sábado, 16 de novembro de 2013

Reginaldo Rossi

Começo a narrar o acontecido com um velho clichê: "Não foi brinquedo não". É, ontem o show de Reginaldo Rossi não foi brinquedo não. O homem é uma figura interessantíssima, e faz parte do meu imaginário brega com muito amor. Mas a dificuldade para conhecer esse homem valeu uma passagem pelo Inferno. De verdade, o Inferno existe, o Inferno é vermelho, amplo, friorento, onde a área vip é semi-descoberta e tenta matar, quem está lá,de frio. Quem sobrevive, ganha uma nova vida. Foi o que aconteceu ontem com duas mulheres desamparadas: eu e mãe. Nós duas batemos queixo de frio das nove da noite (hora em que chegamos) até as três da madrugada. Isso porque o homem de cabelo de fogo, óculos escuros, vestido de preto, só apareceu no palco 1:00h da manhã. Antes disso botaram um cantorzinho fuleiro para desafinar à vontade. Este cometeu o maior pecado que nem no Inferno se deve cometer: inventou de homenagear Dominguinhos, e desafinou feio. Tal fanisquito de cantor dançou no palco das 11 da noite até a hora de Reginaldo Rossi ficar no "entra não entra". O palco todo decorado de vermelho fechou suas cortinas e a gente só ouvia o anúncio, aquele mesmo escutado desde às 9:00, nos intervalos: "Daqui a pouco espetáculo internacional, com Reginaldoooooooooo Rossssssssssssi!" Cortinas fechadas, chuva e frio no lombo, principalmente para os que estavam na área ampla, alguns gatos pingados (pouca gente foi a essa festa, verdade seja dita). Pois é, anúncio, anúncio, espeque no meio do cortina fechada, que mãe achou ser dois homens juntos, um montado no ombro do outro, e nada de Reginaldo Rossi aparecer. Aí mãe, coitada, morrendo de sono e frio, perguntou: - Será que não é mentira, será que não inventaram que era show dele? - Não é possível, mãe, não pode ser! Passado tanto tempo, ela perguntou: - Será então que ele não está é dormindo lá dentro? Me acabei de rir, e respondi com os lábios e pernas tremendo: - Deve ser. Se dormia, foi duro para fazerem esse bendito homem acordar. A essa altura eu já me arrependia de ter ido. E me perguntava: "Por que tudo aqui é tão difícil?" Quanto me fiz essa pergunta eis que surge de lá o Homem. Todo praticado no preto, óculos escuros, cabelo de fogo, barriga pra frente, pernas finas, miudinho, cantando "Garçom"! Aí o coração bateu forte, mãe feliz, rindo, valeu, Deus! Daí em diante foi o desgramado falando esculhambação, contando as histórias de cada música famosa sua. Mãe não piscava o olho. Um só instante, pensei, vale um Inferno inteiro. A todo momento, quando ele finalizava uma música, ela me falava ao ouvido um número: - Oito. - Oito o quê? - Ele já cantou oito músicas. Quando deu quase três horas da madrugada, ela falou ao meu ouvido: - Dezoito. Ele já cantou dezoito músicas. Quando você quiser ir... Saímos de lá ouvindo ele chamar uma moça da plateia de gostosa e rabuda. Iria cantar "Leviana", música que, segundo ele, ensinava a mulher a tirar o dinheiro do marido, às escondidas.

sábado, 9 de novembro de 2013

O que se passa com nossa psique lá na barriga da mãe, diante da véspera de nascer? Deve ser a mesma agonia que teremos na iminência de morrer. A chamada gastura. Eu estou hoje, na iminência de nascer, com muita gastura. Vou nascer de novo amanhã, não façam estardalhaço. Pai, não solte foguete de novo, não gostei. E aquele entrai e sai de gente dentro de casa? Todo mundo falando "é a cara da mãe", "é a cara do pai", "é a cara do seo Jesuíno". Eu não tinha cara de nada, estava muito chateada, isso sim, de ter que passar por novas expiações e provas, sabia naquele dia (depois esqueci) de tudo que iria passar adiante. Essa memória não é clara, é evanescente. Eu enrolada em cueiros, com a cara amassada, berrando, criança feia como toda criança que acaba de nascer, feios como seremos na iminência de morrer. Os dois caminhos se cruzam: muita gente no quarto (não, não quero morrer no hospital), a parteira ao lado, mãe me abraçando, minha vó fazendo mingau de parida, um auê na casa, todo mundo mandando e desmandando em quarto, cozinha e sala, coisa que só em dia de morte se assemelha. Mãe pálida, nasci com os pés para fora, e não com a cabeça, que atrevimento. Dei trabalho a mãe Isaura, a parteira, parto demorado, água quente, pai do lado de fora, ébrio, tinha passado a noite na farra, o povo todo em preto e branco, em retrato perfeito da década de sessenta. Aquele bebê ali embrulhado na cama, como pacote, era eu. Aquele trocinho besta era eu. O que vim acrescentar ao mundo? Meu anjo da guarda começou a trabalhar nesse dia. Coitado dele.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

não se paga

Só fiz amar. Todos os dias, como se amar fosse algo natural, como minha própria respiração. E é.

2013

2013. Um ano de provas e expiações. De tirar o fôlego. De tirar a pedra no meio do caminho e aparecer outra. Gigante. De resolver enfim levar a pedra nos ombros, para ver se tal sacrifício comove os deuses; mas os deuses são cruéis e nos transformam num novo Sísifo; Sísifo sorrindo, às vezes, desse destino besta e cansativo. 2013. Ano de rupturas. Ano de brigas. Ano de poesia. Ano de facebook, ano de abandonar essa casa, e passar por aqui apenas esporadicamente. Ano que ainda não decifrei seu significado. Ano treze, cabalístico. 2013. Sete anos completados, em maio, de minha defesa de doutorado. Cabalístico. Tanto perdi, tanto ganhei: palavras, palavras, palavras. O cesto se enche delas: como água, olho para dentro e nada mais vejo: desapareceram... Resta-me eu sozinha. Aqui.

terça-feira, 23 de julho de 2013

"Temos todo o tempo do mundo"

Éramos bem jovens, numa festa de 15 anos. Lá fora os convivas, sem comida. Lá dentro, no salão, a debutante principal com seu séquito, a família, os amigos mais próximos, e as comidas. Um bolo gigante com o número 15 roubava a cena, e quem lá dentro entrava para poder sair custaria, no mínimo, o amassamento da roupa, do cabelo e do corpo: na porta de entrada havia um empurra empurra dos diachos. Nunca vi um salão social tão pequeno e com uma entrada menor ainda. Um espreme espreme de zoada de corpo se amassando uns contra os outros, enquanto que os convidados, raros, lá fora, nas mesas enfeitadas, esperavam os garçons começarem a chegar de lá de dentro; claro, se passassem vivos pelo espremedor. Eu estava no espaço dos convivas: mesas brancas, com flores rosas. Mesas vazias. E morrendo de fome. Mas morrendo de fome mesmo. Foi por esse tempo que aprendi que devemos ir a festas já alimentados. Nossa turma toda sentada na mesma mesa, jovens e famintos. Chegou uma hora em que todos se aventuraram a enfrentar a porta. Ou enfrentariam ou desmaiariam de fome. Eu não, eu disse que não iria não. Ele, Ele ali ao meu lado, tão feio mas tão feio, morrendo de amor por mim. Disse, no seu terno heroísmo mineiro: - Fique aqui quietinha, vou lá dentro e volto rápido; vou pegar um pratim procê. Lembro bem, tocava alto Legião Urbana: "... Temos todo o tempo do mundo/ nosso suor sagrado é bem velho que esse sangue amargo.... " Lá vem ele, sua volta custou o tempo de rodarem quatro músicas de Legião. Mas enfim, ele apontou de lá quase maltrapilho, despenteado; parecia vir da guerra. E vinha da guerra com as mãos vazias, como sempre acontece. Antes de eu dizer qualquer coisa, ele tirou de dentro do bolso da camisa uma uva verde, gorda, grande, e me deu. A uva não esmagou, conseguiu passar intacta pela porta espremedor. Ele disse: - Apenas consegui pegar essa uva. Tinha muita gente se esmurrando na mesa dos comes. Nem os garçons conseguem chegar lá. - Como você conseguiu passar na porta sem essa uva estourar? - Eu a protegi com a mão o tempo todo, segurando-a dentro do bolso - falou suado e descabelado. Talvez tenha sido essa a mais delicada declaração de amor que recebi de um homem.

terça-feira, 16 de julho de 2013

a poesia



Minha religião sempre foi a poesia.
Para que eu ir buscá-la em padres, pastores, espíritas
inveterados de verdades incríveis?
Os poetas sempre souberam de tudo,
Freud continua certo, por isso ganha meu respeito.
Cantos? Orações? Benditos? Senta e levanta?
Ajoelha-se? Sacrifica-se?
Oh, Cristo, minha maior lembrança Tua
é nas Bodas de Caná:
Tu e Tua mãe festejando;
Tu transformando
água em vinho em demasia.
Cristo é alegria, assim como o poema:
profundo, triste, a salvar pessoas.
Encontro-O em Cecília, em Bandeira,
em Drummond...
Nas pessoas terrenas que habitam
os templos, ouço-O diminuto,
lugar comum, que é atributo
de quem não tem mundo interior.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

amor sozinho



Ele não me quer de maneira alguma.
Nem que eu o amarre, nem que eu ameace
cortar-lhe os pulsos
nem que eu lhe dê as estrelas.
Talvez ele nem goste de estrelas.
E até de vinho, que todos gostam, ele gosta
mas em pequenas doses
porque a embriaguez pode levá-lo a mim
a quem ele não quer
como quem não quer, do além, ouvir vozes.

Ele não me quer de maneira alguma.
Com ou sem anel, com ou sem pulseiras,
com ou sem roupas.
Ele nunca será Fellini,
portanto não abraçará Gelsomina.
Enquanto durmo sonhando acordar Heloísa
para ser amada por Graciliano,
ele prefere amar quem nunca será eu
nem em filme, nem em literatura.
Portanto, estou mais para Orides Fontela
sozinha e amarga, a vociferar contra os ventos.

Ou Sylvia Plath, mesmo sem aquela lindeza
aquela lindeza que não lhe garantiu ser amada.
Enfim,
escrever poesia é o meu destino
ambíguo e sem rumo
porque amor, nem de amigo.


Imagem: "amor sozinho". In: www.google.com.br

sábado, 13 de julho de 2013

arquitetura



Não acreditou que eu soubesse seu nome completo.
Eu disse que sim, sabia.
Me pediu que então eu o declamasse
Para ele.
E assim o fiz,
Firme:
Com a pompa de quem inaugura
Uma república
Como quem faz do nome do outro
A moradia mais lúdica

Como quem constrói uma casa
Para lá morrer.



Imagem: escritório de Hilda Hilst na sua Casa do Sol.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

retirado de um folhetim



Ela entrou na fila com o vinho. Só que teve o cuidado de perguntar à vendedora se aquele era suave. Era tinto, mas era suave? A moça não soube explicar e perguntou ao empacotador, que respondeu que não, era seco. Ela voltou lá e pegou o vinho mais caro, e que tinha escrito em letras vermelhas: "suave". Entardecia, e ela também comprou preservativos, e aproveitou a última loja aberta do shopping para comprar lingerie: calcinha e sutiã vermelhos.
Chegando em casa, imediatamente colocou o vinho na geladeira. E o preservativo no criado-mudo.
E foi tomar o banho mais demorado e mais minucioso de sua vida. Cuidou de si com a maior das delicadezas, inscrevendo promessas no seu corpo em cada enxague do sabão.
E lembrou, claro, de Roberto Carlos e Djavan, enquanto se perfumava: perfumou-se do dedo do pé ao pescoço, quase se sufocou com tanto cheiro.
Ele estava pra chegar.
Ele ia chegar.
Ele chegou.
Porém, o vinho continuou fechado na geladeira, o preservativo no criado-mudo e a lingerie escondida sob sua roupa. E no dia seguinte a empregada, ao abrir a geladeira para pegar a manteiga, disse-lhe com realismo e tristeza:
- E a senhora comprou o vinho... E não abriu. Vai perder.
E ela, para se conformar, lembrou que Roberto Carlos também já perdeu muita coisa. E que Djavan está com mal de parkinson. Ela que sempre odiou a competição com as dores alheias, estava ali buscando uma salvação impossível.
E também como era masoquista! Foi à geladeira e abriu-a. E olhou o vinho fechado, recolocando-o no lugar. Mas não tirou a lingerie que ainda continuava vestida, e  não tocou no preservativo.
Ela sempre soube desse desfecho, era seu eterno retorno: insistência com o Destino.
História repetida, dolorosa e antiga. Vinho envelhecido, nunca tomado.


(Salvador, 23/02/2010)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

INTEIRA



Busco um homem que me veja inteira:
vísceras, fígado, costelas, peitos,
como num açougue o freguês vê direito
aquilo que compra, com acuidade
sabendo que achou o que é precioso.
Não como um garimpeiro, cessando a bateia
para encontrar o diamante:
Luz manifesta de tudo que é perfeito, e brilha.

Busco um homem, insisto, que me veja inteira:
garganta, dentes e gengivas,
laringe e língua. E que me vire de lado e de frente
constatando, fremente, que valho a pena
no tato, no paladar, no olfato,
e principalmente na alma:
minha alma no seu prato.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

dois poemas para teu nome


DOIS POEMAS PARA TEU NOME

1.

Sei teu nome de cor, teu nome completo
aberto feito uma flor, uma flor silvestre
doce e perversa, ácida e inerte.
Nenhum vento balança teu nome
enorme, parado no mundo, como terrível musgo
grudado nas funduras de um palácio de bronze.


2.

Teu nome completo é um poema:
Verso de um epigrama, ou dor de uma elegia.
É uma lenda enorme, uma canção, inscrição
no Oráculo de Delfos:
Destino sem remissão;
mas uma alegria.
Epitáfio, podes gravá-lo em mim,
aqui, nessa veia.



nessa cena

Imensa saudade. E nunca seremos personagens de qualquer nouvelle vague. Jamais serei Jeanne e tu, Bernard; jamais sumiremos de madrugada, fugidos de casa; jamais. Sonho em preto e branco, e a lua prateada mata, e a água do lago, e o meu cabelo solto e tua camisa larga, tudo, tudo naufraga. Imensa saudade: eu nascer de novo, na madrugada, ao te ver, após muitas vezes ter visto sem perceber; mon'amour em Dijon: sinto tua boca descer e me levar ao mundo maior; uma pena não entrares nessa cena. Eu só.



Imagem: Cena do filme Les Amants (1958), de Louis Malle.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Para Maria Sampaio, o texto de número 1000


No dia 4 de julho de 2007 abri essa casa. Tinha medo da terra, assim como continuo tendo, mas resolvi sair um pouco do ar e flanar no mundo. São seis anos de vagabundagem pelas vielas, ruas e avenidas desse lugar chamado internet. E esse é o texto de número 1000. O que significa escrever mil textos num espaço de  seis anos? É verdade que passei algum tempo distante, escrevendo em outros lugares, mas também é verdade que fui fiel a mim mesma, não me deixando à deriva em alguma nuvem e não voltando mais. Por que é muito melhor voar numa nuvem do que tentar ajustar nosso corpo compacto numa cadeira e escrever teclando. É melhor escrever imaginando e o imaginário ser o próprio texto, livre de convenções e traumas: deixar finalmente o inconsciente berrar, sem armadilhas de ego e muito mais do superego. Mas o ego existe na escrita, assim como id e superego. O superego eu trato sempre de domá-lo no texto; tanto que depois de muito tempo sem me identificar por causa da opressão desse maledito superego, um dia fui lá e disse alto para todos ouvirem: meu nome é Ângela Vilma! Portanto, dei pancadas no superego. Assumi que habito um lugar no mundo e não me chamo apenas Aeronauta: porque além de nuvens tolero flanar na Terra.
Na blogosfera, que hoje proclamam estar fora de moda, fiz amigos inesquecíveis. Cito uma, representando todos os outros: Maria Sampaio. Essa mulher, grande mulher, a conheci numa tarde junina quando, dentro de um apartamento em Salvador, sozinha, escrevia sobre lembranças do São João de minha infância. E aí ela surgiu do outro lado, começando uma grande, mas infelizmente breve amizade. "Ô essa menina", como esquecer isso que ela dizia? Ou então: "Vivá!'
Maria Sampaio, alegria de todos nós. Dedico a você, minha querida Maria, esse texto número mil, por que você sempre significará a magia da blogosfera.
Tenho certeza de que hoje você deve estar sentada agora na nuvem mais fofa do céu, olhando para a Terra e rindo, me perguntando se o Santo Antonio que trouxe pra mim de Pádua já  fez o seu trabalho de me arrumar "o" namorado... Isso só te responderei quando nos reencontrarmos.

minha prece


Minha prece mais profunda agora para todos os amantes; eles que nesse momento da noite estendem braços para abraços enormes, gigantescos e abrangentes como a imensidão da própria noite; que se aconchegam um no corpo do outro como folhas num galho de árvore, em tempos de frio; que se amam como feras e como feras se entregam, na doçura de tudo que é intenso e dá medo. Que se monumentalizam na cama, no chão, no tempo, como pessoas que driblam a morte nesse momento único.



Imagem: Cena do filme "Les Amants" (1958) de Louis Malle, com Jeanne Moreau e Jean-Marc Bory.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

no cinema


Não somos namorados
desses que se encontram no portão
sob o olhar do lampião de antanho,
mas como queria poder assistir
contigo
"Candelabro italiano":
nós dois
montados numa lambreta
a passear pela antiga Roma...
Ah, e "Casablanca"?
Beijaria tua boca enfim
o beijo da década de quarenta:
lábios apenas se encostando,
e o espanto dos olhos entremostrando
nosso solene e lindo drama.

Não somos namorados
mas queria assistir contigo
"Os melhores anos de nossas vidas".
Depois, só nós dois
e Doris Day cantando
"Que sera, sera"
no mais lindo filme de Hitchock;
e para assombrar um pouco nosso presente
iríamos ao futuro com Bette Davis
naquela personagem velha e cega
de "O Aniversário"; preservaríamos
como amuleto, a bela Bette de "A malvada".

Iríamos, jovens, aos futuro, para
passar a "Meia-noite em Paris";
sem deixar, após, de visitar a Fontana di Trevi:
serias Mastroianni buscando o gato
para Elza, não para Anita;
Serias Fred, um velho argentino e
não o jovem Marcello, italiano.

Hoje, nesse dia, namorado de mentira,
estás pelas ruas, solitário,
como o homem magro de Clarice
a tocar violino na esquina
que Suzana Amaral não aproveitou.
São tempos de igrejas
e não de cines;
de filmes e não de fitas...
Onde, digas, construiremos
nosso "Cinema Paradiso"?
Estamos em pleno "Inferno n. 17"
e "Antes do amanhecer",
inexoravelmente, não mais existiremos.


Imagem: Cena de "Casablanca" (1942)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

o meu Clark Gable


Ah, pai, que saudade eu tenho de seu cheiro. Lembro bem, o senhor me trazendo no colo, aos seis anos, da festa que dancei a noite inteira. Lembro do cheiro de seu pescoço, lembro da maciez de sua ternura, de seu cuidado, de seu zelo. Pai sempre foi a personificação do amor. O amor a todos, sem distinção. O homem que gostava de ajudar todo mundo, não para se mostrar melhor que os outros, mas por puro instinto. O amor nasceu dentro dele, como dentro da gente nasce orelha, boca e nariz, naturalmente: pedaço do corpo. Mãos bem morenas, queimadas de sol, quase negras, unha do dedo mindinho grande (nunca soube por que), cabelos crespos, bigode a la Clark Gable, e um olhar doce, mas tão doce...
Feito Hilda Hilst com o seu respectivo pai, lhe procurei a vida inteira. Por que eu lhe perdi ainda na infância, depois daquela festa em que o senhor me trouxe no colo. É a última lembrança de seu afago. Nunca nos separamos, mas nunca mais nos encontramos em afeto encarnado, a não ser nos livros e revistas em quadrinhos que o senhor fazia questão de trazer pra mim de Salvador, e de sempre elogiar meus poemas para mim e para os outros. Tenho lhe procurado como louca por onde ando. Já vi mãos iguais às suas, ternuras parecidas, olhares com a mesma extrema doçura. E eles, seres semelhantes, me abraçam, me trazem da festa no colo. Depois vão embora. Uma outra mulher sempre o captura, com a mesma sedução de minha irmã.

exercícios (1)

Fomos para a casa de minha avó. Lembro de mãe e de minha tia mais nova usando aqueles vestidos curtinhos da década de 60 e 70. As duas se davam bem, conversavam muito, mas eu sempre grudada na barra da saia de mãe. Eu tinha quatro anos de idade, sufocava mãe, assim como ela me sufocava, só que eu não tinha noção disso, ela era meu elo com o mundo; mundo do qual eu tinha tanto medo. Mas nesse dia a família toda foi para a casa de dona Calu, minha avó. Minha avó sempre foi braba, não tinha paciência para neto não. O carinho dela era dar a cada um uma coalhada bem feita numa caneca de alumínio. Pois bem. Mãe conversava com tia Lia já tramando o que ambas iriam fazer: iriam passear na feira de um povoado próximo, só eu não poderia ter ciência disso. Claro, não queriam me levar. Fizeram tudo calculado, mas muito calculado, já que eu não saía da barra da saia de mãe e não percebi o que estava acontecendo. De repente me vi no meio do terreiro, desamparada, procurando por mãe (a estrada de carro à frente) e eu gritando em desespero de morte: "mãe, mãe, mãe!", parecendo que iria ter um ataque. Corri para a estrada e se não fosse minha avó, com uma sandália na mão querendo me bater, eu morreria atropelada. Ela me deu um grito, me botou pra dentro de casa, valente que só ela, e ameaçou me bater. Chorei o dia inteiro, até mãe chegar, já de tardezinha, meiga, como se nada tivesse acontecido.
Duas grandes mágoas: só minha mãe poderia me bater, queria dizer isso pra minha avó, mas não tive coragem. A outra mágoa foi o cálculo de mãe, a estratégia, a traição: foi a primeira vez que fui traída na vida.


terça-feira, 25 de junho de 2013

comoção


Tenho imensa comoção por teus olhos.
Teus olhos imersos em luz, mas que se apagam
com a frequência dos vaga-lumes:
nunca ficam todo o tempo brilhando.

Tenho verdadeira comoção por ti,
cordeiro manso, indo ao encontro de um Deus
que não alcanças; mas o interpela de perguntas
que Ele nunca te responderá, apenas o escuta.

Tenho terna comoção por ti, irmão da vida,
do mesmo destino sem abrigo, sem permanência,
nós dois, transitórios, sempre sabendo da morte,
tu sem medo, eu com medo: fortes, nem nos abraçamos

para compreender tudo isso, esse mundo em que estamos
submergidos sem qualquer pedido anterior lembrado:
existências e mais existências comovidos
e destruídos, como papéis rasgados.


Imagem: Alain Delon em cena do filme "A primeira noite de tranquilidade", de Valerio Zurlini (1972).

segunda-feira, 24 de junho de 2013



Posso te amar por toda a minha vida, deixar-te entranhar em meu corpo com a garra de um bicho louco, de um bicho selvagem, ensandecido e doce. Lá irás morar para sempre, nesse ambiente úmido e quente, dissolvendo-se em mim como um poente se dissolve sobre o mar.




Imagem: Itacaré-Ba.

domingo, 23 de junho de 2013

Interdito




Teu silêncio, tua falta de eloquência, tuas mensagens curtas
Tudo isso me separa de ti como se separa um século do outro:
com muitas mortes, vidas torturadas, tumultos de uma História
que se acaba.
Teu medo diante do nada que eu sou, em forma de Vida,
anima meus sonhos, mas me interdita, me faz mulher que se esconde
(em sua própria casa) das visitas.
Me escondo com minhas palavras proibidas,
mas pretendendo ser seguida por ti: lida, pelo menos,
dentro do fosso, na parte mais baixa do porão,
onde só os ratos e os gatos transitam
em festa íntima.



Imagem: Cena do filme "O Leitor" (2008).

sábado, 22 de junho de 2013

Canção diante do abismo


A um passo do abismo
É só você me abraçar, bem forte
e cantar aquela música de João,
ou Jobim,
Uma bossa nova.
Irei, sem vacilar, contigo
cair lá no fundo, sem perigo
algum, sem perigo algum.

Deus se aproximará com suas asas
etéreas, como quem retira as feras
de dentro de si, e as manda
de volta ao mundo.
Deus, e nós dois.

A um passo do abismo
É só você me abraçar, e entoar
outra prece, mais outra, se preciso.
Falarei poesia, a fim de subtrair
tanto cálculo, indo à altura
de sua alma girando sem cura,
sem qualquer apoteose, e abrigo.

Cairemos juntos no abismo
Loucos amparados por anjos
tocando Bach, em piano e violino
em concerto universal, vivos, plenos,
sentindo que um passo a mais ou a menos
poderá nos levar ao total desaparecimento
de nós mesmos.



Imagem: Cena do filme "Um corpo que cai", de Alfred Hitchcock (1958).

sexta-feira, 21 de junho de 2013

o sonho e o cavaleiro




Nessa noite, em sonho, um homem me visitou. O corpo dele pedia amor, eu o conhecia de muitos anos atrás, era um conhecido, um amado conhecido. Ele queria de novo ser amado por mim, só que apareceu uma mulher na hora e nos acompanhou pelo nosso passeio, passeio que era nosso apenas. Cheguei para ela e disse isso, expressamente: "esse passeio é nosso". Ela entendeu, parou por onde estava,  e eu segui com o homem que necessitava ser amado e que eu queria amar. Vocês sabem, nenhum sonho, ainda bem, é literal: é sempre poético, fragmentado, cheio de cortes de câmera, cinematográfico. A cena que surge a seguir é o homem deitado à minha frente, eu lhe apalpando o peito e percebendo que ele trazia no seu corpo muitas camisas: não era apenas uma. Camadas e mais camadas de camisas o sobrepunham como cascas de cebola. E eu teria que ter o trabalho e a disposição de retirá-las, uma a uma. Perguntei se aquilo tudo era frio, por que tanta camisa. Ele nada falou. Na cena seguinte aparece eu tentando tirar pelo menos a primeira camisa, ou seja, a última. Não conseguia; e não conseguia por que sabia que as camisas eram muitas e eu não conseguiria chegar à primeira: Quando? Em que tempo? Em que século? Meu prazer aumentava diante do interdito daquele que se vestia para sempre, como um cavaleiro medieval, e eu morria em mim, muito viva, muito viva.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

a mulher e o mendigo


Desejo teu corpo. Poderia dizer isso de maneira poética.
Mas não dá. Tenho que dizer sem metáforas, de forma direta.
Tal qual com fome o mendigo pede coisas na sarjeta.
De maneira direta, sem análise complexa.
Não que eu seja esperta, mas minha carne implora
a tua, sem subterfúgios metonímicos.
E quando o desejo grita o verbo da alma
e o vago anímico lateja ardente
é premente que se peça,
que se implore,
que se verbalize em voz alta.



(Poema escrito em 02 de janeiro de 2008, do meu inédito "Livro de Preces")



CLARIDADES



Amar é para onde vou, minha vocação absoluta.
Veja a renda de meu vestido, toque-a, não há luta
nem armadilhas: apenas um vestido rendado.
E essas flores, e esse campo aberto, e esses teus dentes?
Deus, vejo Deus, nesse intervalo entre mim e o sentimento
de semelhança contigo, rindo e comendo as sementes
que nos plantam um no outro, sem qualquer retorno.

São prodigiosos nossos encontros por dentro
como quem da rosa não tira os espinhos, e fura os dedos
com o vento; e nada entende de poesia nem de semeadura,
mas faz da ternura coisa farta, enchendo a mesa de uma grande casa.
Percebes que não há diferença entre um homem e uma mulher e Deus?
Cósmicos, nos encontramos vivos sem sabermos a que veio
essa tarde; e, maior, essa claridade crescendo vívida em nossa carne.


(Poema antigo, escrito antes de mim, no século XVIII. Brincadeira: escrito por mim em dezembro de 2009)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

como esquecer?


Como esquecer o detalhe daqueles dedos da mão direita todos olhando para cima, juntinhos, coladinhos um no outro? A quentura de uma pele doce a despeito da violência que nutria? O encantamento dos primeiros anos, aquele amor imenso finalmente saindo pelos meus poros e lhe doando? E o erro, sempre o erro, estragando tudo: para o amor, a maledicência não tem cura, não dura, o amor não dura à mal querência. Mas como esquecer detalhes mínimos: sobrancelha direita falhando no meio, olhos escuros meio tortos e um jeito peculiar de me abraçar para se desviar da morte?


terça-feira, 18 de junho de 2013

nota oficial



Como disse Tom Zé, há um "Tribunal Feicibuque". É, lá tem um tribunal, tudo é visto, olhado e julgado. Guardas kafkianos na porta, revistam sua roupa, ops, sua escrita. E fazem pontes com a sua vida. E com a de quem leu. E com outras vidas. Tudo assim: preto no branco. E tem condenação. Você vive o tempo todo cerceado. Ora, quem escreve quer ser livre. Quer abrir o verbo, a garganta, contar e inventar e dizer o que quiser. Que se dane o mundo. Sempre fui livre. Mas agora sinto olheiros por todos os lados que vou. Porque além de escrever no facebook, moro numa cidade pequena. Pim-pam, pam-pim. Não, não é isso. Sou altamente biográfica e altamente mentirosa. Por isso mãe me mandou para o catecismo aos sete anos. E me deu o livro  do menino que o nariz aumentava quando mentia. Meu nariz continuou aumentando aqui no blogue, e nunca reclamaram. Por que lá reclamam? Por que será que lá ficam olhando texto e biografia? Ficam procurando imagem especular? Isso dá uma tese de pós-doutorado. Blogue é literatura e facebook não? Tudo é literatura, basta você enviesar a palavra e encarnar todos os seres que você quiser ser. Basta você falar aquela estranha língua potencializada, metaforizada. Basta buscar a infância. Basta falar de amor de maneira potente. Aí você está no reino da literatura, não da fantasia, nem da mentira. Mas de uma verdade enigmática, ambígua.
Minha vida está e nunca está completamente naquilo que escrevo.
Isso é verdade e dou fé.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

"Antes da Meia-Noite"


 
Uma decepção o filme! O que Antes do Amanhecer e Antes do Por-do-Sol traziam de beleza filosófica, existencial, plástica, sonora, Antes da Meia-Noite desfaz. Não desfaz completamente porque, graças a Deus, os dois primeiros filmes são impecáveis e continuarão assim. Já esse, coitado, esse é um xingamento ao cinéfilo. O filme começa com Jesse (lindo, aos quarenta e um anos), levando o filho do primeiro casamento ao aeroporto e conversando com ele,  enquanto Celine (linda também, com a mesma idade) esperava-o no carro, juntamente com as duas filhas gêmeas. A conversa de Jesse com seu filho foi atrapalhada com minha gastura por conta do bilhete perdido, minha mente não lembra quase nada desse diálogo. Mas quando Jesse volta e entra no carro para viajar com a família para a Grécia, aí sim é que meu juízo apertou. O que vi foi uma Celine verborrágica, chata, reclamando de tudo. E eu que já estava com o juízo apertado, foi dando um nó e sentindo vontade de sair do cinema. Cena longa, o carro em movimento, Jesse ainda inteligente e espirituoso, num contraste terrível com aquela mulher falastrona e reclamona. Quando finalmente chegam à Grécia, continua a chatice do converseiro, agora com um monte de gente numa mesa. Dai-me paciência, Deus, quase saio da sala! Três pessoas saíram, e antes do final mais duas (a sala estava quase vazia). Nunca vi tanta pobreza de conversa! Nem eu conversando com minhas amigas falamos tanta bobagem. Cadê aquele diálogo profundo de Jesse e Celine dos dois primeiros filmes? Foram para o esgoto da relação familiar. Aqui é que o filme morre de vez. O diretor repete a fórmula do diálogo andante (o de Viena, maravilhoso, o de Paris, idem) agora pela Grécia, os dois conversando até chegarem a um quarto de motel. Só que o que ouvimos é de uma pobreza constrangedora. Se o diretor quis ser fiel à realidade, mostrando que “todo” casamento cai na rotina e se estraga, foi incoerente consigo mesmo ao propor algo diferente nos dois primeiros filmes. Ora, todo amor que dá certo tem que virar uma droga daquela? Até a palavra “cagar”  sai com raiva da boca de uma Celine ciumenta, amarga e enraivada por ter sido mãe apenas, enquanto Jesse ficou famoso como escritor em suas turnês pelo mundo. Jesse salva a cena sempre: inteligente, maduro, espirituoso. Por que o diretor fez questão de acabar com a personagem inteligente que foi Celine nos dois primeiros filmes? Por que a mulher tem que ficar, depois de anos casada, descrente e sem tesão? Por que os casamentos têm que ser transformados na mesma coisa? Com os dois primeiros filmes, o diretor tinha tudo para mostrar não a comum realidade sem imaginação e repetitiva do comum casamento, mas a credibilidade no aprendizado do amor, que se faz com o cotidiano, com a rotina. Era esse o desafio dele. Não conseguiu. Transformou dois personagens apaixonados e apaixonantes em duas pessoas corriqueiras; só não digo medíocres porque salvou Jesse. Mas pergunto: por que ele fez de Celine um estereótipo? Celine, sensível, inteligente, linda e culta que conhecemos nos dois primeiros filmes, se transformou num ser deplorável: ciumenta, dona de casa, mãe de gêmeas, frustrada, e sem qualquer sensualidade. Uma tristeza. Assista ao filme, assim mesmo. E se, por acaso, como aconteceu comigo, você “perder” o bilhete, não compre outro, vá embora. O bilhete que não se perdeu foi um aviso.

 

terça-feira, 11 de junho de 2013

sobre as águas



45. Mudanças no aspecto físico, obviamente. Orelhas: pendem com o brinco. Pescoço: quando gorda, com dobras; quando magra, com pequenas pelancas que se movimentam, como puxa-puxa, quando você fala. Braços: se você fez ginástica a vida inteira, vai ter músculos; claro, se não fez, vai ter sobras: não ligue em dar adeus com vontade! Olhos: ao redor, se desenvolvendo muitas vezes até a face, pés de galinhas de quintal bem articulados, bolsa nos olhos com uma ligeira melancolia roxa chamada olheiras: não se importe, é algo poético, charmoso. (Pior é sempre o botox, corra dele.) Bochechas: caem, caem, óbvio; mas quando você ri elas suspendem: mais um motivo para sorrir, sorrir sempre, seu rosto fica sem aquela marquinha caída debaixo das respectivas bochechas, que sempre parecem tristes. Cabelos: agora frágeis, os fios vão parar no chão do banheiro e descem no ralo, indo embora, para esgotos, talvez. E os fios brancos, aqueles mais rebeldes que despontam fazendo chifres na cabeça? Tem mulheres que arrancam esses rebeldes com ódio. E pintam os outros brancos, pintam de preto, pintam de outras cores, morte declarada aos fios brancos, malditos! (Não, aceito tudo, mas fio branco é demais!) Os seios: há, os seios ficam outonais, há quem goste de outonos... líricos... A barriga com afluentes e pedras amolecidas, dessas que rios antigos passaram muitos e muitos anos sobre elas... As pernas sustentam essa mulher, repleto de marcas. Maduro, seu corpo é um mapa, sobre as águas.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

sonho eterno




O senso comum é que as pessoas são substituíveis. Assistindo pela quarta vez, ontem, aos filmes Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Por-do-Sol (2004) relembrei o aprendizado. A personagem Celine diz isso: que nenhum amor que passou por sua vida foi substituído por outro, que cada um teve suas peculiaridades. Nenhum ser humano pode ser substituído, pensei, é verdade, claro que é verdade. Todos temos algo que nos difere dos outros: um sinal no pescoço, no ombro, na boca, na barriga, no braço. Não meramente isso: um sinal na alma. Nesse, um traço de mazela, noutro o traço de libertação, naquele outro traços de perda e de dor; e de alegria. Todos verdadeiramente humanos, e que atravessam nossas vidas deixando suas tatuagens no nosso corpo, para sempre.
A maior birra de minha vida é continuar acreditando no Amor. Se um dia esse sonho minar, me enterrem, me enterrem viva, num caixão de vidro, em cima de um monte: serei, à revelia do mundo, Branca de Neve - que acordará com o beijo do Príncipe.


Imagens, respectivamente: Filmes Antes do Amanhecer e Antes do Por do Sol.

domingo, 9 de junho de 2013

sobre a redenção de nós, malditos


Deus Abraxas. Tenho o mal e o bem em mim, e o que faço, a todo o tempo, é tentar jogar o mal fora. Há um gozo em fazer maldades, em se vingar. Não, não me venha com cara de santo, que eu sei que você, leitor, por mais religioso que seja, já desejou que alguém morresse; que azulasse no mundo desaparecendo. Oh Deus Abraxas, Deus que habita meu sangue fervente, humano, demasiado humano, me abrace, me compreenda. Fui feita numa casa simples, de um povoado singelo, de uma relação de amor e abandono, de carinho e sofrimento, provavelmente com cheiro de cachaça circundando o ambiente. Fui feita também através do ódio e do desamparo, do sexo frouxo e convencional, das intimidades dilaceradas. Como hoje eu poderia ser algo maior do que sou? Sou frágil, também dilacerada, dada às fraquezas de pensar em matar e ferir. O pior é que não consigo matar nem ferir, então a faca se volta para mim, com a fúria de quem se envergonha da covardia de seu dono.



Imagem: Abraxas (www.google.com.br)

mudanças



Nessa noite passada sonhei com mudanças, eu havia mudado, ou melhor, voltado para o meu apartamento em Salvador. Quando saí de lá não tinha tantos móveis, afinal morava num apartamento. Aqui moro numa casa, os móveis aumentaram, comprei aqui na cidade móveis antigos; então o apartamento para o qual voltava não comportava tantos móveis. Lembro-me bem que no sonho ficava gritando, junto com os ajudantes: "Onde coloco a mesa, essa mesa redonda? E essa mesa quadrada?" De repente, num passe de mágica, o apartamento ganhou mais uma sala de jantar, foi crescendo, crescendo, e os móveis se adaptando em plena felicidade; essa felicidade só conhecida pelos que um dia já foram acolhidos.
Diferentemente do sonho, aqui é a casa, o Facebook era o apartamento. Lá eu tinha que escrever textos curtos, imediatos. Aqui tenho um salão enorme para colocar móveis, ops, palavras. A casa é tão grande aqui, gente, grande demais. Venham, ocupem essas cadeiras vazias, venham todos.

sábado, 8 de junho de 2013

chove


O que queres de mim, Senhor? Que eu sofra, que eu me liberte, o que é que queres de mim? Já bebi todo o cálice, já me autoflagelei, já perdi amores, e estou só. Sinto que te afastas de mim para a prova maior. A prova da solidão absoluta. Vou aceitar essa prova. Só não aceito a culpa. Não, não tenho culpa, não tenho. Não quero a culpa, sempre fui eu mesma, na busca de uma integridade com o outro. Sou distraída, talvez essa seja minha única maneira de magoar pessoas, sem querer, sempre sem querer. Mas nunca sequer roubei uma flor. Busco ser humana, só isso, em perpétua cruz; aquela mesma para a qual te condenaram. Estamos todos na tua cruz, sofrendo horrores, e eu não quero mais sofrer. Quero apenas escrever. Para escrever preciso descer da cruz, pois não salvarei nem minha humanidade, como Tu salvaste a de tantos e tantos. E eu só consigo salvar minha pobre humanidade escrevendo. Também não quero mais a doença: quero o rosto corado, a esperança nos olhos, o amor no corpo. Quero a vida.
Com essa prece, saio de uma cidade chamada Facebook, e volto para casa, para minha nuvem, pois aqui escondidinha sofrerei menos. E como está chovendo muito, poderei misturar minhas lágrimas com a chuva, ninguém precisará notar que choro. Chove.

sábado, 1 de junho de 2013

fruta boa





Toquei trêmula teu rosto e não acreditava no que via: dentes perfeitos, sorriso esculpido em
  nuvem sem ser desfeita. Tocar. Apenas o que eu queria, ambição pura de menina curiosa. 
Saber a temperatura de teus braços, de teu queixo, de teus olhos. Toquei sim, e muito, e ria, 
ria, ria, feito criança em dia de natal. Em tempos sem festa, aquela tua presença viva era o 

meu enorme quintal, cheio de frutas saborosas para meu paladar infantil.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

mulher


"(...) Quem não teve a sorte de encontrar em sua vida uma mulher genialmente feminina não sabe o que é uma mulher". (José Ortega Y Gasset)


terça-feira, 21 de maio de 2013

A vinda


Falaram que era minha hora de vir: não queria, dei chilique, corri para dentro das nuvens. Um Senhor com vestes brancas gritou alto para os outros: "É a menina, peguem ela aí!" Esses outros conversavam numas árvores perto das nuvens, todos também de branco. Diante do comando, desataram a correr olimpicamente atrás de mim. Me escondi dentro da nuvem mais densa, mais escura, que trazia como promessa uma trovoada de acabar mundo. Mas esses Senhores de branco eram donos das nuvens, donos de tudo, e sabiam que eu teria que vir. Me pegaram a pulso, eu esperneando gritava "não quero ir, não quero ir!", chorando aos berros, apelando para Jesus, "Jesus por favor me salve!" Ele, no mesmo instante, de longe, me enviou um aceno: o aceno mais belo, mais forte, e que me impulsionou a vir, sem mais gritos, só choro, um choro miúdo, resignado. Aqui estou. Não é fácil isso não; aqui peso tanto que não levito, e há uma dor cravada no peito que não facilita as coisas. Mas não dá para esquecer o aceno de Jesus quando resolvi ceder e vir. Não dá. Lembro agora desse aceno terno e afetuoso, e luto para conseguir forças para continuar seguindo. Sinto enjoos, tonturas, não me adapto à essa temperatura compacta, ao peso do corpo, mas preciso ficar até o fim, quando talvez, nesse fim, possa descobrir a finalidade de minha vinda.

domingo, 12 de maio de 2013

Volver a los 17



Ela, linda, aos 17 anos. Vestiu o vestido que mais gostava, calçou a singeleza das sandálias campesinas, com as pernas cruzadas. No braço um relógio delicado, e no pescoço uma volta (corrente) sutil, quase não vista. Ocorria um momento importante: o retratista passava pelo povoado. E era preciso guardar-se para a posteridade: por isso a pose, e, a melhor das coisas, o sorriso. Um sorriso lindo, que sequer adivinhava o que viveria adiante. Nessa época eu nem imaginava vir ao mundo, eu que de onde estava não queria vir pra cá de jeito nenhum e me trouxeram a pulso. Mas vir dela me deu mais calma, por isso sempre nos entendemos, temos as mesmas manias, o mesmo nonsense. Dela herdei a tragédia do medo do mundo: nasci algum tempo depois que ela viveu uma de suas maiores tragédias: perder uma filha de sete meses em questão de segundos, sem qualquer resposta à sua pergunta: "Cadê Noélia Lúcia?" Até hoje eu faço uma pergunta semelhante, só que é "Cadê eu?" 
Hoje estamos distantes uma da outra por quase trezentos quilômetros; ligarei para ela, mas não poderei lhe dar o abraço que aprendi a dar: abraço frouxo, mas amorosamente intenso. O que farei durante todo o dia hoje, já que não poderemos sorrir juntas, é mirar esse seu sorriso lindo, e voltar aos 17 com ela.

sexta-feira, 22 de março de 2013

pureza lírica



Prefiro lhe amar com o amor puro de meu coração de vinte anos; e lhe amarei para sempre com esse coração. Com esse coração de vinte anos, amo seu sorriso e sua existência, suas mãos e seus pés, sua distância e seu abraço. Amo a simplicidade de que é feito, amo o teu amor por mim - que também é puro como de uma criança. Só duas crianças podem se amar como nós dois nos amamos.

sábado, 16 de março de 2013

na sala de espera


Esse aqui está virando um blogue sobre doença. Enfim, fazer o quê? Preciso conversar com alguém e ainda não tenho psicoterapeuta.
Mas não me lembro nitidamente bem de nossas relações na infância. Somente sei que ela era uma menina de cabelo mole, preto que chegava a ser azul, mais velha que eu um ano, e sempre prafrentex. Diriam hoje uma menina linda, e eu fazia comparação do cabelo dela com a minha carapinha. Ô, perguntava a Deus, por que meu cabelo teve que puxar ao cabelo de pai e não ao de mãe?
Enfim, meu cabelo puxou ao de pai, crespo e que só era domado com tranças.
Lembro disso tudo porque há uns quatro ou cinco anos ela me dava uma carona para a rodoviária, em Salvador. Eu estava indo para Xiquexique, ministrar aulas, uma viagem de mais ou menos onze horas.
Chegando perto do Dique ela começou a me contar uma história do salão de beleza que frequentava. Que enfim ela tinha descoberto tudo: a amiga do peito fazia chapinha e escondia isso, mas ela descobriu tudo com a dona do salão.
Olhava o Dique, os orixás e ouvia o que ela contava, sem parar, e de repente comecei a me sentir mal.
Me deu uma tontura, o mundo começou a ficar longe, eu bem longe, bem longe, bem longe.
Claro que não consegui viajar.
Claro que fui para o hospital.
E que fiquei um tempão sem querer carona dela para a rodoviária.
Coisas da doença, medo de sentir mal perto do Dique, etc...

segunda-feira, 11 de março de 2013

verdades dolorosas


Hoje o que mais se escuta é a frase: "Estou deprimida..." Depressão, palavra banalizada. Na verdade tudo hoje está banalizado, principalmente as doenças psíquicas. Já cansei de ouvir gente dizendo que teve síndrome do pânico e vai contar o que foi quando nitidamente se percebe que foi só um pequeno medo, e não aquele desencadeamento de morte que verdadeiramente é a síndrome do pânico.
A pessoa que sofre dessas duas doenças  está quase que completamente só. Como partilhar sua dor e seu sofrimento com quem nunca sentiu isso? Tais doenças são indescritíveis, imagine se serão entendidas por todo mundo. Nunca, nunca; no máximo um atestado médico lhe privará de maiores constrangimentos sociais.
Existe uma frase clichê mais do que repetida entre os portadores dessas duas doenças miseráveis. É aquela, que não faz efeito algum, só para quem diz:
"Não desejo ao meu pior inimigo isso que sinto".
O mínimo que poderia acontecer era seu pior inimigo ficar feliz; pois ele não merece sentir essas duas doenças incognoscíveis, estranhas, terríveis. Mas seu pior inimigo nunca conseguirá entender a dádiva dessas palavras se ele jamais sentir isso na pele. E tomara que realmente ele nunca sinta.
É assim:
De repente você sai. Vai fazer aquilo que faz todos os dias. Aí bate o maior estranhamento do mundo. Você se torna estranho para você, tudo se desloca, a realidade não é mais a mesma, as coisas se alteram, e seu corpo começa a sentir-se mal. Você começa a ter um medo terrível, de você e de tudo. O coração acelera e a barriga dói. Uma melancolia como um abismo lhe soterra; você vai descendo um buraco, um buraco enorme, sem coelho e sem Alice. Você se lembra da literatura, a coisa que mais ama, mas nada se transforma, o buraco vai lhe levando. O buraco vai lhe levando, lhe levando, lhe levando. Você não sabe como e se voltará. Aliás, se a sensação for forte demais, você tem certeza de que não voltará.
O pior é quando você passa por isso em local público, numa apresentação, numa reunião, numa palestra.
Você sai correndo, é a única saída que encontra... Como uma enterrada viva que quer destroçar o caixão em que se descobre encalacrada.

sábado, 9 de março de 2013

a dor de parir



Todos os dias sinto a dor de parir, mesmo sem nunca ter parido; na verdade, sinto a dor de existir, e é uma dor fina, cheia de contrações. Não sou machista, não sou feminista, sou mulher. Não levanto bandeiras, mas estou aprendendo a me defender e constato,a cada dia, uma fortaleza que não sabia que tinha: consigo viver dia a dia e não morrer antes da hora, isso é grandioso demais para um corpo e uma alma sensíveis diante de um mundo que não é nem um pouco sutil. Hoje mesmo senti a dor de parir, e foi fina, intercalada; a cada contração eu pensava que iria morrer. Nasço todos os dias depois dessa dor.

segunda-feira, 4 de março de 2013

de todas as sensações



Lembro que meu corpo congelava, congelava, e eu tremia, tremia muito. Eu sentia dentro de mim a certeza da morte. E o maior medo do mundo, eu me pelava de medo. Sentia que era chegada a minha vez, era a hora de "descobrir", como disse um personagem de Mastroianni num filme de Zurlini. Partilhar a experiência da morte? Como? Com que linguagem? Impossível. Isso especulava Borges, enquanto que na minha infância mãe respondia me contando aquela história das duas comadres que combinaram contar como é lá quando uma delas morrer. Uma morre primeiro e vem contar como é lá; mas apenas diz: "Lá é lá, cá é cá". Portanto, mãe antecedeu Borges nas minhas leituras, ao me relatar esse causo: não há como partilhar essa experiência, pois ainda não morremos; e mesmo morrendo, acredito, também não contaremos, faremos como a comadre da história. Não há como partilhar o incognoscível. Eu sabia disso na cama daquele hospital, tremendo igual a uma vara verde, e congelando, congelando por dentro. Mãe perto de mim, forte, séria, pegando em minha mão, perguntava ao médico por que eu tremia, por que meu corpo estava todo frio. Mas o médico era longínquo e não respondeu nada. "Mas o que é que eu tenho?" Eu perguntava, nervosa e chorando... "Eu estou congelando por dentro, eu vou morrer". Enquanto isso, o médico escrevia numa receita azul, friamente, como geladeira ligada no máximo. Eu disse, chorando, de novo que estava morrendo, fiz um testamento oral para mãe, e o médico mandou me botarem no balão de oxigênio. Pensei "é o fim mesmo", pois toda vez que alguém em Andaraí vai para o balão de oxigênio é difícil voltar. Esperei a Passagem, mas pedi ajuda a muitos espíritos, pedi para adiarem o dia, a data, o momento. Passei três horas nesse transe de ir ou não ir, viver ou morrer. Mãe firme, segurando minha mão, rezando para seus santos que nunca lhe faltaram: São Cosme e São Damião.
Não sei porque estou relatando, em detalhes, isso aqui. Talvez por conta de uma sensação imensa de solidão; essa solidão de saber-se vivo, sempre temporariamente, sempre temporariamente.

sexta-feira, 1 de março de 2013

poesia voando

Nada pior de que um poeta desinspirado. Quando a poesia não lhe procura, deixe-a em paz, não fique correndo atrás dela, mendigando verso. Espere a hora certa, ela vai chegar, ela vai tocar você, na maioria das vezes quando você nem espera. Por isso ande sempre com um papel: a Poesia não tem tempo a perder, não vai esperar você correr atrás de um papel e de uma caneta, ela tem pressa, é fugaz, etérea, quase imperceptível: voa no ar. Poesia é presença fina. Descortina-se em ventos invisíveis, toca-lhe a alma, lhe deixa embrigado, e vai embora. Só Deus sabe quando ela voltará. Não seja ansioso, espere; pois que não há nada pior de que um poeta desinspirado.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O PLANO ESTADUAL DO LIVRO E DA LEITURA PARA BOI DORMIR

Você sabia que a Secult-BA e a Sec-BA estão elaborando um Plano Estadual do Livro e da Leitura? Os responsáveis pela empreitada, e que encabeçam a Comissão Executiva e a Presidência, são as duassumidades que se seguem, ambas funcionárias da Secult-BA e mulheres de confiança do Sr. Albino Rubim. A diretora da Biblioteca Monteiro Lobato, Rosane Rubim, que jamais leu um livro sequer, é amiga de infância de qualquer pessoa famosa, com algum poder em mãos, e, como se isso fosse pouco, é irmã do Secretário de Cultura, Albino Rubim, que a protege em todos os recreios, embora em público só a trate por Rosane, com receio de pronunciar o próprio nome e ser tomado também por uma alimária. Laura Bezerra, que passa as reuniões a declinar um mantra, sempre que é convocada a opinar: "Acho que devemos ter muito cuidado com certas afirmações". Desconfia-se de que ela seja um robô e esteja com algum curto circuito irreparável. É a Bahia na vanguarda da tecnologia! Esta ilustre dupla tem o aval do secretário, que, além de fazer da Secult-BA um laboratório de suas teorias de sala de aula e empossar, sob o incentivo de altos salários, seus ex-alunos e compadrio do meio acadêmico, tem a pretensão de, sem ouvir nem consultar os componentes da Rede Produtiva do Livro, criar um Plano Estadual do Livro e da Leitura. Só se for para boi dormir! Este secretário está mais interessado em eleitores do que em leitores, e por isso, com sua indiferença e seu desdém para com o livro, a leitura e a literatura na Bahia, promove a falência do setor, empurrando os escritores para os seus editais burocráticos, cujos recursos ou não são liberados ou o são somente para alguns, mais iguais que outros.Como bem disse Tostão, certa vez, se referindo ao técnico Luxemburgo, o Sr. Albino Rubim é do tipo que costuma, no Natal, dar e receber panetones. Deveria abrir uma padaria, mas que, obviamente, não seria nada espiritual. E neste começo de ano, pós-morte do prof. Ubiratan Castro de Araújo, o secretário parece, mais do que nunca, desejoso de ajustar para baixo a imagem da Fundação Pedro Calmon, que, com as ações desenvolvidas nos últimos anos, ofuscou a Secult-BA e, claro, a figura do próprio secretário, mosca tonta para a benesse de sua trupe. É lamentável que o insigne governador Jacques Wagner, em quem a massa de eleitores da Bahia depositou todas as esperanças de reformulação social, educacional e cultural, ainda se deixe enganar por estes “colaboradores” da cultura baiana. Nós escritores estamos vivos, governador! A Bahia não pode ser só carnaval e aparência. Nosso estado, como os demais do Brasil, produz literatura, ideias e pensamentos profundos, que, no entanto, se não são publicados, morrem por aqui. Ou será que todos pretendemos continuar a alcunha risível de que esta é a Bahia de Jorge Amado, como arrota, sempre que pode, a amiga de todo mundo, a Sra. Rosane Rubim? (Mayrant Gallo, escritor e professor de Teoria da Literatura. Publicou, entre os outros livros, O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003).)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A mesma triste bahia

"Os escritores Elieser Cesar e Carlos Barbosa divulgaram, na quinta-feira, textos em que eles expressam perplexidade diante do argumento frouxo que justificou minha demissão da Diretoria do Livro e da Leitura (DLL), da Fundação Pedro Calmon: incompatibilidade com a Secult-BA. Ora, o argumento, embora débil e pusilânime, é de fácil assimilação: Albino Ru(b)im, Secretário de Cultura. Depois de Márcio Meirelles, merecíamos coisa melhor. Mas o secretário atual, com sua fala macia e postura de bom moço (que me faz lembrar uma arguta frase literária: "A quem você engana quando tira a roupa?"), é uma espécie de símbolo do que a Bahia reúne de pior e que vai conduzi-la, em poucos anos, à derrocada total: educação ruim, baixo senso crítico e estético, agressividade cotidiana nas ruas, sujeira de norte a sul, de leste a oeste, desorganização generalizada, alto índice de trabalho informal, trânsito caótico, supermercados péssimos e livres de qualquer fiscalização, uma estação da Lapa que mais parece saída de um cenário de filme apocalíptico hollywoodiano, professores mal remunerados, policiais que num piscar de olhos tornam-se bandidos e que fazem greve, ônibus caindo aos pedaços e que levam horas para chegar aos pontos, quando chegam, ruas esburacadas pelas instalações temporárias do Carnaval e onde pessoas idosas caem, como aconteceu com minha mãe, padarias vendendo pão recheado com barata, porque também não são fiscalizadas, um metrô que foi imaginado por Kafka e começou a ser construído por Ionesco, estudantes universitários que invadem o restaurante da universidade e ali ficam, por meses, exercitando atos dignos de guerrilha e que se autodenominam Rapinagem. No entanto, se alguém em meio a isso tudo se puser a trabalhar para mudar tal situação (como a DLL, que durante quase dois anos, sob a minha gestão, se esforçou por "produzir" mais leitores na Bahia e oferecer-lhes bibliodiversidade), é provável que um outro Albino Ru(b)im apareça para exonerá-lo. Só nos resta, a todos nós, homens de bem e que, mesmo diante de candidatos medíocres, saímos de nossas casas para cumprir a obrigação do voto, só nos resta nos aferrarmos à tradicional certeza, que, hoje, uma amiga, Denise Gomes Dias, me fez relembrar: "por mais opulentos e poderosos que se considerem, um dia os impérios desmoronam, ruidosamente". Que assim seja." Postado por Mayrant Gallo às 1:06 AM

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Odoiá, minha Mãe

Estou no ar, querida Mãe, no alto de uma nuvem, a fim de lhe entregar seus presentes: suas flores brancas e seu vidro de alfazema. Sentada nessa nuvem, em tempo de lá cair, me equilibro para festejar seu dia, e pedir, já que vivo para isso, como todo ser vivente: sou uma pedinte, "pidona", como chamamos na minha terra a menina que pede sem qualquer vergonha na cara; peço, portanto, mais uma vez: tenho um papel cheinho de pedidos. Mas posso cair da nuvem, então vou abreviar o peditório, pedindo apenas tua mão hoje no meu ori, na minha cabeça, no meu juízo. Sei que o dia é agitado para a senhora, querida mãe, mas não tire, por favor, lhe rogo, durante todo o dia de hoje, não tire sua mão do meu ori.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Prece

Iemanjá, querida mãe, está chegando o dia dois de fevereiro, dia de tua festa no mar. Não poderei, mais uma vez, ir ao Rio Vermelho levar flores pra ti, muitas vezes, como fiz, furando a fila. Mas cuida de mim minha mãe, nesse confronto com a vida; nessa reclamação sem fim que é o mundo. Ensina-me a alegria na hora de batalhar: a usar sempre a caneta ao invés da faca. Oh mãe das águas, dê-me um banho de mar aqui mesmo onde estou, sem precisar o recurso do sal grosso. Com teus fluidos vitais, minha mãe, cicatrize todos os meus chacras enfermos. Com tua luz de inspiração, mande-me um poema sagrado pelas ondas que permeiam as nuvens.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

a mais legítima

Vivi até os 20 anos tendo, como guru, Mariquinha da rua dos Sete Pecados, rezadeira de todos nós. Melhor rezadeira que aquela não existia, não existe e nem existirá. Como sempre fui dada a quebrantos, era só amolecer o corpo que mãe me levava aos seus cuidados. Quando cresci aprendi a ir sozinha. Às vezes mãe mandava eu e minha irmã, as duas amolecidas, aquebrantadas, pois que não adiantaram os brincos e as pulseiras de figa e fitas vermelhas pelo corpo que ela nos enfeitara como escudo. Então, mesmo sem conseguirmos andar direito, tamanho quebranto, íamos eu e minha irmã bater na rua dos Sete Pecados, entrando casa adentro, chamando Mariquinha, ô Mariquinha. Estava ela lá no fundo do quintal. Magra, negra, bonita que só vendo, nos seus oitenta anos, Mariquinha nos levava para o meio do quintal, uma estradinha. E tome-lhe mato e reza: girava o nosso corpo pra frente e pra trás, e com o matinho ia nos dando tapinhas nas costas, no rosto, no cabelo e dizendo: "Com três lhe botaram, com dois eu te tiro, com os poderes de Deus e da Virgem Maria"; e até nos pés os raminhos iam. Sua voz fraca e ao mesmo tempo potente com os poderes celestiais, continuava: "Se é no calçar, e no vestir, e no andar, com dois eu te tiro..." "Onde Maria põe a mão, Deus põe a vertude". Essa "vertude" de Mariquinha sempre foi a maior virtude que já encontrei por esse mundo, a mais legítima.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

crônica "nacionalista"

Viver num mundo em quem o grande deus é o dindim, o vil metal. Viver num país em que a idolatria aos estrangeiros beira à cafonice, à idiotia. No ano retrasado inventei de passar o são joão no Capão, e o que lá encontrei foi bizarro: um monte de neohippies ricos e cheirosos e cabeludos, a maioria gringos, vendendo e comprando a rodo tudo o que se vendia e comprava, e era muita coisa. As casas dos antigos moradores, nativos, foram transformadas em restaurantes com estilo natureba e lojas de miudezas chiques, rua com cara e vestimenta de um enorme shopping center. Estrangeiros de todo o mundo, ganhando dinheiro com pousadas e restaurantes. Não vi um nativo sequer. O consumo roubou o lugar de todas as ideologias, e Che é comprado aos montes, assim como Raul Seixas, em camisas de oitenta reais. A mesma coisa agora vi em Itacaré, lugar que até então não conhecia. Milhões, zilhões de estrangeiros com resorts, pousadas, restaurantes e lojas, todas caríssimas, e os nativos sucumbidos em suas quintadas de cadeiras de plástico amarelas, ou, tristemente, vendendo queijos na praia. Os estrangeiros branquelos paparicados como nenês bem nascidos... Todos nós estupidamente colonizados, de novo, e sempre.