segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

a água mais morna


No inventário, trinta diários.
Aos quinze anos, dentro de um aquário,
escrevia com a água mais morna
os dias sem glória.
Nas linhas, o obituário da cidade,
Clamar os dias com sol e sem sol,
com chuva e sem chuva.
Sem saber, fotografava o insípido,
o que não se destrói com as traças,
o que é vivo, nem se curva - para o fim.
Uma menina sem mim, o que eu era.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Canção do dia de sempre


Tinha quinze anos e colei na porta de meu guarda-roupa esse poema. Continua lá.

Canção do dia de sempre
Mario Quintana

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

sábado, 17 de dezembro de 2011

de tudo que não se encontra


Tem momentos em que a literatura não nos acolhe; nem a música; nem o cinema; nem o amigo; nem Deus. Tem um momento em que tudo foge: o vento, o frio, o calor, a fome, a sede, a vontade. Você quer a mão que um dia esteve do seu lado, mas ela não chega. Você quer o escuro, o claro relampeja. Você não quer o Natal, o Natal lhe estampa na cara que esse mundo não é seu, afinal a santa ceia na sua casa nunca existiu. Você tem raiva de ser generosa, você quer estraçalhar sua roupa, você quer ficar nua no espaço, você não quer mais matar ninguém, afinal todos irão morrer. Muito menos você deseja qualquer prato de sopa, nem o abraço do mendigo, nem olhar para o céu, não quer mais crer na humanidade. Você se contorce em dor, seu corpo se decompõe, você é só trecho em branco de um sonho. E você nem desaparece, você continua, e toma pílulas e pílulas para dormir. Você compra seu sono em cápsulas, o que seria de você sem uma farmácia. Você, em calado silêncio arranca os cabelos, grita, uiva, e a noite de sábado, para quê?, não escuta, e nem precisaria. Você se livra do que Pandora não conseguiu, joga a esperança fora, antes de matá-la com perfeição. Você já não mais espera. Apenas olha.


Imagem: Cena do filme "Flores partidas" (2005), direção Jim Jarmusch.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

de novo


É mesmo perseguição, Noel está vindo de novo. Um monte deles, todos gorduchos e felizes, pregados em portas de doces lares e de prósperas lojas. Junto com ele, milhares de árvores cheias de bolas coloridas, e o azáfama de pessoas comprando sapatos e roupas. Natal para mim sempre foi sinônimo de solidão. Só quando criança, embalada pelo interesse nos presentes do velho Noel, me animava; me animava até receber o que queria; no dia seguinte voltava a ser tudo igual de novo. Natal é solidão, e Jesus Cristo soube profundamente dessa verdade. No interior da década de sessenta nascer merecia fogos de artifício. Quando nasci pai soltou milhares. Talvez vem daí minha aversão a festas, a bombas, a alegrias destemperadas. Com certeza me assustei com aquela estupidez na porta de casa, com o entra e sai de vizinhas curiosas em conhecerem minha cara, com tanta euforia sobre algo tão rotineiro e solitário. Nascer é profundamente solitário, assim como viver e morrer, e isso que estou falando é puro truísmo, todo mundo sabe, mas não custa nada repetir. Não custa nada repetir quando o Natal de novo se aproxima, quando todo mundo se apruma num vestido novo e num sapato da moda; quando as pessoas se apegam tristemente à repetição das festas para se sentirem, coitadas, um pouco felizes, soterrando para o mais fundo de si a verdade mais dolorosa e íntima, a que estão inapelavamente sozinhas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

planeta vazio


Tudo é distante, inalcançável. Estico meu braço e não te alcanço. Meu braço se quebra nessa busca. Meus dois braços estão quebrados. Aquieto-me num movimento contrário: sob a chuva, numa casa sem telhado, sento-me em sete cadeiras, rodeada por uma mesa grande, uma mesa redonda, uma mesa parecida com a terra. Nesse planeta vazio me instalo, para sempre.


Imagem: Cena do filme "Melancholia" (2011), de Lars von Trier.

domingo, 4 de dezembro de 2011

"Este livro"


Sim, fiz de minha vida literatura. Tudo o que vivi e vivo vem de algum livro. Por isso nota-se em transparência nebulosa essa minha contínua propensão ao sonho, a suspender sempre e sempre a incredulidade, a ir de olhos fechados. Tudo, até uma cadeira amarela que ponho na sala vem de uma lembrança esquecida, lembrada de uma página. Tudo, tudo o que sou, não é o que sou, é o que li; por isso essa dificuldade em aceitar a verdade, a verdade do que eu poderia ser. Sou de fato o que li nos romances, nos contos, nos poemas. As pessoas que de mim se aproximam, se adensam em cores e perfumes fortes, em madeleines, em imagens, em sinestesias mentirosas, tudo criado por meu corpo simbólico, reverberando no mundo.

descoberta do mundo


Os finais de tarde de domingo são reflexos de um mar vazio: as águas foram para os lagos, para os rios distantes; ficou no lugar um vasto oco, profundo, profundo, e o mundo inteiro caberia nele, numa espécie de naufrágio coletivo. Mas há gente feliz nesse momento: saindo do cinema, tomando um guaraná, uma coca zero, uma coca litro. Enquanto que do lá de cá a vida é besta mesmo. A vida é besta, meu Deus, e esse crepúsculo confirma que tudo existe em estado de suspensão, tudo flutua, mas não se denuncia; somente as nuvens são sinceras: somente elas jamais disseram o contrário.