sábado, 31 de janeiro de 2009

Mais seis confissões


Todo mundo sabe quase tudo de mim, já que esse blogue é completamente confessional. Só que fiquei muito feliz com a indicação, e preciso dar seguimento ao selo.

1. Ler e escrever para mim não são só entretenimento; mas salvação.
2. Me considero solitária, mas gostaria de ter um milhão de amigos, por mais que isso soe piegas e inverossímil.
3. Tenho a maior dificuldade com máquinas. Hoje passei duas horas para fazer um depósito no caixa eletrônico. Pedi ajuda a estranhos.
4. O que me faz sentir que estou na vida são a literatura, meus livros e meus alunos.
5. Pai, mãe, minha irmã, meu sobrinho são meu mundo mágico, lúdico.
6. Desde criança assisto à novela das oito. Comecei com O astro.

Gosto demais de ler blogues. Por isso ficou difícil eleger. Optei por aqueles que são obrigatórios abrir, todos os dias, antes mesmo de tomar café.

www.continhosparacaodormir.blogspot.com (Maria Sampaio)
www.contosempre.zip.net (Carlos Barbosa)
www.embrulhonoestomago.blogspot.com (Viviane Costa)
www.enredosetramas.blogspot.com (Janaína Amado)
www.estranhamentos.zip.net (M.)
www.licuri.wordpress.com (Marcus Gusmão)
www.mariamuadie.blogspot.com (Marta Galrão)
www.mmeka.wordpress.com (Kátia Borges)
www.nilsonpedro.wordpress.com ("Blag", de Nilson Pedro)
www.nonleia.blogspot.com (Mayrant Gallo)
www.vestigiosdasenhoritab.blogspot.com (Renata Belmonte)
www.xeudizer.blogspot.com (Bernardo Guimarães)


Imagem: meme-selo. "Indicação" de M.(Estranhamentos) e Carlos Barbosa (contosempre).

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Noturno


EIS A MINHA ALMA


Eis a minha alma - nos últimos dias -,
Diante da fria intempérie do teu dorso.
Eis a minha alma - em curso, sozinha.

É o que te dou, o que te dei, tão minha:
A alma - terna, líquida, eterna, inquieta,
E a poesia: ávida pétala pendida, tão nua.



Imagem: "Lua da alma", por Sérgio Boeira.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

"O cocho" ou "Das maldades caridosas"


Depois de tantos anos posso dizer que minha irmã é minha grande memória. Ela está presente em todos os momentos de minha infância, e sem sua forte presença eu não teria o que contar.
Nunca tive muito chamego com a noite - sinônimo de insônia, solidão. Escutar gente roncando enquanto você olha para o telhado, não é lá coisa que preste. E eu adorava quando em algumas noites minha irmã, inspiradíssima, começava a me contar causos engraçados. A noite se espichava, graças a Deus, pra eu poder ouvir todas as histórias e dar mil gargalhadas. Como sempre fui crédula, ela explorava bastante essa minha característica e exagerava no que contava para que minha risada fosse pra valer. As risadas eram tão escandalosas que mãe e pai, do outro quarto, se incomodavam. Pai ameaçava, de cinco em cinco minutos:
- Meninas, parem, está tarde: eu vou aí.
Esse eu vou aí, ameaça que nunca se concretizou, jamais saiu de meus ouvidos. Tal frase ficou em suspensão no tempo como uma carícia, um sinal de ternura envolto na alegria trazida pelas histórias de minha irmã.
Lembro-me bem de uma noite, na qual ela extinguindo todo o seu arsenal de invenção, e dizendo que iria dormir, implorei, pelo amor de Deus, contasse mais um causo, por favor. Então ela puxou da cachola uma invencionice que lhe rendeu prejuízos.
Me contou, num tom conspiratório, que quando éramos crianças, enquanto eu dormia no meu berço toda confortável, ela dormia era num cocho. Perguntei imediatamente:
- O que é um cocho?
- Um cocho? Ah um cocho é aquele lugar onde os cavalos e bois bebem água.
Que dó de minha irmã! Nem consegui rir. Ela gostou da piedade e continuou:
- Pois é; enquanto mãe agasalhava você toda no berço, eu de lá do cocho recebia era a coberta nos peitos, que ela jogava: eu que me embrulhasse sozinha!
Fiquei horrorizada. E, como não conhecia um cocho, pedi pra que ela o descrevesse. No dia em que a gente viajar eu lhe mostro um, garantiu, com uma firmeza desconcertante.
Na primeira viagem feita em família, quando um cocho despontou no meio do mato ela me cutucou atrás, no carro, e falou baixinho: Olha o que é um cocho.
Quase morro de pena de minha irmã!
Não me contive, e fui tirar satisfações com mãe. Como é que tu fazia isso com a própria filha? Botava ela pra dormir num cocho? Mãe, perplexa: O quê?
Detalhei tudo; quando vi, mãe estava chorando. Chamou minha irmã e, entre soluços, lhe perguntou que história era aquela de cocho. Minha irmã, com a cara pra cima, não sabia o que dizer. E mãe chorava, lembrando todo cuidado que teve - igualzinho - com suas duas meninas. Foi um drama. A risada ficou perdida, e minha irmã foi se desculpar dizendo que, ao inventar aquela história, apenas queria me agradar porque eu estava sem sono e lhe implorara mais um causo.



Imagem: "Cocho vazio".(www.flickr.com)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Abismo e sonho


Ontem confessei a meus alunos algo muito precioso, imagem de minha infância: eu lendo Meu pé de laranja Lima e chorando muito com os sofrimentos de Zezé; logo depois relendo o mesmo livro e chorando muito; a seguir, lendo mais uma vez e chorando chorando chorando. É tal cena, brinquei com os alunos, a revelação de uma aptidão ao masoquismo? Não, claro que não. O que acontecia já era a movimentação da vida me gratificando com a literatura. Eu tinha nove anos, sabia dos desconcertos do mundo; e Zezé sofrendo estabelecia comigo uma cumplicidade, uma comunhão de destinos. Oh, não sou diferente, não estou sozinha: outra criança também sofre como eu. Por isso o apego ao livro, a repetição da leitura e do choro. A gratificação proveniente das páginas dos romances me fazia lúcida, mas me insuflava vida; pois ver quase "tudo" não significa parar de sonhar.
A gratificação que a literatura traz tem um preço alto: o preço do mergulho na vida, conseqüentemente na dor. Há uma edificação aí, um ganho, uma perda, um soluço, um alívio, uma alegria. Há o grande e sofrido prazer, como diria Harold Bloom em seu desperto delírio. Sofre-se e é feliz, algo que parece contraditório, mas que leitores reincidentes entendem. A literatura nos dá a visão, a vivência, a possibilidade de entrarmos no mistério: largueza de abismo e sonho.


Imagem: "Drama e mistério". Por Miguel Angel Avi.(www.flickr.com)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sobre a arte do abandono


Realmente é uma experiência virtual triste: você bate na porta de um e-amigo (como diz Marcus) e dá de cara com o mudou-se, ou foi embora mesmo. Pensei que minha irmã tivesse superado a crise de não terminar o que inicia, de não dar aviamento, de deixar as coisas pelo meio do caminho. Na infância eram os brinquedos: arrumava-os pra brincar e depois de alguns minutos desistia e deixava-os onde estavam, ou seja, no meio da sala. Depois mocinha aprendeu a fazer crochê: começava um pano e não acabava - a moleza dava no couro e ela adiava pra quando Deus fosse servido. Adulta, comprava mil e um livros para fazer um determinado concurso, começava a estudar no maior fôlego para no terceiro dia abandonar tudo. Instigada por mim começou a fazer terapia; na quarta sessão não voltou mais. Disse que não gosta de nada que se torna obrigação. Acabou o blogue por que os colegas de trabalho todo dia cobravam texto novo. Aí ela pensou: Vão ver texto novo é agora: nada! E plac, apagou tudo. Fiquei choramingando "Puxa menina, seu blogue..."; e ela "Que mané blogue!"


Imagem: "Abandono". In: www.flickr.com

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Como publicar um livro


Aproveitando o assunto do post anterior, me questiono: o que fazer para publicar um livro? É a pergunta que sempre morou em mim, desde os doze anos, ao começar a escrever. A resposta é complicadíssima. Aqui em Salvador pode se tornar simples se você tiver duas coisas: dinheiro e/ou amigos influentes. Se você tiver dinheiro, você publica seu livro em uma semana no mais tardar. E se tiver amigos, um grupo que lhe indique a um editor fechado, aí então você está na crista da onda, ou melhor, na crista da publicação. Caso não tenha nem um nem outro (nem dinheiro nem amigos influentes), a opção é escrever em blogues. Quem não tem computador, pode optar por lan house, pegar trinta minutos, pagar um real e escrever CORRENDO seu poema, ou seu conto, ou qualquer coisa.
Ah, havia me esquecido dos editais de cultura, dos prêmios literários. Nessa cidade tem, entre outros, o Braskem; mas se você já publicou um livro, mesmo que tenha sido publicaçãozinha doméstica, já era. Pode guardar seus sonhos na gaveta porque eles querem autores i-né-di-tos. Outro prêmio é aquele conhecido, do Banco Capital. Já participei dele duas vezes pra depois ficar sabendo que tive perto de ganhar, mas não ganhei. Recebi até carta de consolação. Depois dessas duas vezes nunca mais quis brincar nesse jogo. Lá eu quero saber de chegar perto de novo e não ganhar?
Então, e agora? Graças a Deus não li um livro que corria lá em casa, da estante ao tonel verde (conhecido como "cemitério de livros"), chamado "Como fazer amigos e influenciar pessoas". Desde pequena nunca quis saber disso: influenciar pessoas? Para quê? Para conseguir publicar um livro?
A coisa complica mais ainda se o livro que você tem na gaveta é de poesia. Porque se é um romance, ou livro de contos, você pode mandar para uma editora conhecida e... Claro, é possível. Mas poesia... "Poesia não sai", falaria qualquer livreiro, nem digo editor.
Oh, deve haver um santo dos "poetas bissextos em publicação". Deve haver.

Imagem: www.flickr.com

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Os amarelinhos


A alegria de enxergar seu nome impresso numa capa de livro pela primeira vez é algo para nunca esquecer. Principalmente quando temos vinte e dois anos. Recebi pelo correio e quando abri o pacote foi uma coisa extraordinária, virei criança. Era uma manhã de sábado, e saí pulando pelas ruas, tal qual Clarice, quando menina, pelas pontes do Recife. A capa toda amarela..., e a amiga que a desenhou logo batizou os mil exemplares, que eu iria receber pelo correio, de "os amarelinhos da rayovac". Era promessa de livro pra não acabar nunca mais. Poderia fazer lançamento na região toda, por trezentos anos seguidos, e os livros não acabariam. Como de fato ainda não acabaram, e não acabarão.
Toda semana chegava uma leva que, coitado de pai, tinha de pagar para sair do correio. Assim que eu ia lá e retirava uma caixa, já recebia o aviso de outras chegando. Mãe não agüentava mais, dizia que aquele monte de caixa dentro de casa só iria atrair escorpião. Minha irmã ria com aquele aluvião de amarelinhos, invadindo quartos, despensa, banheiro, sótão, etc. E dinheiro que é bom - com a saída dos ditos cujos para mãos de leitores pagantes -, nada.
Foi aí que eu descobri como é esse negócio mesmo de publicar livros. É uma felicidade intensa e solitária. Mas é uma felicidade, e intensa. Que importa se não compraram todos os mil exemplares (oh, que audácia)! Que importa se os vendi para quem nem os abriu! Que importa se eles continuam dormindo no mais fatigante silêncio... Que importa! E que importa se fiquei viciada, querendo mais e mais mil exemplares, e guardando mais e mais caixas? Que importa?
Ah, mesmo que um livro nunca seja lido, nunca seja aberto, nunca tenha sido tocado, a sua existência enquanto forma, materialização, já vale toda uma vida humana.


Imagem: "os menores livros do mundo", por Emir Filho.(www.flickr.com)