sábado, 26 de setembro de 2009

Meu querido Vinícius


Uma menina dançando caminho das índias; um menino dançando mickael jackson; um menino jogando bola; uma menina cantando música da própria autoria; um menino com um microfone feito por ele, vestido com o paletó do pai, brincando sério com a vocação de repórter. Cinco meninos disputando duas vagas num concurso intitulado talento mirim. Claro que eu estava torcendo para o meu menino, talentoso demais; entretanto não pude deixar de perceber que a menina de onze anos, cantando música da própria autoria, também se destacava. O jogador também, via-se claro o talento nas pernas. Mas quem ganhou foi quem requebrou: a dançarina de caminho das índias e o mini mickael jackson. Como não lamentar? Oh, meu querido Vinícius, não fique triste, eu também perdi na sua idade muitos concursos. Aos doze anos cantava visceralmente uma música de rita lee. Não levei nada. Aos vinte, trinta participei de vários concursos de poesia. Chegava perto, mas nunca levei nada. Sei como é essa dor por dentro: parece que o peito vai se fechando, fechando. Dá vontade de dar um murro no mundo, quebrar os dedos de quem votou naquela menininha besta dançando caminho das índias; e intimar os pais do mini mickael jackson para uma conversa na delegacia. Ih, não leve a sério minha violência, você sabe que é só fachada. Mas hoje me senti com a sua idade, injustiçada num mundo que decide ser talento não as vocações intelectuais, mas tão somente àquelas relacionadas ao corpo e seus movimentos requebráveis.



Imagem: www.flickr.com

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

resoluta e firme


Florentino Ariza esperou cinquenta e poucos anos, alguns meses e alguns dias. Juvenal Urbino era a peça pior do triângulo: conseguiu viver aqueles cinquenta e poucos anos, alguns meses e alguns dias. Para onde vão esses anos? No vácuo de todas as esperanças, resistem incólumes, sem nenhuma lembrança que perdure, que interrompa a espera. Juvenal Urbino viveu, Florentino sonhou. Fermina Daza, a amada: nos cinquenta e nos anos seguintes. A pior peça do triângulo precisa morrer, Florentino quer. E aguarda. E consegue. A vida às vezes é benéfica: aquele besta história de quem ri por último. Mesmo que seja rir com setenta. Enfim, Florentino mais inteligente que Werther. Que suicídio, o quê! Melhor esperar a morte da pior peça do triângulo: o eleito. Arquétipo da obsessão esperançosa, Florentino guia os amantes do impossível: cinquenta, ou cinco, ou dez, ou quinze, aqui estarei, resoluta e firme.



Imagem: "A espera" Marli Cincotto. Galeria de Artexplorer.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Talento Mirim

Meu sobrinho - Marcus Vinícius - venceu hoje a primeira etapa do Concurso Talento Mirim, da TV Bahia, com o vídeo abaixo. Vejam que lindeza... (Se vocês quiserem conhecer mais sobre esse futuro repórter, vão ao www.jornaldomarcus.blogspot.com) Nesse sábado, dia 26 de setembro, acessem o www.ibahia.com e votem nele para a semifinal(durante o programa Bahia meio dia).
video

terça-feira, 22 de setembro de 2009

sem imagens

A configuração desse "blogger" não me deixa mais adicionar imagens; por isso sinto-me fora de casa. Os textos ficaram viciados: querem vir, desde que ilustrados por imagens. Sem elas nada feito. Estou desbotada por dentro, igual a essa página.
Procura-se um consertador de blogger.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

saudades

Nas primeiras páginas de Aurélia, capítulo intitulado "Prelúdio para a vertigem", Gérard de Nerval pontua:

"Somente pela consciência se deve evocar os mortos. Sua vida é sempre triste e terrível, pois eles sofrem com nossas faltas".

Sempre tive uma assustadora memória dessa sentença. Inconscientemente, sem a conhecer, a acolhia. Lendo-a, a reconheço. Nunca acreditei que os mortos têm felicidade plena pelo fato de terem descoberto o mistério da passagem. Ou, de lá onde estão, numa outra efervescência de ar, terem se transformado em sábios, numa bem-aventurança de fazer inveja. Sempre intuí ser difícil para eles a morte. Difícil. Intuí porque meu contato mais próximo com a morte foi com uma pessoa que eu conhecia, que eu conheci vinte e seis anos. Pessoa amorosa, que não ficava uma semana longe dos seus sem um sofrimento profundo. Que viajava para Salvador e quando voltava, com a maleta cheia de livros e presentes, transbordava de felicidade pelo retorno.
Ligado profundamente à família e à vida, ao rádio e ao seu jornal, pai tinha terrível medo de morrer. Ao saber da gravidade de sua doença, não aceitou a morte, não aceitou. Acreditava que não iria morrer, que ficaria bom, que levantaria daquela cama, daquela cadeira de rodas, e voltaria a cuidar de sua roça, de seu carro, e sentar-se na porta, de tardezinha, conversando com os que passavam. Gritando de dor, tomando morfina, aliviava-se e voltava à vida. Queria sua família por perto, todos eles. Não, nunca pensou seriamente que iria morrer. Não suportaria o desconhecido, principalmente a distância de dois mundos.
Quinze anos após sua partida, de cá sinto que ele sofre, que sente saudades da gente. Sinto às vezes sua presença perto de mim, sua presença amorosa me dizendo coisas, e lamentando eu não ter olhos para ver-lhe sentado ao meu lado, e não sentir seus braços me abraçando. Onde está, os dias são longos, e as noites insones são largas para muitas lembranças. Lembranças nossas, de sua roça, do quintal lá de casa, da praça onde jogava dominó com os amigos.
Dizem que o desapego é a prova da sabedoria. Se for assim, meu pai nunca será sábio: ele, por demais amoroso, por demais humano, nesses quinze anos não se esquece de nada; e chora, sei, chora ao nos olhar de longe.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

a existência, talvez

Nunca estive nesse lugar: a atmosfera é outra e um astro mais ofuscante que o sol não muito longe fulgura.
(Kafka)

Vez em quando, andando na rua, dá-se um estalo. Em mim algo se quebra, a existência talvez. É preciso continuar andando, ir ao banco, depois almoçar, depois viver. Vidro partido dentro do peito, água transbordando no corpo, olho parado no vácuo. Será isso o nada? Será isso a infelicidade? Será isso a sombra? O que será isso? pergunto, pergunto, pergunto, pergunto: quatro vezes. Se você tem a chave, me dê. Porque toda vez que o vidro estala, meu corpo se recolhe. Deita-se na cama, e dorme. Não há como catar os estilhaços: é tudo por dentro, misturado com o sangue que se petrifica.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Tua imagem


Ah, a imagem do amor, tua imagem, no recanto da sala. Tem uma luz macia, mortiça, de candelabro do século dezoito, com poucas velas reunidas, numa claridade calma e amena.
A vontade é de dormir sob teus olhos, agasalhar-me sob as sombras que tua alma prenuncia, legítimas - como as sombras das árvores.



Imagem: "Comes love, nothing can be done", por Pri Martins.
(www.flickr.com)

sábado, 12 de setembro de 2009

a sombra e o silêncio


A sensação é que o deserto é amplo; o ar seco; o sol escaldante. Eu estou só. Mas não há silêncio. Acordo com as costas ardendo na areia quente e me deparo com minha sombra sentada ao meu lado. Solidão é estar acompanhado dessa sombra. Eloquente: fala tanto que não me deixa encontrar o grande silêncio. Há muitos anos estou aqui e nunca o ouvi. Tem muito barulho dentro de mim. Vozes provenientes de casarões antigos, de corredores imensos, gemendo, pedindo alento. Ou então, damas de salão clamando por música, mais música, porque a festa não pode nunca acabar. Cortesãs vestidas de vermelho alçando seu amante pela camisa e a grande imagem vista no espelho da frente. Ah, a balbúrdia nesse deserto é aviltante. Meu corpo frágil se deita, se curva e a sombra o imita. É muito difícil conviver com ela, com a memória que lhe habita, que é minha, minha, só minha, e que ela a detém. Como então roubar de vez tua imagem, essa que é a imagem do amor, e guardá-la aqui dentro, só em mim, aqui, aqui dentro, para que eu possa, enfim, ouvir o silêncio do deserto?



Imagem: Dani Burman.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

diminutivos


Tenho pavor a diminutivos. Herdei tal pavor de mãe, que odeia se chamar Terezinha. Cresci ouvindo sua revolta ecoando pelos corredores lá de casa. Minha intuição ficou, acredito que por conta disso, aflorada diante dos diminutivos. Mãe, nas suas várias encarnações, intuía o peso deles; o peso não, sua inconsistência. Diminutivo não me convence. Tenho medo de gente que insiste em mostrar sua ternura com diminutivos: lindinha, queridinha, fofinha... argh! Te esconjuro!
Linguagem é coisa séria: rastros que nossos instintos bem detetivescos caçam e lêem, com a alma. Até hoje meu instinto, portanto, com relação aos diminutivos, nunca me enganou: sufixos sem expressividade, retratam o vácuo e o perigoso que há no falso.
Mãe é uma pessoa autêntica: por isso nunca gostou do nome que lhe deram. Que nos perdoem Santa Terezinha, coitada, mas esse inha, esses inhos parecem mais ganidos pavorosos. Não, nada contra os cães, mas contra essa gente diminuta que, em falsete, não sabem embalar sua "ternura".



Imagem: "partículas de identidad", por García Peña.
(www.flickr.com)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

para onde ir


Não sei quantos rostos me deram, pressinto que foram muitos. Deixei que me pintassem com mil cores, de mil formas, com traços tênues de nuvens que se espalham, com a presença diáfana de todas as ausências. Queria ser bela, muito bela. Princesa refugiada numa torre bem alta, de lá mandando cartas, pinceladas com a mais dura de todas as pátinas: a que marca o desejo de ser amada. Escondendo-me de olhares humanos, fui doce, amarga, encantadora; embalaram-me no colo, em mil sedas; deram-me colares preciosos, anéis de rubi. Fizeram de mim o que eu nunca seria, rainha por demais delicada, com a mais macia das peles, com os cabelos mais leves, e os pés - transparentes - sobrevoando mundos. Era isso o que eu queria: ser sonho. Somente isso. Agora, completamente à vista, por demais humana, não sei para onde ir.




Imagem: "atingire_diafana_by_spirala", por nhoccon2004v.
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grave delito


Virar alguém pelo avesso, rasgando pela barriga, é assistir ao espetáculo de ver vísceras e coração. Botar a mão em cheio no sangue, sangue vermelho rubro. Oh, meu amigo, não adianta depois lavar as mãos. É tarde, essa mancha não sairá de seu avental, pois mais que o lave. E nas suas mãos ela se tornará a continuação do mais grave delito, a cumplicidade infernal que há em todos os paraísos, como na escrita e no amor.




Imagem: solo sangue, por zimbia.
(www.flickr.com)

domingo, 6 de setembro de 2009

nomes


Seria Verônica. Não, não gostaria de ter sido, de ser Verônica. Esse nome não se parece comigo. Esse rô no meio soa rouco, a proparoxítona parecendo um lamento solene e triste. Se eu tivesse sido Verônica certamente agora estaria com uma toga, administrando audiência, com um olhar vago e melancólico.
De todos os nomes que gostaria de ter, ganhei dois. Gosto demais de um. O conjunto soa harmônico, é a minha cara, inocência e destruição. Aqui sinto falta dele. Aqui esse nome está gritando agora, como as loucas gritavam nos fundos dos casarões mal-assombrados. Ele quer chegar à sala de visitas, mas os donos da casa ainda não deixam; ainda não é a hora. Guardo, portanto, meu nome, como antigamente se guardavam as senhoras loucas.
Talvez por isso os inúmeros apelidos. De meus tios, de meus pais, de meus primos. Sempre fui muitas. Coisa por demais vulgar, certamente. Mas sempre quis ser uma, una com os meus dois nomes, mas nunca quiseram, e só me chamaram de outras. Meu nome, pomposo, apenas nas cadernetas da professora; na hora da chamada todos viravam para conhecer a sua dona. Até que se acostumaram. Mas se forem hoje na minha cidade, e bem alto recitarem meu nome, ninguém saberá dizer quem é.
Quem é?
Pergunta insistente. Oh, você aí, que se encontra comigo algumas vezes, sou eu, lembra-se? Estava com um vestido florido, e eu sabendo que você conhecia em mim o que há de mais secreto. Mas ali, pra você, eu era uma estranha. Ao mesmo tempo em que eu me divertia, lamentava profundamente.
Não, não sei quem é. Me deram esse nome, colei-o na minha mão direita, e ele vai nos atestados, nas declarações, nos envelopes. Ah, está na parede antiga, no certificado de conclusão do curso de datilografia. Tinha quinze anos, e a assinatura vai ingênua, pura, doce, bem feita.
Eu, com um pimpão na cabeça, aos doze anos, no fundo a bandeira nacional, assinando um livro aberto, rindo. Fingia que assinava para o retratista clicar. Ah, o fingimento sempre me perseguiu. Colaborei, fingi, ri, assinei, e depois voltei pra sala. Naquele lugar sentou-se a classe inteira, fingindo assinar o livro. Não sei se todos riram.
Foi pai quem me deu esse nome. Mãe não queria. Ele foi escondido ao cartório, enquanto ela estava de resguardo. Voltou, desconfiado, mas com a certidão de nascimento na mão, garantindo no papel aquele nome, nome duplo que mãe não queria. Um dos nomes, dizia ela, era de uma inimiga sua.



Imagem: "Cida Muffa "Passeio na chuva" técnica mista", por Artexplorer.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

lúdico


Nem se eu quisesse poderia acabar com esse blogue; assim como nem se eu quisesse poderia deixar de lhe amar. As duas coisas são para sempre, para sempre, independe de minha vontade, é como tomar água, lúdica e límpida água, meu amor. As duas coisas, esse blogue e você, são o que sou, o que trago como força e dilúvio, tempestade que vai se acalmando, bebê acarinhado no rosto. Você um dia me deu uma pasta com lápis de cor, um caderno de desenho, e eu comecei a desenhar o mundo; você me abraçou fundo, num regresso sem fim; sem precisar beijar na boca você confirmou nosso encontro. Um abraço guardado, na mais comovente sinceridade. Um idílio na linguagem, palavra roçando palavra, o êxtase, a perplexidade. Amor se faz assim, tecendo verbos imaginários: eu e você nesse olhar que não consome, que conforta, que brinca ludicamente com a morte...



Imagem: "Ludicamente", por Luz Delorenzini.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Eu


Feliz deve ser quem pode viver sem escrever. Eu não. Mais fico doente se não escrevo. Em cima da cama, por favor, me dê minha máquina de escrever, que esse negócio de laptop não entrou ainda no meu mundo. E quem está escrevendo aqui sou eu, eu, eu, eu. Quantas vezes tenho que dizer esse pronome possessivo? Mil vezes. Eu, eu eu, eu sou ela, quem não sabe fique sabendo agora. Por que preciso mostrar minha cara na carteira de identidade? Para ser aceita? Para ser rejeitada? Para ser mandada para um manicômio? Oh, filho, coloque-se um pouco do lá de cá pra sentir o que é bom pra tosse; não é frescura não. Afinal não sou nenhuma Malu Mader. Que esse negócio é coisa de minha cabeça, sei desde que comecei a ouvir falar que tudo é psicológico. Mas vá lá: pode chamar de frescura, de calundu, de loucura, tudo isso sou eu. Você mesmo assim ainda quer me levar? Precisa olhar meus dentes? Não valho muita coisa não, querido. Falo mal da vida alheia, tenho ressentimentos profundos, mas gosto muito, muito de rir. Não se engane nunca: ela sou eu. Não se esqueça disso. Não, sei que você sabe, você que me ama por dentro sabe. Sabe que quem vive a crise de identidade agora não sou eu, mas a criança da década de setenta. Uma criança birrenta e medrosa. E que tem medo de cachorro. Medo de soldado (igualzinha a Maca). Medo de homem da sucam. Medo dos coleguinhas da escola. Medo de sair de perto da mãe. Se isso aqui é divã? Ora essa, isso aqui é o que eu quiser. Que hoje não estou pra ficar ouvindo voz chata de superego zombador. Estou é pra reclamar o que é meu: esse espaço, eu. Pode parecer autoritário, mas eu preciso ser mandona agora. Não, não vou matar ninguém, Aeronauta muito menos, porque não posso me matar: nunca tive vocação pra suicida. Acho meio besta isso, esse negócio de se atirar de pontes, viadutos, ou botar bala de revólver na cabeça. Quero apenas dizer, de novo, que quem fala aqui sou eu, quem chora aqui sou eu, quem xinga aqui sou eu, blá, blá, blá. E foi assim que João Bicho D'Água, doido de minha cidade, honrou seu nome na praça. Foi gritando no meio da rua, com valentia, pra todo mundo ouvir "homem é eu, cabra da peste", foi gritando assim que ninguém mais tomou pilhéria com ele, a cidade começou a lhe respeitar. Então grito, faço espalhafato, me chamo pra briga, "Aeronauta sou eu, cabra da peste". Preciso assegurar o meu lugar nessa joça, afinal de contas sem entender nada de internet fiz esse blogue, a facão mesmo. Deu um trabalho danado. E fui eu quem pegou no pesado, mouse pra cá, mouse pra lá; eu, essa que vos fala, que não é nenhuma Malu Mader. Por que insisto nessa história de Malu Mader? Faça você sozinho sua interpretação. Estou malcriada hoje, soltando os diabos. Sou agora a menina que deixou de ser besta, de apanhar das colegas, de se escorar na parede. Acho que já aprendi até a dar cascudos. Estou doidinha pra arrumar uma cabeça pra ploft! dar um cascudão bem forte. Igualzinho a muitos que ganhei na infância. É divã? É, Superego; cale-se! Hoje muita gente vai apanhar. Vou arrancar cabeça de muita gente. Já estou sarando, já pensou numa coisa dessas? Só porque resolvi botar a minha máquina de escrever na cama, no meu colo e dedilhar essa prosa. De verdade, só escrevendo existo, só escrevendo sou; se você quiser me levar assim mesmo, pode olhar os dentes.



Imagem: "Sensações", de Tuba Sinnhofer.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As irmãs


E a menina, desse jeitinho aí, vai ao lançamento de Maria e Nilson. Junto com a irmã. As duas cresceram, mas o jeito delas é o mesmo. A menina vestida de verde, eu, sempre afundando dentro da parede, sem saber direito o que fazer com as mãos. A irmã, ladina, estala seus dedos, em festa. Ela é profundamente especial: veja só o seu olhar: arteiro, espirituoso, como quem acabou de chegar de uma corrida de guerrô. Os olhos tristes da outra são uma condenação. O espanto é uma sina. Só escorando na parede é possível estar para os outros.
É no lançamento de Maria e Nilson, as duas irmãs juntas, que a vestida de verde, eu, descobre os malefícios do nome que ela mesma lhe colocou a fim de mais afundar na parede. Descobre que agora só Aeronauta vive, a monstra. Aeronauta eclipsou o seu outro nome, roubou a cena. Nos dois livros, a dedicatória impressa não está para ela, eu, mas para a Aeronauta. Ela sente ciúmes, inveja, ódio dessa impostora que inventou. A irmã, na festa inteira, tenta ajudá-la, mas ela continua se comportando como nessa foto: buscando a parede como apoio frio. A irmã, risonha e espirituosa, tenta ampará-la, tirá-la do meio das estantes da livraria, mas ela quer mesmo é entrar num livro daqueles, de preferência de um que nunca será vendido.
A menina de verde tem dentro de si o demônio clariceano, e quer matar uma das duas. Não a irmã, claro, a irmã será imortal nas suas mãos. Ela quer matar esse personagem que ganhou tanta vida própria a ponto de morar nas dedicatórias que seriam suas. O mal que habita o mundo infantil é genuíno, não se prendem crianças por assassinarem gatos. Ou se mata o personagem, ou se mata quem criou o personagem. Não há mais espaço para uma figura e uma sombra, uma sombra e uma figura. Como realizar o crime perfeito? Dostoievski me espreita, cúmplice, e eu pego na estante Os irmãos Karamazovi.



Imagem: "As irmãs". Década de 70. Retrato de Mozart Santana.