quarta-feira, 4 de agosto de 2010

nós dois


A minha história lírica eu a coloco no álbum antigo, com rendas nas bordas e aquele papel fino que antecede a fotografia. Os retratos são ovais, em preto e branco, e nós dois, sempre nós dois, lá nos encontramos. Em flashs oníricos você está sorrindo, e os olhos claros que sei verdes e fortes me acompanhando. De repente, de um salto, você estaciona o carro na porta e me espera: amigos, sempre amigos, entre um beijo e um abraço furtivos, amantes antigos, eu na sua casa, escondida, e a cidade em vigília. De muitas maneiras nós dois éramos puros, como crianças libidinosas, e nos amávamos, sabendo tocar o sonho e a realidade com dedos delicados. Nenhum de nós se feria; apenas cantávamos, e, sem saber, íamos a cada encontro colocando uma foto nesse álbum, que hoje nos observa.


Imagem: "Cien sonetos de amor", por Isa.
(www.flickr.com)

domingo, 1 de agosto de 2010

Brisa


Se aos dezessete eu tivesse uma filha,
teria seu nome: Brisa; e viria
com esse riso vívido, antigo,
de menina que um dia faria o colegial.

Se aos dezessete eu tivesse uma menina,
seria você, Brisa, a declamar poemas,
me ensinando coisas pequenas para quando
eu tivesse quarenta e dois anos.

Se aos dezessete, enfim, eu tivesse você,
Brisa, e você fosse minha filha,
eu te tomaria no colo, para sempre,
nos seus eternos seis anos.

Dentro de nós

Dentro de nós uma pedra
onde uma cachoeira desce,
macia,
aquosa,
farta,
mundo se transformando em água.
Um prédio enorme implode, e incólumes nos unimos,
suspensos em fios de sonho fatal.
Parece que Deus,
sublime e terrível,
nos alcança inteiros com sua mão.

sábado, 31 de julho de 2010

noturno (II)


A noite naquele quarto sempre me traz sonhos profundamente verticais. Naquele, eu lia em voz alta, para o antigo e grande amor, Um lance de dados jamais abolirá o acaso, e ele no início ouvia atento, no meio se perdia olhando a rua, no fim pedia que eu parasse. E me dizia que deixasse para outro dia, não gostava de poesia de jeito nenhum, que eu desistisse. E eu notava seu cabelo esvoaçando, longe, bem longe de mim, cada vez mais longe, quando o vento soprava na sala. E a mesma e estranha sensação que tive, aos dois anos, de um sol vermelho no horizonte queimado, quando eu vinha da roça e sonhava em comer pão à noite. A mesma e estranha sensação ao chupar um bombom sentada numa pedra do quintal e depois me mudar para a casa nova na rua da ilha, uma casa grande, cheia de corredores. Sinéstica, eu era o abandono em suas diversas cores e perfumes. Fazia bonecos de milho e pedia à vizinha que lhes costurasse roupas, e espiava o casal de namorados da casa em frente, sentados agarrados em banco duro, ao relento. E naquela parte da casa que ninguém ia, nós brincávamos de família, repetindo tudo tudo que víamos. A mesma e estranha sensação de estar, contínuo viver, com a peneira entre as pernas, naquela brincadeira intensamente gostosa de passear pelo terreiro. E o abandono em sangue, no prego que entrou no meio do pé, e me deixou insone, ensinando-me como enfrentar a dor e o medo.
Nesse quarto largo e fundo aprendo a repetir o abandono; e os sonhos vêm, insistentes, entrelaçados num sumo forte, cheirando a coberta de retalho envelhecida, com manchas de umidade nas pontas.



Imagem: www.google.com.br

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Salve Rainha


Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve!
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.

Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria

Rogai por nós santa Mãe de Deus
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo


Essa oração me dá arrepios. E uma imensa vontade de chorar. Agora entendo tudo. Aos seis, próxima ao berço mãe carinhosamente me ensinou o pai-nosso. Oração doce, oração feliz, oração para crianças. Porém, às escondidas, à noite ouvia um choro convulso acompanhado pela Salve-Rainha. Era mãe rezando. Um dia quis aprender essa oração. E fui interditada, e os olhos dela traziam um segredo imenso, e uma dor, e ela disse que aquela oração era perigosa, não era para crianças. A Salve Rainha desde então virou um segredo em chagas, pois que mãe só a pronunciava quando sofria. Que oração é essa, que dói tanto, e que só os adultos poderiam conhecê-la? Hoje entendo, e ao recitá-la, integralmente, mãe volta a chorá-la dentro de mim.


Imagem: www.google.com.br

domingo, 25 de julho de 2010

noturno


Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.


(Emily Dickinson)


Durmo num quarto grande, quase sem fundo. E largo. Não tem janela, nem greta, nem nada. Nele não entra uma luz à noite. Quando vou dormir, sempre às dez, deixo a porta entreaberta, porque o escuro me apavora. O escuro completo o quarto tem pra dar, nas suas larguras desmedidas. E eu não consigo dormir no escuro absoluto. Meu sono para vir precisa de uma luzinha qualquer apontando no quarto, e essa chega pelas frestas da porta entreaberta, de onde também entra o vento, que amaina o pavor que a noite me dá.
Mas naquele dia, entrei no quarto e fechei a porta. O escuro me acolheu e eu não tive medo dele. Porque eu sentia uma dor grossa, uma dor parecida com sangue escapando para a lâmina, uma dor que ninguém ouvia. E quem abriu essa dor tinha mãos largas, uma palma branca, e uma fixidez mórbida de quem não se levanta. Para quê? Geralmente quem te quer matar jamais balança uma pálpebra: é vento forte, é vento que, por vontade própria, faz exatamente o que quer: deitado, executa. Por isso é que entrei no quarto, fechei a porta, e acolhi o escuro, menor, bem menor que tudo. Enfim, pálida, entrei no mundo.


Imagem: "Quarto escuro", Alexandre Greghi - carvão, papel e lápis.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

lugares brancos


Nos consultórios médicos as atendentes trazem o cabelo sempre amarrado e um ar de quem sabe ver gente morrer: um semblante contumaz, cheio de pó de arroz, e um sorriso plácido. Irritantemente plácido. Andam de lá pra cá, chamando as pessoas, condenadas na sala de espera. Chamam tanto nome, menos o seu. E impressionante, seu médico nunca chega, seu médico sempre demora pra chegar, seu médico nunca é pontual. A sala é geladíssima, o ar condicionado no máximo. As letras nas paredes, sinalizando todas as salas de ultrassonagrafia, são vermelhas. Vermelhas no branco da placa. Há um não sei quê de pasmaceira naquilo tudo, e nem uma revista pra folhear. A televisão ligada tem uma imagem em preto e vermelho com grandes interrupções contínuas de chuvisco. E o médico não chega. Você vai ao balcão. A atendente de cabelo amarrado diz que ele está vindo, pegou um engarrafamento. Você volta pro seu lugar. Depois de horas e horas seu nome ecoa, límpido, gostoso de ouvir. Chegou sua vez! Uma atendente, plácida (devem ser assim as atendentes do céu), lhe leva corredor adentro. Você entra na sala. O médico lhe estende a mão. Manda você pra salinha do lado. Você tem que ficar nua. E lhe vestem uma roupa que precisa ser usada "com a abertura para a frente". Você deita e aguarda, enquanto o médico lá no outro compartimento lhe pergunta coisas. Você está nua, completamente, que coisa bizarra. O ar condionado no máximo. O médico finalmente chega e se senta ao seu lado, perto de um computador. Pergunta onde você nasceu, diz que a violência está em todo canto, no interior e na capital, que ter filhos é uma responsabilidade, que você tem displasia e cistos, mas não se preocupe, não há o que se preocupar; e que fique tranquila, seus ovários estão ótimos, pronto, não vai doer nada, é só relaxar. E lá vem um gel dos infernos, e um bip, bip soando perto do seu ouvido direito. Volta a dizer, compulsivo, que Salvador está violenta demais; aí você se preocupa, pois a noite já chegou e você tem que voltar pra casa, e se um ladrão Deus livre e guarde lhe esperar na esquina? Enquanto isso o médico vai lhe perscrutando, seu corpo agora é apenas anatomia naquela maca que dá nojo. E olhe que desde sua chegada você já sofreu o diabo, amassaram seus peitos naquela barra como se fossem cortá-los, e você deu um grito desesperado. Enfim, acabou, hora de se levantar e limpar a sujeirada do gel. Do lado da maca há rolos e rolos de um papel grosso, e você limpa com pressa, achando que está atrasando a próxima paciente. Você tem mania de pensar nos outros, e nem se limpa direito. E o médico, no outro compartimento, grita para você não se preocupar, pois o gel não mancha. Aí você veste a roupa com pressa, aquela nudez clínica lhe deprime. Então vai com gel mesmo, a roupa encharca, você continua com nojo de tudo. O ar condicionado é forte, e o médico já lhe espera com a mão no ar, lhe dá um sorriso profissional e diz de novo que não há motivos pra preocupação, e que aguarde, agora mesmo sairá o resultado. Você volta para a sala de espera, um monte de mulher sentada, mulher de todas as formas e idades, todas esperando sua vez. A porta de vidro é um fecha e abre, você olha as sandálias indo pra lá e pra cá, afinal o tempo precisa passar e, enquanto espera, você precisa distrair a falta de paciência. Depois de uma hora e meia lhe chamam no balcão, ai que alegria, lhe entregam seus exames, todos eles dentro de um saco plástico enorme, branco, com letras vermelhas, e você sai, feliz, rindo; e se questiona por que sempre sai feliz desses lugares, esquecendo-se imediatamente de todo o tempo e sofrimento que ali passou.



Imagem: Faculdade de Medicina de São Paulo, por pedro kok.
(www.flickr.com)