quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"ensinar" literatura


A cada dia de meu trabalho como professora de literatura, sinto como é deleitosa e ao mesmo tempo dramática tal profissão. O que nos espera na universidade são, na grande maioria, alunos desamparados por não terem tido a oportunidade anterior de conhecer a literatura. Nós, professores, temos o desafio enorme de provocar a iniciação: em muitos alunos isso ocorre rápido, como alumbramento de sua própria vida, em outros tal coisa demora a ocorrer e, em alguns, infelizmente, a tarefa se transforma em algo doloroso, difícil, para ambos os lados.
O primeiro grande desafio é a desautomatização. Desvestir a literatura como disciplina é outro. E, a mais difícil, tocar o aluno, incitá-lo a ler, ele que leu pouco ou quase nenhum livro.
Literatura é alma, ou não é nada.
Literatura é uma "disciplina"? Dizem as grades curriculares que sim. Para mim, não. A burocracia dita as ordens do mundo: preciso preencher cadernetas e nestas, as notas. Mas, inicialmente, o que preciso mesmo é desautomatizar os alunos e encontrarmos, juntos, uma terceira via. Infelizmente, nesse momento não poderei ser Bartleby, por isso preencherei sim as cadernetas, eles terão a famigerada nota, mas isso é besteira; apenas uma necessária encenação para o seu posterior currículo.
O mais importante será a experiência que viveremos juntos ao longo de todo o semestre, no qual a nota será mero acessório. O mais importante, de fato, é outra coisa. Uma delas a nossa relação firmada num pacto sem dogmas, livre, como é a própria literatura. Nesse pacto desautorizaremos a autoridade e seremos amigos. No processo de busca de alumbramento para a vida, seremos companheiros procurando sentidos, ou a falta deles. Os livros intermediarão, como grandes protagonistas, esse encontro. Os livros nos transformarão. Nada, nada será obrigatório. Motivos para fazer chamada ou passar lista de frequência? Para quê, se ali engendramos a liberdade?
Literatura é alma, comunhão, humanidade, ou não é nada.

sábado, 12 de novembro de 2011

canção dos desesperados


Uma angústia sem asas. Um não sei que fazer de sua figuração no mundo. As encenações repetidas. Uma desordem. O que se diz e o que não se entende. Impossibilidade de abraçar. Livros esparramados pela mesa, fechados. Tudo, tudo se distanciando. O colarinho lhe apertando o gogó. A dor de barriga que chega na hora errada. A falta de toda e qualquer palavra. O cansaço da poesia. A falta de paciência com os poetas que têm carteirinha. O clube lotado, o clube vazio. Orides Fontela lhe olhando da cozinha, lhe acusando do roubo de sua miséria. Hilda Hilst de novo sozinha. Você, você, vocezinha, estúpida como um capim. Os cabelos brancos fazendo-lhe coroa num castelo sem reino. Essa boca em eterno esgar, essa cara severa onde dentro há tanta ternura. É preciso, escute logo, que você se acolha em seu próprio ventre. É preciso dobrar-se, como uma cobra, na própria solidão; contorcer-se sem grito, extasiar-se sem medo, talvez morrer.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

abandono


Esta casa está sendo, aos poucos, abandonada. Dizem que é necessário mudarmos de casa, de preferência de três em três anos. Já tive vários convites para deixar esta e me mudar para o facebook. Mas sou por demais apegada a casas antigas, com cheiro de abandono; com teias de aranha pelas paredes, copos empoeirados na cristaleira, e roupas envelhecidas. Esta é, pois, uma casa antiga. As janelas emperraram-se e acredito que terei de ter bastante força para conseguir abri-las. O mato tomou a varanda que antes era diáfana, com cheiro de jasmim. Os jasmins morreram, um a um, perante o desconsolo do silêncio. Nunca, ninguém mais veio aqui: só um ou outro, desses que insistem em manter dentro do corpo essa coisa longínqua que é a memória, passam e jogam, pelo alto, um bilhete preso a uma pedra. Há muito cheiro de tempo, e, dentro dos armários, fitas amarelecidas amarram caixas sonâmbulas. Daria tudo, meu Deus, tudo, para que essa casa voltasse a ser habitada. Por isso fico rondando-a, em dias de frio como esse, em dias de chuva, buscando a chave esquecida por mim em algum lugar.

sábado, 29 de outubro de 2011

espiões de Deus


Prisioneiro absoluto, Rei Lear, completamente enlouquecido, grita para sua filha Cordélia e para nossas filhas, as mais íntimas:
"Não, não, não, não! Vem, vamos para a prisão. Nós dois sozinhos cantaremos como pássaros na gaiola. Quando me pedires a bênção eu me ajoelharei e te pedirei perdão. E assim viveremos, rezando e cantando, lembrando histórias antigas, rindo enquanto ouvimos os pobres vagabundos contarem as novidades sobre as borboletas douradas da corte. E também vamos conversar com eles: de quem perde e de quem ganha; de quem vai e de quem fica; e penetraremos o mistério das coisas como se fôssemos espiões de Deus; e entre os muros da prisão sobreviveremos às seitas e partidos dos poderosos, que sobem e descem como a maré debaixo da lua."*
Há tanta coisa nesse parágrafo! Mas calemos, calemos, apenas escutemos várias vezes o que foi dito. Não é necessário perguntar quais serão "as novidades sobre as borboletas dourados da corte". E quem são "os pobres vagabundos".
Apenas possamos nos permitir também penetrar "o mistério das coisas como se fôssemos espiões de Deus."
Não é isso o que os artistas fazem?
Espiões de Deus, eles olham dentro do buraco da fechadura do mundo e murmura para nós os mais diáfanos segredos vistos.


Trad. de Millor Fernandes. In: SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Porto Alegre:L&PM, 2010, pp. 127-128.
Imagem: William Shakespeare. In: www.google.com.br

terça-feira, 25 de outubro de 2011

inventário


Deixamos tudo, desde que saímos.
A roupa no varal lá continuou, nesses anos todos.
Nossos vestidos, com o tempo, encurtaram
E as blusas, ensandecidas, continuaram
a balançar, a balançar, sem vento algum.
No batente da porta nossos chinelos
nem tão velhos eram, mas envelheceram.
E as botas que pai não teve
deram para andar, sem qualquer destino.



Imagem: "O que se perde no azul". In: www.google.com.br

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

série romances preferidos


"- Você também tem uma explicação para o amor?
- Como não? O desejo de posse em alguns, como a avareza. O desejo de submissão em outros, a vontade de perder o senso da responsabilidade, de ser admirado. Às vezes, o simples desejo de desabafar com alguém que se interesse, encontrar novamente uma mãe ou um pai. (...)"

GREENE, Graham. O crepúsculo de um romance. Trad. de Branca Maria de Queiroz Costa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960, pp 120-121.

domingo, 23 de outubro de 2011

espeleologia


Seu corpo é todo em rabiscos, como as cavernas para os primitivos.
E eu, curiosa, revisto tudo buscando coisas:
um livro nele escrito, por exemplo.