivos, em suas casas verticais, festejando o ótimo tempero do vatapá.