
Em
Romances Familiares, Freud traz algo que me comove muito. É a passagem, ressaltada por ele, em que desejamos substituir os nossos pais por outros "de melhor linhagem". O que me vem à mente agora é a substituição de mãe, que eu fantasiava. Queria que minha mãe fosse uma mulher vaidosa, com sobrancelhas feitas, batom na boca, usando sapatos de salto alto e brincos enormes na orelha. Diferentemente de tudo que mãe era: usava vestidos feitos por sua própria mão grossa, cheia de calos; as sobrancelhas trazia-as desalinhadas; nenhum batom na boca, carregando nos pés sandálias baixas e na orelha brincos inexpressivos. Era exatamente o inverso daquilo que eu queria ostentar como minha mãe. Principalmente nas reuniões de pais e mestres, em que as mães de minhas colegas, com aquele perfil sonhado por mim, apareciam na escola. Devo confessar que tinha enorme vergonha dela. Ora, por que, eu me perguntava, aqueles vestidos retos, florais, fora de moda? Aquelas sobrancelhas grossas e despenteadas? Aquelas sandálias sem graça, mostrando suas unhas mal pintadas? Tinha inveja de minhas colegas, desfilando pelos corredores da escola com suas mães aristocráticas e lindas.
Freud diz que ao fazermos isso não estamos descartando nossos pais, mas enaltendo-os, pois no fundo atribuímos a esses novos pais, substitutos, qualidades que têm origem nos nossos pais verdadeiros. As qualidades são aquelas de amor e tranquilidade da infância, que se perdem na fase crítica de distanciamento. Fase em que se descobre a distância do amor tranquilo. Portanto, se nos meus quatro pra cinco anos mãe para mim era uma mulher linda, rusticamente linda, nos anos que se seguiram virou um algoz de sobrancelhas horrorosas, que me batia muito; porém, na minha cabeça tudo talvez se justificasse se ao me bater ela estivesse usando um vestido de festa, de cetim, de organdi, com as sobrancelhas refinadas.
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