domingo, 23 de junho de 2013

Interdito




Teu silêncio, tua falta de eloquência, tuas mensagens curtas
Tudo isso me separa de ti como se separa um século do outro:
com muitas mortes, vidas torturadas, tumultos de uma História
que se acaba.
Teu medo diante do nada que eu sou, em forma de Vida,
anima meus sonhos, mas me interdita, me faz mulher que se esconde
(em sua própria casa) das visitas.
Me escondo com minhas palavras proibidas,
mas pretendendo ser seguida por ti: lida, pelo menos,
dentro do fosso, na parte mais baixa do porão,
onde só os ratos e os gatos transitam
em festa íntima.



Imagem: Cena do filme "O Leitor" (2008).

sábado, 22 de junho de 2013

Canção diante do abismo


A um passo do abismo
É só você me abraçar, bem forte
e cantar aquela música de João,
ou Jobim,
Uma bossa nova.
Irei, sem vacilar, contigo
cair lá no fundo, sem perigo
algum, sem perigo algum.

Deus se aproximará com suas asas
etéreas, como quem retira as feras
de dentro de si, e as manda
de volta ao mundo.
Deus, e nós dois.

A um passo do abismo
É só você me abraçar, e entoar
outra prece, mais outra, se preciso.
Falarei poesia, a fim de subtrair
tanto cálculo, indo à altura
de sua alma girando sem cura,
sem qualquer apoteose, e abrigo.

Cairemos juntos no abismo
Loucos amparados por anjos
tocando Bach, em piano e violino
em concerto universal, vivos, plenos,
sentindo que um passo a mais ou a menos
poderá nos levar ao total desaparecimento
de nós mesmos.



Imagem: Cena do filme "Um corpo que cai", de Alfred Hitchcock (1958).

sexta-feira, 21 de junho de 2013

o sonho e o cavaleiro




Nessa noite, em sonho, um homem me visitou. O corpo dele pedia amor, eu o conhecia de muitos anos atrás, era um conhecido, um amado conhecido. Ele queria de novo ser amado por mim, só que apareceu uma mulher na hora e nos acompanhou pelo nosso passeio, passeio que era nosso apenas. Cheguei para ela e disse isso, expressamente: "esse passeio é nosso". Ela entendeu, parou por onde estava,  e eu segui com o homem que necessitava ser amado e que eu queria amar. Vocês sabem, nenhum sonho, ainda bem, é literal: é sempre poético, fragmentado, cheio de cortes de câmera, cinematográfico. A cena que surge a seguir é o homem deitado à minha frente, eu lhe apalpando o peito e percebendo que ele trazia no seu corpo muitas camisas: não era apenas uma. Camadas e mais camadas de camisas o sobrepunham como cascas de cebola. E eu teria que ter o trabalho e a disposição de retirá-las, uma a uma. Perguntei se aquilo tudo era frio, por que tanta camisa. Ele nada falou. Na cena seguinte aparece eu tentando tirar pelo menos a primeira camisa, ou seja, a última. Não conseguia; e não conseguia por que sabia que as camisas eram muitas e eu não conseguiria chegar à primeira: Quando? Em que tempo? Em que século? Meu prazer aumentava diante do interdito daquele que se vestia para sempre, como um cavaleiro medieval, e eu morria em mim, muito viva, muito viva.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

a mulher e o mendigo


Desejo teu corpo. Poderia dizer isso de maneira poética.
Mas não dá. Tenho que dizer sem metáforas, de forma direta.
Tal qual com fome o mendigo pede coisas na sarjeta.
De maneira direta, sem análise complexa.
Não que eu seja esperta, mas minha carne implora
a tua, sem subterfúgios metonímicos.
E quando o desejo grita o verbo da alma
e o vago anímico lateja ardente
é premente que se peça,
que se implore,
que se verbalize em voz alta.



(Poema escrito em 02 de janeiro de 2008, do meu inédito "Livro de Preces")



CLARIDADES



Amar é para onde vou, minha vocação absoluta.
Veja a renda de meu vestido, toque-a, não há luta
nem armadilhas: apenas um vestido rendado.
E essas flores, e esse campo aberto, e esses teus dentes?
Deus, vejo Deus, nesse intervalo entre mim e o sentimento
de semelhança contigo, rindo e comendo as sementes
que nos plantam um no outro, sem qualquer retorno.

São prodigiosos nossos encontros por dentro
como quem da rosa não tira os espinhos, e fura os dedos
com o vento; e nada entende de poesia nem de semeadura,
mas faz da ternura coisa farta, enchendo a mesa de uma grande casa.
Percebes que não há diferença entre um homem e uma mulher e Deus?
Cósmicos, nos encontramos vivos sem sabermos a que veio
essa tarde; e, maior, essa claridade crescendo vívida em nossa carne.


(Poema antigo, escrito antes de mim, no século XVIII. Brincadeira: escrito por mim em dezembro de 2009)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

como esquecer?


Como esquecer o detalhe daqueles dedos da mão direita todos olhando para cima, juntinhos, coladinhos um no outro? A quentura de uma pele doce a despeito da violência que nutria? O encantamento dos primeiros anos, aquele amor imenso finalmente saindo pelos meus poros e lhe doando? E o erro, sempre o erro, estragando tudo: para o amor, a maledicência não tem cura, não dura, o amor não dura à mal querência. Mas como esquecer detalhes mínimos: sobrancelha direita falhando no meio, olhos escuros meio tortos e um jeito peculiar de me abraçar para se desviar da morte?


terça-feira, 18 de junho de 2013

nota oficial



Como disse Tom Zé, há um "Tribunal Feicibuque". É, lá tem um tribunal, tudo é visto, olhado e julgado. Guardas kafkianos na porta, revistam sua roupa, ops, sua escrita. E fazem pontes com a sua vida. E com a de quem leu. E com outras vidas. Tudo assim: preto no branco. E tem condenação. Você vive o tempo todo cerceado. Ora, quem escreve quer ser livre. Quer abrir o verbo, a garganta, contar e inventar e dizer o que quiser. Que se dane o mundo. Sempre fui livre. Mas agora sinto olheiros por todos os lados que vou. Porque além de escrever no facebook, moro numa cidade pequena. Pim-pam, pam-pim. Não, não é isso. Sou altamente biográfica e altamente mentirosa. Por isso mãe me mandou para o catecismo aos sete anos. E me deu o livro  do menino que o nariz aumentava quando mentia. Meu nariz continuou aumentando aqui no blogue, e nunca reclamaram. Por que lá reclamam? Por que será que lá ficam olhando texto e biografia? Ficam procurando imagem especular? Isso dá uma tese de pós-doutorado. Blogue é literatura e facebook não? Tudo é literatura, basta você enviesar a palavra e encarnar todos os seres que você quiser ser. Basta você falar aquela estranha língua potencializada, metaforizada. Basta buscar a infância. Basta falar de amor de maneira potente. Aí você está no reino da literatura, não da fantasia, nem da mentira. Mas de uma verdade enigmática, ambígua.
Minha vida está e nunca está completamente naquilo que escrevo.
Isso é verdade e dou fé.