terça-feira, 13 de outubro de 2009

grades


Essa sempre foi a minha pergunta mais íntima: por que os presos seguram nas grades. Por que eles não ficam lá no seu canto, sem precisar apertarem as mãos naquelas grades sebentas. Ou então, que permaneçam em pé vendo a paisagem do corredor mas que não segurem nas grades sujas e enferrujadas. Eu, por exemplo, aqui na minha casa, não me grudo nas grades da janela. Assisto a tudo solta no ar. Não gosto de fixar minhas mãos nas coisas. Não gosto. Sinto gastura quando, nas poucas vezes em que vou à rua, alguém toca de raspão na minha pele. O contato suorento do outro me dá um nojo do cão. Gente é um trem nojento, essa frase é a minha cara. Meu primeiro marido gostava de escovar os dentes pela casa toda, e aquilo me dava uma raiva. Era uma lavação de dente zoadenta como se estivesse lavando pratos. Passeava por todos os cômodos naquele chap chap dos diabos, mais de uma hora fazendo isso. E a gengiva continuava sã, a raiva que me dava era essa, por que a gengiva não se descolava de vez. Se sou assassina? Estou em prisão domiciliar. Daqui posso dizer que entendo tudo de solidão. Seu corpo duro é uma tábua no prego. Mas não seguro em grades, não seguro. A ferrugem que habita nas grades entra para sempre na pele dos dedos, incrusta nas unhas e cutículas, levando o desgraçado para outro mundo.



Imagem: "Grades?", por Viniciusmaquifer.
(www.flickr.com)

domingo, 11 de outubro de 2009

Caminho dos alfinetes


Minha vida intrauterina, assim como a de todos vocês, foi uma maravilha. Dizem os psicanalistas que no útero materno vivemos o estado de completude do desejo, o estado absoluto do amor: duas pessoas se juntam e se completam, sem conflitos. Mas eis que um dia nascemos para o mundo, e o mundo é a perda, a falta, todas essas palavras que estão aí para nos desequilibrar quando cá entramos. Aqui a nossa mãe já não nos completa mais, nos frustra, nos castra. E é preciso ser castrado logo, para que não levemos a vida toda com a psicose de querer sempre o estado de absoluto paraíso. Porque do lado de cá do útero da mãe, é certo: completude total nunca irá existir.
... Por que todo esse intróito?
Apenas para dizer que meu processo de castração foi dos piores.
Saí do útero e minha mãe me tratou a minha infância inteira como se eu lá permanecesse. Só que, óbvio, eu estando do lado de cá do mundo, e não mais no pleno sossego de Thanatos e Eros que era sua barriga.
Oh, lembro-me aos quatro anos, amamentado-me nos seus seios flácidos. Não é uma lembrança lisonjeira; muito pelo contrário, é uma lembrança perturbadora, constrangedora, em que o asco se junta a um profundo compadecimento de mim mesma.
Mamava em pé, na frente dos outros, ou no quarto, às escondidas. Não lembro do gosto daquilo. Percebo apenas que naquela época eu já deveria ter sido castrada completamente, mas vivia ainda o faz-de-conta impossível de uma vida intrauterina.
(Não sei a quem possa interessar tal relato. Nem mais ao meu psicanalista, que abandonou meu caso. Acho que só a mim mesma, à maneira de busca simbólica.)
Toda a problemática é que o estado de frustração, normal ao vir da castração absoluta, feita nos primeiros anos de vida com a retirada do leite materno, em mim permaneceu, em doses dilacerantes, muito mais que nos meus quatro anos de mamação. Isso formou um elo dos mais terríveis entre mim e minha mãe.
(Talvez essa aqui seja uma "Carta à mãe", de maneira indireta.)
É nítido demais o sofrimento das separações a que ela me impunha. É nítida a dolorosa lembrança de um dia em que ela, às escondidas, viajou sem mim. E eu, enganada, na casa de minha avó... Quando me dei conta da traição esgoelei o dia inteiro, gritando por ela. Minha avó, que nunca teve paciência com criança, disse que iria me bater. Aquilo doeu mais fundo e esgoelei mais alto ainda. Os passantes na estrada em frente, curiosos, perguntavam o que acontecia àquela criança ensandecida.
Terrível elo, terrível dependência, terrível hierarquia.
Não são à toa os alfinetes, os sonhos que tenho com alfinetes. Neles ela está sempre presente.
Hoje lendo sobre a primeira versão de Chapeuzinho Vermelho, descobri que o lobo pergunta à menina se ela vai para a casa da avó pelo caminho das agulhas ou dos alfinetes. Chapeuzinho responde "das agulhas". O lobo vai pelo caminho dos alfinetes e chega primeiro. Tudo começa assim.



Imagem: "alfinetes", por Marcus V.
(www.flickr.com)

sábado, 10 de outubro de 2009

Poeta Baiano


EURICO ALVES:



DESLUMBRAMENTO

Diante da tua beleza e do silêncio da tua alma,
a minha alma fica feito uma criança
que folheasse inocentemente um livro de missa...



TRANSUBSTANCIAÇÃO

Um pouco de leite fresco, orvalhado que dormiu ao sereno...
Ah! Eram os teus seios pálidos de frio
dentro das folhas trêmulas sonhando...



ORAÇÃO

Ave, Senhora feita de árias de luz!...

As minhas mãos múrmuras beijam-te os pés.

E, se nunca hás de viver no meu amor,
deixa a tua alegria bailando no meu pranto,
para o deslumbramento interior da minha angústia.





*In: ALVES, Eurico. Poesia. Salvador: Fundação das Artes/Empresa Gráfica da Bahia, 1990.

Imagem: "apego".
(www.flickr.com)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Clarice


Clarice não passa na vida de ninguém impunemente. Levo Clarice nos ossos. Já quis ser Clarice. Escrevi livro tentando imitá-la. Tenho todos os seus livros. Cito Clarice nas aulas. E falo mal de Clarice. Me perdi no mundo por causa dela. Meu horror pelo mundo vem dela. Minha salvação pela escrita também. Ela para mim era uma santa. Acendia velas. Depois comecei a perceber seus pecados, seus defeitos, sua verborragia, seus dramas inverossímeis. Descobri Galinha Cega de João Alphonsus e fiquei com raiva de sua Uma galinha. Não tem quem faça mais eu trafegar em sua A Cidade Sitiada. O Lustre? Que ele fique lá, na estante, dormitando minha adolescência perdida. Maca não, Maca está aqui, pertinho de mim, por mais que tentem fazer de A hora da estrela um livrinho popular e bobo. Ah, minha amiga Clarice, são tantos os anos de convivência! Já quis ter um cigarro igual ao seu, sabia? Já quis uma varanda perto da praia... e sua insônia recheada de cafés. Já lhe imitei usando uma máquina de escrever no colo, sentada no sofá... só faltaram os filhos por perto. Queria ter aquelas pernas de siriema, altas; queria ter aqueles olhões misteriosos. Por que será que você é tão demoníaca assim com as meninas, despertando nelas essa vontade esquisita de ser você? Será isso inveja? Loucura? Besteira? Suas fotos da década de quarenta, lindas. Seu amor por Lúcio Cardoso, tão triste amor. E aquelas entrevistas que você fez com meio mundo de gente, publicadas em "De corpo inteiro"? Ninguém, no mundo, fez entrevistas daquele modo. Você lia o corpo de seu entrevistado, os gestos, a alma. Uma das entrevistas de que mais gosto é a que você fez com Marques Rebelo. Gostei da parte na qual ele pergunta: "Clarice: você se considera uma escritora brasileira?" E depois: "Perguntei-lhe isso, Clarice, porque em geral a literatura brasileira sofre de ausência de densidade, e você é densa." Palmas para Rebelo. Palmas para você.
Clarice ultimamente é alvo de minha maior irritação. Reli "O búfalo" e me decepcionei profundamente: minha alma juvenil, perplexa, não estava mais lá. Levei "A bela e a fera ou A ferida grande demais" para a aula, e no meio de minha leitura fui ficando triste, triste. Achei aquilo tudo tão falso, tão fake, tão teatro de pequena categoria. Aquele outro conto, do cego mascando chicles, meu Deus, não dá mais não: esgotou. Oh, minha querida, o que fazer contigo no meu coração? Vou salvar para sempre suas crônicas que viraram contos. Por exemplo "Felicidade Clandestina". Gosto muito ainda também de "Os desastres de Sofia", mas se pudéssemos conversar sozinhas lhe pediria pra fazer alguns cortes. Estou ousada, não? Vá desculpando minha temeridade. E aqui finalizo repetindo suas palavras: "a prece profunda não é aquela que pede, a prece mais profunda é a que não pede mais".



Imagem: "Clarice Lispector", por aclbraga.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

até o pano


Saudade dos vendedores de livros que passavam de porta em porta com aqueles livrões encardenados. Na rua, desciam do carro e iam cada um para uma casa. Com sorriso vasto, jeitão próprio de quem convence a uma compra grande, batia palmas lá na porta. Eu abria com outro sorriso. A família toda na sala. Livros saindo das caixas, ah tantos, parecia que brotavam dali num passe de mágica, sem parar. Machado de Assis, capa vermelha, letras douradas; Aluísio Azevedo, capa cinza, letras douradas; Jose Lins do Rego, capa marrom, letras douradas; José Mauro de Vasconcelos, capa azul com letras douradas. Ali era tudo dourado, ouro legítimo. Pai, na sua generosidade, fazendo cheques. E nós arrumando a estante. E mãe comprando bicho branco de louça para enfeitá-la diante dos livros. Lembro de um cachorrão de dois metros de altura que ela colocou logo abaixo da coleção preferida de pai: o mais amado por ele, Jorge. O cachorrão era mal encarado, não combinava naquele mundo de brilho, onde os livros juntinhos se colavam numa intimidade amorosa. Mas por nada nesse mundo mãe tirava ele dali. Fazia guarda, só Deus sabe se aos livros ou a sua televisão, misturada àquele mundo de papel em pompas. É, os livros eram pomposos, próprios para enfeitar casa de interior. Tanto eram para enfeitar que, depois de arrumados, para tirar um de seu lugar dava trabalho; eles se colavam uns nos outros, parece até que não queriam ser lidos. Não sei que cola era aquela, invisível, que se esgueirava na encardenação luxuosa. Briga boa: eu puxando os livros, desarrumando tudo, mãe reclamando, os bichos saindo do lugar: bois e gatos se desmoronando em tempo de cair. Menina, menina, cuidado com meus bichos! Enfim, saiu daquele horror, inteirinho, Vamos aquecer o sol, de Zé Mauro. Zé Mauro, Zé Lins, tudo gente íntima, morando lá em casa, naquela estante cheirando a óleo de peroba. Que cheiro inesquecível. Até o pano, meio preto meio branco, embebido no óleo, minha memória guardou.



Imagem: o brilho ausente do nosso lembrar, por stop me.
(www.flickr.com)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Encontro



E finalmente se encontraram. Coincidentemente, de verde.

fuga


Sou mais leve que a euforia de um anjo, verso de Raul de Leoni que me marcou a semana. A euforia de gente é alegria de folião, e de anjo? Oh, caminhos da poesia! Como gosto de andar por eles! Nesse inverno primaveril em que Iemanjá me olha de lado lembrando-me de suas flores, e meu anjo da guarda reclama suas velas, só tenho preguiça. Uma preguiça tão grande, uma preguiça tão lírica, me estico na cama sonhando o mais absurdo dos sonhos. Quebrei, com minha lassidão, as fronteiras do possível, e olho o chuvisco da janela pensando como seria bom fugir para dentro de um livro. Levanto-me e vou à estante: Aura, de Carlos Fuentes.



Imagem: "fluidez", por vabemor.
(www.flickr.com)