Desdigo o que um dia disse aqui, e afirmo: o conto
Amor não está esgotado. (É, de novo, Clarice.) Acho que quem estava esgotada era eu, de tanto ouvir falar nesse conto, de as pessoas ficarem falando dele pra cima e pra baixo, e com uma superficialidade doentia. Também estava de saco cheio de usarem tanto a palavra de Clarice em vão; acho que a própria, do seu túmulo, vivia bastante insatisfeita. Sem falar na legião de imitadores baratos, neles, claro, eu incluída.
Pois bem. O conto
Amor é um dos mais belos contos escritos em língua portuguesa. De uma sensível genialidade; de uma delicadeza de quem sabe fazer renda naqueles bilros antigos, jogando os bilros para lá e para cá, num movimento sutil de mestre, e sempre cantarolando uma cantiga. Enfim, só quem sabe as delicadezas de um bordado, de uma renda, sabe o que é esse conto clariceano.
Não é tão somente a história de uma dona de casa, é mais do que é isso. É a história da apelação da existência: a existência a todo momento nos chama, clama para que nós a escutemos. A existência está lá fora: no cego mascando chicletes e sua intensa existência de coisa viva, saída do lugar comum a que nos prega a vida prática - essa que nos impede de enxergar tudo. O contingente, disse Sartre, é o absoluto. Tudo o que existe é pleno de gratuidade, portanto de plenitude: eis o perigo. Precisamos, isso sim, é acordar. Sentir o frenesi do vento batendo no rosto. E, diferentemente de Ana no conto em questão, não retornarmos à ordem, não apagarmos "a flama do dia", a inquietante e prazerosa (e perigosa) descoberta de estarmos vivos.