sábado, 14 de fevereiro de 2009

Dando notícias


Andava longe, muito longe. Capinando nuvem. Não, vocês entenderam errado: não era capitaneando nuvem, mas capinando nuvem. Com enxada, força nos braços e suor no rosto. Pra quê? Sei lá. Pra plantar alguma coisa é que não era: depois de muito capinar percebi que não se planta nada em nuvem. Pra tirar alguma nuvem que não vingava na plenitude do céu, acho que também não, pois que recebi foi muita chuva no couro. Mas tudo bem: aterrissei anteontem à noite. A aterrissagem foi no mar, ah de novo no mar! Não sei nadar não gente, então foi um Deus nos acuda: grudei num pedaço de canoinha de nada e fui indo, fui indo, fui indo, até chegar na praia. E aqui estou, sã e salva. Encontrei tanto post novo na blogosfera, tanta novidade, tanta conversação que só agora, depois de ter descansado um dia inteiro, o ânimo voltou pra poder ler. Fiquei sabendo que preciso ir ao lançamento do Vestígios de Renata, e a pergunta que ronda nos blogues é como irei. Ora essa, irei como a pessoa que empresta a mão e o corpo à Aeronauta. Aliás, nem sei quem é mais simulacro: eu ou ela. Pois bem: não me caracterizarei; nessa noite de festa não serei Aeronauta, serei eu (é possível ser "eu"?). Estarei lá, do mesmo jeitinho que sou (sou?); e tenho certeza que vocês não me reconhecerão.


Imagem: Thays Costa
(www.flicker.com)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Em todas as noites


É noite alta. Vou fechar a janela para dormir. Ao fazer isso, lembro-me daquele conto de João Alphonsus, de nome "Eis a noite!". Nele a protagonista Madalena abre a janela à noite, lembrando-se do homem com quem sonha, constantemente, lhe dizendo: "Eis a noite! Vamos dormir". E enlaçando-a e repetindo, como se repete um poema: "Eis a noite! Nesta cidade infinita, quem saberá?"
Com essas frases, aos quais considero as mais lindas e líricas de nossa literatura, só me resta não fechar mais a janela, mas abri-la, deixá-la aberta, para sempre aberta, em todas as noites de minha vida.


Imagem: "Visão noturna", por André Sá.
(www.flickr.com)

Amigos, eu vi


1. A mulher entra na livraria e pergunta:
Por favor, você tem o livro "A dama das Camélias", de José de Alencar?
O vendedor responde:
Espere que vou dar uma procurada.
(Já pensou se ele encontrar??!!)

2. Uma adolescente entra na livraria e pergunta:
Você tem Marcus Rey?
A vendedora responde:
Quem é o autor?
A adolescente responde:
Marcus Rey.
A outra:
Não, não minha filha, não quero saber o título do livro, mas o autor!


Imagem: www.flickr.com

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Uma prece


Sinto que o universo só me aceita de coração limpo; de coração leve. Não sei odiar. Não sei a indiferença. Só sei amar, é isso. Preciso apenas aprender a amar à distância, sem precisar de um toque, de uma reverência, de uma troca. Amar em silêncio, em completo silêncio. Amar como se faz uma prece: de olhos fechados, sem alarde, num imenso e profundo descanso.



Imagem: "Súmula". Por Ruy Guerra
(www.flickr.com)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O que existe


Não sabemos quem foi a primeira pessoa a falar de amor, seja nas artes seja num simples bate-papo. Não sei se o que já senti ou escrevi foi, de fato, amor. Aliás, essa palavra é claro enigma, como bem sabia Drummond, como bem sabem todos os seres sensíveis que se debruçam em busca de significações para o mundo. Talvez nosso imaginário esteja apenas tocado por uma notável beleza que nossos antepassados nos deixaram como herança, como muitos deixam talheres de prata e brincos de rubi. Com a diferença de que esses últimos são tangíveis, e aquilo que nosso imaginário herda está, como a lua, em eterna suspensão, numa mobilidade perversa, sem nunca conseguirmos tocar. Por isso o que imaginamos ser amor hoje, amanhã se transforma em indiferença, naquela constatação proustiana tardia de pensarmos ter feito tanto por alguém que nem era o nosso tipo. O que fica é a sensação de que fomos, oh, fomos tão bestas, tão bobocas, tão...
Para depois tudo se repetir, com a percepção nova de eternidade, de algo singular; e a seguir voltarmos à sensação de bestialidade.
Mas uns dão atestado de fé de que vivem o amor, ou de que já o viveram, de verdade. Acredito e desacredito. Dentro de mim há uma fagulha esquisita e infantil, uma crença absurda e absoluta no sim e no não. Os talheres de prata e os brincos de rubi que me deixaram como herança não são tangíveis, e o que busco hoje, sinceramente, é o esconderijo onde possa estar a profundeza do mais terno olhar; pois a ternura, essa sim, existe. E traduz tanta beleza!


Imagem: "Ternura"(www.flickr.com)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A pior das tragédias


O que fez Édipo furar os olhos é a culminância do maior desespero a que um ser humano pode chegar. Porém, furar os olhos após a descoberta da verdade de seu destino simboliza apenas morrer para o mundo externo. Porque o interior, o mundo interno, continua vivo, vendo, enxergando, sempre, sempre e cada vez mais a clareza da tragédia. O consolo de Édipo é que ele não estava só. Sua filha Antígona, herdeira trágica de seu destino, não lhe deixou sozinho quando o mundo e ele mesmo lhe deram as costas. Antígona - a despeito de ser fruto também da verdade mais vil, da vergonha, da dor, das armadilhas de um oráculo cruel - não deixou seu pai sofrer a pior das tragédias: o completo abandono humano.


Imagem: Édipo e Antígona. Em: www.filosofix.com.br

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Yemanjá passeia


Do fundo, do mais fundo do mar não consigo enviar notícias. Não sei nadar. Não consigo subir para suspender os braços, como todos os náufragos fazem. Nem mergulhar. Vou afundando, afundando, o mar não tem fim por fora nem por dentro. Yemanjá passeia, sobre as águas, soberana, com seu vestido branco. Se eu conseguisse segurar na ponta daquele manto, subiria sobre as águas, escaparia dos peixes e dos subterrâneos ventos.



Imagem: Yemanjá, por Beto Guilger.
(www.flicker.com)