
É em mais uma noite de sábado como essa que, ao invés de ir deitar e descansar esse corpo velho, insisto em dedilhar teclas. Para quê? Me pergunto com ferocidade, como quem rasga a roupa nos dentes. Para quê? Quem está aí do outro lado? Está me escutando? Lembrei que mãe conversava com a vizinha pela parede. As casas do interior têm uma intimidade desconcertante: são parede-e-meia. Quer dizer, tudo se ouve, e se tudo se ouve tudo se vê. Pois bem, mãe na cozinha batia altos papos com Dona Nena. Para que telefone? Nem precisavam falar alto. Conversavam normal, como se estivessem uma em frente à outra sem parede de permeio. Acredito em parede-e-meia no mundo internético, por isso desisto de ir dormir e converso com você. Digo que a coluna está um caco: parece que vai quebrar. Já viu conversa mais comezinha? É dessa que preciso. Deixemos pra falar do livro de poesia numa outra noite; nesta eu quero falar de coisas outras, bestas, dar umas risadas, falar da vida alheia com graça, rir, rir. Saudades, amigo, de nossas conversas. Rir do universo sem pensar que estou sendo politicamente incorreta. Rir de mim, da parentalha, falar que raimundinho está na área e eu com medo dele. Está me ouvindo aí do outro lado? Se está vai se lembrar quem é raimundinho. Já conversei com você sobre ele; se não se lembrar coloque a palavra na busca aí em cima e você acha. Você vai rir, tenho certeza, pois que a rima drummondiana que meu primo carrega é mesmo sem solução. Sabe do que estou falando? É tão boa essa empatia. Saudade de sentir sua risada alta, o hálito bem perto, presença corporificada no universo. Vamos parar com essa rima? Não quero que isso aqui ganhe conotação poética, literária. Quero o retrato de nossas conversas o mais despojado possível, o mesmo de mãe conversando com Dona Nena pela parede da cozinha. Elas falavam coisas corriqueiras, como tempero de comida, comentavam sobre alguém que estava no rio lavando roupa, sei lá, coisas sem envergadura filosófica. É disso que preciso hoje, nesse sábado altamente profundo que me carrega.
Imagem: "com a noite de sábado". In: www.google.com.br



