terça-feira, 15 de abril de 2008

Balas de mel

Tem dias assim que não são para viver. São para escrever, para lembrar, para ler, para olhar a tarde morrer. Nunca me esqueci do gosto da primeira bala de mel que chupei: o mel do finzinho da bala era o prêmio: desceu grosso pela minha garganta que pouco conhecia muitos sabores. Lembro que era uma bala partida ao meio: um pedaço para mim, outro para minha irmã. Nem foi por questões de economia, foi por questões de bizarrices de mãe mesmo. Desde cedo, pois, tento aprender a viver pela metade, o que não é coisa que preste para ninguém. Sempre dividi com minha irmã muitas coisas: quarto, atenção, amigos, sorrisos, carinhos. Nesse meio a meio a sabida de minha irmã saiu ganhando, claro. Na hora de dividir nunca consigo tirar um taco maior, nem que seja por displicência. (Leva-se em conta aqui a questão de que jamais há a possibilidade de se dividir algo de igual para igual. Então, quem for sabido que vá lá e tire nem que seja uma lasquinha de vantagem.) Sempre fui lerda para isso; às vezes tirava o taco menor, por pura vontade de não ser vista. E assim pela vida vou andando: dividindo, dividindo e diminuindo...
Numa coisa mãe foi sábia: nunca deixou dividirmos os mesmos livros da escola. Ela dizia que livros de escola não se dividia: cada uma com o seu. Ah, que delícia poder ter meus livros! Acho que nasceu daí o gosto pela exclusividade... que levei vida afora misturado ao gosto contrariado pela divisão.
Para os politicamente corretos volto a dizer: não quero mais dividir, principalmente bala de mel. Quero uma só para mim. E que o gosto grosso do mel desça inteiro pela minha garganta, e que eu saboreie infinitamente o prêmio da exclusividade. O mesmo que fez com que eu nascesse.
A CADA SUSTO

A menina tinha um vestido curto
E um amigo morto: o ausente absoluto.
Nas manhãs ela acordava, e lá estava ele
Atrás do muro; e, ao anoitecer, solto no quarto.

Solto no quarto, a irromper outros mortos
Da sacola de talismãs, gritando alto
Coisas que só os adultos poderiam ouvir.
Mas a menina suspeitava; e se aliviava a cada susto.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O lado fatal

"O lado fatal": este é o livro de poesia que Lya Luft escreveu para Hélio Pellegrino, seu grande amor, logo após sua morte, depois de viverem apenas três anos juntos. Ler um livro desses como a narrativa do amor e da perda, faz a gente, do lado de cá, sentir a mesma coisa...
Dar adeus sempre dói... perdemos fatalmente um lado de nós.

"O meu amado era velho e moço
ríspido e cândido
apaixonado e solitário
e compreendeu minha atormentada alma como ninguém.

Achava graça em mim algumas vezes.
Mas quando eu lhe dizia sentir medo sem razão
no meio da noite
(com certeza antecipando a separação que sobrevinha)
ele me abraçava calado e sombrio, dizendo:
"É para se ter medo mesmo."

Não pronunciávamos então a palavra temida
que talvez nos espreitasse nos cantos do quarto.
Só nessas ocasiões ele não me explicava nada."


(IN: LUFT, Lya. O lado fatal. Rio de Janeiro: Rocco: 1989, p. 67.)

sábado, 12 de abril de 2008

Aos doze anos

Aos doze anos comecei a entrar no "universo da poesia". Ops!, primeiro entrei no "universo das quadrinhas". Vivia a procurar rimas. Na hora de dormir, perguntava insistentemente à minha irmã qual a rima que ela conhecia para tal e tal palavra. Resultado: no outro dia, quadrinha... para "meu time O Bahia", para os colegas, para os professores, para minha rua, para minha cidade, etc, etc, etc... Lembro muito bem quando descobri a maravilha que era escrever a palavra "constância". Vivia a colocá-la nos versos, sem nenhum pudor da repetição. Era num caderno grosso, meu Deus (imitando aqui Clarice), que eu escrevia tanta bobagem. Na primeira página: "Minhas primeiras poesias". Do lado esquerdo a imagem enorme de uma baiana vendendo acarajé. Até hoje me pergunto por que tal imagem; eu que sempre estive tão longe do acarajé e tão mais perto do godó. Sei lá, vá entender a cabeça de uma menina de doze anos. Sei que o caderno durou muito, já que era tão grosso e pretensioso. E famoso (que me perdoem a rima inoportuna), pois todo mundo na cidade falava dele. Além de muitas pessoas me encomendarem poemas, queriam lê-lo. Pai ficava cheio de orgulho e alarmava para todos a maravilhosa vocação da filha. Só que eu não lhe mostrava os poemas de amor: só deixava ele ler as quadrinhas inocentes.
Foi num domingo à noite. Não tive escapatória. Depois de ele insistir uns três meses para ler o caderno inteiro, à sós, como sempre gostava de ler: antes de dormir, não encontrei mais desculpas. E assim como lia todos os cadernos do jornal, nesse domingo ele leu, até altas horas da madrugada, meu caderno de poesia inteirinho... Do quarto eu ouvia, com o coração batendo forte, o som de seus dedos passando as folhas...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Parabéns, amiga!

Em homenagem à aniversariante do dia 09 de abril:
Esse lindo e comovente poema de Mônica Menezes...
(Desculpe, amiga, mas essa máquina terrestre desarrumou os teus versos... e eu não consegui colocá-los na ordem original...)

Quando dos teus sessenta anos

Hoje, quando completaria sessenta anos, meu pai,
eu te dou as minhas mãos
e tocarei por ti o vermelho solo que amava
Dou-lhe também os meus olhos
e espiarei por ti as águas turvas do rio que tantas vezes inundou a nossa estrada

Meu pai, serão tuas hoje as minhas pernas e pés
e caminharei por ti pelos longos caminhos da nossa terra para sempre perdida
e subirei no alto da Pedreira
e de lá avistarei a nossa casa amarela com suas seis crianças brincando nos
galhos da mangueira

Hoje, serás tua a minha boca, meu pai,
e beberei por ti todo o vinho
e devorarei toda a fruta

e sorrirei despudorada aquele teu sorriso largo
e me embriagarei de vida e de morte e de vida e de morte
e de vida

Hoje, no dia em que completaria sessenta anos, meu pai,
eu repetirei teu nome
e me consagrarei tua herdeira
carne da tua carne
sangue do teu sangue
Humana e louca serei
como sempre fostes, meu pai,
Para sempre tua filha


Mônica Menezes

24.02.2008

sábado, 5 de abril de 2008

Voltando a voar

"Venho do ar, da multiplicação de sombras,
cheiros se cruzando".


Ah se eu tivesse escrito versos assim... Tais versos são de meu "aero-amigo" Murilo Mendes, ser que freqüento hoje, para que eu possa ganhar um pedaço de nuvem do céu. E ele diz, bem baixinho no meu ouvido...

"(...) Há qualquer
coisa esperando no ar, pressentimento de outras
distâncias, realidades paralelas a esta,
espíritos puros nascendo, o amor
aproximando as formas."


... Só a poesia dá sopro à minha aeronave. E Murilo Mendes brinca com ela na janela do meu quarto me chamando para voar. E rindo seu riso transcendente recita para mim, mais uma vez, o início de seu tão conhecido "Mapa", para que eu também ria, quem sabe...

"Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação."


Corta todo o poema... e quase recita o final...

"(...) Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar, (...)"


... Vejo-o dentro da aeronave. Ele me dá a mão e eu entro. Ele vai dirigir. Quando subimos, ouço-o declamar, em tom confessional, dentro de uma nuvem...

"Me casei com a minha mulher
e com todo o passado dela.
Sou pai dos meus filhos,
do filho que ela teve com o amante antigo
e dos filhos que eu já vejo andando no ar."


... Trocamos versos confessionais, rimos, enquanto um vento fresquinho nos põe dentro de outra nuvem... Ah, Murilo, você é uma excelente companhia para voar...

terça-feira, 1 de abril de 2008

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Fiquei dois dias assistindo ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Nesses dois dias vivi no preto e branco das roupas do sertão esturricado de Monte Santo. Queria, assim como aquele povo, que o sertão virasse mar. Delirei em círculos com o beijo de Rosa e Corisco ao som da Bachiana número 5 de Villa-Lobos. Cantei o cordel, ora lento, ora triste, ora movimentado, ora trágico, na voz do cantador-narrador. Segui a estória até o fim, e depois voltei ao início. Várias vezes. De novo Rosa, de novo Manuel, de novo Deus, de novo o Diabo. Os monólogos teatrais de Othon Bastos, na pele de Corisco, são um espetáculo para ser ver sozinho, no escuro. Para que o coração sinta, com mais força. Ah, e a ambigüidade de Antônio das Mortes, o matador de cangaceiro! O remorso no homem que não tinha "santo padroeiro" é para se ver várias vezes através do olhar misterioso de Maurício do Valle. Além da lucidez, serenidade e força das personagens Rosa e Dadá... Filme espetáculo, rosiano, doce, terrível...
E no final encontramos o mar... Encontrando também, nas entrelinhas da genialidade glauberiana, a unidade na complexidade daquilo que chamamos Deus e Diabo. Que chamamos Homem.