segunda-feira, 11 de junho de 2012

em busca do tempo

Um amigo na década de 90, bastante inteligente, sensível e culto, tinha uma fita cassete de Reginaldo Rossi. E enquanto tocava no seu toca-fitas "Mon amour, meu bem, ma femme", ele dizia com a voz emocionada: "Como não sentir um negócio por dentro ao ouvir isso? Dói!"
É verdade. Dói.
Sem contar com aquela  menina da cadeira de rodas e da roda gigante de Fernando Mendes. E aquela do hospital, na sala de cirurgia, de Amado Batista. Músicas que, quando menina, ouvia chorando, imaginando as cenas, sofrendo com aqueles personagens profundamente trágicos.
Teve outra que marcou minha infância; a história da música resumia-se mais ou menos nisso: o homem bateu na porta da sala, a mulher saiu pela da cozinha, ele perguntou onde ela estava, ela respondeu da casa da vizinha, etc, etc. No dia em que a rural de pai virou, estava tocando essa música no rádio lá de casa. A música em si não é triste, fala de marido traído, mas, relacionada à hora em que soubemos do acidente, ganhou uma tonalidade cinza como aquela segunda-feira da década de 70.
Música é perfume, de fato.
E "Luzes da ribalta" na voz de José Augusto?
Dói; Andaraí sai do retrato na parede.
Depois vem Legião Urbana, a festa do clube, parece cocaína mas é só tristeza; eu tenho muito tempo... Era isso o que eu não pensava: que eu não tinha todo o tempo do mundo.
Paulinho Pedra Azul, os mineiros todos, Lô Borges, Dércio Marques, Tadeu Franco.
Uma menina de cabelo comprido rebelde, uma franjona na testa, correndo atrás de tocador de violão. Cantando nas pontes, sob o coaxar dos sapos. Uma menina engraçada eu fui, afinal de contas, mesmo com aquela melancolia bem vista nas pernas grossas. Uma menina sem uma marca no rosto.

5 comentários:

M. disse...

Uma menina encatadora. Bjs

Maria Muadiê disse...

Delícia de texto.

Anônimo disse...

Ângela,

..."Como não sentir um negócio por dentro" ao lê-la?
Tenho guardada em mim, nitidamente, a doce lembrança da imagem dessa menina, nessa praça, vestida nesse vestido e despida de paradigmas.
A música era o nosso ópio; e a loucura era o simples fato de sermos jovens e termos "todo o tempo do mundo"...
..."Essas coisas nem mesmo com o tempo se pode esquecer".
"Chega de saudade"!

Abraços,
Anônimo I

aeronauta disse...

Anônimo 1: como não chorar de saudade ao ler esse seu comentário?

aeronauta disse...

M. e Marta: Tão bom sempre recebê-las nessa casa... Bjos