quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

manifesto espiritual

Não quero escrever requerimentos
muito menos ir a reuniões
nas quais a vida é debatida
sem qualquer mistério.

Quero o esotérico
e nele os contos fantásticos
de Edgar Allan Poe.

Não nasci para viver dia a dia;
me perdoem, mas a máquina de escrever
foi a única que em mim restou,
lírica, do universo burocrático.

Porque não tenho paciência para papéis
que não trazem uma palavra poética
Por isso meu curriculum vitae
há muito tempo não se atualiza.

Quero mesmo é o cataclisma das leis
pois aí poderemos, enfim, amanhecer lendo
o que há de mais inútil em Edgar Allan Poe.

Abaixo as mensagens e a moral das fábulas.
Abaixo as palavras dos documentos oficiais.
Abaixo ainda mais aquelas palavras
com que todos se vestem para fazer reuniões.

Quero, repito à exaustão
o terror, os conflitos espirituais,
os fantasmas de Edgar Allan Poe.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

poema para os dias inúteis

Tem dias em que tudo se faz inútil.
Nesses dias não devemos abrir a porta.
Devemos fechar as persianas, e desse modo
Destruir o homem.
Ou a mulher que insistir
em chamar seu nome.

Lá fora sempre irão lhe chamar.
E lhe repito, é melhor não abrir.
Feche tudo com trancas de ferro
Dessas de trancar presídios.
Sele sem vestígios sua presença
inalterável para o mundo.

Para que isso tudo
se o vulto que somos
não atinge o escuro?

Desça bem fundo
verticalmente,
suma

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

a câmara clara e a sétima arte: elucubrações sobre o real


Estamos acostumados com uma existência previsível, cotidiana e cansativa. Nela nos arrastamos, comendo e dormindo, sem percebermos sua transitoriedade e seus signos, visíveis em cortes quase que cinematográficos. Para cada lugar que olhamos é certo que ali se recorta o enigmático, a pulsação de tudo que é inesperado e secreto. O mundo é amplo, nosso ângulo de visão fragmentado; portanto, nosso espírito age como diretor, recortando as cenas principais.
Todo esse preâmbulo para dizer que no domingo que antecedeu ao último, no início da tarde, passei por um final de rua em Feira de Santana. Naquele exato instante, havia milhares de jovens conversando. Meu olhar recortou apenas o rosto de um, e o recortou em primeiro plano, com bastante nitidez. Ele sorria, e usava boné.
Quatro dias depois soube que esse mesmo rapaz havia sido morto por dois homens que pilotavam uma motocicleta.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

festa no mar


Minha mãe querida,
Aqui não há mar, nem água, nem nada.
O que faço para te saudar?
Onde arranjar flores brancas, velas azuis,
perfume para teus pés?
Onde colher conchas, onde jogar pentes
e coisas para teu deleite?

Minha mãe querida,
Livra-me dos perigos, mesmo sem presentes,
sem mar, sem pentes,
nesse dia de festa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

sonho


Onde pai andará, nesse instante?
Com auréolas de rei, abrindo cancelas
Na sua roça de milho, eterna?

Buscando as sandálias, ao entardecer,
Como tanto fazia antes?
Fechando as janelas, com a chegada da noite?

O que de hábito permaneceu, à distância,
Nesses dezoito anos de ausência,
Para que continuasse tão perto?

Decerto o chão de nossa casa
Com o vermelho cimento encerado
Fazendo espelho aos seus pés

Decerto essa frágil permanência
do outro lado, onde tudo reverbera
em aquiescência e abandono

Decerto o mundo, mesmo,
Com seus vestígios de sonho
Trazendo-o como dono; de tudo.

sem poesia (à guisa de confissão)


O que tenho para dizer hoje não tem poesia, nem salvação. Nem uma gota de lirismo; e nenhuma gota de humor. Não é assunto para post, não é assunto para a vida. É assunto talvez para fantasmas, fantasmas eivados de maldade. Assistiram "Viridiana"? O mundo não está preparado para a doação. As pessoas têm cheiro de enxofre. As pessoas são visguentas, tem miasmas repugnantes, são hipócritas. Moro numa cidade em que o mal total da humanidade se concentrou. Nem vou dizer o nome dela porque terei a tentação de fazer um trocadilho, e este não terá a menor inventividade. Toda a concentração dos sem caráter, sem palavra, sem respeito está aqui. Ah se Gregório de Matos ainda vivesse! Eu o convidaria a passar uns dias na minha casa; e juntos poderíamos botar fogo nas ventas desses viventes. Há poesia no que digo? Nenhuma. Só Lampião e Corisco dariam cabo dessa demanda. Quem sabe depois disso nasceria um cordel.


Imagem: cena (terrível) do filme "Viridiana" (1961), de Luis Buñuel.

domingo, 22 de janeiro de 2012

mobília


Registro interno de solidão:
tenho 32 cadeiras.
Receberei um dia 32 visitas?
32 pessoas um dia aqui se sentarão?
Há de diversas formas: de balanço, de varanda, de jantar. Cadeira artesanal, espreguiçadeira, banquinhos.
Há uma parecida com aquelas da sala de jantar de lá de casa: aquelas que beliscavam nossas bundas.
Se faço coleção?
Se é uma estranha mania?
Registro interno de solidão:
Tenho quatro grandes mesas.
E dois bules de café.
Tenho muitos talheres.
Uma casa enorme para ouvi-los tilintar.
Mãe comia de colher, às escondidas de pai.
E de colher me ensinou a comer.
Pai era civilizado: sabia andar em Salvador,
sabia escrever bem, lia Dona Flor,
usava roupa de casimira e paletó.
Mãe não: suas roupas eram sempre estampadas
costuradas por suas mãos
com cheiro de cebola.
Registro interno de solidão:
Tenho um guarda-roupa antigo.
Nele contém uns dez vestidos estampados.
Envelheço como mãe, e nela me misturo
aos seus traços entalhados,
às rugas mais fundas, mais velhas,
e juntas nos parecemos, engraçado,
à nossa antiga geladeira.