
Tinha 15, eu 20. Tinha 15, eu 17. Outrora 42, eu 26. Estava de passagem, carro cinza, olhos azuis. Ficou, colocou uma aliança no meu dedo no dia das eleições. Eu, 29. Cabelos longos, e uma música entre os dedos: ele levava em si uma moto em plenos anos 90, ouvindo Pink Floyd no gravador portátil. Eu fiquei bêbada com suco de lima e vodca. E tinha 22. 14 Bis cantava no carro velho, uma poeira vermelha subindo, nós dois indo para o poço encantado, fugindo dos pais. As costas dele preservavam espinhas enormes, por causa das caixas de chocolate branco escondidas no carro. Não me devolveu o I Ching que lhe presenteei no aniversário. Ele tinha 30, eu 33. Uma cicatriz na perna, cabelo espetado, unhas enormes nos pés. Casei em um dia de chuva, sem anéis. Uma única vez nos vimos e uma única vez nos separamos. Ele compunha música em espanhol, parecia um cigano. Me levou para a pedra mais alta da cidade e falou em anjos, duendes e zen-budismo. Carlos, seu nome. Ou seria Antônio? Não me lembro. Lembro dos seus dentes brancos, muito brancos, rindo no vento daquela madrugada alta, serrana, e de uma mancha discreta em suas têmporas. Ele tinha 20, eu 30. E era tanta pressa que víamos, e solidão que carregávamos, que nos separamos sem filhos, que nos casamos em maio.
Imagem: "angusto dos anjos", por anacarlasky.
(www.flickr.com)





