Este último dia do ano resolvi passar com a poesia de Hilda Hilst. Principalmente com "Poemas malditos, gozosos e devotos", livro que ela escreveu dialogando com Deus. Nota-se, em todos eles, uma emergência em chamar Deus à carne, às sensações, à vertigem de existir...
Transcrevi um poema que vai abaixo, a fim de que ele possa dizer a minha voz, a minha procura pela poesia, a minha busca pelo gostoso sono de Deus.
V
Para um Deus, que singular prazer.
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve Nada: o homem:
Equação sinistra
Tentando parecença contigo, Executor.
O Senhor do meu canto, dizem? Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.
Dorme, inventado imprudente menino.
Dorme. Para que o poema aconteça.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
sábado, 29 de dezembro de 2007
Orações
Li, uma certa feita, Harold Bloom dizendo numa entrevista algo muito interessante, e que era mais ou menos assim: decore poemas como você decora orações, e sempre fale para você mesmo em todos os momentos, seja os difíceis e os maravilhosos. Quando li esse conselho, lembrei que eu já fazia isso há muito tempo, desde que me apaixonei pela poesia. Decorei principalmente "Consolo na praia", de Drummond e falo para mim, constantemente, bem baixinho, em qualquer lugar: no ônibus, na fila do banco, na rua, sob a chuva e sob o sol...
Me vem agora, de lá das bandas de Pernambuco, esses versos de Mauro Mota:
AUSÊNCIA
Vestias diante do espelho
o vestido de viagem,
e o espelho partiu-se ao meio
querendo prender-te a imagem.
Prendo esses versos na memória e vou soletrando palavra por palavra. Lá fora a chuva veio fora de hora. É sábado. Tudo fica em estado de alerta para ouvir o poema que minha memória recita.
Me vem agora, de lá das bandas de Pernambuco, esses versos de Mauro Mota:
AUSÊNCIA
Vestias diante do espelho
o vestido de viagem,
e o espelho partiu-se ao meio
querendo prender-te a imagem.
Prendo esses versos na memória e vou soletrando palavra por palavra. Lá fora a chuva veio fora de hora. É sábado. Tudo fica em estado de alerta para ouvir o poema que minha memória recita.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
"Maria, valei-me!"
Há uma receita mesmo de Ano Novo? Pergunto a Drummond, que escreveu uma. E ele me diz que as receitas, em si, nunca funcionam, de fato. Mãe já me disse isso uma vez, ela que vive de colecionar receitas de bolos e outras guloseimas. A receita não é o suficiente, é preciso algo a mais que não está lá escrito (óbvio). Talvez por isso eu nunca tenha conseguido fazer um arroz que preste: me falta este algo. Então, como criar uma receita para se ter um ano feliz?, como?, se um lance de dados jamais abolirá o acaso...? Basta ter fé? "Maria, valei-me!", digo o que mãe não se cansa de dizer, é o bordão dela desde que nasci e a conheço... Digo: Maria, valei-me do tédio, valei-me. O tédio perfura a nossa alma, sorrindo. O tédio é cínico, nauseabundo. Principalmente quando todo mundo só fala em festejar e esperar, com fé, o ano que está chegando... Antigamente era hábito para mim, no primeiro dia do ano, datar. Estivesse onde estivesse eu tinha que arrumar uma folha de papel em branco e datar, escrever pela primeira vez o ano novo, deixar marcado que eu estava ali, naquela data suprema... Tudo deixou de ser novidade. Mas claro que tenho fé num ano bom, mesmo sabendo que o tarô não me deu a melhor carta para esse ano. Mas tudo bem, não vou ter fé em cartas. Vou ter fé em mãe, que reza por mim todas as noites e depois sempre reclama: "Rezei tanto pra você, por que aconteceu isso?"; ou: "Rezei tanto pra você conseguir, que bom!" Maria está sempre por perto, lhe ouvindo, eu sei...
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Contínua prosa do contra
A sensação é que o tempo parou, tudo parou para esperar 2008. E essa angústia que me consome? Esse mal-estar de final de ano? Onde ancorar tudo isso? Nas sobras de 2007? Na verdade, o que são 2007, 2008...? A vida é cíclica, só aumentamos de idade. Os dias da semana se repetem, os meses se repetem, as estações se repetem, o seu sorriso e o seu choro (vixe, cuidado com a auto-ajuda, Aeronauta). Tudo é uma repetição só. Não, não estou de mau humor hoje, estou até tranqüila. Só que não agüento mais as convenções. Quero dizer que a data de hoje é 27 de dezembro, e que já vi muitos 27 de dezembro. Sempre volta o 27 de dezembro. Sempre voltam os shows para festejarem o ano que chega: na passagem de 1917 para 1918 foi assim mesmo! Só as pessoas se vestiam diferente, ou dançavam diferente, sei lá. Mas a expectativa, as palavras de "feliz ano novo", os cumprimentos, são tudo coisas que se repetem. Chega uma hora em que a gente enjoa. É muito provável que guardo na parte mais superficial de minha alma todos os milênios de existências consumidos em ter a ilusão de ver mudar as coisas numa queimada de fogos, ouvindo trilhões de vezes "feliz ano novo". Ultimamente estou meio Bouvard e Pécuchet: todos, afinal, temos algo dessa flaubertiana dupla.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Prosa do contra
Festas de final de ano sempre me deixam desconfortável. Nervosa. Irritada. Esse "ter de" passar o Natal ali, "ter de" passar o Reveillon acolá, "ter", "ter"... Muitas vezes renunciei a gente e resolvi passar as duas datas sozinha, muito bem sozinha, na minha casa. Que coisa boa! Nada de festas, nada de cumprimentos, nada de alegria, apenas paz. Uma paz enorme, ao constatar que aquelas datas estavam passando dentro de mim em silêncio, e não em algaravia com um monte de gente. Ah meu Deus, será que preciso mesmo aprender a não ser só? Quero ser só, que diacho. Que me deixem em paz na minha casa de joão de barro, oh. Estou mesmo nervosa hoje. E não só hoje, desde o início dessas festas que não acabam nunca - uma grudada na outra. E este chamado recesso é horroroso. Porque não há recesso em paz. Há recesso com um monte de obrigações. Fazer isso, fazer aquilo. Enquanto que o que desejo é dormir. Dormir um sono longo, longo, longo... E que não me acordem, façam o favor! Almoçar, para quê? Já almocei com algum anjo sem-que-fazer em algum lugar do espaço! Há algo demais em querer a preguiça? Em não querer fazer nada? Em não querer falar nada? Que me deixem com um disco de Bach, só isso, e estarei em paz.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Conversas natalinas
É tarde, quase noite de Natal. E meu sobrinho, de dez anos, telefona para mim dizendo que sabe que Papai Noel não existe mais. E que não saiu perdendo não, pois os presentes continuam garantidos. E que Natal é a festa que mais gosta, nem o aniversário dele é tão bom. E que quando eu for, à noite, para a ceia, não me esquecer de levar o cd que lhe tomei emprestado: "Um século musical: o melhor da música brasileira", que tem "conversa de botequim", lembra?,de Noel Rosa, música que ele ama pois acha muito engraçada. Ah, e que eu leve emprestado - "como se fosse presente de Natal", o meu disco de Beto Guedes. Outra coisa: que ele ficou ontem, até às onze horas da noite, ouvindo com o pai o cd de Elis Regina que eu lhe dei na quarta-feira. E que "o cd,titia, é fantástico: Elis cantando samba!"...
Ao desligar o telefone, tento buscar a menina de dez anos que fui, perdida do outro lado de uma linha que não existe mais. O que ela ainda sente? O que ela ainda gosta de ouvir? O que ela gostaria de ganhar neste Natal?
Ela não responde. Anda longe, e daqui só consigo ver uma árvore pequena que mãe armava todos os anos em cima da mesa, forrada com um pano bordado de sinos coloridos... Agora, nem um rastro de Papai Noel. Nem de um som natalino. Mas a menina está lá dentro, eu sei, insistente e pálida, aguardando.
Ao desligar o telefone, tento buscar a menina de dez anos que fui, perdida do outro lado de uma linha que não existe mais. O que ela ainda sente? O que ela ainda gosta de ouvir? O que ela gostaria de ganhar neste Natal?
Ela não responde. Anda longe, e daqui só consigo ver uma árvore pequena que mãe armava todos os anos em cima da mesa, forrada com um pano bordado de sinos coloridos... Agora, nem um rastro de Papai Noel. Nem de um som natalino. Mas a menina está lá dentro, eu sei, insistente e pálida, aguardando.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Prece de Natal
Há mais ou menos seis meses não escrevo um verso, um poema. A poesia me abandonou por uns tempos. Escrever poesia requer arrebatamento, alma em eterna suspensão... É mesmo a poesia que se escreve no poeta, como disse Octavio Paz. E ela me deixou por uns tempos, volto a dizer. Uns tempos longos, que são os tempos de se crer numa realidade que se impõe, que diz assim: olhe, estou aqui, me veja, existo mesmo, não sou alucinação. Nunca acreditei na realidade, desde criança prefiro o outro mundo, não esse de compras e pagamentos, de nota de dez reais e do trovejo que é carregar moedas, de sair querendo uma bolsa nova e um sapato novo. Desde criança construo meus próprios sapatos, e meus vestidos são do organdi mais fino, mais tênue, mais imperceptível... Ah, e uso chapéus antigos, de muitos séculos passados, todos eles costurados com agulhas invisíveis e dedos vagos. Não, não sou e não quero ser desse mundo. Não quero essa realidade. Essa mesma agora de ir ao Shopping Piedade e ter que me enternecer, morrer de pena daquele monte de papai noel debilóide dançando, pedindo a caridade de serem vistos e apreciados. Tenho horror a qualquer festa que não seja a do espírito que dança do outro lado do mundo... Olhem, vejam!, a festa é linda, tem igrejas e anjos barrocos, preces e sonhos loucos... desses que a gente só tem quando estamos soltos, leves, completamente mortos.
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