
O pior do desespero é que não adianta lascar a roupa, tirar um chumaço de cabelo, ficar histérica. Não adianta espernear; devia ter ouvido isso quando criança. Não adianta espernear, não adianta dar chilique, gritar, berrar, soluçar, ranger os dentes. Talvez um calmante na veia, talvez. Ou uma mordaça, e braços e pés amarrados na cama. Já ouviu a expressão "correr pro mato"? "Fulano correu pro mato"... Isso significa o endoidamento de gente da roça. É só dar gastura no juízo que o varão campesino corre pro mato. Já tive vários tios que correram. Enfim, esse é o ápice do desespero. Um dos mais simples é perder uma noite de sono: vira-se na cama de um lado para o outro querendo desaparecer. Um dos mais tristes é aquele irremediável no seu sentido mais terrível, profundo: aquele que a morte escancara com seus dentes de ferro. Esse também não adianta esbravejar, não adianta. Aí profere-se uma palavra que está muito difundida no novo testamento: resignação. Resignação é algo parecido com o efeito que uma injeção na veia produz no malsinado. Só que sem a injeção. É apenas mera e dolorosa aceitação que acontece em virtude da simples obviedade: não tem jeito. O suicida, no entanto, é aquele que não se entrega, não se resigna, vai à sua última luta, o seu último esperneio.





