terça-feira, 5 de outubro de 2010

Saudades de Maria Sampaio


Hoje acordei com imensas saudades de Maria Sampaio. Sonhei com ela; perambulamos juntas por esses espaços nebulosos trazidos pela noite, espaços de festas e de alegrias, de encontros. Acordei e senti saudades de seus comentários nesse blogue, e, principalmente, de sua plena vocação para viver. Ô essamenina, a saudade está grande, viu? Como é, já proseou muito com São Pedro por aí? Ele tem boa prosa? Ele já te apresentou a Irene preta, Irene boa? Como ela é? E o reencontro com sua mãe e seu pai? E o batuque? No céu tem caruru? E Jorge, o Amado? Já te pediu pra digitar algumas páginas do novo romance? Tem trabalhado aí, mulher? Acho que não. Acho que você só tem feito é festa, reencontrando os amigos todos que se foram antes. Nas festanças daí você dança Cajuína com quem? E as fantasias? Quais tem usado? Ah, minha amiga, são muitas perguntas. Perguntas de quem ainda passeia do lado de cá, convivendo com aquilo que mais se materializa nessas bandas: saudade.


Fotografia: blog de Maria Sampaio: http://continhosparacaodormir.blogspot.com

domingo, 3 de outubro de 2010

infância


Freud me encanta, e a cada livro dele que leio saio inebriada, algo inerente à literatura. Concordo e muito com o que ele acreditava ser a grande dificuldade dos homens: sair da infância. A infância nos persegue assim como, quando crianças, perseguimos a verdade, aquela que os adultos escondem com medo.
Digo a vocês, como quem proclama uma verdade inútil: acreditei na cegonha. Até hoje vejo-a sobrevoando o quarto, levando-me no bico (isso não é trocadilho) e depositando-me na cama, naquele mês de novembro em que mãe me esperava na mais terrível solidão. Essa é uma verdade, foi a minha verdade, tristonha e perdida. Isso porque acreditei nela, acreditei sem nenhuma dúvida, até minha irmã me mostrar, com todas as cores, a fotografia de uma mulher parindo. Como livrar-me, portanto, da crença mais antiga e do desencanto mais cruel? Eu tinha dez anos e era estúpida demais. Aquele mundo de carne e sangue me assombrava, eu que preferia acreditar ter vindo da limpeza do ar, trazida por uma ave lírica.
Minha irmã, desde aquele dia, me dava as notícias do mundo. Mas eu acreditava era em mãe, e no almanaque sadol que nas suas páginas me mostrava uma cegonha perfeitinha, levando um bebê para alguém. Parecia-me cruel demais a natureza: nascer em meio a sangue, grito e dor. Isso era mais castigo que felicidade. Foi minha irmã também quem me disse como é que os bebês se formam, o que os pais fazem, etc. Não, não eu não queria saber, tudo devia ter muita dor, sangue e desespero. Por isso aos doze anos tive pena de uma noiva que assisti casando. Durante a cerimônia do casamento eu imaginei o quanto aquela criatura iria sofrer na noite de núpcias, que seria de muita dor e sangue. Libero a risada de quem está lendo. E assumo a total estupidez.
Assumo porque, volto a dizer, eu não entendia nada, absolutamente. Somente sentia. Sentia muita coisa. A natureza em mim não trazia decodificação, palavra: era vento batendo na pele, sensação, à revelia, de que eu era dolorosamente viva.


Imagem: infância. www.flickr.com

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

exposição


Não consigo entender uma arte que não nasce da carne, da profunda dilaceração da carne, da ferida, da dor da ferida exposta, das moscas sentando em cima. Se a arte não nascer disso, é decoração, é paisagem amorfa, é epifania barata, é bordado. Camus, aqui perto, sopra no meu ouvido: "... a obra de arte deve servir-se, em primeiro lugar, dessas forças obscuras da alma". Não quero cantar roda não, menina, quero mostrar minha ferida exposta. E não é apologia ao sofrimento, é o próprio sofrimento, exposto. Quer ver? Esqueça então um pouco o seu bordado no bastidor e venha cá. Você já teve uma ferida dessa? Oh, não? Então terá, aguarde, é uma questão de tempo. E se tiver, não tente tampá-la com um mero bandeide. Deixe-a exposta ao sol da manhã. Deixe o sol cair na sua ferida, deixe-a doer, não fuja da dor. Para que, menina, vestir uma calça comprida a fim de esconder as perebas de sua perna? Não gosta da palavra "pereba"? Oh, deixe de ser decoradora de exteriores. Pois que a vida talvez seja só um grande salão interno, profundamente interno, amplo, branco, vazio; e nós, aristocratas vivendo nela, acreditamos triunfar com móveis caros.


Imagem: "Vazio". IN: www.google.com.br

terça-feira, 28 de setembro de 2010

a dança do adeus


Ah, meu amigo, me diga quantos passos darei até aquela porta. Venha comigo: vou tentar andar bem devagar, tal qual uma bailarina. Sua alma circundará esse espaço e dançará comigo no baile, aquele que os mortos fazem quando se encontram.
Ah, meu amigo, minha retina é antiga demais; e meus pés tortos, você bem sabe, não conheceram o auxílio de uma bota preta - para adestrá-los. Por isso olho sempre bem fundo, e caio. A menina é uma bailarina tosca porque hoje tem botas. É medonha a dança dela: eis porque não sei quantos passos darei para chegar àquela porta. As botas pretas me enfeiam, e demorarão anos para que os pés se desentortem.
Amigo, límpida ternura: sou ainda menina que não anda. Ensina-me os primeiros passos até chegarmos àquela porta, a última.



Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um poema de Kátia Borges


2.
Beleza, moça,
é algo que some,
nunca se garanta
nesse rosto de louça,
nesse corpo de Barbie
(já ouviu falar em gravidade?).
Beleza, moça,
é barco que parte,
nem tente atracar a sua
num cais de botox,
fica esquisito, fia,
aquele riso de plástico,
aquela face vazia.
Beleza, moça,
só no retrato se eterniza,
guardada em álbum de fotos
ou num semblante de filha.


Kátia Borges. In: Uma balada para Janis. Salvador: P55 Edições, 2009, p. 3.

Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

os estrangeiros


Dizem que a tristeza tem lágrimas, a melancolia não. A melancolia talvez seja mesmo pesada, seca, sem lágrimas; ou por demais leve, como pensou Calvino: a tristeza em sua forma plástica, bela, estética. Há os poetas da melancolia, os cineastas das películas nostálgicas, líricas, carregadas de neblina. Há imagens a escolher: águas do mar batendo de leve em pedras escuras, e um homem de sobretudo andando por perto, olhando para o chão. Há humanidades inteiramente perdidas, soturnas, sem necessidades de palavras. Pessoas que testemunham para si mesmas o mais terrível degredo: o vazio, o vazio onde nem o medo habita.


Imagem: Cena do filme "A primeira noite de tranquilidade", de Valerio Zurlini (1972).

quinta-feira, 16 de setembro de 2010