domingo, 9 de junho de 2013

sobre a redenção de nós, malditos


Deus Abraxas. Tenho o mal e o bem em mim, e o que faço, a todo o tempo, é tentar jogar o mal fora. Há um gozo em fazer maldades, em se vingar. Não, não me venha com cara de santo, que eu sei que você, leitor, por mais religioso que seja, já desejou que alguém morresse; que azulasse no mundo desaparecendo. Oh Deus Abraxas, Deus que habita meu sangue fervente, humano, demasiado humano, me abrace, me compreenda. Fui feita numa casa simples, de um povoado singelo, de uma relação de amor e abandono, de carinho e sofrimento, provavelmente com cheiro de cachaça circundando o ambiente. Fui feita também através do ódio e do desamparo, do sexo frouxo e convencional, das intimidades dilaceradas. Como hoje eu poderia ser algo maior do que sou? Sou frágil, também dilacerada, dada às fraquezas de pensar em matar e ferir. O pior é que não consigo matar nem ferir, então a faca se volta para mim, com a fúria de quem se envergonha da covardia de seu dono.



Imagem: Abraxas (www.google.com.br)

mudanças



Nessa noite passada sonhei com mudanças, eu havia mudado, ou melhor, voltado para o meu apartamento em Salvador. Quando saí de lá não tinha tantos móveis, afinal morava num apartamento. Aqui moro numa casa, os móveis aumentaram, comprei aqui na cidade móveis antigos; então o apartamento para o qual voltava não comportava tantos móveis. Lembro-me bem que no sonho ficava gritando, junto com os ajudantes: "Onde coloco a mesa, essa mesa redonda? E essa mesa quadrada?" De repente, num passe de mágica, o apartamento ganhou mais uma sala de jantar, foi crescendo, crescendo, e os móveis se adaptando em plena felicidade; essa felicidade só conhecida pelos que um dia já foram acolhidos.
Diferentemente do sonho, aqui é a casa, o Facebook era o apartamento. Lá eu tinha que escrever textos curtos, imediatos. Aqui tenho um salão enorme para colocar móveis, ops, palavras. A casa é tão grande aqui, gente, grande demais. Venham, ocupem essas cadeiras vazias, venham todos.

sábado, 8 de junho de 2013

chove


O que queres de mim, Senhor? Que eu sofra, que eu me liberte, o que é que queres de mim? Já bebi todo o cálice, já me autoflagelei, já perdi amores, e estou só. Sinto que te afastas de mim para a prova maior. A prova da solidão absoluta. Vou aceitar essa prova. Só não aceito a culpa. Não, não tenho culpa, não tenho. Não quero a culpa, sempre fui eu mesma, na busca de uma integridade com o outro. Sou distraída, talvez essa seja minha única maneira de magoar pessoas, sem querer, sempre sem querer. Mas nunca sequer roubei uma flor. Busco ser humana, só isso, em perpétua cruz; aquela mesma para a qual te condenaram. Estamos todos na tua cruz, sofrendo horrores, e eu não quero mais sofrer. Quero apenas escrever. Para escrever preciso descer da cruz, pois não salvarei nem minha humanidade, como Tu salvaste a de tantos e tantos. E eu só consigo salvar minha pobre humanidade escrevendo. Também não quero mais a doença: quero o rosto corado, a esperança nos olhos, o amor no corpo. Quero a vida.
Com essa prece, saio de uma cidade chamada Facebook, e volto para casa, para minha nuvem, pois aqui escondidinha sofrerei menos. E como está chovendo muito, poderei misturar minhas lágrimas com a chuva, ninguém precisará notar que choro. Chove.

sábado, 1 de junho de 2013

fruta boa





Toquei trêmula teu rosto e não acreditava no que via: dentes perfeitos, sorriso esculpido em
  nuvem sem ser desfeita. Tocar. Apenas o que eu queria, ambição pura de menina curiosa. 
Saber a temperatura de teus braços, de teu queixo, de teus olhos. Toquei sim, e muito, e ria, 
ria, ria, feito criança em dia de natal. Em tempos sem festa, aquela tua presença viva era o 

meu enorme quintal, cheio de frutas saborosas para meu paladar infantil.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

mulher


"(...) Quem não teve a sorte de encontrar em sua vida uma mulher genialmente feminina não sabe o que é uma mulher". (José Ortega Y Gasset)


terça-feira, 21 de maio de 2013

A vinda


Falaram que era minha hora de vir: não queria, dei chilique, corri para dentro das nuvens. Um Senhor com vestes brancas gritou alto para os outros: "É a menina, peguem ela aí!" Esses outros conversavam numas árvores perto das nuvens, todos também de branco. Diante do comando, desataram a correr olimpicamente atrás de mim. Me escondi dentro da nuvem mais densa, mais escura, que trazia como promessa uma trovoada de acabar mundo. Mas esses Senhores de branco eram donos das nuvens, donos de tudo, e sabiam que eu teria que vir. Me pegaram a pulso, eu esperneando gritava "não quero ir, não quero ir!", chorando aos berros, apelando para Jesus, "Jesus por favor me salve!" Ele, no mesmo instante, de longe, me enviou um aceno: o aceno mais belo, mais forte, e que me impulsionou a vir, sem mais gritos, só choro, um choro miúdo, resignado. Aqui estou. Não é fácil isso não; aqui peso tanto que não levito, e há uma dor cravada no peito que não facilita as coisas. Mas não dá para esquecer o aceno de Jesus quando resolvi ceder e vir. Não dá. Lembro agora desse aceno terno e afetuoso, e luto para conseguir forças para continuar seguindo. Sinto enjoos, tonturas, não me adapto à essa temperatura compacta, ao peso do corpo, mas preciso ficar até o fim, quando talvez, nesse fim, possa descobrir a finalidade de minha vinda.

domingo, 12 de maio de 2013

Volver a los 17



Ela, linda, aos 17 anos. Vestiu o vestido que mais gostava, calçou a singeleza das sandálias campesinas, com as pernas cruzadas. No braço um relógio delicado, e no pescoço uma volta (corrente) sutil, quase não vista. Ocorria um momento importante: o retratista passava pelo povoado. E era preciso guardar-se para a posteridade: por isso a pose, e, a melhor das coisas, o sorriso. Um sorriso lindo, que sequer adivinhava o que viveria adiante. Nessa época eu nem imaginava vir ao mundo, eu que de onde estava não queria vir pra cá de jeito nenhum e me trouxeram a pulso. Mas vir dela me deu mais calma, por isso sempre nos entendemos, temos as mesmas manias, o mesmo nonsense. Dela herdei a tragédia do medo do mundo: nasci algum tempo depois que ela viveu uma de suas maiores tragédias: perder uma filha de sete meses em questão de segundos, sem qualquer resposta à sua pergunta: "Cadê Noélia Lúcia?" Até hoje eu faço uma pergunta semelhante, só que é "Cadê eu?" 
Hoje estamos distantes uma da outra por quase trezentos quilômetros; ligarei para ela, mas não poderei lhe dar o abraço que aprendi a dar: abraço frouxo, mas amorosamente intenso. O que farei durante todo o dia hoje, já que não poderemos sorrir juntas, é mirar esse seu sorriso lindo, e voltar aos 17 com ela.