segunda-feira, 19 de julho de 2010

cheiros


Sim, já usei desodorante impulse, e esperei um cavalheiro correr à minha frente com um ramalhete de flores. O cheiro do perfume atravessava a televisão e inundava a sala, no comercial mais lindo que minha infância já viu. Talvez vem daí minha fixação por cheiros. Guardo o cheiro de muitas coisas, de pessoas, de momentos, de livros, de tardes mornas. Lembro bem do cheiro de seu rosto, quando o afaguei no escuro, naquela noite que nunca terminou. Do odor de sua roupa, pernoitando sabores escondidos, tão bem guardados que estalava em minha mão a vontade louca de comê-los; sua boca, natureza pura, com aroma de vento batendo nas folhas. Todo o seu ser exalava o cheiro de uma alma esmagada, como o perfume forte das flores mortas. Embriaguei-me, absoluta.
Sim, já usei desodorante impulse, e esperei, lânguida, um cavalheiro correr à minha frente com um ramalhete de flores...


Imagem: "Olfato... em sépia", por Jonycunha.
(www.flickr.com)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

De que constelação vem esse poeta?


Dose da Claridade

Pode o dia amanhecer
Em mim a insegura vontade
De sacudir os tapetes tão pisados
Com cheiro de passagem
Abrir portas, janelas
E sair
Olhando o céu cobrindo meu corpo?
Pode, nesse instante,
Pequeno que seja
Uma boca qualquer chamar meu nome?
É tão difícil saber.


Dose Constelar

O sol esvaziou sua luz
Dentro da boca de uma mulher.
Mulher solar
Nada que eu faça abrirá sua voz.
E ela é só distância
Na minha procura.

Quanta falta me faz o calor
Aquele afinado aproximar-se
Sua pele estalando estrelas
Tudo só imagem acariciada.


Ricardo Nonato
VISITEM: http://banhoveneno.blogspot.com/


Imagem: "Constelação de Órion"
www.google.com.br

quinta-feira, 15 de julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

uma pergunta


Diz Lula: "Beliscão é uma coisa que dói". Eu bem sei. O que mãe mais sabia fazer em mim era beliscar. Beliscar pra comer, principalmente. Trazia a primeira unha da mão direita bem crescida pra poder beliscar com gosto. O meu braço era o alvo melhor, talvez onde tinha mais carne. Era o lugar mais gordo do corpo. A unha entrava com arte, deixando roxo o local, com a marca. A marca da mãe. Filha marcada a ferro, como se marcam os bois.
Claro, é indiscutível que havia amor em jogo. Como vou colocar agora o amor dela em discussão? Não é disso que estou falando, estou falando dos mecanismos de amar. E a palavra "mecanismo" vem na hora certa: mão beliscando e batendo é algo mecânico, é instinto material. Punição necessária para uma menina que odiava comer, que trancava os dentes e, só a troco de um grande beliscão no braço, abria a boca.
Beliscão dói, é verdade.
E se ela conversasse comigo, me doutrinasse, dissesse que a alimentação é necessária, e que se eu não comesse morreria, etc?
Eu não abriria os dentes, muito menos a boca, tenho certeza. Lá eu iria entender que se eu não engolisse aquela comida maldita eu morreria?
E aí? O que ela faria então?



Imagem: "Maria-sem-vergonha", por Chrismferreira.
(www.flickr.com)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

iniciação


Tinha seis anos e cinco meses quando fiz esse desenho. É uma casa muito engraçada, mas tem teto. Colorido. Briguei com minha colega de carteira por causa disso. Ela dizia que telhado é marrom. Jamais quis saber da realidade, hoje vejo. E a ponta de meu lápis de desenhar nunca era fina, e eu impunha-o com força na página, em tempo de furar o papel. E o meu sol não era amarelo. E tinha uma flor enorme no quintal, solitária, com pétalas verdes. Porém o muro, vermelho, lhe deixava inteira para ser vista. Fálica, desenhei uma banana verde perdida no espaço, assim como o sol marrom, tristonho. Marrom, vermelho, verde e azul: cores do meu mundo. Bola vermelha, não esférica. Apagados, mas com marcas no papel, uma igreja e outra banana e outra bola. Casa com porta e janela, porta e janela, porta e janela, porta e janela. Para que tanta porta e tanta janela, pergunta meu coração. E as igrejas apagadas eram três. E, por fim, tirei dez. Nota que todo ser humano quer: dez. Apagada, mas desenhada com força, perto da igreja também apagada, uma flor: maior de que aquela enobrecendo o muro com as folhas marrons. Percebe-se minhas mãos não adestradas, minhas mãos nada sutis, duras, sobre o papel. Ali eu começava.

terça-feira, 6 de julho de 2010

anatomias


Orides Fontela era louca, depressiva e só. Sylvia Plath se matou. Clarice tinha os olhos do além. Fernando Pessoa só não fez o mesmo que Sá-Carneiro porque criou heterônimos. Cecília era uma santa: sabia sofrer com beleza. Quintana, anjo. Bandeira era um Manuel forte, como todos os dentuços. Mário, vário, vivia sozinho, à rua Lopes Chaves, 546. Carlos Drummond... oh, Carlos, guache como todos nós, calado, amava. Rimbaud foi o único que viveu. Oswald gargalhou, forte, sem medo. Rubem Braga pagou cremação bem antes. Hilda Hilst bela, profunda, gritando seu Túlio, seu Túlio, insensível e mudo. Ana Cristina César também se matou. Assim como Sandor Márai. Assim como Pedro Nava. Assim como Torquato... Ai, dê-me asas, poetas mortos, dê-me asas. Graciliano era belo homem, que sorte a de Heloísa. E Aracy, de Guimarães, imaginem o quão feliz essa não foi? Muito mais que Felice Bauer, muito mais que Milena Jesenská. E Maria Kodama? Neruda não a amaria, mas Borges sim, acredito que sim, a amou. Oh, Vinícius, pleno! Que tudo sabia da mulher amada, que enaltecia a mulher amada, que tinha vício pela vida. Vinícius, sim, homem vital, carne e precipício, alma doada aos peixes. Lindos, Carolina e Machado. Invencível pra mim só Gregório. Etéreo, Cláudio. Dos completamente esquecidos, Genolino Amado. Venham todos, venham todos! Até os vivos, que nem é tarde!



Imagem: Trakt-2, por gert voo in't holt.
(www.flickr.com)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

sobre todas as datas


Ontem o aeronauta fez três anos de idade. Que falta faz um filho. Na falta eterna que ele fará, escrevo. Escrevo para não ter que contar os dias. Para aguentar a dor, a rouquidão, a tosse. Para saber sofrer o tanto que você almeja, a quantidade exata, o tamanho ideal. E então depois deitar-me e descansar um pouco.
No dia de aniversário dessa casa, que passou ontem, aqui registro a falta. Registro no ar, na tentativa de abraçar o frio por inteiro, sem medo.



Imagem: "Parabéns...," por Ponto e vírgula.
(www.flickr.com)