Casimiro de Abreu é a cara de pai. Este fazia um tom melódico, quase cantando em falsete, para declamar com muita solenidade: Oh que saudades que tenho/ da aurora da minha vida/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais. Repetia esse trecho sempre, sempre, como se fosse a primeira vez. E ria no finalzinho com uma emoção inteira. Na encenação desse rotineiro poema era de sua alma que ele dizia, era de sua infância, do menino que ele foi com o seu sonho megalomaníaco de comer um quilo de açúcar. Menino obstinado que trabalhou duro na roça plantando mamona, vendendo, e indo, finalmente, à venda próxima, comprar o seu quilão de açúcar. Menino obstinado em busca do mistério da realização: foi correndo pro fundo do quintal, no mais escondido da sombra de uma árvore, e lá se pôs à feliz e triste tarefa de finalmente comer o sonho. No terceiro punhado, com a mão cheia do que é mais doce no mundo, começou a ver tudo rodar; a seguir o vômito saiu forte - talvez como alerta para tantas outras ambições futuras, muito mais doces e perigosas. Ora, comer um quilo de açúcar, engolir a doçura ao quilo é ambição por demais temerária, terna, embriagada, enjoativa.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
um quilo de açúcar
Casimiro de Abreu é a cara de pai. Este fazia um tom melódico, quase cantando em falsete, para declamar com muita solenidade: Oh que saudades que tenho/ da aurora da minha vida/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais. Repetia esse trecho sempre, sempre, como se fosse a primeira vez. E ria no finalzinho com uma emoção inteira. Na encenação desse rotineiro poema era de sua alma que ele dizia, era de sua infância, do menino que ele foi com o seu sonho megalomaníaco de comer um quilo de açúcar. Menino obstinado que trabalhou duro na roça plantando mamona, vendendo, e indo, finalmente, à venda próxima, comprar o seu quilão de açúcar. Menino obstinado em busca do mistério da realização: foi correndo pro fundo do quintal, no mais escondido da sombra de uma árvore, e lá se pôs à feliz e triste tarefa de finalmente comer o sonho. No terceiro punhado, com a mão cheia do que é mais doce no mundo, começou a ver tudo rodar; a seguir o vômito saiu forte - talvez como alerta para tantas outras ambições futuras, muito mais doces e perigosas. Ora, comer um quilo de açúcar, engolir a doçura ao quilo é ambição por demais temerária, terna, embriagada, enjoativa.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
sobre Clarice e os calmantes
Estou lendo a biografia de Clarice escrita por Benjamin Moser. Desde ontem. E prestes a acabar. São setecentas e poucas páginas. Ando a engolir o livro. Vendo defeitos, mas gostando demais, sem conseguir largar. Tive que o deixar para ir dar aula, mas voltando para casa sei que não irei dormir enquanto não terminá-lo. É Clarice, a sempre Clarice, demoníaca, bruxa de minha vida, que tanto amo e tanto odeio. Já escrevi aqui sobre isso: sobre esse complexo sentimento que me une a ela. Nós duas, oh, nós duas, como somos parecidas. Ambas têm insônia, ambas tomam remédio para dormir, ambas são ansiosas, ambas se dividem entre o animal e o polido. Por isso a tentação grande que tive no passado de imitá-la; por isso a contínua imitação inconsciente, pois que há traços de sua escrita na minha percepção de mundo. Por isso esse agudo desespero de viver e não viver. Não tenho dela a genialidade, a beleza, a vaidade. Não tenho dela quase nada, só esse feitiço, essa coisa de perseguição. Quando me livrarei dessa mulher? Como destituí-la de ser o tal monstro sagrado? Afinal alguns textos seus não sobrevivem mais à minha leitura. Fico com raiva de alguns livros dela, tanta raiva. De outros, levo um susto. Como naquele em que ela fala dos comprimidinhos para dormir, os calmantes: nele estou eu, euzinha, devoradora de sonhos artificiais, gritando sem ouvir o próprio grito:
"Ah, disse ela com simplicidade, é assim: vamos dizer que uma pessoa estivesse gritando e então a outra pessoa punha um travesseiro na boca da outra para não se ouvir o grito. Pois quando eu tomo calmante, eu não ouço o meu grito, sei que estou gritando mas não ouço, é assim, disse ela ajeitando a saia." (In: "A maçã no escuro")
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Penélope às avessas
Mas será que na intimidade tiramos verdadeiramente a roupa? Os namorados e os psicanalistas nunca terão a resposta fidedigna. Eles são capazes de garantir terem visto nossa nudez, mas o que viram foi o nosso grande manto; o manto transparente. Usamos essa indumentária para os íntimos; e, para os estranhos, usamos a roupa mais impermeável. Esse manto transparente é feito de tecido iluminado, por isso tanto engana. Ele tem bordados delicados nas pontas, ele parece sagrado. Nosso corpo se delineia perfeito dentro dele; e nosso espírito, ali bem acalentado, se desenrola etéreo e farto. Os namorados e os psicanalistas dão garantia do que vêem: a possível nudez. Mas só nós sabemos das perspicácias desse manto, só nós. Pois que o costuramos, bordando-o noite a noite na escuridão dos abismos, feito Penélope às avessas, à espera inconciliável de nós mesmas.
Imagem: "Mulher em azul transparente". In: www.google.com.br
terça-feira, 23 de agosto de 2011
meditação da terça-feira
Não sei distinguir o que é verdadeiro ou falso, o que é real e o que é simulacro; na verdade acho que tudo é encenação. Encenamos e não nos damos conta. E tem muita coisa de moda nisso aí. Quem não quer morrer aos vinte levante a mão. Virou clichê o suicídio, querer morrer para descansar de vez. Tudo é uma repetição exaustiva, a própria dor, o próprio esvaziamento, tudo é tédio, isso sim. O ser humano é um carrossel de imbecilidade, ainda mais por apostar numa autenticidade do "si mesmo". Tudo o que sentimos (ou acreditamos sentir) já foi sentido, e já foi dito, e repetimos nossos pais e avós em sensações e coisas realizadas. O inconsciente coletivo é um grande abismo de símbolos gregários. Por isso talvez não se distingue o que existe e o que é criado, o que é criado e o que existe. O que existe? Tente ao menos uma vez sentar-se na pedra mais alta do mundo e olhar lá embaixo: são mortos ou vivos que caminham pelas ruas? Quem sabe? O que sabemos, de fato? Essas perguntas também não se salvam do lugar comum, do clichê, e parece que não há saída não.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
das coisas raras
É difícil continuar a viver, digo isso, e não é a primeira vez que digo; por aqui são mais de mil palavras como essa. Na minha inocência estúpida, gostaria de ser amada, mas amor não há. Todos estão ocupados. Os braços tolhidos, aleijados, pela plena convicção de que essa é a melhor verdade. Todos estão na sua, como eu diria se fosse jovem. Não sou mais. E nessa idade em que cheguei não há mais vontade para contendas, só para descanso. Quero apenas descansar meu corpo; acordar com cheiro de chocolate na cozinha, um rangido de porta que abre, uma mão tocando meu ombro sob o edredom largo.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
assanharol
Sempre prefiro lembrar o que fui: menina da roça, com medo de homem fardado. Esse medo continua, essa menina é insistente. Fico tremendo de medo ao ver um soldado com aquele revolvão na cintura. A menina que continuo sendo é fidelíssima. Nunca usará um rímel, que Deus lhe guarde. Nunca usará um blush, que Deus lhe proteja. Nunca usará salto alto de bico fino, que Deus é misericordioso. Jamais fará a tal chapinha, jamais quer ter cabelo liso, jamais quer viver em salão de beleza. A menina que continuo sendo é preguiçosa dessas coisas, e prefere o assanharol no cabelo, dá menos trabalho, é mais leve, é melhor. Essa menina não se esquece do dia em que foi compor, como professora convidada, uma banca de defesa de mestrado. Ela chegou cedo, e ficou por ali esperando a porta abrir. Só que ela teve sede, e foi pedir à servente um copo d'água. A servente lhe tratou mal, e disse que só tinha água de torneira. Depois, mais tarde, a servente foi se desculpar, pois pensou tratar-se de uma estudante. Nesse dia a menina regozijou-se pela descoberta incomum de não pertencer àquela tribo. Livre, solta no milharal, selvagem como sempre foi.
Imagem: litoral do Piauí.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
FALSETE
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