terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Soltar a voz"


Lê-se em meio à dedicatória: "minha mãe deixou em minha memória o som deste livro."

"Rosália Roseiral" - esse romance é uma composição musical - que me perdoem a rima. Eu que sempre sonhei, na minha audácia assumida, ser cantora, vibrei em cada partitura desse livro. Se demorei para dizer isso foi pro mode (aqui roubo vergonhosamente a espontaneidade da autora-narradora Maria Sampaio) o medo de desafinar. Maria não desafina nunca, em nenhum capítulo. E toda crítica não deixa de ser uma tentativa de arremedo frustrado da escrita. Eis, pois a "cisma": sei que a crítica sempre desafina, nessa tentativa apaixonada de contar sobre a leitura.
Os personagens desse romance são compostos pela linguagem harmoniosa e dessacralizada de sua autora. Se Joãozito O pusilânime (marido de Rosália), que usava "cuecas de seda", realmente existiu, não importa. Importa é a veracidade maravilhosa de sua pessoa, descrita numa verve irônica e jocosa, num primor de estilo:

"(...) Ele, se burro não é, não prima pela inteligência - é aquela coisa chata de rapaz esforçado, voltado para o estudo opaco, dirigido, lutando a ferro e fogo por boas notas. É o típico ignorante que fala besteiras com imponência.(...) (p.47)

"O bem querer chega a jato" (p. 92), concordo com isso, Maria Sampaio. Pois não é que me apaixonei, tal qual Rosália, por esse pusilânime vilão? E sinto pena quando o trapaceiro desaparece lá pela página 141, depois que deixou "barba e cabelo crescerem à moda de Antonio Conselheiro" e foi começar vida nova em localidades várias. Desculpe, Maria, mas vou reproduzir o que está impresso no livro como propaganda do médico pusilânime, vendedor de ilusões óticas nos lugares por onde passa:

TENDES OS OLHOS
CASTANHOS
OU PRETOS?
QUEREIS TÊ-LOS
VERDES
OU AZUIS?
PROCURAI O
DR. ALBERGARIA

Das 8 às 12 hs.
e das 15 às 18 hs.

Praça da Matriz

A cidade toda queria ostentar na cara tal milagre:

(...) Todo santo dia iniciam-se novas turmas, tudo de pagamento adiantado. Pingue-se uma vez por dia o milagroso colírio, ordena. (...) Ao chegarem os bestas para a feira seguinte vêem nos companheiros os castanhos e pretos olhos de sempre.(...) (p.141)

Daí em diante, pronto, o personagem "evacuou". Aproveito a fala do narrador e acrescento que errei "no verbo", pois "queria dizer evadiu-se, acertando, sem saber, na definição de Joãozito: um cagão."
Por esses fragmentos nota-se a natureza espontânea da linguagem. Tanto que esquecemos que estamos diante da leitura de um romance: o narrador é uma pessoa "de mesmo", talvez a própria Maria Sampaio a tratar tão bem os amores de sua protagonista:

(...) A evitar as paqueras de Carlinhos Veiga (até certo ponto... um dia não resistiu e só de brincadeira - para espanar um pouco a poeira da tabaca -, levou o amigo para casa, passaram uma semana de gozos e folias). (p.145)

"Rosalia Roseiral" é a composição musical de muitas vidas. Vidas reais que se cruzam misteriosamente com a ficção, nos deixando com as mãos abanando se nos debruçarmos apenas tentando buscar biografias. O mais interessante é o leitor perceber esses liames ao ler a história musical brasileira, reconhecendo suas pontes "reais" emaranhadas naquilo que não sabe se real foi (e o que é?). O que mais interessa, de fato, é a pincelada, sempre irônica, do narrador, quando se refere à personalidade de cada um desses seres que passam pela História, demonstrando, com isso, a força da narrativa, da construção romanesca:

"(...) A qualidade do toque de Fortunato fará falta nas tocatas, mas sua presença, coitado, nem tanto, sempre foi esmorecido." (p.155)

Romance com grandes revelações. Romance que, ao fecharmos a última página, nos deixa diante de um amplo salão escuro, repleto de perplexidades, e ao mesmo tempo de felicidade, afinal só a arte sabe conjugar tão aparentes dissonâncias.
Fazendo uma analogia com a música, ao virarmos a última página desse livro internalizamos o conselho de Rosália, que aprendeu do mestre Almiro: se queremos cantar devemos "soltar a voz". E, como diz o narrador, "Sempre de olho aberto - o longe que o olhar alcance, a voz irá."(p.150)
Solto pois, agora, a minha tímida voz. Na voz afinada de Rosália. Na voz afinadíssima de Maria Sampaio.


*SAMPAIO, Maria Guimarães. Rosália Roseiral. Rio de Janeiro: Record, 2008.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Cenas do cotidiano (2)


Mãe no rio lavando pratos e dois meninos perto dela besourando. Moravam na nossa rua. Rua da Ilha. Rio de um lado, rio de outro. O pai dos meninos era um soldado que ficou da janela, numa tarde, vendo um fazendeiro bater num empregado, sem fazer nada. Esses dois meninos eram remelentos, que nem a casa deles. O menor só vivia nu, pra cima e pra baixo, nunca o vi com roupa. A mãe era uma desmazelada, só andava nas portas falando da vida alheia. E os meninos no rio tomando banho. Foi numa tarde assim que o pai, à paisana, munido de uma máquina fotográfica registrou aquela cena corriqueira, repetida, cotidianamente igual. Porém hoje, extraordinária.

"Vai indo"

Já está decidido: esse ano passarei o reveillon em casa. Sozinha. Claro que isso não significa um auto-martírio, uma auto-punição ou coisas do tipo. Já passei, na minha vida, duas passagens de ano sozinha, e não foi coisa do outro mundo. Nem tive pena de mim.
Como diz mãe, vai indo a gente enjoa dessas festas. Não, ela nunca disse isso, mas o "vai indo". Acho ótimo e aqui repito: vai indo a gente enjoa dessas festas. Lá na minha terra é assim: segue todo mundo, a cidade inteira, para a beira do rio. Meia-noite em ponto é um tal de beija-beija, abraça-abraça, feliz ano feliz ano novo, feliz ano novo, coisa realmente patética, que não comove ninguém. A vida virou uma repetição besta de coisas, e as tais festas ficaram todas estigmatizadas, repetidas e artificiais.
Óbvio que não vou deixar de fazer minhas simpatias na virada do ano, na calada da noite, sozinha em minha casa. Obviamente que ficarei tocada quando olhar o relógio e pressentir, imageticamente, um novo número acoplado ao dois mil. Irei lembrar de muitas coisas, inclusive de pai, que tinha o sonho de visualizar esse tal de Dois mil. Oh pai, de 1994 para 2009 são muitos anos, destruídos pela mística de um reveillon de 2000 que passei em Tucano junto a um trio elétrico horroroso. Depois disso, percebi que 2000 era apenas uma data que eu escrevi no papel, quando criança, para saber que idade teria quando o mundo acabasse.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Meu aero-amigo


Meu aero-amigo Murilo Mendes está aqui, próximo ao computador. E ele me diz ao pé do ouvido sua "Ceia sinistra":

Sentamos-nos à mesa servida por um braço de mar.

Peço pra ele calar nesse primeiro verso. Não desejo ouvir os demais, muito menos ver os fantasmas que querem cear.
Mas faço, isso sim, ainda valer a sua voz para roubar-lhe a autoria, dublando-a descaradamente:

Então eu nasci na onda aérea,
Na idade mais recente do ar,
Me desliguei das camadas de ar,


Aqui suspendo o último verso.
E sentando-me à mesa servida por um braço de mar, junto a meu amigo, ouço pela milésima vez esses versos fatais, vindos das ondas, soando como marteladas numa senzala invisível:

Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras,
Mas na tua alma subsiste

- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.



Imagem: www.revista.agulha.nom.br

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Série Espanto (2)


A infância recolhida perto do pote da cozinha. Um pote de barro, enorme, sempre gelado, próximo à parede. Janela virada para o rio, acumulando águas no olhar, no tato, no paladar. Água em copo de alumínio, água branca da serra, água vermelha do rio. Copos com os nomes gravados: meu, de pai, de mãe, de minha irmã. Letra meio tosca, escrita por um mascate de feira, aquele que vendeu os copos. Cozinha pequena; para o almoço chuchu, arroz e carne moída. Odiava comer. Mãe me beliscava para que eu comesse. Eu trancava os dentes e ela vinha tentando abri-los com a colher: Come, sujeitinha! E enfiava a comida na minha goela abaixo. Comer pra mim era martírio. Será que todo prazer é corroído de dor? Mas que prazer? Não havia prazer em engolir chuchu, arroz e carne moída. Ela e pai podiam comer todas as outras comidas: as perigosas. Nós não, nem feijão. Feijão dava dor de barriga. Imagine carne de porco! Nunca, nunquinha soube, na infância, que gosto tinha um porco. Até hoje me resguardo desse perigo. A última vez que fui em Minas e vi um leitão a pururuca, deitado sobre a mesa, tive medo. Parecia um velório de porco. Que Deus o tenha!
Ah, e os imensos cafés! Os rios de café na tigela! Às cinco horas da tarde mãe dava um grito da porta da cozinha: Meninas, o café! Na mesa, duas tigelas fundas, enormes, nos esperavam com um monte de bolacha creme cracker quebrada dentro. Na verdade um pacote inteiro: todas já bem molhadas, fofas. Nós corríamos afoitas e nossos amiguinhos espiando - achavam o máximo aquilo. Até hoje encontramos amigos que dizem ainda tomar café em tigelas, com bolachas quebradas dentro, na tentativa tardia de nos imitar.
Para nossas bonecas não tinha drama nenhum: comiam só folha de carambola e a própria carambola, que era o que havia no quintal. Folha de carambola também era dinheiro: comprávamos com elas o mundo todo para Carlúcio e Marlúcio, nossos bonecos. Bonecões brancos, de assombrar, mas que amávamos como filhos impossíveis. Eles faziam que comiam a carambola cortada que botávamos em suas bocas, nos enganavam, e nós sabíamos e adorávamos o engano. Que coisa mais verdadeira!
Até hoje me pergunto onde estão esses bonecos. Em que parte do Paraguaçu. Talvez o Paraguaçu que passa no outro mundo. Mãe jogou tudo no rio, assim como o tempo joga tudo pra trás, sem piedade, no mais banal dos clichês. E foi melhor assim; onde colocaria hoje Carlúcio? Não há mais quintal, muito menos folhas e carambolas. Ele estaria perdido, coitado, morreria à míngua.
Recolho o pote gelado, o pote de barro que fica na cozinha, como disse lá no início dessa prosa perdida. Puxo-o, retiro-o do lugar. O lugar tem muita umidade. Minha infância está ali, olhando o rio. Parada, quase finda.


*Foto: Eu, aos seis anos, assustadíssima. Retrato tirado pelo retratista da cidade na época.

Encontro adiado


Hoje, de supetão, uma amiga pelo telefone (que não sabe nada desse negócio de aeronauta e etc) me perguntou:
- Você conhece Maria Sampaio?
Levei um susto danado. Não sabia o que responder. Disse:
- Conheço.
- Maria Sampaio é um amor. Muito amiga nossa. Só vive aqui em casa.
Gelei. Disse apenas que conheço Maria Sampaio dos livros e de algumas fotografias.
(Nada de me referir a blogues, nada disso.)
Depois eu entendi por que essa amiga me falou de Maria Sampaio. O Destino lhe soprou no ouvido um futuro encontro: ela me apresentando à famosa escritora em sua casa. Eu, tímida, com uma nuvem escandalosa desenhada na testa. Maria Sampaio, esperta, dizendo: ah, é você!
E olhe eu então diluída para sempre numa poça d'água...


Imagem: fotografia de G. Branco. In: www.flickr.com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Corpo na realidade


Todos já sabem que a minha doença é não sentir meu corpo na realidade. Acordo - o mais difícil momento - e vejo que preciso agir. Primeiro, meu corpo precisa levantar da cama. Que sacrifício! Já disse Borges que a prova de que o homem não é só matéria é que ele vive num outro universo pelo menos umas oito horas por dia (dormindo, claro), e é irrefutável que nesses momentos ele também está vivendo. Pois bem, Borges me entende. Pois que sinto que esse outro universo é melhor, porque acordar , de fato, é algo complicadíssimo. Chamem isso de preguiça, de indisposição, de depressão, de qualquer nome. Eu só sei é que acordar é a primeira grande batalha do dia dessa vivente aqui. Erguer meu corpo da cama, lavar o rosto, fazer o café e depois ir pra labuta, é como se preparar para ir para a guerra. Por isso muitas e muitas vezes prefiro não levantar; fico horas na cama, buscando me acolher em nuvens vagorosas e confortáveis. Mas o Mundo bate na porta com suas mãos de ferro, esmurrando. Aí eu tenho que mostrar serviço, pois estou aqui embaixo, e não lá em cima, apesar de minha cabeça dizer o contrário. Levanto e vou abrir a porta para a sua majestade, o Mundo, entrar. Ô homenzarrão bruto. Hoje ele esmurrou a porta, aliás, botou a porta abaixo, e deixou uma lista sobre a mesa, com vários itens: 1. lavar os acumulados pratos sujos na pia; 2. arrumar a casa; 3. comprar o gás; 4. fazer feira [aqui em casa só tem bolacha creme cracker]; 5. Viver, viver, viver.
Achei esse último item muito desaforado: "viver" escrito três vezes. Parece que com esses três "viver" o dito cujo me dá três tabefes na cara.
Agora me lembrei que ontem, conversando com uma amiga, essa me aconselhou a fazer algo para poder finalmente estar na realidade: sair do yoga e entrar no boxe. Vocês acham que funciona?


Imagem: "Dom Quixote desolado". Por Domingo Soto. In: www.flickr.com

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Cenas do cotidiano (I)


Hoje conheci, às cinco e meia da manhã, "Legal". É, um taxista chamado "Legal", vulgo Adalberto.
Nunca gostei de puxar conversa com taxistas. Aliás, eles também pouco conversam comigo. Só um, certa feita, me contou que sua cliente abriu a porta com o carro andando - pra não ter que pagar.

Porém hoje, logo que entrei no táxi, o motorista, "Legal", senhor de seus sessenta e alguns anos, perguntou se eu gostava de conversa. Disse que sim. Aí ele tratou de investir nas histórias. Contou que quando um passageiro entra no seu táxi ele percebe imediatamente se é antipático ou não. Que na semana passada levou uma senhora antipática para o Cabula que acabou com seu dia. Que deu vontades de abrir a porta, em plena corrida, e fazê-la descer. Que nesse mundo tem gente ruim e gente boa. E que quando nota que a pessoa é ruim, se faz de mudo, responde tudo com gestos. E que, veja só, um dia desses uma mocinha entrou e só disse isso: "Orixás center, politeama". Dois minutos depois, ele olhou para o banco de trás e não viu ninguém. Pensou: "Ué, a menina pulou a janela?" Quando olhou direito percebeu que a dita estava deitada, com as pernas pra cima. "Estava pernoitada, a moça, hi, hi, hi", concluiu, rindo.
Disse que conhece por dia milhões de pessoas. De todos os tipos. Há mais de trinta anos. Uns lhe dão sorte, outros não. Que levou um rapaz para o Canela e que esse pechinchou, pechinchou. Mas que logo depois encontrou outro passageiro, e ganhou um dinheirão: "Stella Maris. Sessenta e cinco reais".

Enfim, chegamos. Ele ressaltou como foi boa a nossa prosa, pois a viagem foi ligeira e alegre. Preço: vinte e dois reais. Ao descer, depois de ele repetir mil "bom dia" pra mim, fiquei pensando se lhe daria sorte nessa quinta-feira.


Imagem: www.flickr.com

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

triângulo amoroso


Tenho grande amor por muitas coisas. No primeiro lugar de todas elas, meus livros. Algo quase doentio, de posse mesmo, de ter ciúmes quando alguém não me entrega do jeito que foi. Livro meu é algo sagrado, desde quando comecei a comprá-los, ainda menina. Lembro-me bem, e já contei em algum lugar nesse blogue, que os escondia de minha irmã, irrequieta profanadora de livros. Ela os lia comendo carne frita, gordurosa. A gordura da carne, óbvio, caía nas páginas, e isso me deixava nervosíssima. Aprendi a escondê-los e ela aprendeu a achá-los de madrugada, quando eu dormia, para poder lê-los à vontade, arreganhando páginas e miolo.
Todos os meus namorados sempre souberam, de antemão, sobre a importância dos livros na minha vida. Muitos tiveram ciúmes. Outros tentaram se aliar a eles para não perderem espaço. Só que as brigas vinham quando tomando-os emprestado me devolviam completamente diferentes de como foram. Ou então quando pediam emprestado e enrolavam, enrolavam, não liam e nem queriam me devolver. Isso sempre se tornou, para mim, uma grande decepção amorosa.
Certa tarde, peguei no flagra um então namorado lendo uma antologia de Pessoa, de propriedade minha, numa rede lá de casa, se balançando todo, comendo um pão enorme com manteira: a manteiga derretendo em seus dedos, braços, cotovelos... Quando vi aquilo dei um grito! Ele saiu correndo e se trancou no banheiro; claro, levando o pão com manteiga e Pessoa junto. Ah, senti muita ira! Bati com tanta força na porta que ele, se acabando de rir, resolveu me encarar. Me entregou o livro e o que eu fiz foi logo verificar página por página. Havia um borrão imenso de manteiga num poema de Mensagem. Quase morri de ódio.
Outro namorado tinha verdadeiro ciúme de mim com os livros. Era só eu escolher um livro pra ler e ele ia atrás puxando assunto. Quando eu pegava embalagem no primeiro parágrafo tinha que parar pra responder a uma pergunta sua. E nisso ele ia ganhando terreno. Aí eu de novo recomeçava a leitura interrompida. Então ele resolvia se sentar perto de mim e começar uma prosa longa, que por mais mais que eu quisesse não poderia me livrar. Ao perceber que tudo isso era estratégia, ciúme, acabei o namoro e fui ler meu livro em paz.


Imagem: www.flickr.com

domingo, 14 de dezembro de 2008

poesia para a vida inteira


Este foi o primeiro livro de Manuel Bandeira que comprei. Pelo reeembolso postal. Na folha de rosto lê-se: "Aeronauta, 29-03-83". Dá pra notar que ele ainda está novinho, a despeito da idade que ostenta. Eu era uma menina e deu-se o alumbramento: poesia para a vida inteira. Como esquecer o "Boi morto"? Poema que lia, lia, não entendia, mas entendia. Poesia é de verdade o terrível encantamento.
Ah, com a poesia de Bandeira "Eu vi os céus! Eu vi os céus!"
A "Noite morta" era a minha rua que, quando chovia, "junto ao poste de iluminação", os sapos engoliam mosquitos. Ouvia-se "a voz da noite...", e era mesmo a voz da "noite" que dizia Bandeira, entre parênteses: "(Não desta noite, mas de outra maior.)"
Com Bandeira aprendi a beleza do "Desencanto", e a reconhecê-lo, maravilhada, tanto tempo depois na voz de alguém que tudo me falou sobre os impossíveis carinhos:

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Banzo, Spleen e uma Elegia


Quando um negro "banzava", ele parava de trabalhar, nenhuma tortura em chicote, ferro em brasa, o fazia se mover. Ele ficava ali, sentado, "banzando", "banzando". Vinha o desejo de comer terra. E, comendo terra, voltar para a África, através da morte. Um negro, com banzo, era uma peça perdida.
(Leminski em: "Cruz e Souza")

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.
Eu tenho mais recordações do que há em mil anos.
(Spleen, de Baudelaire; tradução de Ivan Junqueira)

Estou "banzando", totalmente "spleenética".
Asa machucada, colei com durex. O durepox não encontrei em casa. E mertiolate não funciona.
Agora é esperar tempo de vôo. Esperar que o durex dê jeito.
Enquanto isso, com a voz de Cecília faço parelha e repito baixinho o que ela cantou:

Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas, como aroma em brasa,
com suas coroas crepitantes de abelhas.



Imagem:www.flickr.com

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

ausência


sou o que sou, nas escolhas, nos vazios, no medo de atravessar a rua, em desistir de prosseguir. sou isso. umbigo escondido pela roupa entreaberta. festa animada que não quis ir. ferida exposta para que todos vejam. sou isso aí. não esperem nada de mim: nem alegrias, nem poemas, nem músicas de botequim. nem aquela seleção clássica que contém una furtiva lacrima. eu nem estou aqui.



Imagem: www.flickr.com

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Noctívaga


Lembro quando li pela primeira vez a palavra noctívaga. E foi numa noite de insônia, como essa. Fiquei feliz: estava ali uma palavra que era minha, só minha. Sentada no sofá da sala lendo um livro, e quase ouvindo o galo cantar, li a palavra mágica. Não me lembro qual livro era; lembro-me da palavra. Que a partir daí comecei a usar a torto e a direito. Notívaga, noctívaga, etc.
Comecei a achar romântica a minha doença: essa de ter o olho cru, de não conseguir dormir. A palavra noctívaga (assim com o c) é muito linda. Portanto, me reconciliei com a falta de sono e comecei a sofrer menos com esse negócio de ver a noite passar em claro.
Porém, o duro mesmo era ouvir, do sofá da sala, a roncaria rotineira da família. Tinha uma inveja. Ouvir o silêncio de uma cidade que dorme, uma cidade inteira e mais o de sua família, é algo de uma dimensão que nunca consegui pensar direito: dá arrepio na alma. Certo que um cachorro ou outro latia, quebrando o silêncio; um jegue ou outro derrubava o balde de lixo na rua; ou um bêbado qualquer passava tropeçando, num discurso engrolado. Mas o que imperava mesmo era a estranheza do silêncio em que todos dormem. Menos você.
Aqueles que estão acordados agora podem sentir. Ouçam, ouçam. Ouviram?
O que eu escuto agora, como prova do silêncio de que falo, é o sonzinho do computador. Esse silêncio emite significados que minha percepção nunca conseguirá colher. Apenas sentir. E não tem palavra que nomeie. Talvez só mesmo "noctívaga".
Sou noctívaga, pois. Vigio a noite enquanto tanta gente sonha.


Imagem: "Flor noctívaga em rua mil vezes percorrida". De paulomrocha. In:www.flickr.com

domingo, 7 de dezembro de 2008

Nós e Papai Noel


Eu era bem feliz no tempo em que Papai Noel existia. Ele vinha sempre quando nós - eu e minha irmã - já estávamos dormindo. Não descia pela chaminé, entrava pela janela mesmo. Pai e mãe o ajudavam. Ele chegava e ia direto para o nosso quarto. Eu e minha irmã dormíamos em camas geminadas, separadas apenas por uma grade, e com um grande mosquiteiro em comum. Ele abria o mosquiteiro com os dedos mais leves do mundo e depositava meu presente aos pés da cama. Depois, com muito esforço, por causa da gordura, debruçava-se para colocar o presente de minha irmã nos pés da cama dela também. Tudo igualzinho. Em seguida, no mais fundo dos silêncios, ia para a casa vizinha.
Como esquecer o barulho que fazia meu pé batendo no papel de presente, ao acordar? Como descrever aquela felicidade? Não conseguirei não. Acordava minha irmã. As duas felizes, felizes, felizes. Papai Noel era bom, atendia direitinho aos nossos pedidos. Só duas vezes nos desapontou. Primeiro foi comigo, ao deixar no lugar do presente uma carta dizendo que naquele ano eu não ganharia nada: andava mentindo e respondendo aos meus pais. Chorei muito. Mas no final da carta ele mudou o tom da prosa e me deu mais uma chance: a boneca que pedi estava debaixo da cama. Entretanto, se eu continuasse malcriada, aquele era meu último presente de Natal. Lembro que passei os anos seguintes vivendo na tentativa difícil de ser sempre boazinha. Acho que continuo até hoje.
Com minha irmã foi muito pior. Aos dez anos, às vésperas do Natal, ela não pediu a Papai Noel nenhum brinquedo, nenhuma boneca, nenhuma panelinha. Pediu, isso sim, um par de sapatos. Parece que o pedido não foi visto com boa vontade, pois na noite de Natal o que estava em sua cama era algo no capricho do mais feio horror: um sapato branco, enorme e mal-feito, parecendo ter saído das mãos de Urbano, o sapateiro da cidade. Acordei com minha irmã sentada na cama chorando, dizendo que quando amanhecesse jogaria o sapato no rio.
Ela queria crescer, ser moça logo, sair desfilando pelas ruas com um sapato bonito. Mas, sabemos, Papai Noel não gosta dessas coisas.


Imagem: www.flickr.com

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sinal fechado


Uma das coisas que mais me faz falta é de ter uma amizade a tiracolo. Daquela que temos na infância, na adolescência e quando freqüentamos a faculdade. Na infância tive a companhia de Sílvia, que mesmo demônia era minha amiga inseparável. Na adolescência ela também me acompanhou. Nós duas, aos vinte e poucos anos, aprontamos muito. Uma sabia dos segredos da outra; nos encontrávamos todos os dias na praça pra prosear, além de, nas festas, dividirmos os pileques. Engraçado, nos pileques eu só falava em literatura: todo mundo virava um escritor celébre. Tenho um amigo que até hoje atende pelo nome de Gregório. Gregório de Matos, claro. Nesses pileques já fui Clarice, Cecília. E berrava aos quatro cantos poemas de Bandeira. Um vexame, que a amiga fiel compartilhava.
Na faculdade tive outra amiga, inseparável. Quando voltava de viagem, no domingo, ela era a primeira pessoa para quem eu ligava. Pela manhã, os papos atualizados, as fofocas e os risos em dia, flanávamos pelos corredores. Nas provas, nos ajudávamos, assim como também ela me ajudava no meu pendor para os amores clandestinos. Coitada, mesmo atônita com meu jeito louco de viver a vida, entendia. Às vezes dava conselhos, mas no fundo eu sabia que ela me admirava, que estava do meu lado pra qualquer coisa. Ficamos comadres. Batizei sua filha, minha linda afilhada que tanto amo. Mas hoje não moramos na mesma cidade.
Nunca, nunca mais será como antes. A cidade aqui é imensa, tenho tantos amigos queridos: todos vivendo do outro lado da tela do computador e nos fios telefônicos. Tenho amigas com os mesmos gostos, as chamadas afinidades eletivas, mas o encontro é sempre difícil: o mundo não permite. Vez ou outra Olá como vai, eu vou indo e você tudo bem, tudo bem eu vou indo correndo


Imagem: "Sinal fechado", de Ducarvalho. In: www.flick.com

Ainda fora da moda

Acordo hoje razoavelmente cedo. Vou à cozinha. O que vejo lá é uma cena dantesca, melhor nem descrever. Só digo pra vocês que o coador fracassado reina mais do que fracassado no meio do horror. O que fazer? Tomar café na rua. Pois que não sou besta de trabalhar em jejum.
Saio, tranco a porta e chamo o elevador. Escuto um barulhinho de porta fechando e resolvo ser caridosa: seguro o elevador para esperar a vizinha. Vizinha de vista, algumas vezes de prosa avulsa, sem maiores intimidades.
Nós duas dentro do elevador. Aperto térreo. Vejo que ela sente necessidade de puxar prosa avulsa, e fala do calor. Como Salvador é uma cidade quente; marca pra chover e não chove! E se abana, coitada, toda vestida de roupa esporte para o seu cooper matutino. Até de boné a dita estava.
Nisso, o elevador pára no primeiro andar. Entra uma senhora, vestida para ir à missa. E faz uma festa quando encontra a outra!
- Ô Lia [estou inventando o nome], Ô Lia, você melhorou?
- Um pouco.
- Um pouco não! Olhe lá, pensamento positivo! Po - si - ti - vo!
- Mas estou melhor.
- Não pode dizer que está melhor! Tem que dizer que está ótima! Ótima! Ótima! Ótima!
Fiquei só observando. Só observando. Queria defender a outra, a que ia fazer cooper, e que estava melhor, mas que não estava ótima, porém apenas desci, dei tchau para as duas e fui tomar meu café.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Distante da moda


Desculpem, o tempo é de noel, pingüins e presentes. E o texto que segue é mórbido, mas deve haver uma similaridade. Começa pela pergunta que coça agorinha na minha garganta: como é que se vinga do mundo? Aproveita um fusquinha que vai passando e se enfia entre seus pneus doces? Ou não seria melhor se enfiar nos pneus nada poéticos de um coletivo pirracento, como "praia do flamengo", que só chega no ponto de três em três horas? Não; anonimato, e menos ira, por favor.
Com Macabéa foi involuntário: e o Mercedez era amarelo, "enorme como um transatlântico", carro "de alto luxo"! Morreu sonhando, a pobre Maca.
Hoje olhei diversos carros na rua, e nenhum me pareceu digno de qualquer último ato. Uma caçamba! Que tal? Nele iria todo o lixo do mundo, no qual me incluo, e seria depositado no fim dos tempos, com o sol fazendo cócega numa manhã insistente e insípida... querendo, chatíssima, mais uma vez surgir.
Oh!, perdoem minha dor. Minha incapacidade de existir. Há muito tempo descobri que odeio Polyana: as duas - a criança e a moça. Não gosto de jeito nenhum da bestajada do jogo do contente. Perdoem, e não deixem de me amar por causa de tão obsoletas palavras: sei que a moda é ser feliz. Mas nunca consegui ficar na moda. Minhas roupas atravessam séculos, e tenho um espartilho e um chapéu antigos guardados com suave cheiro de um passado jamais colhido.
O pior é que, de novo, noel invade as ruas com sua roupinha vermelha antipática. Como odeio noel de shopping iludindo aquelas criancinhas no seu colo! Todos os noéis deviam ser presos, algemados. Já pensaram numa cela cheia de vermelhinhos? ô, ô, ô.
Perdoem minha tirania. Assim como vocês, tenho vontades de esganar todas as falsas alegrias de final de ano. Todas as falsas alegrias de viver.
E de tirar de dentro da garganta essa próspera vocação para a infelicidade.


Imagem: "Morbidez", por Manuteix. In: www.flick.com

domingo, 30 de novembro de 2008

De todas as verdades


Cresci ouvindo mãe contar, aos risos, que tinha me achado no areão quente.
Em razão disso, desde pequena me aprumei numa tarefa complicada: achar vestígios de minha mãe biológica. Fuçava tudo em casa. Depois do almoço, quando mãe saía pra lavar pratos no rio, eu aproveitava e ia no guarda-roupa dela revirar sua bolsa, seus papéis, o bolso de seus vestidos. E nada. Todas as tardes era essa maratona. Fazia tudo escondido, e com uma fé forte e decidida: um dia descobriria minhas origens. E foi o que aconteceu numa tarde. Mexendo nuns papéis que pai guardava na sua maleta, encontrei! Zuleica, era o nome dela! Saí gritando pela casa, achei, achei! O papel balançava nas minhas mãos como a maior descoberta de minha vida.
Com os gritos todo mundo veio ver o que acontecia: pai pegou o papel e riu, riu, riu. Mãe também. Por que riam tanto? Oh, Zuleica era apenas uma amiga que deu entrada numa aposentadoria e pai tentava ajudá-la nisso. Foi o que eles disseram. E continuaram rindo. E aí mãe mais ratificou que me achou mesmo no areão quente. E riu, riu, riu, quase se engasgando. Eu, perplexa, senti meu couro das costas arder. Arde até hoje.



Imagem: www.flick.com

sábado, 29 de novembro de 2008

Caminhante do deserto


III

Me diga: a rosa está nua
ou só tem esse vestido?

Por que as árvores escondem
o esplendor de suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Há algo mais triste no mundo
que um trem imóvel na chuva?



Versos maravilhosos, entre muitos, do livro mais lindo de Pablo Neruda: "Livro das Perguntas". Tenho essa edição que está aí ao lado. Mas hoje, passeando pelo sebo, encontrei um exemplar muito interessante, numa outra edição. Por que não o comprei? Pergunto-me agora, inserindo-me no clima do livro. Deixei-o lá na estante com toda a história perplexa de seu dono.
Era um livro surrado, profundamente amado, adivinho, pois que seu dono sublinhou vários poemas, as mais intrigantes perguntas do livro. Como por exemplo: "Quantas igrejas tem o céu?" Ou "Se matei e não me dei conta/ a quem perguntar a hora?"
Na folha de rosto, lia-se a seguinte dedicatória, escrita numa caneta azul:

A Jorginho
Do sempre lembrado
amigo
Alberto
Em 2/2/82


Embaixo dessa dedicatória, o próprio Jorginho escreveu:

Assim se passaram dez anos.
Que amigo porra nenhuma. Mostrou-se ser um falso, um hipócrita, um verdadeiro "mau caráter, um perfeito 'filho da puta'.
Va de retro satanás
Jorge (dez anos depois).


Intrigante, pois Jorge (ou melhor, Jorginho) sublinhou a palavra 'amigo' que o outro escreveu, talvez como escárnio, além de escrever em caixa alta o Assim se passaram dez anos , sublinhando, a seguir, a palavra falso. Nota-se que escreveu tudo isso com força, quase furando o papel, tamanha raiva, como se cortasse o outro com uma faca.
Mesmo amando o livro de Neruda, Jorge não hesitou em deixá-lo no sebo, escrevendo uma vingança pueril e dolorosa. Passaram-se dez anos, enfim, para ele se perguntar finalmente, assim como fez Neruda: "E por que o sol é tão mau amigo/ do caminhante do deserto?"

A legião


Hoje acordei pensando seriamente nessa que sou e que ocupa o lugar da outra, da aeronauta. Gostaria tanto de ser somente Aeronauta. Não sou. Essa legião que me acompanha, que diz ser eu, é, no final das contas, algo em estado amorfo. Resumindo: um monte de gente besta, que sofre por tudo, que perde noites por uma palavra mal proferida, que se dá ao mundo de corpo inteiro e recebe de volta uma lufada de redemoinho com tudo que é coisa que não presta: lata velha, papel sujo de jornal, imundícies de toda a espécie.
Aeronauta não: Aeronauta é amada, muito amada; sinto isso pelos comentários que aqui leio. Como invejo Aeronauta! Ninguém vê seu rosto, pois que é nuvem. Mesmo chorando, há quem goste dela. É tanto afago, tanto abraço, tanto beijo! Enquanto que a legião que eu sou luta com faca e facão, do lado de cá, contra a mais dura das solidões.



Imagem: "Las sombras y tú". In: www.flick.com

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Mosquitinho


Existir é ter um pacto com as coisas práticas: e esse é o negócio chato de estar viva. Por exemplo, escrever aqui não é algo que pertence ao rol das coisas práticas: por isso, ultimamente, ando ausente. Tenho carteira de identidade, cpf e endereço no mundo; então o mundo me chama aos gritos para que eu vá fazer coisas práticas, responder por tal identidade, me movimentar de banco em banco, de fila em fila, de ônibus em ônibus. Pareço nos últimos dias um mosquitinho trabalhador e entediante. Um mosquitinho cansado e sem poesia. Um mosquitinho sem grandes serventias no ar. Pois que o ar é destinado ao devaneio, aos vôos de pluma e ave. No ar, os mosquitinhos são meramente seres burocráticos.


Imagem: www.flickr.com

domingo, 23 de novembro de 2008

Retrospectiva: Itinerário das volúpias


Quando sumo, não busco estrelas. Ganho a noite inteira, no escuro. Vou de déu em déu, em todas as partes do mundo em que habitam minhas memórias. Me vejo pequena, aos dois anos, enfiando o pé num fole com o prego solto e o sangue descendo. Não sabem o que é fole? Um troço que esquenta ferro de passar roupa. Vejo também, e muito, um terreiro longo em frente à nossa casa e eu, ainda aos dois anos, brincando de lá pra cá com uma peneira de catar feijão entre as pernas. E uma sensação gostosa...! Nem sabia o que era aquilo, mas gostava tanto! Pressentia, sem saber direito, que tudo era volúpia. E que o mundo era aberto, o terreiro bastante amplo, a ponto de eu poder dar nele quantas voltas quisesse, e a qualquer hora do dia, com a peneira entre as pernas. Oh, o mundo!, cheio de brincadeiras.
Continuando de déu em déu, bato na porta de uma cena antiga: ainda aos dois anos, fazendo cocô no fundo do quintal. Chega perto de mim um pintinho e também faz cocô. Pergunto: "Tu também está com dor de barriga, pintinho?"
No mundo tudo é a mesma dor, o mesmo alívio; parece mesmo que eu já sabia de algumas coisas.
De algumas coisas...
Vindo para a cidade, deixando a roça em cima de um caminhão de mudanças... Eu e minha irmã vestidas de macaquinhos pretos de bolinhas brancas. A cena é minha avó descendo a ladeira de sua casa para se despedir de nós. Tinha três pra quatro anos e olhava bem meu berço indo em cima do caminhão. Chegando na cidade, a casa numa ruazinha pequena, apertada, casa de três grandes janelas, piso de tijolos. Mãe nos ensinando a escovar os dentes, depois de todas as refeições, na porta da cozinha com um copo na mão. Nesse quintal tinha uma pedra grande que leva a lembrança da primeira vez que chupei uma bala. Bala de mel. Eu e minha irmã estávamos sentadas nessa pedra no meio de uma tarde quando mãe fez a experiência conosco: primeira bala. Dividiu no meio para evitar possíveis cáries. Fiquei chupando aquela bala devagar, mas tão devagar que dura até hoje na minha boca. Sinto o gosto de mel no finalzinho, ele se diluindo, e nunca desaparecendo por completo.
Depois veio a hepatite. Muitos mimos, muito suco de lima, muito afeto. Todo mundo com medo de que eu morresse; minha irmã me deu seu copinho de alumínio preferido, mãe me enchia de cuidados e pai... Não me lembro, sei que ele me levava, junto com mãe, para os médicos. Fui até Salvador, vejam só. Três meses de recolhimento em casa, brincando com zilhões de caixas de remédio. Achava elas bonitas e fazia uma grande coleção. Senti que minha irmã e amigas tinham inveja de meu estado, as regalias eram muitas, os dengos eram demais. Foi nessa época que virei "manteiga derretida", apelidozinho miserável que os vizinhos da rua colocaram em mim. Chorar era prazeroso, era bom. Eu estava muito dengosa, mãe e pai diziam.
Aos sete anos descobri que olhar pai tomar banho nu, debaixo da caixa d'água, era a melhor atração do mundo. Via os segredos do seu corpo e contava pra todos que iam lá em casa: seus amigos, seus compadres, seus afilhados. Eu ria, ria, ria, contava detalhe por detalhe. Ah, como era bom ver coisas.
Mostrar coisas também era bom. E como já escrevi aqui, aos sete anos mostrava minha calcinha cor de rosa para Eugênio, um meninão bobo de quinze anos, e sua família na hora do jantar, todas as noites, sem interrupção. Era tão bom me mostrar. Adorava. Principalmente porque Eugênio morria de vergonha e todos os espectadores riam, riam, riam. Eu era o grande centro das atenções e meu corpo se firmava no mundo. Meu corpo.


Imagem: www.flickr.com

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um poema


ACALANTO

Não tenhas medo. Cedo ou tarde
A noite virá ao nosso encontro.
E sem espantos te aguardarei sorrindo
Como se estivesses em outro mundo.

Te aquieta. Não te preocupes.
As fadas dormem, por enquanto.
E os mantras que agora canto
São para ouvir o teu sono imenso.

Mas chegará a noite, eu te garanto.
E te acalentarei a contento:
No teu peito a minha alma nua
Voará inteiramente.


Imagem: irreal.blog

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O divã, mais uma vez

Tinha sete pra oito anos e uma primeira amiga: Sílvia. A gente ia junto para a escola. Morávamos na mesma rua. A escola era um pouco longe e, quando chegavámos na sede dos escoteiros, metade do caminho, eu lhe dizia: Vamos voltar? O sol está muito quente! Logo ela que não gostava de estudos e afins, me incentivava pra seguirmos adiante. Vivíamos sempre juntas, a despeito de todo sofrimento que ela me causava. Como por exemplo, me obrigava a pegar merenda pra ela depois que se empanzinava, me dava cascudos, e me deixava de lado quando conhecia outra amiga. Essa é a parte que mais dói na lembrança. Ela havia conhecido uma menininha riquinha e metida a besta, de nome Livinha. Até o nome era nojentinho. Quando essa dita cuja chegava, ela simplesmente me deixava de lado. Fingia nunca ter me conhecido. Entrava lá pra sua casa, fechava a porta e me deixava olhando a rua. Ia brincar com os brinquedos ricos da outra. Eu, com a cara na rua, como disse, voltava pra minha porta. Ficava lá sentada. Quando a outra ia embora, a sem-vergonha fazia um aceno pra mim com as mãos abrindo e fechando. O pior de tudo é que a sem-vergonha que era eu, retornava. Voltávamos a brincar como se nada tivesse acontecido. Se Livinha voltasse, a cena se repetiria: ela entrava com a menina, fechava a porta na minha cara, e depois que a outra ia embora me chamava com as mãos abrindo e fechando. Ô sujeita ruim! Sinto raiva quando me lembro disso.
Mas por que contar essa história? Porque sempre me considerei descartável com relação à amizade. O vácuo vem da infância. Tenho amigos, mas sempre acho que eles estão brincando com Livinha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os amigos


Queria entender por que as pessoas vão embora. Chegam tão felizes, me abraçam, dizem coisas de amar. Depois vão embora. Sem um sinal, um bater de porta, um adeus entre duas palavras. Nada. Dolorido silêncio. Os amigos.


Imagem: www.flickr.com

domingo, 16 de novembro de 2008

Errata


Não, crianças, fiquem tranqüilas, nunca irei aparecer pra vocês. Menti pra'quele amigo que ficou acreditando que eu era Aeronauta. E os olhos dele brilharam diante de minha mentira. Posso me materializar em pessoas, entendem? Aí eu me materializei naquela professora linguaruda. Sou apenas neblina, coisa sem forma humana. Não existo sequer em mim. Por isso essa inadequação, essa vontade de ficar parada, girando o mundo; desenhando meu próprio vulto.


Imagem: www.flick.com

Encontro


Estava numa semana acadêmica e, numa cheia sala de professores, eis que aparece um amigo das letras. Ele é professor e poeta, tem um blogue, me conhece e conhece Aeronauta. Conhece as duas, sem saber que uma habita o corpo da outra. (Deixa sempre muitos comentários por aqui.) Começamos a conversar e eu falei que leio muito seu blogue. Senti um certo ar de descrença no seu rosto, pois que o nome que me deram nunca comentou lá, apenas Aeronauta. Conversamos, conversamos e, de repente, num susto, falei:
- Eu sou a Aeronauta.
Nunca saberei contar o que li nos olhos e no sorriso dele. Vi que ficou extremamente surpreso e que apenas repetia: Quer dizer que você é a Aeronauta? E eu: Sim. Esse "sim" saiu um pouco confuso: nesse momento nem eu mesma sabia se o que dizia era verdade.
O que apenas sei é que esse encontro me deixou algo inesquecível: a imagem do olhar dele diante de minha revelação. Nunca saberei descrever aquele olhar, apenas percebi que tinha um certo tom de luminosidade.


Imagem: "Encontro", fotografia de Fábio Pinheiro. Em: www.flickr.com

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Amor e leveza


Eis a imagem da felicidade, da alegria, do que há de profundamente lírico na vida. Essa é a cena escolhida para dizer do lado mais macio de minha alma. Do lado do amor. Do bucólico. Da ternura. Do que se desarma. Do que ri. Minhas duas crianças eternas: mãe e meu sobrinho. As flores e a calçada são da casa de minha tia, irmã de mãe. Eu não estava presente nessa visita, mas minha irmã fez o registro fotográfico. De cá vejo essa fotografia como a composição perfeita do que busco como ideal de amor e leveza; de beleza e harmonia; como um poema ceciliano.


*Fotografia de Menina da Ilha, em junho de 2008.

domingo, 9 de novembro de 2008

Histórias Do Lar


A empregada de minha irmã chegou anteontem aqui em casa com uma encomenda. Foi entrando e eu a atalhei com a seguinte conversa:
- Sicrana, você quer quanto pra lavar aquela pia de pratos?
- Oh, dona Fulana, não cobro nada não.
- Não, Sicrana, sou justa, não gosto de explorar as pessoas. Quanto?
- Cinco reais, dona Fulana.
Pois é. Na pia constavam: três xícaras, três pratinhos pequenos, um prato grande e alguns talheres. Caro? Também achei. Mas o mundo é dos exploradores e não dos explorados preguiçosos.
Hoje quem chegou aqui foi mãe. Veio, como todos os anos, passar meu aniversário comigo. Pedi pra ela a clemência, a caridade cristã de lavar aqueles pratinhos do café pra mim, pois que vou nascer amanhã (vide inferno astral) e não consigo fazer nada do lar. Achei tão engraçado ela dizer, depois que terminou a tarefa:
- Menina, seu coador está fracassado!
E eu, sempre dramática:
- Resta saber o que é que não está fracassado nessa casa!
Esse detalhe do coador me lembrou uma história antiga. Fui comemorar o reveillon de 1999 na minha terra e sem mãe lá pra cuidar de mim. Ela resolveu passar as festas do fim de ano com minha irmã, aqui em Salvador. Levei para as Lavras, a tiracolo, dois amigos que gostam de fazer turismo. No primeiro dia, depois de andarmos o dia inteiro pelas cachoeiras, chegamos cansados e doidos por um café. Procurei o coador. Mãe tem manias de esconder coisas quando viaja. Nunca entendi o motivo. Pois dessa vez ela escondeu bem-escondido o coador. Procurei, procurei e nada!! O pior é que o telefone estava quebrado. Aí me lembrei de um cartão telefônico que eu tinha... com dez unidades apenas. Fui correndo para o orelhão da praça. Era um domingo. A praça estava cheia.
Disquei e ela atendeu.
- Mãe, rápido, tenho apenas dez unidades. Responde ligeiro: onde está o coador?
E mãe, com a voz mais mansa do mundo:
- Ô menina, por que você não ligou a cobrar?
- Responde ligeiro, mãe, as unidades estão acabando, onde está o coador?
- Por que essa agonia toda? Você está ligando de onde?
- Do orelhão, mãe!!! Mas onde está o coador?
- Do orelhão de que lugar?
- Ai, Senhor! Só tem uma unidade! ONDE ESTÁ O COADOR???, gritei como louca.
Só deu tempo dela dizer:
- Dentro da panela...
Aí foi-se a última unidade.
O povo todo da praça acompanhava a história e se acabava de rir. Teve até um senhor de paletó que me perguntou se eu não queria aproveitar tal "mote" pra fazer uma propaganda da telemar.
Mas, a pergunta final: E o coador?
Não achei. Eram muitas panelas pra encontrar um único coador escondido; ou melhor, fracassado.


Imagem: www.flickr.com. Fotografia de Liráucio

sábado, 8 de novembro de 2008

Jogando cartas


Vou com mais regularidade à taróloga que ao médico. Digo "a taróloga" porque tenho uma que joga pra mim há mais de quatro anos. Com ela não é esse negócio de jogar tarô como quem abre um baralho comum pra jogar burro. Não, ela é uma profunda conhecedora das cartas e, óbvio, do ser humano. O que acontece numa jogada, que dura aproximadamente duas a três horas (dependendo de suas necessidades), é um bate-papo diante de um tarô que envolve mesmo, de fato, o autoconhecimento. Não é mera adivinhação. É algo mais próximo à intuição, conhecimento dos símbolos do mundo, percepção de todos os abismos e de todos os segredos que andam pelo ar. Funciona muito mais como terapia, e eu sempre volto pra casa com mais clarividência do meu mundinho interior problemático. Não é aquela coisa de sair como saiu Macabéa da casa da cartomante achando que vai encontrar o príncipe encantado e, conseqüentemente, morrer atropelada. Não, saio de lá sentindo as grandes verdades das cartas (e que são as minhas mais cruéis e vitais verdades), que não mentem para me comprar com uma felicidadezinha rasteira e momentânea. Muito pelo contrário: saio querendo estar consciente de tentar ser eu, euzinha, essa coisa que veio ao mundo não sei pra quê e que come depressa, empurrando tudo barriga adentro, sem sentir o gosto da comida. Não é à toa que a maioria dos viventes morre sem ter consciência da sensação de como é mesmo o vento bater na pele.
Todo esse preâmbulo é pra dizer que HOJE eu fui à taróloga. Ela mora longe. Fico mais de quarenta e cinco minutos dentro do ônibus. Depois atravesso a rua debaixo do sol quente, vou tentando encontrar uma sombra aqui e acolá, andando uns sete minutos até chegar à sua casa. O que mais me emociona no tarô é a confabulação das cartas retiradas: todas elas conversam entre si e dizem de nossa alma. São muitos símbolos e verdades; nunca absolutas, obviamente.
Essas cartas todas são muito minhas conhecidas. Com relação ao amor, "Os Enamorados" me definem: há sempre um triângulo amoroso na minha vida. A minha carta de nascença é "A justiça": sou dura comigo tal qual um magistrado arrogante e um feitor cruel. Como meu aniversário está próximo, estou saindo (graças!) do "Enforcado" (ou "O Dependurado") que foi a digníssima carta que me acompanhou todo esse ano; acompanhou o meu sofrimento, digo, enforcamento, ou "dependuramento". Mas está chegando uma outra cartinha mais amena, "A Morte": hora de jogar na fogueira tudo que já morreu, podendo finalmente renascer em paz, porque a Temperança me espera no ano que vem.
Desde criança me interesso por esses assuntos. Lá na minha terra quando uma pessoa quer ir ao pai-de-santo diz que vai "abrir revista". Já abri muita revista por lá; mas depois que descobri o tarô me tornei alguém mais consciente de minha própria existência. Descobrir-se gente, com nome, carteira de identidade, endereço no mundo e coisa e tal é coisa de assombrar. Experimentem se descobrir apenas nesses dados tão simples e perceberão como o negócio é de estarrecer.

*Imagem: www.flickr.com

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Arrebatamentos


Desde ontem que sofro e sou feliz, tudo na mesma medida; desde ontem faço tour pelas livrarias de Salvador, que não são muitas. E sofri muito e fiquei muito sorridente. Isso porque ocorreram vários arrebatamentos, e arrebatamentos significam compras, e compras significam dinheiro e dinheiro significa gasto, e gasto significa... Ah, deixo a enumeração por conta do ginge da tpm. Só sei é que, tendo em vista um livro ambicionado, deterioro dinheiro sem culpa, sem traumas. Mesmo quando vejo a cara de exploração dos donos de sebos. Ah, como odeio ser explorada! Mas tudo bem: pra ter um livro esgotado (e desejado) passo por todo tipo de humilhação. Peço menos, faço chantagem, choro, digo que sou cliente há muito tempo, até que consigo um desconto. O pior (ou melhor) é que meu olho só bate em livros que irão me arrebatar; livros que procuro há anos, que acabei desistindo, e que, sem mais nem menos, me olham da estante me chamando.
Hoje aconteceu isso. Há muito, mas há muito tempo busco "A literatura e o mal", de Georges Bataille. Para mim que sente, profundamente e na carne, como o mal atravessa a literatura no sentido da possível redenção, não acreditei. Claro, livro esgotado. Olho a folha de rosto, está lá um papelzito amarelo com o preço: cem reais. Edição portuguesa. Abro a primeira página e leio:

(...) A literatura é o essencial, ou não é nada.(...)

Murmuro, com empolgação: A literatura é tudo!, já tomada pelo arrebatamento. Aí continuo a leitura interrompida pela alegria:

(...) O Mal - uma forma pungente do Mal - de que ela [a literatura] é a expressão, tem para nós, creio, valor soberano. Mas esta concepção não envolve a ausência da moral, exige uma "supermoral".

É isso! É isso, disse pra mim mesma, com euforia. Porém, voltei ao preço: cem reais! Pois vou me humilhar, pensei. Escolhi mais dois livros que me arrebataram e fui pedir menos para o vendedor. Resultado: tal livro de Bataille saiu por quarenta reais, depois de muito choro e argumentos.
Sair de livrarias com livros debaixo dos braços me dá a sensação de onipotência, de saber muito sobre a vida e a morte, de ter voz para o vento, que me olha de banda, e para o tempo, que me engole no relógio da sala. Mas principalmente me dá a simples certeza de poder amar tudo que existe.

*BATAILLE, Georges. A literatura e o mal. Lisboa: Editora Ulisseia, 1967.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Abelhas


Mal comparando, estou me sentindo hoje com se eu estivesse dentro de um quartinho cheio de abelhas me mordendo, tirando jatos de sangue. Que horror! Mas só assim pra explicar a reiva, a gastura que me pega nesse exato momento. Primeiro, um calor do cão; segundo, abro as janelas pra me refrescar e o vento derruba tudo quanto é papel e quadro na parede; terceiro, o computador lento; quarto, emails e mais emails pra responder e cadê coragem?; quinto, preciso ter ânimo pra viver, ficar deitada o tempo todo não dá, pois tem um monte de plano de curso pra fazer, minicurso pra preparar, ai Deus. E sexto, o último, a bendita da tpm. E aí eu me lembro de Vitalina, antiga Vitalina de minha infância. Morava na minha rua sozinha e fazia renda cantarolando na janela. Um dia resolveu, não se sabe por que, levar flores pra mortos alheios no cemitério abandonado. Na porta, quem a recebeu foi um enxame de abelhas alucinadas. As mesmas que anunciei no início desse texto. Pois bem: as abelhas pegaram Vitalina e fizeram uma miséria com ela. Resultado: só depois de muito tempo (o cemitério como disse estava abandonado) encontraram a coitada jogada no chão, sendo comida por todo tipo de abelha: furiosa, lenta, suave, zoadenta... Todo mundo credita a um milagre de Deus sua salvação. Levaram-na para o hospital, e, pelas ruas, foram cortando roupas, cabelos, que estavam empesteados de abelhas. Nunca me esqueci de uma trança dela que vi no meio da rua. E pequetita do jeito que a sortuda era, a salvação foi coisa de Deus mesmo.
Agora acho que dá pra vocês perceberem a trabulagem (essa palavra é a cara de mãe, que adora utilizá-la) que estou sentindo hoje. Não se importem não: esse blogue pra mim é divã, por isso é que não mostro a cara.

Imagem: www.imagens.de

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ontem, no almoço

Nosso almoço ontem foi engraçado. Por conhecer minha irmã há anos, já imaginava onde e como seria, e como transcorreria. Ela é fidelíssima às coisas que gosta. Fomos almoçar no mesmo restaurante do shopping barra (só não vou falar o nome pra não fazer propaganda grátis), depois tomamos sorvete na perini (epa, não é propaganda não, e eu não tomei sorvete dessa vez), depois passeamos um pouco, e depois ela me deixou em casa para poder tirar seu sono da tarde em paz. Quem estava no almoço? Claro, os mesmos: eu, ela, mãe e meu sobrinho de onze anos. Como este se comportou? Carinhosamente, como sempre, e falante também como sempre. Ele começa a falar na hora que me vê e, sem interrupções, só pára na hora de me deixar. Mãe no mundo da lua, olhando para o oriente, e comendo muito, que ela não é besta. Acho que da turma toda quem é mais besta sou eu, que não vejo lá grandes graças em grandes pratos. E ontem o negócio foi brabo: comi mais da metade de um prato que alimentaria um gigante. Até hoje estou com a barriga nos mundos. E olhe que nem tomei sorvete! Claro, a turma toda tomou sorvetão depois, mesmo estrebuchando e virando os olhos. Minha irmã ratificou que estava se despedindo de comida, pois hoje ia começar o regime. Mãe não falou nada, e meu sobrinho também não: tomaram sorvete se regalando, sem nenhuma culpa. Ele, sem parar de falar um só segundo. Claro, coisas instrutivas, afinal é um leitor de enciclopédia e de tudo quanto é letra que vê pela frente: seja em revista, seja em livro, seja em computador. No meio do almoço, minha irmã disse: Deus me concede tudo que peço. E eu: O quê? Ela: Pedi a Deus pra esse menino puxar duas coisas do pai: a inteligência e as orelhas. Aí me lembrei do trauma de suas orelhas de abano, que ela sempre esconde com os cabelos. Mãe só ria, entre uma garfada e outra, comendo devagarzinho, coisa de seu feitio, sem nenhuma presa. Saímos de lá e meu sobrinho no trelelê. Mil perguntas do mundo para mim que não acertava nada. Quem inventou o fusca, quem foi não-sei-quem, o que aconteceu em mil novecentos e não sei quantos, e lá vai. Eu não sabia, e ele dava a resposta com um riso de felicidade, como a atestar minha bendita ignorância e sua linda sabedoria. Muito fofo! Na vinda, enquanto esperávamos sua mãe passar no banco, ele se sentou no meu colo e confidenciou: Titia, acho dar flores de presente algo tão romântico! E eu: Também acho. Ele: Mamãe me disse que só quer ganhar flores com um outro presente acompanhando! E eu: Esse é o jeito dela, meu amor. Ele: É, ela disse que flor murcha logo e o presente acompanhante não. Adorei, me acabei de rir. Essa é minha irmã!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dia de minha irmã



Hoje, como vocês todos já sabem, é o aniversário DELA. Dela quem? De minha irmã, ora! Ou vocês se esqueceram? Ah, se esqueceram não vai ter perdão; é capaz de ela dar muito murro nas costas e beliscão nos braços de todos vocês. E olhem que virtualmente os beliscões doem mais.
Meninos, acordei cedo pra cumprir o ritual: ligar pra ela! Nesse dia 04, a digníssima acorda cedo, se arruma toda e se senta no sofá esperando as ligações. Ai de um desavisado que atender ao telefone antes. Foi o que aconteceu hoje pela manhã. Mãe correu pra atender e eu só ouvi de cá: Mãe, hoje é meu aniversário, eu é que atendo! Se eu sei que é pra mim! Convencida, como sempre. Liguei e aquele lero lero: felicidades, feliz aniversário, blá blá blá. Ela toda feliz. Vai passar umas onze horas aqui pra almoçarmos juntas.
Olho para as fotos aí em cima: como esquecer aqueles dias? Nas duas eu estou com ela, só que buscando hoje tais fotografias para postá-las vi que eu tinha desaparecido. Na primeira foto, dia 04, ela comemorava os 13 anos! Fomos para a beira do rio. Clique! Dessa vez pai acertou!
Na outra fotografia, dia 04 também, tiramos no quintal de lá de casa. Ela completava 18 anos! Estão vendo a lordeza? Não foi besta e mostrou logo o sapato, de última moda! Essa foi a vestimenta da manhã. Contratou uma amiga nossa e tirou foto na cidade inteira. Quando não tinha mais lugar, tirou uma dentro do fusca (que hoje está escondidíssima).
Lembro de todas as nossas brigas. Uma, inesquecível, foi quando mãe mandou ela pentear meu cabelo e a cara de pau achou de dar vários nós na minha trança. Mas não lembro de uma briga no dia dos nossos aniversários. Nesse dia o sol é sempre forte, e percebemos o grande presente que nos foi dado: de não sermos "filha única" e, assim, termos alguém com quem podemos rir de nossas histórias conjugadas.
Parabéns, fidalga irmã!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O retratista amador


Pai comprou uma máquina de tirar retrato e passava o dia inteirinho procurando paisagem. Só que ele era muito nervoso: com as mãos tremendo, pegava na máquina, mirava e não acertava o alvo. Foi por isso que na festa de São João cortou minha cabeça e a cabeça de meu par, além de cortar as pernas de outros colegas que dançavam "rancheirinha".
Eis a razão de eu não estar "de corpo presente" na foto aí em cima. Da esquerda para a direita: minha irmã, Aninha, Gal e Fátima. Cadê eu? Resposta: Nos pés das meninas. Segundo pai, era a localização perfeita para que eu pudesse sair no retrato.

O pierrô suburbano


Adoro ler entrevistas concedidas por Nelson Rodrigues. Há algo nele extremamente visceral, romântico, terrível. Suas respostas não são nunca cor-de-rosa, são sempre trágicas. E eu me identifico bastante com a tragédia, com o moço ou a moça que estão lá em cima do décimo andar pula não pula; com a mulher que "ateou fogo às vestes" (acho ótimo esse clichê antigo); com aquel'outro, Torquato Neto, que fechou a porta do banheiro, abriu o gás, deixando o famoso bilhete: "Pra mim, chega!"
Se sou romântica? Miseravelmente romântica. Mas voltemos a Nelson. Diante daquela célebre pergunta que se faz a escritores "O que significa escrever para você"?, nosso querido dramaturgo responde: "Se eu não escrevesse, seria um desgraçado". E complementa: "A rigor, se você examinar bem, todos os meus personagens são tristes. Salvo algum esquecimento, não vejo ninguém alegre." Não há alegria na literatura, tenho a ousadia de afirmar: o que há é a alegria na descoberta de quão funda e produtiva pode ser a tristeza. Por isso é que se escreve - para não se tornar um completo desgraçado.
À pergunta final "Quem é o Nelson Rodrigues?" a resposta que me deixou pensativa durante todo o dia (e logo ontem, dia de todas as solidões reunidas na sala, sem nenhum amigo chamando à porta; sem nenhum amor querendo voltar):

O sujeito mais romântico que alguém já viu. Desde garotinho sonho com o amor eterno. Na minha infância profunda, os casais não se separavam. Havia brigas, agressões de parte a parte, insultos pesadíssimos, mas o casal não se separava. A separação era uma tragédia. Em último caso, a mulher apelava para o adultério. Sou romântico como um pierrô suburbano. (...)

(In: RODRIGUES, Nelson. Entrevista concedida a VAN STEEN, Edla. Viver e escrever. Vol.3./ 2. ed. Porto Alegre:L&PM, 2008.)


*Imagem: site www.iccacultural.com.br

domingo, 2 de novembro de 2008

Uma dama deslocada

So-li-dão. Nos finais de semana essa palavra tem ares de madame antiga, la belle époque, daquelas que bem sabiam como desmaiar (quem me lembrou esse detalhe da época dos desmaios foi Nelson Rodrigues, lido ontem). No final de semana essa palavra (So-li-dão) me lembra que estou morando na cidade grande, e que as pessoas se fecham nas suas casas verticais, adorando seus vivos, os do seu próprio sangue. Na cidade pequena não. Todos se encontram, vão para a praça falar da vida alheia com o mais doce sentimento de solidariedade. Lá seus amigos chegam, puxam o trinco da porta e vão entrando. Não precisam telefonar, porque com certeza você vai estar em casa. Se não, como disse, estará na praça. Para onde fugiria quem você procura? A cidade é pequena, com dois gritos ele lhe escutará na beira do rio e virá correndo.
Ah, por aqui o negócio é bem diferente. Por aqui a Solidão é uma dama deslocada, usando sapatos fechados em plena praia. Desmaia a cada sol na cara, a cada onda que bate em seus pés. Chora a plenos pulmões, mendigando a qualquer um que seja dois dedos de prosa, ou melhor, uma simples "conversação". Porém, em terra de axé não há lugar para remanescente da belle époque. Sai, fantasma!, gritam todos, e se enclausuram com seus vivos, em suas casas verticais, festejando o ótimo tempero do vatapá.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Das bizarrices humanas

Chamava-se (e ainda se chama) Leônia. Talvez uma péssima combinação de leão com amônia, sei lá. Só sei é que ela fazia um monte de mecha com creme nos cabelos para que os cachos ficassem duros, à prova de vento. E que veio de São Paulo pra ficar. Estava morando na nossa rua, na última casa, perto da ponte, e um dia nos convidou para o aniversário de seu irmão. Que aniversário estranho! Primeiro porque o bolo era roxo, e segundo porque serviram como salgadinho nada mais nada menos que batatinhas cozidas enfiadas em palitos. Peguei pensando que era algo novo e quando senti o gosto já era tarde.
Mas o fato é que ela, Leônia, ficou nossa amiga. Tínhamos dezesseis pra dezessete anos e ela devia ter uns dezenove, vinte. Baixinha, atarracada, mais pra anã, como eu. Foi ela quem me ensinou a fazer mecha no cabelo, com creme, a fim de que os cachos ficassem duros, à prova de vento. E me ensinou algo que nunca esqueci, mais ou menos assim: quando o vento bater nos cabelos não devemos fazer nada: nada de querer deter o cabelo, pois é pior; o melhor mesmo é deixar o vento fazer o que bem quiser, pois quando esse passar, os cabelos voltarão ao normal. Engraçado, nunca me esqueci disso. Toda vez que estou na rua e o vento vem em cima de meus cabelos lembro do conselho de Leônia.
Logo logo ela se afastou da gente, e foi fazer amizade com meninas de outra rua. Mas sempre que a via, com os cachos à prova de vento, me dava vontade de rir. Até hoje nunca abandonou tais cachos, acrescentando outras coisas ao seu histórico: se entregou à comilança e à bebelança. Ontem minha irmã me trouxe notícias dela, tão bizarras que vou dividi-las com vocês.
Disse minha irmã que soube por uma amiga conterrânea, que Leônia não bebe mais água: só cerveja. É cerveja de manhã, de tarde e de noite. Senta de tardezinha na porta da casa com um monte de latinhas ao redor. E que decorou sua casa de uma maneira muito estranha. Aproveitou todos os cantinhos para enfeitá-los com bibelôs de sapos de todas as espécies e tamanhos. Da sala de entrada ao quintal. Nas paredes, imagens de sapos; nas estantes, sapos vestidos de roupas e usando bonés; sobre a televisão, sapo pequeno dormindo; sobre o aparelho de dvd, sapo dando sorrisos; sobre os sofás, sapos gargalhando em forma de almofadas. No quarto tem outros tantos em cima da cama: apertando a barriga desses sai um coaxar igualzinho a de um sapo de verdade. Em cima do guarda-roupa a saparia verde, os maiores, vigia seu sono. No quintal estão os sapos que não couberam dentro de casa: uns grandalhões, rústicos, de barro e de plástico.
Voltando ao quarto: sobre a penteadeira não tem sapos, mas algo bizarro também: um monte de vidro de perfume vazio. Pediu a todas as pessoas da cidade que dessem para ela os perfumes que fossem acabando. Tem todos os tipos de perfume que se foram.
Ah, e na cozinha? A saparia divide espaço com as joaninhas. Enfeitando a geladeira tem ímãs de joaninhas de todos os quilates, de todos as formas. Quando se tenta abri-la, as joaninhas caem pelo chão, numa barulheira terrível. Conta-se que uma senhora sua prima chegou pra visitá-la e foi abrir a dita geladeira pra pegar água... Quando vem de lá aquele monte de joaninha destrambelhada, a outra não fez por menos: pegou uma bacia, colocou todas as joaninhas dentro e aconselhou a prima a jogar tudo fora. O que essa não fez, claro.
Voltando aos sapos. A cidade inteira quis saber por que o incutimento da dita cuja pela saparia. Ela disse que foi uma coisa à toa. Estava sentada de tardezinha na porta, bebendo sua cerveja, quando viu um sapo na calçada, perto do rio. Aí imediamente pensou: puxa, o sapo, um bicho que ninguém gosta... Apiedou-se, portanto, e resolveu render-lhe homenagem. O marido é quem mais sofre, coitado: na hora de dormir deita-se sobre os sapos coaxando porque ela não quer, de jeito nenhum, tirar os lindinhos verdes da cama.

Série "cartas"

Numa caixinha que tenho de guardados, lê-se em cima: "cartas de mãe e de minha irmã". São verdadeiras pérolas. Vejam essa de minha irmã:

"Lábio amargo"

Hoje acordei com um gostinho amargo na boca: aquele que sempre sinto quando percebo que os outros finalmente vêem que não sou aquilo que idealizaram. Não sou mesmo, gente. O fato de viver nas nuvens não me faz pessoa melhor. Nem mais lírica. Nem mais generosa. Nem menos fútil. Vivo no meio dos livros, sou pouco vaidosa, detesto ir ao salão pintar os cabelos brancos que me atormentam, detesto ter que fazer as unhas dos pés (das mãos não faço nem sob tortura), odeio ficar experimentando roupas nos provadores de lojas (nunca encontro o que gosto)... A enumeração não teria fim. Isso tudo não é pra dizer que sou melhor que os outros, ou pior; ou que não sou fútil e vivo preocupada tão somente com os problemas do espírito. Ou do intelecto. De jeito nenhum. Porém, volto a falar que uma das coisas que mais me atormentam é envelhecer. E olhe que já envelheci bastante para a idade que tenho; talvez pela própria preocupação nesse item. A preocupação é tanta que, incoerentemente, nunca me cuidei para retardar o envelhecimento. Minha irmã, mais velha um ano, demonstra muito menos idade que eu. Mas o fato é que sempre me senti velha: aos treze me considerava uma velhinha de bengala. Descobri esse trauma ao lembrar que quando eu tinha sete anos mãe me disse que eu não era mais criança. Não aceitava: por que eu teria que deixar de ser criança aos sete anos? Ainda me pergunto isso até hoje.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Amizade seqüestrada

Na infância tínhamos, eu e minha irmã, uma amiga que adorávamos: Itamara. Ela ia lá pra casa almoçar com a gente e ficava a tarde inteira. Brincávamos, e umas oito, nove horas da noite, ela queria ir embora, obviamente. Mas o que é que eu fazia? Trancava a porta de saída e escondia a chave. A menina chorava, gritava, pedia pelo amor de Deus que a soltassem, mas eu nem tchum. Aí mãe vinha pra resolver o horror. Não lembro se minha irmã era cúmplice, só sei mesmo é que essa cena ficou marcada em mim como símbolo da amizade seqüestrada. Coisa que continuei repetindo vida afora, em suas mais distintas maneiras. Amar é algo terrível que dentre suas sinônimos tem a palavra engaiolar. Sim, botar o fulano dentro de uma gaiola, e dar-lhe um remedinho pra ele se acostumar, pra não se rebelar e ainda poder lhe amar em dobro. É demoníaco, sei, pois que eu nunca gostaria de ser engaiolada, de jeito nenhum. Tenho espírito de passarinho, de nuvem, de coisa que se desloca, se modifica continuamente. Mesmo assim, sinto ainda gastura quando gosto de alguém: e aí me vem "Ata-me", de Almodóvar. Ah, como já senti vontades de seqüestrar um grande amor que não me amava e lhe obrigar a me amar, a pulso! Isso é algo extremamente primitivo, e confessar aqui me traz a sensação de que posso olhar-me no espelho, mesmo com perplexidade.
Falo agora sobre essas coisas porque hoje, ao visitar todos os blogues e dar de cara com a porta fechada do blogue de Bernardo, ou melhor, o bico fechado, mudo, me lembrei da história de Itamara. Onde encontrar uma chave nesse mundo cibernético que possa trancar um ser virtual e mandar-lhe escrever? O que fazer para capturar alguém que não conheço, e que já tinha entrado na rotina de minha amizade, e obrigar-lhe a não me abandonar? Nada, não posso fazer nada. De cá, de meu esconderijo de pessoa extremamente imperfeita, mais uma vez vejo mãe chegando, me obrigando a devolver a chave da casa, abrindo a porta, e eu assistindo, pela milésima e infinita vez, minha amiga Itamara ir embora.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Heranças


Pai, aos quinze anos de idade, e tia Nói, aquela do sapato de madeira, lembram-se? Atrás do retrato vem a data: 1952. Esse retrato pai sempre utilizava para provar que já teve cabelos lisos. Só depois que resolveu passar máquina zero é que os novos fios nasceram crespos. Baixinho que só: nisso eu puxei a ele. Mãos nos bolsos da calça, desvendando a mais pulsante vaidade, é coisa herdada por minha irmã. Foi nessa época que ele realizou o maior sonho de sua vida: comer um quilo de açúcar. Trabalhou e arrumou dinheiro suficiente pra ir na venda e comprar. Com o quilo de açúcar nas mãos foi para o quintal e se empanturrou. Na quarta colher, vomitou tudo. Oh, como é metafórico isso...
Tia Nói, adulta, como vocês já sabem, nunca teve meias palavras: mulher de pulso forte, sempre bebeu pinga e brigou onde quer que estivesse. Porém, nesse dia aí do retrato ainda era uma menina. Por isso o retratista tratou de colocar uma cadeira a fim de conseguir uma possível simetria entre ela e pai. E esses braços cruzados? O que significam? Já traços de sua personalidade querendo saltar... Vejam só a cara quase se enfezando...
Ah, pai, como lhe procuro, como lhe procuro!
Minha irmã estará para sempre simbolizada nessas suas mãos dentro do bolso; e eu nesse seu olhar interrogativo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ainda sobre "Morte Abjeta"

Terminei agorinha cedo o livro. Faltavam tão somente quatro páginas. Que devorei antes do café. Volto a dizer: livro primoroso. E que me levou a pensar muitas coisas, inclusive sobre minha relação com a literatura. Duas coisas, acredito, me levaram à literatura, desde menina: primeiro, a curiosidade: ali dentro daquele livro fechado, e com um título na capa, tem coisas... deixa eu ir lá descobrir; segundo, a força que a literatura tem de nos fazer crédulos. Eu que sempre fui crédula, desde que vim ao mundo, percorrendo as páginas dos romances e poemas mais crédula fiquei. Foi na pós-graduação, incrível, que primeiro ouvi a ratificação dessa minha fé inabalável em todas as palavras escritas. Ouvi aquela famosa frase teórica na qual se corrobora que quando lemos literatura há "a suspensão da incredulidade". Pois bem: eu estava certa, eu estava certa, desde sempre, foi isso que pensei, e que eu já sabia, claro, desde os seis anos, quando li Chapeuzinho Vermelho. Ora, pois, o que quero dizer agora? É que acreditei em tudo que vocês, Bernardo e Judith, contaram. Ainda briguei com minha irmã no telefone, dizendo: foi verdade, sim. E ela: menina, como é que ocorreu um crime no Tribunal, em 1999, e ninguém soube! E eu: tudo pode. Não, eu não podia deixar minha credulidade de lado. Na verdade, o interessante é não saber onde a chamada "verdade" termina e a mal-falada "mentira" começa. Isso é que é interessante e que nos faz pactuar com a literatura. Vocês dois estão lá como autores e personagens. Surgem outros personagens que já conheço, virtualmente: Maria Sampaio, Mena, Verinha e suas filhas (Meu Deus, quer dizer que Maria Sampaio rouba santos de igrejas? Que maravilha!). São personagens absolutamente reais, críveis. Por isso acredito que Cirço existiu mesmo. E morreu nas salas do Tribunal. E Judite o encontrou em estado abjeto de decomposição. E daí o livro nasceu; e os dois grandes autores-detetives. Rindo da morte e da vida, como poucos sabem rir. Vocês são embusteiros, "mentirosos", que sabem tudo sobre o mundo e a literatura.
É verdade e dou fé.

sábado, 25 de outubro de 2008

Bernardo e Judith


Judith e Bernardo (torcendo para Maria Sampaio não ficar com ciúmes):

A vida, sei há alguns anos, é do contra. Ela não gosta de ver a gente feliz. Ela não quer, de jeito nenhum, por exemplo, que a gente leia. Faz de um tudo pra nos desviar dos livros e nos levar aos quefazeres sem graça, como atender a telefones gritando.Vou contar tudo. Depois de receber o "Morte Abjeta" na LDM, ler a dedicatória e a carta manuscrita do final e, ainda, postar o sucedido, a vida me tirou o tal livro das mãos. Não deixou mais eu pegar no dito cujo. Esse me olhava para todo lugar que eu ia. E quando eu finalmente recomeçava a leitura, o telefone tocava (não, não é desculpa de gente que não gosta de ler). Passei uma semana fora, então o telefone, que se encontrava mudo, desatinou a gritar. O mundo inteiro me chamando, eu que detesto que demandem de mim (por isso até hoje não tive filhos). Depois que desligava o telefone, e desgraçadamente ia abrir os emails, o que estavam lá? Mil pessoas me chamando, me pedindo coisas, inclusive para responder aos emails.
Agora à tardinha, voltando da rua, gritei: CHEGA! Peguei o "Morte Abjeta" e fui para o quarto, ler deitada, como gosto. Ah, moço, foi só o tempo de ler a primeira, a segunda, a terceira carta e rir, rir, rir, rir. E me deliciar, claro, com a beleza de escrita, com o suspense da história policial, com as descrições arrepiantes e engraçadas do estado dos que morrem e dos que ficam para contar. Percebi até agora que Bernardo é pontual nas respostas, enquanto que Judith enrola que é uma beleza pra responder. Ambos, porém, são extremamente pontuais no humor, na dilacerante observação da morte e, principalmente, da vida. Terrivelmente impagável na descrição do morto, encontrado em estado fétido de decomposição na sala de trabalho, Judith ressalta: "não tenho culpa, são detalhes indispensáveis":

No que havia a boca do indivíduo estava aberto um buraco, e como o nariz já havia sido comido, os óculos escorregaram pra cima do buraco, tortos de um lado.Parece que a criatura havia babado ou vomitado antes de morrer, pois em volta da cabeça e do pescoço, no chão, havia uma mancha circular, seca pelo sol que entrava pela janela sem persianas, das 10 horas ao meio dia. Os sapatos estavam nos pés, o telefone celular pendia frouxo, ainda preso ao cinto. Acho que o sujeito havia feito bastante cocô, pois havia uma massa seca e escura, que víamos pelo buraco aberto pelos vermes no fundilho lá dele. (p.18)

Bernardo, por sua vez, conta-nos mortes antológicas, presenciadas por sua condição de médico, vigilante de almas vivas e mortas: a história de um homem que foi atropelado "e deu um trabalhão para retirar um retrovisor agarrado nas mãos como uma tábua de salvação, e a língua teimosamente presa no limpador de pára-brisa que os socorristas levaram junto por algum motivo (...)"! O mais terrível e engraçado é o teimoso suicida que só conseguiu realizar seu intento após amarrar "uma carretilha de bombas de São João, de um real, em volta da cabeça":

Quem assistiu à cena garante que o infeliz (que não contava com as explosões em série), rodopiava loucamente, pipocando, numa dança grotesca. Um observador mais atento garante que viu os olhos do infeliz rodopiando um para cada lado; a língua balançando no mesmo ritmo frenético da cabeça e os braços balançavam feito os bonecões de Olinda. Imagine, então, o que encontrei no levantamento cadavérico! Saía uma fumacinha dos ouvidos, cheirando a pólvora de fogos Caramuru e o corpo parecia um Judas no day after. (p.23)

Vou parar por aqui, antes que Maria Sampaio fique "roxinha de ciúmes". E para que, conseqüentemente, ela não desista de autografar e dedicar pra mim o "Rosália Roseiral". Eis outro livro que merece resenha já!

Imagem: contracapa do livro em questão. GUIMARÃES, Bernardo e RIBEIRO, Judith. Morte Abjeta. Salvador: M.J. Ribeiro, 2002.
* Fotografia de Bernardo e Judith: Célia Aguiar

quinta-feira, 23 de outubro de 2008


Ontem, aproveitando uma brisa inconstante que passava, grudei na primeira nuvem fofa e voltei. Cheguei hoje, manhã cedinho. Dormi, depois fui direto à LDM. Também com o coração aos pulos. Desde a entrada da livraria, aos vendedores, aos livros, tudo parecia conspirar uma felicidade clandestina, uma cumplicidade de mistérios. Ali estava o livro que Bernardo deixou pra mim. Cadê Edilson? Um vendedor vermelhinho (vermelho é a cor da farda deles) foi logo dizendo que Edilson tinha ido almoçar e só voltava às três da tarde. Pensei: tudo pra mim é complicado... Teria que agüentar minha expectativa e esperar. Livraria é algo extremamente perigoso: como não sei roubar, o jeito é pagar os livros que me chamam das estantes, me endividando. Resolvi sentar lá nos fundos, com um livro no colo, para esperar o homem. O homem que conhece duas pessoas que não se conhecem: o homem que sabe dos mistérios: Edilson. Engraçado, nunca Edilson foi tão importante pra mim; tenho a cara de pau de dizer que gosto de Edilson porque ele é o facilitador de minhas compras: sempre me dá vinte por cento de desconto. Hoje ele era um rei esperado. E amado. E o pior é que demorou pra chegar. Quando eu já embalava nas páginas do livro (Clarice diz que é preciso a gente viver distraído para que as coisas aconteçam) não é que vem de lá Edilson (estava era bonito hoje!) e me chama? Professora, aqui sua encomenda. Me entregou um envelope branco, cor das nuvens leves. Entregou e saiu com pressa, mal deu tempo de eu perguntar como foi o sucedido. Abri logo o envelope e vi um livro lindo, lindo. Edição primorosa. Capa belíssima de Maria Sampaio. Fui direto à primeira página. Nela, uma letra sensível e elegante dizia assim: "Amiga secreta Aeronauta: Para ler nas nuvens, onde são guardados todos os segredos. Que nosso mistério permaneça. Um grande abraço de Bernardo. 17.10.08." Como sou viciada em analisar discursos, percebi que ele sublinhou o "Aeronauta" e o "nosso". Achei a dedicatória tão bonita! Principalmente porque mais bonita que a vida é o mistério. Que se preserve o mistério, pois. Que as nuvens abençoem todos nós. Que abençoe Edilson, o que traz a chave.
Na saída, não me contive e perguntei: E aí, Edilson, ele perguntou alguma coisa? E Edilson: Não, professora, apenas... E contou tudo igualzinho ao que Bernardo falou no seu blogue. Fiquei em frente a Edilson, admirando-o, tentando tirar dele um fiapo do mistério que o rodeava, mas logo desisti. Com meu livro nas mãos, e mais aquele que havia comprado, peguei a primeira nuvem que passava. Agora estou aqui, lendo o livro de Bernardo e Judith com uma sensação clandestina de saber e não saber do mundo. Por entre as páginas consigo ver as marcas das mãos de quem se debruçou para escrever a dedicatória.

*Sobre a capa: ainda não sei escanear direito: esse negocinho verde que vocês estão vendo em cima é o marcador de livro que veio dentro.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Para sonhar

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


(O sorriso, de Eugénio de Andrade)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

telegrama


Onde estou não tem uma nuvem no céu. Estou me equilibrando, solta, no azul escaldante de um céu... que pega fogo. Aqui não tem vento. As árvores, perplexas, se olham, se acenam, sem poderem movimentar uma folha. E eu, pesada, tento mover-me nessa temperatura absurda que a distância aumenta. Não sei viver fora do ar. Não sei lidar com o calor. Quero frio, uma nuvem volumosa e fofa, para que eu possa deitar, dormir, sentir todas as gotas/ de chuva/ do mundo. Aqui não tem brisa, Bandeira. E eu não sei viver sem brisa. Sem notícias/ do mar.


Imagem capturada na www.flickr.com

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Covardia

Uma das cenas de covardia que insiste em habitar minha memória é terrível. Vejam: eu e minha irmã indo para a banca, à tarde. Um solzão de lascar. Numa dobradinha de rua, três cabeças despontam dentro de um buraco: Janda e suas capangas - Lourdinha e Mariquinha. Estavam lá de tocaia, esperando. Quando elas nos vêem, saem do buraco. Cercam a gente. Aliás, cercam minha irmã, pois eu tratei logo de sair de banda. Enquanto Lourdinha, a secretária, segurava os livros da coitada da minha irmã, Mariquinha começava o ataque, e Janda, a chefona, só olhava. Todas estão instaladas num meio-fio, onde lá embaixo uma lagoa verde, de sapo, fedia à espera. Mariquinha tratou logo de abrir passagem e se jogou pra cima de minha irmã - que só não caiu no buraco porque grudou nas suas canelas secas. Nessa hora, Janda, ferozmente, já com toda a raiva que necessitava, partiu para cima com olho de cachorro doido. E eu? Onde estou eu numa hora dessas?
Ah, eu estou já perto da ponte, bem longe, gritando pela coitada que apanhava: Vambora Mã, vambora Mã, Vambora Mã...
Se não fosse uma filha de Deus, adulta, que passava na hora, minha irmã tinha se acabado.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O encontro


Estarei, amigos, na LDM. Escondida na estante onde tem escrito com letras vermelhas: Poesia. Minha roupa é de um azul bem tênue, quase que não se enxerga durante o dia. Meus sapatos vêm estragados pela escapadela de uma nuvem, nessa manhã de chuva, só para conhecer vocês de longe. Me esconderei entre os livros de Hilda Hilst, e os de Clarice, e os de Cecília. Ou então estarei na guarda-volumes, no meio dos objetos que ali não têm moradia: sacolas, sombrinhas, e livros de outros livrarias.

domingo, 12 de outubro de 2008

Meu avô


"Papai", "Seu Jesuíno", "Vovô", "Meu padrinho", "O véi": era assim como lhe chamavam, respectivamente, mãe, pai, minha irmã, eu e minha avó. É este homem aí, só elegância, e que está ao lado de mãe, posando para retrato e retratista, no dia 06 de agosto de 1960, na Lapinha. Mãe e ele eram almas gêmeas. Sempre juntos, sempre confidentes, sempre sorrindo. Nas segundas-feiras ele aparecia lá em casa com algo que ela amava, dando-lhe de presente: requeijão. Que festa! Os dois eternamente apaixonados por requeijão!
O que marcavam mesmo meu avô era o riso e o amor à filha: Té. Trazer requeijão pra ela, toda segunda-feira, era a prova de amor que ele lhe dava. Depois que desembrulhava o papel de venda de roça, ela preparava a mesa para o café, que ambos tomavam com leite, conversando e rindo.
É isso o que mais lembro de meu avô: seu riso constante. Ele ria o tempo todo, sem interrupções. E nos envolvia com balas, conversas..., contando vantagens, tal qual seu irmão, tio Abel. Usava sempre paletó. Surrado, mas paletó. Chamava pai de "compadre", e conversavam sobre política. Eram bastante amigos.
Meu avô tinha uma venda na roça. E de lá é que trazia requeijão pra mãe e balas pra mim e pra minha irmã. As balas da roça eram diferentes das balas da cidade: tinham um papel ordinário e eram muito doces. Mas adorávamos. Ele as trazia dentro do bolso do paletó. E morrendo de rir nos entregava juntamente com a benção que recebia. Suas mãos eram brancas, grossas e cheias de calos. Mãos humanas demais.
Essa coisa de dar requeijão pra mãe e doces pra gente continuou até ficarmos adultas. Quando minha irmã casou, com o juiz da cidade, ele foi ao fórum conhecer o noivo. Depois de um largo abraço, tirou de dentro do paletó um lanche mirabel do fofão e ofereceu ao novo "neto" com o riso mais longo e puro do mundo.