segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Amanhã, um grande momento




Conheço essa menina linda há muitos anos, pois que fui sua vizinha em 1958, no Chame Chame. Não sei se ela se lembra de mim desse tempo, quando eu ficava espiando de longe seus belos vestidos, costurados com tanta delicadeza por sua mãe. E depois retratada com tanto, mas tanto amor, por seu pai. Lembro-me que brincávamos juntas, de muitas brincadeiras, como boca de forno, cozinhado, pula-corda. E eu, que sempre tive medo de cães, aprendi com ela a amá-los.
Eis que se passaram anos, e um dia ela me achou na blogosfera. Foi no São João do ano passado. Amizade reencontrada, maravilhosa, que me rendeu outras. Com ela vieram Bernardo, Janaína, Judith, Edu, e muitos muitos outros seres desse mundo, inigualáveis. Com ela vieram para minha vida, como presentes que nunca findam, sua fotografia e sua literatura.

O rapaz bonito, também aí em cima, chama-se Nílson, e eu o conheci há um ano. Detectei a beleza de sua alma num dos posts mais corajosos que escrevi. Claro, porque a beleza precisa ser dita, proclamada a todos os ventos, sem nenhum pudor. Tal beleza nasce da conjunção do poeta e do homem que o habita. Tanta humanidade só pode resultar em poesia. É um dos mais completos poetas que conheço.

Essas duas pessoas lindas se encontrarão, amanhã, no Tom do Saber, autografando seus livros, para minha felicidade. Estarei lá, vestida a la década de 50, na fila de autógrafos. O convite está anexado: vamos juntos?



*Não aprendi ainda a colar imagens. Era para todas ficaram lado a lado. Não acertei fazer tão difícil coisa.
Foto de Nílson: Maria Sampaio.
Foto de Maria Sampaio: Mirabeau Sampaio, 1958.

domingo, 30 de agosto de 2009

Amor


Desde a quinta-feira vivo num transe, no qual nem sei como lidar direito. Desde a quinta-feira tenho recebido amor, mas muito amor mesmo. Claro, sempre recebo amor, mas dessa vez a dose tem sido muita, coisa de assombrar. Não sei o que houve no mundo nos últimos dias, qual a energia que ronda o último sol e a última lua; se os anjos resolveram se manifestar, com suas asas nas costas, feito querubins arrebatados; se Deus resolveu perdoar, para sempre, todos os pecados da humanidade. Ou se eu, finalmente, encontrei sintonia com as brisas do mar. Pois que desde a quinta-feira, por ando passo, vou recolhendo presentes: olhares de ternura, abraços intensos, rosas vermelhas, bombons de chocolate, cartões com palavras doces, e uma promessa, ah uma promessa de maciez e tranquilidade. O amor é isso mesmo? Essa coisa malemolente, semelhante a corpo balançando na rede depois do almoço? Essa vontade de ser mãe do mundo? É, levar o mundo pra casa, dar-lhe de presente todos os livros de poesia, afagar-lhe os cabelos longos... Ah, meus amados alunos, como agradecer-lhes a doação dessa coisa viva, pulsante, que traz água nos olhos e sentimento de felicidade? Ah, queridos amigos, como devolver-lhes o carinho da companhia agradável, driblando todos os tédios da existência? O que apenas posso dizer agora, diante dessa embriaguez, é que o amor faz com que a minha alma se parta, desapegada, em mil pedaços, voando sem endereço certo...



Imagem: cartão-de-flores, homenagem de meus alunos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

se você deixar


Você tem jeito de homem da roça, trabalhador de enxada, sertanejo dos bons. Pouca fala, muito o que fazer. Pôr um cigarro de palha na ponta de sua boca e esperar a baforada seria algo por demais maravilhoso. Pegar você e colocar num banco, sentado na porta, que epifania! O melhor de tudo é sua singularidade: você não é estereotipado - nada pior do que sertanejo estereotipado, desses que a gente vê em certos teatros. Você é o que é, homem largado no mundo, sem se importar com as rugas no rosto nem com os botões da camisa. Personagem do velho Graça, paisagem transformada em gente. Ora árvore ressequida, galhos secos decorando a tarde mais triste, ora riacho fremente, devastadora cheia esverdeando tudo. Deve ser muito boa a sua companhia, para o resto dos tempos. Se você deixar, ficarei aqui, todos os dias, lhe olhando em silêncio, como quem escuta água em beira de rio.



Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Uma saída


Aprendi com o ex-macaco kafkiano que não existe por que sonhar com liberdade, mas apenas com uma saída. É preciso encontrar uma saída. Dentro da jaula, embalada para o circo de variedades, preciso encontrar uma saída, e por aqui mesmo. Batendo com minha cara no caixote. É preciso que eu me curve, minhas costas doem, meu pescoço tem um nó bem naquele lugar perto da coluna, chamado vulgarmente por minha irmã de cupim de boi. Eta nó desgraçado de grande e dolorido. É preciso que eu me desentorte, fique em pé com as mãos na cintura, buscando quem sabe o sonho de ser bailarina; mas o lugar é limitado para minha altura, ficar em pé nem pensar, mesmo eu medindo um metro e cinquenta e dois.
A saída que preciso buscar não pode ser a mesma do macaco kafkiano. Não quero imitá-lo, nem aos homens nem às mulheres que vêm à jaula observar meu sofrimento. Busco outra saída, e passo ao largo das imitações. Não quero outra condição humana, quero continuar sendo eu, mesmo dentro dessa morada apertada, com as costas lavadas de suor, as pernas agachadas, e a corcunda feito um morro. Quero, a todo custo, preservar minha sensualidade dessa limitação de estar em muito menos de um metro quadrado de cubículo. A sorte é que guardei minha cara do espetáculo público: joguei nela uma máscara qualquer, desenhada a bico de pena por um desenhistazinho que chegou um dia para me ver. Condoído daquela minha exposição ao sol e ao vento, ao riso e ao escárnio, desenhou num papel, e depois cortou, o rosto de uma atriz. Não a conheço. É melhor assim. E a primeira das saídas talvez seja mesmo esta: ninguém imaginar o que há por trás desse meu outro rosto.



Imagem: "saída", por eduhhz.
(www.flickr.com)

nonsense


Qual é o segredo mesmo? Meu coração bate, espreita o seu, em vigília permanente. De sua casa saem pai, mãe, minha avó, e entram numa caminhonete. Chego de madrugada, a lua cai sobre uma kombi verde, estacionada na porta, indo sozinha, silenciosa e triste. Dentro dela um, de seus onze filhos, dirige para trás. Toco a campainha, vejo que você toma banho, o chuveiro forte ressoa cá fora. Toco a campainha. Duas mulheres, à maneira de porteiro, vigiam a porta. A casa está cheia: muitos parentes você tem, talvez agregados, casa pobre, você lá dentro, tomando banho. Isso é o que elas dizem, mulheres de lábios grossos, perguntando o que quero com você. Com medo do julgamento, digo a coisa mais inocente, mais pueril. E para que me deixem entrar, pergunto por sua mulher. E eu, que pensava que finalmente sua mulher tindo ido embora, vejo - mostrada por elas - sua mulher lá fora, no jardim repleto de cadeiras de igreja, inclusive sentada numa, me vigiando também. O mundo em vigília, e você ainda não apareceu, o banheiro lhe esconde. É feriado, 24 de dezembro. Já tirei muitos alfinetes do chão, depois que lhe vi abraçando a filha da amante que foi de meu pai. Ela lhe abraçou, me atacando de um passado herdado de graça, sem nenhuma dor. Mas você veio ao meu encontro, e me abraçou também. E ela vigiando, de perto, o álbum de retratos que você me mostrava. Depois mãe e pai e minha irmã se deitaram naquele chão, naquele chão, cheio de alfinetes. Era feriado. Eu voltava para casa, e vi que estava no meio da rua apenas com as roupas de baixo, e fiquei morrendo de vergonha de minhas gordurinhas que precisavam se esconder num vestido, enquanto me lembrei que deveria ter pedido à mãe aquele xale que ela levava nos ombros enquanto dormia na sala de alfinetes. Voltei então, voltei à sua casa. O chuveiro forte ressoava na porta. Duas mulheres de lábios grossos vigiavam. Qual o segredo, meu Deus?, qual o segredo? Meu sonho não mostra. Ele quer apenas sua cabeça no meu colo, seus cabelos sob meus dedos, assim que você sair do chuveiro.



Imagem: "about my admiration for alejandro jodorowski II", por sternenrauscher.
(www.flickr.com)

domingo, 23 de agosto de 2009

brincando com Deus


O domingo serve para mostrar o quanto a vida é besta. Besta, bestíssima. E isso não é um lamento. É uma constatação. O domingo serve para jogar no meu estômago uma bola de meia, daquelas de antigamente, dos baleados no meio da rua. Só que essa bola de meia está vazia, não tem meia dentro. É oca, inteiramente, e por isso o meu estômago dói mais. A bola bate e volta, bate e volta, bate e volta.
Fico prostrada nessa brincadeira boba, sem forças para sair dela.
Sinto vontades de chamar Deus, brincalhão nato, que acha graça dessas vidas abestalhadas, sem rumo nem missão.
Implorar-lhe tirar esse domingo de minha frente, essa bola de meia oca.
Mas ele faz melhor. Rindo de se acabar, joga de lá pra cá uma bola maior, de futebol.



Imagem: "Ressonância existencial", Por Beccari Arts.
(www.flickr.com)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Diante da lei


Como dois seres diante da lei, te espero em casa. Escolhi, de muito bom grado, uma calcinha vermelha, um sutiã vermelho, e um lindo, lindo vestido vermelho. A lei nos espera, como quem tem hora marcada; por trás dos telhados, dentro das portas dos sanitários, nos buracos das fechaduras: a lei nos olha. Que importa? Diante da lei seremos mortos? Que importa? Importa é que toques no ponto mais erótico de minha alma, e o resto que se dane. Se quiseres, matarei o primeiro porteiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, até chegar ao grande soberano. É justo chegar até ele. Chegaremos juntos, se quiseres. Se não, me espere, até que eu, sozinha, mate todos eles. Não restará vestígios de qualquer delito, pois que diante da lei não se pode ser ingênuo. Guardarei minhas inocências sob o tapete do soberano, empurrando-as, uma a uma, para fora do mundo. Estarei frente a frente com ele, num espelho. Calma, me espere em casa. Estarei indo, de vermelho.



Imagem: "amarelo sob vermelho", galeria de orxeira.
(www.flickr.com)