
Sim, já usei desodorante impulse, e esperei um cavalheiro correr à minha frente com um ramalhete de flores. O cheiro do perfume atravessava a televisão e inundava a sala, no comercial mais lindo que minha infância já viu. Talvez vem daí minha fixação por cheiros. Guardo o cheiro de muitas coisas, de pessoas, de momentos, de livros, de tardes mornas. Lembro bem do cheiro de seu rosto, quando o afaguei no escuro, naquela noite que nunca terminou. Do odor de sua roupa, pernoitando sabores escondidos, tão bem guardados que estalava em minha mão a vontade louca de comê-los; sua boca, natureza pura, com aroma de vento batendo nas folhas. Todo o seu ser exalava o cheiro de uma alma esmagada, como o perfume forte das flores mortas. Embriaguei-me, absoluta.
Sim, já usei desodorante impulse, e esperei, lânguida, um cavalheiro correr à minha frente com um ramalhete de flores...
Imagem: "Olfato... em sépia", por Jonycunha.
(www.flickr.com)