
Mãe me liga nesse feriado, bem cedinho, para me desejar feliz dia das crianças. Dou risada doméstica e digo-lhe que não sou mais criança há muito tempo. Ela retruca que para ela sou sim. Conto-lhe que sonhei essa noite com meninos me derrubando da cama. Ela imediatamente sugere que foram São Cosme e São Damião, crianças a quem recorre como proteção a mim e a minha irmã desde que éramos bebês. "Eles são assim, gostam de brincadeira". Interessante é esses dois meninos derem o ar da graça logo hoje. Se é o seu dia, ela diz. É verdade. Pois que ainda tenho uma criança birrenta, agressiva e tola aqui dentro. Pois que ainda tenho uma criança assustada, insone e que brinca de casinha no sindicato em que o pai trabalha. E que ainda insiste em ter um bonecão horroroso com o mesmo nome: Carlúcio. E o bonecão envelhece a olhos vistos, a cada dia mais branco e desbotado. E o plástico que lhe cobre o corpo está fino e depurado. Mas ela insiste em carregá-lo, niná-lo, abraçá-lo. Estúpidos, loucos, eu assim os chamaria olhando-os de soslaio, rindo deles como sempre ri de mim, vestida de anjo em festa de largo.
Imagem: Festa de Nossa Senhora da Glória (1977). Fotografia de Mozart Santana.





