quinta-feira, 9 de abril de 2009

cem mil


Ler um livro até o último parágrafo, sem conseguir parar, é um feito da alma, do espírito. E este sempre sai fortalecido, mesmo esmagado, diante de leituras definitivas, fortes, imprescindíveis. É o que meu espírito sente agora.

... E eu que continuamente me vi vária e disforme, e adotei o nome aeronauta em razão disso, transcrevo desse livro:

(...) Um nome não é mais do que isso: um epitáfio. Convém aos mortos, aos que concluíram. Eu estou vivo e sem conclusão. A vida não tem conclusão - nem consta que saiba de nomes. Esta árvore, respiro trêmulo de folhas novas. Sou esta árvore. Árvore, nuvem. Amanhã, livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Tudo fora, errante. (p.207)

Transcrevo o que diz seu autor, Pirandello, na sobrecapa:

"(...) Não sou um autor de farsas, mas um autor de tragédias. E a vida não é uma farsa, é uma tragédia. O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é uma imperativo necessário."


Imagem: capa do livro em questão, escaneada leigamente por mim.
PIRANDELLO, Luigi. Um, nenhum e cem mil. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2001.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

pirata enraivado


Fui escrever um comentário no blogue de Maria e me lembrei desse pirata aí. Claro, é meu sobrinho Vinícius, com um ano e seis meses. Dessa idade até os três anos ele não ia com a minha cara. Nessa época eu estava fazendo mestrado em Recife, ficávamos distantes, e quando nos encontrávamos ele não ligava pra mim, me mordia, chorava, pintava o diacho.
Na véspera de seu aniversário de dois anos, ao chegar de viagem e tocar a campainha de sua casa ouvi: Quem é? É titia? Se for titia pode ir embola! Noutra feita fui amarrar o seu sapato e como não conseguia alinhar seu pé e o cordão, ele disparou: Titia burralda, estuda tanto e não sabe amarrar meu sapato!

Oração


Ah, tenho uma preguiça de viver. E é uma preguiça tão grande, e é uma preguiça tão longa, e é uma preguiça tão triste. Ah Quintana, bata as asas na minha porta e me acode nesse desaparecimento, nessa história sobrenatural. Me leve contigo onde tu agora existes, nos convescotes de antanho; conversando com Machado, com Cecília, com Carlos Drummond de Andrade. Ah, é muita preguiça, Quintana. Dessa tu nunca tiveste. Me cante um verso para que eu me deite e só desperte aí, bem perto de ti. Sentirei a leveza da aterrissagem, um ventinho tocando meu braço, e vozes, vozes vindas dos convescotes, de teus/nossos amigos nos esperando. Cecília com aquele sorriso largo, Bandeira de braço dado com Machado, e Carlos Drummond de Andrade sólido, de ferro, de aço, mais triste do que eu.



Imagem: Mario Quintana, por André Roca.
(www.flickr.com)

terça-feira, 7 de abril de 2009

"A Dama do Velho Chico"



"Daura imaginou um vapor na curva do rio. A proa escura, a cabine alva do piloto no alto, as luzes a pontilhar o contorno do barco, a chaminé suja brotando lentamente por detrás do pontal da ilha do Barreiro. Uma estranha invasão férrea a perturbar a paragem. (...)
Molhou os braços e o rosto com a água barrenta do rio. Tornou a espiar na direção da ilha. Nada, mesmo. Só a lâmina luminosa da água produzindo faíscas douradas." (p.11)

Ah, Carlos, quem sou eu pra escrever sobre A Dama do Velho Chico? Apenas aqui consigo ser uma mera e anônima leitora, que vê sua vida surgir das águas do rio, das águas das páginas, como Daura esperando o vapor encantado. Que um dia virá, sempre virá...
... Sim, e veio agora com a publicação do romance pelo MEC, em edição especial. Isso merece ser dito para que todos ouçam, saibam, aplaudam, leiam esse belíssimo livro; merecidamente premiado. Tão nosso, tão próximo, pois que traz o Rio São Francisco e a nossa alma simbioticamente conjugados:

"Quando o rio faz a curva
ataca feroz o barranco
revolve o leito, a água turva
altera o canal, no arranco
o tempo geme, se recurva
perde o equilíbrio, sente o tranco.
Vem de longe, assim". (Intróito do romance)

Não, não quero ser uma resenhadora professoral de seu livro. Por isso páro por aqui. E comemoro com você.

*Acima, as duas imagens do livro. A primeira, edição especial para o PNBE 2009, do MEC.
BARBOSA, Carlos. A Dama do Velho Chico. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2002.
Blogue de Carlos Barbosa: http://contosempre.zip.net

segunda-feira, 6 de abril de 2009

anônima


O que nos leva a batizar-nos de 'escritores'? Só o fato de escrever? Não quero essa legenda. Escrevo, mas não sou escritora. Por isso não participo mais de convescotes. Saraus? Deus me livre! Entrevistas e recitais em Bienal? Estou fora. Pra que ter vida literária? Pra quê? Pra estar em voga? Vocês juram que se eu resolver participar do Café Literário alguém publica meu livro? Nem assim eu vou. Por que, meu Deus, irei ler meus poemas no Centro de Convenções? Quero ser anônima, anônima, anônima. Completa e absolutamente anônima. Como sempre fui.



Imagem:www.flickr.com

sexta-feira, 3 de abril de 2009

na amplidão


Há quase um ano a casa esvaziou-se. Ele foi embora. O que restou dele mandei para a portaria de seu novo apartamento. Diria, de maneira piegas, que o coloquei dentro de um carro de mudança e o despachei para outra vida. Uma vida melhor. Não sou boa companhia. Na maior parte do dia vivo no outro mundo, e ele nunca entendeu isso. Tentou várias vezes - com ternos apelos - me tirar de uma nuvem bem alta, logo pela manhã. Saía para resolver as coisas na rua e quando voltava eu continuava lá. Tentava o dia inteiro, em vão. À noite dormia sozinho, enquanto que eu, na amplidão de uma nuvem vazia, fazia minha cama. Não, não sou boa companhia. Oh, ele tentou de tudo pra me trazer de volta a esse mundo: não conseguiu. Fez o que é mais difícil: me amou sem limites. Eu gritei e devolvi esse amor. Não tenho salvação. Solta no espaço, só um outro braço sem esperanças pode me alcançar.



Imagem: http://sonhos.thais.zip.net/imagens/cama_desfeita.jpg

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Suave


Há uma cor prateada nessa foto, que talvez venha de sua aura. Um jeito suave, de quem acabou de acarinhar a cabeça de um filho. Mão descansando sobre a mesa, como quem descansasse um pouco de ser o que é, e dissesse.
Desde que vi essa foto senti vontades de escrever. Adiei várias vezes; talvez com medo de dizer a verdade: uma mulher dizendo a um homem o quanto ele é bonito, o quanto sua alma pode atravessar o mundo invisível, e sentar-se bem perto. Medo de parecer paquera. Mas que mal há em paquerar alguém nesse mundo cibernético? Nunca, nunca nos encontraremos; Emília pode dormir tranqüila.
Porém a ousadia de quem mora nas alturas foi maior que a cautela. E não me poupou de fazer-me agora pousar nessa esfera, a fim de tentar desenhar, em pobres palavras, um rosto, uma alma. Uma quimera.


*Foto roubada do blogue de Bernardo: www.xeudizer.blogspot.com