
Ontem, aproveitando uma brisa inconstante que passava, grudei na primeira nuvem fofa e voltei. Cheguei hoje, manhã cedinho. Dormi, depois fui direto à LDM. Também com o coração aos pulos. Desde a entrada da livraria, aos vendedores, aos livros, tudo parecia conspirar uma felicidade clandestina, uma cumplicidade de mistérios. Ali estava o livro que Bernardo deixou pra mim. Cadê Edilson? Um vendedor vermelhinho (vermelho é a cor da farda deles) foi logo dizendo que Edilson tinha ido almoçar e só voltava às três da tarde. Pensei: tudo pra mim é complicado... Teria que agüentar minha expectativa e esperar. Livraria é algo extremamente perigoso: como não sei roubar, o jeito é pagar os livros que me chamam das estantes, me endividando. Resolvi sentar lá nos fundos, com um livro no colo, para esperar o homem. O homem que conhece duas pessoas que não se conhecem: o homem que sabe dos mistérios: Edilson. Engraçado, nunca Edilson foi tão importante pra mim; tenho a cara de pau de dizer que gosto de Edilson porque ele é o facilitador de minhas compras: sempre me dá vinte por cento de desconto. Hoje ele era um rei esperado. E amado. E o pior é que demorou pra chegar. Quando eu já embalava nas páginas do livro (Clarice diz que é preciso a gente viver distraído para que as coisas aconteçam) não é que vem de lá Edilson (estava era bonito hoje!) e me chama? Professora, aqui sua encomenda. Me entregou um envelope branco, cor das nuvens leves. Entregou e saiu com pressa, mal deu tempo de eu perguntar como foi o sucedido. Abri logo o envelope e vi um livro lindo, lindo. Edição primorosa. Capa belíssima de Maria Sampaio. Fui direto à primeira página. Nela, uma letra sensível e elegante dizia assim: "Amiga secreta Aeronauta: Para ler nas nuvens, onde são guardados todos os segredos. Que nosso mistério permaneça. Um grande abraço de Bernardo. 17.10.08." Como sou viciada em analisar discursos, percebi que ele sublinhou o "Aeronauta" e o "nosso". Achei a dedicatória tão bonita! Principalmente porque mais bonita que a vida é o mistério. Que se preserve o mistério, pois. Que as nuvens abençoem todos nós. Que abençoe Edilson, o que traz a chave.
Na saída, não me contive e perguntei: E aí, Edilson, ele perguntou alguma coisa? E Edilson: Não, professora, apenas... E contou tudo igualzinho ao que Bernardo falou no seu blogue. Fiquei em frente a Edilson, admirando-o, tentando tirar dele um fiapo do mistério que o rodeava, mas logo desisti. Com meu livro nas mãos, e mais aquele que havia comprado, peguei a primeira nuvem que passava. Agora estou aqui, lendo o livro de Bernardo e Judith com uma sensação clandestina de saber e não saber do mundo. Por entre as páginas consigo ver as marcas das mãos de quem se debruçou para escrever a dedicatória.
*Sobre a capa: ainda não sei escanear direito: esse negocinho verde que vocês estão vendo em cima é o marcador de livro que veio dentro.