sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

saudades da Bahia

A verdade mesmo, sem esconderijos, é que tenho saudades de Salvador. De acordar pela manhã e ver um sol limpo, sem disfarces. Sentir a brisa do mar entrando pelas cobertas, mesmo morando não tão perto do mar. O mar é mágico, ele entra em casa e transforma tudo em cor azul, soberano e iluminado. E depois tem a livraria cultura, a livraria saraiva, tem aquelas ruas arborizadas do corredor da vitória, tem o cinema do museu, tanta coisa! Lá a gente consegue viver só, pois que tem a cidade toda a nossa favor, do nosso lado, sussurrando prosa boa, nos animando com a força lúdica da vida.

sábado, 22 de dezembro de 2012

de todas as lembranças

Como não lembrar do presépio lá de casa? Impossível não lembrar. Era todo feito de pedra, que mãe guardava ano após ano, dentro de uma caixa. Pedras do rio, grandes e pequenas, com as quais ela fazia uma gruta no canto da sala. Feita a gruta, lá vinha a areia do rio, novinha, catada naquele ano, sempre pura. E com a areia o cheiro de rio ficava forte, cheiro de vento, cheiro de mato, tudo ali, pertinho de nós, no canto da sala de visitas. O presépio era armado no início de dezembro, mas Jesus Menino só era acolhido na sua manjedoura à meia noite do dia 24 para 25. Com a casa toda dormindo, mãe ia lá, pé ante pé, e fazia Jesus nascer (creio que era nessa hora também que ela virava mamãe noel e colocava na nossa cama o tão sonhado presente!). Como esquecer os personagens que compunham o presépio? Além dos três reis magos, de Nossa Senhora e São José, no meio das pedras ia muita gente, ah se ia... Ia um boneco em feitio de menino, nuzinho em pelo, chupando o dedo; ia uma boneca morena e uma loura; até mesas e cadeiras de brinquedo faziam o percurso de ida à gruta; todos indo, indo ver Jesus: bolas pequenas, bichos de plástico, jarros, panelas, tudo que se imaginar. Depois do dia 25 faziam o caminho de volta: mãe colocava esses personagens todos dando marcha à ré, ou seja, voltando de dentro da gruta. Que animação aquele mundo! Adorávamos tanto aquilo tudo! Hoje entendo por que nos acabamos de chorar quando alguém entrou lá em casa e, sorrateiramente, roubou o boneco em feitio de menino nu, chupando o dedo... Ele já estava voltando da gruta, já tinha visitado Jesus... quando o levaram para sempre.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

sobre o fim

Eu era menina de seis anos, e ao sair na porta vi um monte de gente olhando para o céu; uns usavam espelhos para ver melhor. Havia um clima de fim de mundo; eu, como sempre fui medrosa, só esperava o pipoco. Sempre acho que tudo que acaba acaba com estrondo. Isso que estou agora contando aconteceu na década de 70, e mãe corria de um lado para o outro procurando um espelho também e foi para a porta da rua. Depois, muito tempo depois, soube que aquilo se tratava de um eclipse solar. Mas para meu imaginário ali foi o primeiro anúncio de fim do mundo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

saudade de Herberto Sales

Hoje, relendo minha dissertação de mestrado que virou livro em 2004 pela Coleção Selo Editorial Letras da Bahia, tive uma saudade imensa de Herberto Sales. Eu morava em Feira de Santana e não tinha telefone, e lhe mandei o telefone de minha casa em Andaraí. E nos finais de semanas, quando eu ia para lá, ele me ligava, sempre no meio da tarde. E me pedia, nostálgico, notícias de dona Celé. Dona Celé era minha vizinha da rua da Ilha, que fora conhecida sua de juventude. Eu respondia que dona Celé estava bem, sempre sentada na porta. Aí ele me perguntava por Petró; claro, Petró ainda está vivo, eu respondia. Havia uma saudade enorme naquele homem que deixou sua terra há tantos anos atrás; e que ali, tão longe, a partir de um telefone, me pedia notícias de pessoas conhecidas; era como se ele me perguntasse se o rio paraguaçu ainda continuava cheio e belo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

memórias

Pai era o homem que tinha mais afilhados no município. Sua casa, portanto, estava aberta para os inúmeros afilhados e compadres, coisa que eu e minha irmã, na fidalguia da adolescência, não tolerávamos. Mas coisa que tolerávamos menos, e que hoje acho de uma preciosidade de imagens e riqueza, era aquilo que pai fazia em dia de casamento do pessoal da roça, na cidade: oferecia a casa para as arrumações, para os fotógrafos e para as comilanças. Nós, menininhas metidas, nos envergonhávamos daquilo que só hoje vejo que era genuinamente poético e humano: os noivos iam se casar no fórum, mas se vestiam como se fossem casar na igreja. A noiva se embonecava lá em casa com véu, grinalda e buquê e ia com sua comitiva, andando, para o fórum. Depois, na volta, de novo andando pela cidade, com os apetrechos noivísticos, voltavam lá pra casa para os comes e os retratos. Num desses retratos, consta o pai de uma noiva lascando uma coxa de frango nos dentes, tendo como pano de fundo a velha geladeira branca da sala de jantar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

sandálias kariri

Sandálias kariri. Quem conheceu levante a mão. Era o avesso das sandálias havaianas, eram feias, eram grosseiras, eram desprestigiadas; e nenhuma menina de nossa turma queria possuir uma. Ter uma kariki só por castigo. E foi por castigo que minha irmã ganhou um lindo par de presente.
Por perder milhares de havaianas, um dia mãe sentenciou no seu ouvido, com muita raiva: "Na próxima vez que você perder sua sandália, ganhará uma kariri."
Pelo jeito dela falar, kariri nem significava sandália.
Mas eram feinhas mesmo: uma cópia barata das havaianas; tinham a cor forte e uns desenhos mal feitos em relevo.
Pois bem: numa enchente próxima, ao atravessar o rio, lá se foi o par de havaianas novinho, o último par de havaianas que minha irmã teria.
Ela chorou, chorou, chorou tanto para não querer ganhar uma kariri, que mãe relevou. Deu outra havaiana.
A enchente continuou, rio levando casas, muros, pedras.
Depois passou a enchente. Veio o sol sadio que vem sempre após chuva grande. O rio gafanhoto lá do fundo de casa ficou meio raso, vendo a areia.
Num dia, bem cedo, fomos escovar os dentes no rio, eu e minha irmã.
De lá ouvimos um estrondo. Gritaram longe: "O sobrado está caindo!"
Como a curiosidade sempre foi sua amiga, minha irmã pulou dentro do rio; como o rio estava raso e tinha mais areia, ela foi, mas um pé de sandália ficou. Isso não impediu sua curiosidade: saiu correndo, apenas com um pé de sandália, para ver de perto o sobrado cair.
Pensou: na volta eu procuro.
Na volta procurou,  mas nada encontrou.
Mãe lhe chama da janela. Percebe o que está acontecendo.
Chama "Maísa, vem cá."
Ela sobe as escadas que dão para o portão de casa.
No portão mesmo mãe lhe espera com uma enxada. E com a intimação: "Vá cavar o rio; só volte aqui com a sandália."
A enxada era grande, ela pequena, e as duas travaram uma luta ali mesmo na escada para conseguirem descer juntas.
Ela e a enxada; as duas perigando cair.
Chegando no rio, ela começou a cavar. Cavou cavou cavou. Deu meio dia e nada de achar a sandália.
Mãe, espumando raiva, grita da janela: "Vem almoçar, e mais tarde você volta".
Mais tarde novas escavações. Agora com o sol na cara. Pensava que o pior de tudo era ganhar uma kariki. Continuou cavando. Enquanto cavava, o próprio rio se recompunha em seu corpo de areia como se ali ela não tivesse feito trabalho nenhum. Trabalho vão é trabalho com água.


sábado, 10 de novembro de 2012

oração



Lembro da noite em que eu iria saltar dos 12 para os 13 anos; essa noite eu passei chorando; mãe foi saber o que eu tinha e eu disse que estava ficando velha demais.
Lembro da noite em que fiz 17 anos; nessa noite eu me encontrei com uma amiga de 66, e chorei pitangas porque estava ficando velha. 
Lembro da noite em que completei 21 anos; nessa noite eu vestia uma blusa preta de manga comprida e uma saia branca de pregas; reclamei que estava ficando velha para uma amiga de 37 que foi tirar o meu retrato.
Hoje à noite apenas rezo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

"alegria, alegria"



Nasci amanhã, em plena ditadura militar, acontecimento que não chegou ao conhecimento de mãe, e que pai sabia por ouvir o rádio dizer. Nasci na madrugada, e cheguei com os pés na frente, e não com a cabeça. Nasci no completo perigo, e foi mãe Isaura, parteira do povoado, quem puxou minhas pernas e eu fui saindo de lá de dentro de mãe, abrindo o berreiro para o mundo. Mãe conta que no alto-falante, naquela hora da madrugada, dava para ouvir a música "índia seus cabelos nos ombros caídos, lá, rá, lá, rá, lá". Na hora das dores, pai estava no bar jogando sinuca e bebendo. E chegou bem na horinha em que eu nasci. Mais tarde ele soltou foguete para comemorar minha vinda, e no chega-chega de tanta gente em casa, providenciaram o "xarope de mulher parida", que todo mundo bebeu e lambeu os beiços. Nasci sem qualquer cabelo, contrariando a música que tocava no alto-falante. Com a carona achatada, uns fiozinhos loiros no cocuruto que fizeram com que meu avô me chamasse de "gaza", nome horroroso, e que ele melhorou para "gazinha". Não há nenhuma novidade no meu nascimento, nenhuma. Quando nasci apenas o Brasil ruía com a ditadura militar e Caetano cantava "alegria, alegria".

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

as mães e nossa memória


Toda mãe se reconhece como mãe porque repete mil vezes a mesma coisa. A minha sempre repetiu, azucrinou, encheu o saco falando a mesmíssima coisa: a gente na frente e ela atrás falando e repetindo. Por isso nossa memória guarda tudo. Elas, as mães, eternizam nossa memória. Mas de todas as repetições de mãe, não gravei as azucrinantes, gravei as mais adoráveis: como aquelas em que ela se reportava a meu avô. "Porque papai tocava sanfona", "Porque papai nunca me bateu", "Porque papai queria que eu estudasse em Ponte Nova", "Porque papai era muito alegre". Porém, de minha avó, sua mãe (ah, Freud...), não eram repetições muito agradáveis: "Porque mamãe me fez criar todos os dez filhos que ela teve", "Porque mamãe não deixou eu brincar quando era menina...", "Porque mamãe não quis que eu fosse estudar em Ponte Nova, disse que eu iria era aprender a escrever carta pra namorado"... Terríveis essas lembranças, dela e minhas. Prefiro relembrar "Porque papai me levava para as festas", "Porque papai me levou com ele para a Lapa: é essa foto aqui, veja". Ouvi estas palavras e vi esta foto milhões de vezes. Continuo ouvindo e vendo.
                       Eu me esqueci de uma outra repetição adorável: "Porque era papai quem cortava meu cabelo"

domingo, 28 de outubro de 2012

distintivo

Hoje resolvi participar de um seminário espírita cujo tema era o passe. O palestrante muito bom, bem articulado, bem humorado, soube conduzir de maneira brilhante toda a sua palestra, sem que os ouvintes pestanejassem ou tivessem sono. Pela manhã e pela tarde. Pela manhã foram os conceitos teóricos, e à tarde foi a parte prática. À tarde, pois, ele chamou cobaias à frente, para que os presentes vissem como se dá um passe. A cada pessoa que ia lá à frente, ele perguntava qual o problema que tinha.
Eu queria, eu necessitava com toda a urgência do mundo de um passe. Desde ontem a depressão se acentuou; ela que vinha me rondando em doses melancólicas, ontem à noite entrou de vez no meu corpo; diria que encarnou em mim, e foi com ela encarnada em mim que saí em busca de uma ajuda espiritual. Acordei hoje, portanto, dia de domingo, bem cedo, coisa difícil, para poder entender os mecanismos do passe, receber um, e até, quem sabe - pensei numa temeridade de leiga  - aprender a dar o autopasse.
Pois bem, na hora em que o palestrante começou a chamar as cobaias, eu me aticei na cadeira. Queria por queria ir logo. Tive que conter minha excitação, e depois da segunda cobaia eu levantei e fui à frente. Eu sabia de todos os riscos de exposição que eu corria, eu sabia. Mas eu precisava do passe, e para isso valia a pena correr o risco da grande exposição.
Fui à frente, e antes de me sentar na cadeira que ali estava me esperando, ouvi a inevitável pergunta: o que eu tinha. Eu disse "depressão". Ai, na frente de todos. Ele quis brincar, perguntou se eu não estava amando... Ri sem graça. Era o momento da cobaia aqui ser representante da grande doença espiritual que ataca tanta gente e poucos assumem. Principalmente em público, e numa cidade pequena.
Antes de mostrar como se aplica o passe num depressivo, o palestrante falou bastante sobre a doença, com exemplos. Depois foi indicando, aos olhos de todos, como se aplica esse passe específico, ilustrando em quais chacras as mãos deveriam agir. Senti que eu ali à frente, assumindo uma das piores doenças do mundo, era uma heroína. Uma heroína sem graça, desprotegida, mas uma heroína. Tímida que só o trem ruim, eu era naquele momento a mulher mais corajosa do mundo. De lá já sentia o espanto das pessoas que me conheciam de vista e que não imaginavam que eu iria me declarar doente; e doente dessa doença. Senti um compadecimento geral. E depois que me levantei da cadeira, os olhos dos outros eram diferentes. Pode ser impressão minha, mas senti que as pessoas me olhavam diferente, misto de pena com desconfiança. "Será que a professora é doida?" "Coitada dela!" Imaginei - e levem em conta aqui a mania de perseguição própria a essa doença - imaginei que eles estivessem falando essas coisas por dentro.
Pronto, já tenho um distintivo. Como os judeus tinham.


Imagem: Van Gogh, claro.
www.google.com.br

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

flagrantes familiares



De retrato familiar tínhamos dois na parede da sala. Um de pai, de gravata e paletó, pintado à mão - e que mãe implicou tanto que acabou tirando da parede e dando para uma parente - e outro, de nós quatro, de cara apenas, um sobre o outro, em preto e branco: eu embaixo da cara de mãe, e minha irmã embaixo da cara de pai. Um retrato engraçado, enorme, tipo poster. Mãe com os cabelos encaracolados, sedosos, um olhar caído. Pai de paletó e olhar compenetrado. Eu, horrorosa, sabendo de minha feiúra e por isso entristecida. Minha irmã com a cara mais limpa do mundo, cabelo lustrando, com boca de riso, porque foi uma dificuldade para ela obedecer ao retratista: não rir naquela hora tão séria, tão solene.



Imagem: só para imaginar como era nosso retrato: uma cara em cima da outra. In: www.google.com.br

domingo, 7 de outubro de 2012

o poeta da roça

Não consigo ouvir A Triste Partida, na voz de Luiz Gonzaga, e não chorar. Visualizo de novo pai cantando essa música com a voz embargada, chorando a sua dor de partir para São Paulo quando eu e minha irmã éramos bebês. A letra dessa música é de Patativa do Assaré, como talvez alguns poucos saibam. É o que dá ser compositor, e, no caso de Patativa, ser poeta e ter seu poema musicado, e cantado por outro. Mas não é isso que importa aqui hoje. Importa pra mim hoje a presença de pai. A presença de pai nos "repentes" na roça, levando a tiracolo eu e minha irmã. Lembro bem de um grande amigo seu, chamado Zé Esposo, mais um nordestino que deixou sua roça e foi morar na capitá de São Paulo, e de lá voltou de óculos escuros, gravador no ombro e sua velha viola na mão. E ia lá pra casa fazer graça na sala, rimando para Deus e o mundo, para quem passava na rua e para quem entrava em casa. A gente ria a noite toda. Pai feliz, orgulhoso. Pai tinha um orgulho danado de ter vindo da roça. Pai era um amante da roça, odiava a cidade, dizia que um dia ainda voltaria para o mato, sem luz e sem geladeira. Mãe, eu e minha irmã gritávamos "não, não, não" - já estávamos contaminadas pela ilusão besta de sermos citadinas. Pai, que não fazia versos, era um poeta da roça, como Patativa do Assaré. Não queria viver ali, naquele meio de gente ingrata; ele queria era a sua roça, seu pé de milho, seu pé de fulô. Mas infelizmente foi ali ficando, ficando, ficando... Uma ou duas vezes na semana ia para a rocinha que comprou, com muita dificuldade; e plantava alguma coisa, que nunca dava. E que permitia que mãe lhe jogasse na cara: "Tá vendo aí, Bino? Pra que roça? Roça só serve para perder dinheiro!" Ele não ouvia, era um apaixonado. Gostava dos tabaréus e de sua parentalha que lá ficou.
Eu era jovem demais para entender isso tudo. Eu era metida a besta. Lembro que no lançamento de meu primeiro livro, ele, entusiasmado com a filha, levou para o lançamento todos os roceiros seus conhecidos e  os parentes. Aquele povo todo descendo da camionete, numa felicidade, e eu nem ousadia dei. Metida a biscoito de sebo, escritora da cidade, negligenciei  a verdadeira poesia: aquele povo ali que, vestido com roupas diferentes e cheiros diferentes, aplaudia a poetisa besta, filha de Bino, este, orgulhoso da menina ingrata, maquiada de coisa nenhuma. Pai sim era o poeta da noite, e eu nem sabia.
Esse orgulho das origens roceiras, sertanejas; essa alegria de beber água em pote de barro e de conversar com quem verdadeiramente sabia tudo da vida, pai tinha de sobra. Pai era um sertanejo verdadeiro, assim como foi Patativa do Assaré. Falo isso porque há muito poeta por aí tirado a sertanejo e não é não; esses moram em apartamentos e nunca sentiram o verdadeiro cheiro de sovaco, proveniente de um dia inteiro de alguém repousado sobre um cabo de enxada em tardes de sol quente.
Hoje, dia de voto, esse texto é para ele: pai, o único político honesto que conheci. Foi vereador, vice-prefeito  e nunca esqueceu seu povo - que o elegeu. Nunca teve dinheiro guardado no banco, e o que mais queria na vida era voltar para sua roça. Morreu na cidade, mas foi enterrado no meio do mato, como pediu, num cemitério de beira de estrada, onde estão seus parentes - todos roceiros. Não atendemos ao seu pedido de voltar para a roça, mas atendemos a esse seu último pedido de voltar à terra de onde veio, de se tornar verdadeiramente terra, o que sempre foi.


Imagem: eu, aos 17 anos, acompanhada por ele e sua ternura, no encerramento de estágio do magistério (1985).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

a mulher que escreve


Tenho pensado muito sobre isso nos últimos dias: a mulher que escreve. Sou uma mulher, e escrevo. Desde os 12 anos, quando inventei de rabiscar palavras rimadas em sala de aula, a pedido de uma professora. Recebi elogios gordos, por isso continuei. Comprei um caderno grosso, pretensioso, e passava minhas noites de insônia sentada no sofá da sala, escrevendo. Tinha uma caderneta na qual colecionava rimas. Pedia ajuda à minha irmã e a pai, e ia juntando um monte de rimas para jogá-las no caderno maior, lá onde colei na capa a foto de uma baiana e escrevi na primeira página, em letras bordadas: "Minhas primeiras poesias". Onde está esse caderno a uma hora dessas, só Deus e o meu Destino secreto sabem. Numa das enchentes de Andaraí, mãe deve tê-lo jogado fora juntamente com minhas inúmeras revistas em quadrinhos, que um dia sumiram também misteriosamente.
Pai era meu maior fã, e adorava ler meus poemas para seus amigos na sala lá de casa, sempre cheia de gente. Lia e lembrava que esse fenômeno era coisa hereditária, afinal ele veio de uma família de repentistas, passando de pai para filho; e que, infelizmente, ele não escrevia, mas sua filha ali sim, escrevia, era uma poetisa. Depois desse discurso, ele lia um poema que eu lhe dava num papel à parte. Não lhe mostrava meu caderno, ali havia poemas de amor. Ele pedia, pedia, pedia para ler o caderno todo, e eu negava. Só que num domingo de um certo mês não teve jeito, não tive mais como negar, e ele ficou na sala de janta passando as folhas de meu caderno, lendo todos os meus poemas; do quarto eu ouvia o barulho das folhas passando, meu coração angustiado. Esta foi a maior noite de minha vida. Quando amanheceu ele não me disse nada, nada, nada.
Mas lancei um livro, e pai se reconciliou com minha poesia, totalmente.
Eu era uma jovem escritora. Não bonita nos padrões estabelecidos, mas era jovem. E tinha o mundo aos meus pés.
Um homem sempre fica vulnerável diante de uma mulher que escreve. Principalmente se ela for jovem, e bela.
Fico pensando em Clarice, Cecília, Hilda Hilst e suas auras brilhando no universo masculino.
Os homens adoram as mulheres que escrevem: talvez seja um fetiche, um assombro; talvez percebam uma certa masculinidade na mulher que escreve; ou uma feminilidade exacerbada. "Ah, você escreve?", já ouvi isso de muitos homens, e o tom foi sempre de doçura, principalmente de curiosidade; mais ainda quando eu era jovem e saí de minha província direto para a universidade em Feira de Santana. Se os chegantes na província já ficavam embasbacados de lá encontrar, naquele fim de mundo, uma jovem de cabelo comprido que escrevia e publicara um livro, imagine na cidade grande. Os professores me tratavam de maneira diferente. E eu me sentia especial.
Eu era jovem, tinha uma beleza exótica, e escrevia razoavelmente. Era um objeto exótico. Eu chamava a atenção, acredito, mais pelo fato de eu ser uma mulher que escreve, de que pela qualidade daquilo que escrevia. 
Estou escrevendo tudo isso aqui e me lembrando da amizade grandiosa de Mario Quintana e Bruna Lombardi. Mario adorava a poesia de Bruna. Ou a sua beleza? Ou essa coisa estranha e maravilhosa que é uma mulher bela que escreve?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

os dois meninos


Meus dois meninos sapecas
que tiram coisas do lugar
onde um está
o outro está também
Vestem roupas de reis,
sapatos lustrados no Além

Batem hoje aqui na porta
e perguntam de uma só vez
se tenho promessa devida
caruru que não paguei

Querem dança, foguete, jarê
E eu que nem sei mais onde estou
acendo apenas duas velas, da mesma cor

sábado, 22 de setembro de 2012

como terá sido






Clarice Lispector atormentada, perturbada, criatura com um lago fundo e traiçoeiro dentro de si, conhecedora do escuro mais escuro da noite... Penso como terá sido sua passagem definitiva para o mundo dos estranhos, lugar onde ela pertencia por total merecimento. Como terá sido, pois, a morte de Clarice? E a morte de Quintana? A de Quintana deve ter sido suave, ele pegando a mão de um anjo que lhe chamava de uma nuvem fofíssima, como nunca haverá nesse mundo almofada que se assemelhe. A de Cecília Meireles deve ter sido cantando, cantando, pois que essa mulher cantou a vida inteira, no meio das perdas e dos abandonos. Atravessou, portanto, a linha tênue entre morte e vida entoando sua canção eleita, aquela que sempre falou de nuvem e de mundo, de meninos vistos na Índia, na Holanda, enfim em todos os lugares que passou. 
E a morte de Kafka? E a morte de Kafka?...

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

TRILOGIA DA CRUELDADE




"Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los", todo  mundo conhece esse poema de Vinícius, o célebre “Poema Enjoadinho”: "Mas se não os temos/ Como sabê-los?" "Como saber/ Que macieza nos seus cabelos”... , etc etc etc. Várias loas, enfim: depois de mostrar o lado chato, o poema termina mostrando o lado divino de ter um filho.
Não minto, sempre tive curiosidade em saber como se dá essa divindade de amor absoluto, só nunca possuí coragem suficiente, e não é agora, com a idade já batendo na porta e pedindo guarida, que vou cometer essa temeridade. Mas, para quem ainda não tem filhos e acalenta bastante dúvida a esse respeito, e ainda tem em alta conta a sentença de Brás Cubas (aquela famosa frase: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma  criatura o legado da nossa miséria"), a essas pessoas sintonizadas com Brás-Machado de Assis, aconselho a lerem três livros importantíssimos que tratam da temática complexa que é ter filhos: "Marcoré", de Antonio Olavo Pereira (1957), "Na Relva da Tua Lembrança", de Herberto Sales (1988) e "Diário da Guerra do Porco", de Adolfo Bioy Casares (1969).
Herberto Sales sempre dizia e afirmava algo cruel: "Todo filho é um bom filho da puta". Essa sentença talvez resuma o teor dos três livros elencados acima. Marcoré, personagem que dá nome ao romance de Antonio Olavo Pereira, é tão cruel quanto os filhos que habitam os outros dois livros, “Na Relva da Tua Lembrança” e "Diário da Guerra do Porco". Nestes dois livros, os filhos, para se livrarem do incômodo que é ter pais, e velhos, resolvem matá-los. Aconselho vocês a lerem a trilogia na ordem acima, pois que "Marcoré" é o prelúdio para os assassinatos que virão nos outros dois livros. Em "Marcoré" percebemos aquilo que Rachel de Queiroz bem acentuou depois da leitura do referido romance: " (...) não perdemos os nossos filhos apenas quando os vemos mortos: todos eles morrem quando deixam de ser crianças e se viram homens e mulheres...(...)".
Eis o fato: quando o filho nasce é uma fofura, um bebê tão lindo, obra de Deus. Aos dois, três anos, lindo como anjo, fazendo coisas de tocar o coração do ser mais bronco. Dos doze anos em diante as coisas começam a mudar de feição.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

levezas


É bom
aprender a pisar leve,
retirar o peso de paquiderme
dos pés,
comprar uma sapatilha
de bailarina.
É bom destituir-se dos colares,
das rendas, das alfazemas.
Soltar os cabelos ásperos
pelo vento mais seco,
mais farto,
deixá-lo criar raízes no ar,
como as canções que se prolongam.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

orfandades


Algumas pessoas têm uma rima podre (nem pobre é mais) para casamento. Nem vou dizê-la aqui. Basta pensá-la, não é preciso pronunciá-la. Tal palavra fede. Borrifemos alfazema nela, pois. E prossigamos. Casamento não é coisa fácil. Dividir nosso precioso espaço com alguém é algo heróico. O mais difícil acredito que seja dividir a cama. A gente não poder se esparramar toda na cama já é o primeiro muro; que na verdade é um muro humano - o outro, todo de cimento. Abraça-se o muro, uma solução afável, mas nunca naqueles dias em que você quer ser completamente só no mundo. Nos dias de tpm da mulher, o que ela mais deseja é matar quem está perto. Tenho uma conhecida que começou a tomar ódio do marido numa das tpms. Só que esta se estendeu em dias normais, até ela não aguentar e pedir o divórcio. A ira cresceu porque a mesma descobriu - depois de mais de dez anos de casados - descobriu que o marido tinha um gominho no pescoço. Toda vez que ela olhava o gominho sentia uma raiva, uma vontade louca de decepar o gominho e, de quebra, o pescoço inteiro do homem. E aí foi tomando ódio do corpo todo do dito cujo, da maneira dele conversar, dos gestos, da bunda, dos pés... Então, como não podia matá-lo, todo hora era uma briga, até não suportarem mais o clima de guerra constante e se separarem.
Pois é, tudo pode começar com a descoberta de um gominho.
Mas há coisas boas sim, no casamento. Ah, aquela companhia certa lhe esperando em casa para um café e dois dedos de prosa boa; ah, um cafezinho pronto trazido na cama naqueles dias em que você está tão triste, tão triste; um beijo, um afago, um chamego, a compreensão, uma flor do mato trazida enrolada numa fita aproveitada de um presente recebido... Até o miojo fica gostoso quando o intento é lhe alegrar. Quando o casamento se une ao sentimento de amizade, resulta se sustentando; e aí temos uma companhia tão boa, tão boa, que a vida se torna mais suportável.
Um casal, na verdade, representa a família condensada: o marido é filho da mulher, a mulher é filha do marido; a mulher é filha da mulher, o homem é filho do homem; ambos e ambas são irmãos ou irmãs incestuosos, incestuosas; são avós carinhosos, tios chatos, parentes serpentes. Um casal, em suma, é órfão, como é toda a humanidade.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

dicionário particular


Amor às palavras:

Desmantelo: eis uma palavra terna, mesmo desarrumando tudo.
Monturo: um monte de coisas velhas, sujas, líricas.
Desmazelo: palavra ingrata, cheira a abandono.
Sinestesia: a cor do som.
Trenhada: vocabulário materno, quer dizer: um amontoado de coisas inúteis.
Maxacá: vocabulário materno, quer dizer: sem jeito, desajeitada.
Amor: palavra muito dita, com rimas pobres, mas pode-se achar para ela uma rima toante, com vogal aberta, não menos pobre: só.

domingo, 2 de setembro de 2012

Altar


Na minha casa
Iemanjá habita
com Nossa Senhora
Aparecida.
Nossa Senhora das Graças
tem prosa maternal e feminina
com Oxum e com a Cigana.
São Longuinho e Santo Antônio
são amigos de antanho
pois que acham,
em maratonas rápidas,
o que se perde devagar.
São Jorge guerreiro
conversa sobre a lua
com Cecília,
a Santa Poetisa.
Enquanto Shiva medita,
em círculos,
com a pombinha do Divino,
do Divino Espírito Santo.
Oxóssi, Oxalá e Ogum
dão conselho
ao meu Anjo da Guarda
que escuta tudo, para depois
ir brincar com os meninos
Cosme e Damião.


Imagem: www.google.com.br

a concha


Querendo ir para dentro de uma concha; me esforço, tento, qual a melhor posição? Me encolho, me encolho, a concha me espera, paciente, eu enorme como um hipopótamo, feia e desajeitada aqui fora.



domingo, 26 de agosto de 2012

eu e mãe



Hoje eu e mãe, como duas meninas, fomos à praia do rio vermelho em busca de búzios. Cada búzio que uma achava mostrava para a outra. As ondas iam e vinham em nossos pés, e levávamos sustos, como pessoas que nasceram no rio, não no mar. Saímos de lá com as mãos cheias; os pés repletos de areia nos fizeram rir; ali, naquele momento, eu e mãe tínhamos a mesma idade.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

descontinuidade


Eu e a realidade somos inimigas. Moramos juntas, mas não suportamos nos ver. Meu quarto fica no sótão, o dela no térreo. Quando topamos uma com a outra, é só zombaria: ela ridiculariza minhas asas quebradas, eu suas antenas parabólicas.





Herberto Sales

Meu abraço profundo em Herberto Sales, que hoje anda pelas lavras diamantinas do sonho, e que se foi em 13 de agosto de 1999... Hoje, registro tristemente no diário: 13 anos sem sua literatura, sem seu humor cáustico e genial, sem seu afeto.


domingo, 12 de agosto de 2012

fragmentos


Para meu pai, nas dimensões encantatórias que há muitos anos anda, esses fragmentos de lembranças...

O que mais o irritava era que mexessem no seu jornal. E eu sempre fazia isso, à procura do caderno 2. Retirava o caderno 2 para ler as notícias de arte que me interessavam, e quando ele via que o jornal estava "desmanchado", ele ficava nervoso, e dizia que eu deveria ter esperado ele pegar no jornal primeiro. Saudade dessas briguinhas maravilhosas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

meus oito anos


Não, Casimiro, não tenho saudade
de meus oito anos.
A aurora de minha vida era o crepúsculo
avermelhado
que eu via sempre, assustada
pensando ser o fim do mundo.

A minha infância não tem som
de violino,
nem de piano.
Vez ou outra ouço sim um ranger de porta
abrindo, abrindo sempre
para que tudo volte.

A tramela insiste, aberta,
e o vento faz festa com ela.
A tranca e a janela
são convites à minha espera.

Mas para que querer a infância
se os anos a trazem sempre
à minha revelia?

Ela dorme, em letargia,
se levanta, não se cansa
não se cansa nunca
de morrer





quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Encontros e Desencontros

Bill Murray e Scarlett Johansson corporificam a solidão da incomunicabilidade e a sutileza do encontro num dos mais delicados filmes que assisti. "Lost in translation", no Brasil "Encontros e Desencontros", filme premiado de Sofia Coppola, 2004, nos permite, nos seus 102 minutos, um mergulho nas luzes solitárias de Tóquio, na estranheza de desencontros espirituais e culturais, no tédio imenso de se enfrentar a vida - quase sempre estirada, lenta e sem sentido. O filme traz a lentidão, o tédio e a falta de sentido nos olhares dos personagens principais, encarnados em Bob Harris (Bil Murray) e Charlotte (Scarlett Johanson), e a afinidade existente entre esse dois seres que mal se conhecem; afinidade presente em gestos, atitudes e principalmente no olhar. Esse é o filme do olhar. O olhar que une os seres afins diante do turbilhão de um mundo oco, bestial e comercializado. Filme de amor extremamente sutil, com dois beijos rápidos perto da boca (fora o beijo delicado no final), um carinho de Bob no pé de Charlotte depois de uma conversa fragmentada numa cama de casal, após assistirem àquela cena de Anita Ekbert e Marcelo Mastroianni na Fontana di Trevi em "A doce vida", de Fellini. Tudo aqui - sentimentos na pele - é sugerido, e adivinhado. O que Bob sussurra no ouvido de Charlotte na última cena do filme? Podemos pensar o que nossa alma disser: talvez tudo o que arrebata e que dá um sentido ao que a vida destitui de sentido.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

o passeio da mariposa



Sempre tive sorte com a poesia. Aos seis anos, uma mariposa entrou no meu ouvido. Imagino que ela achou lá um bom lugar pra morar, não queria sair por nada nesse mundo. Eu sentia suas asinhas batendo lá dentro: tac tac tac. Não me apavorei não; e mãe, também sempre dada à poesia (mesmo sem saber), foi buscar uma lanterna: botou bem na porta do meu ouvido, e vem ela de lá voando voando, a mariposa, feliz da vida com seu passeio...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

seis personagens em busca de um poema



PASTINHA, PRIQUITINHA, TITIA, SABURI, LALU E LOURO


Gosto dos loucos que jogam pedra e correm atrás das pessoas; gosto dos loucos varridos, com a língua solta e os parafusos destrambelhados. Pastinha, Priquitinha, Lalu, Louro, Titia, Saburi: todos eles loucos de pedra das ruas de minha infância. Titia vestia roupa de plástico e usava pulseiras de canudo, corria atrás de menino sem-que- fazer; Lalu gritava pelas ruas igual a uma condenada, com sete pedras na mão; Saburi vivia dando papel de loteria pra todos nós finalmente ficarmos ricos, e quando surtava corria atrás de tudo que é gente grande. Pastinha, com sua pasta ensebada debaixo do braço um dia deu uma carreira em mim e em minha irmã na beira do rio. Priquitinha insistia com todo mundo o seu velho mantra católico "Maria veve" , repetindo isso exaustivamente pelas ruas como a fazer entender que viu mesmo Maria, ser celestial que ele de fato era. Todos esses loucos foram capturados, levados para a Colônia em Feira de Santana, amarrados e desaparecidos para sempre.





quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para Sandra

Conheci Sandra Pereira aqui na blogosfera. Não a conheço pessoalmente. Mas nossas almas se conhecem de antanho, de quando o mundo começou. Tanto tempo assim explica o fato de ela me presentear com um belo livro pelo correio, e esse livro me tocar profundamente o espírito. Só quando uma pessoa conhece outra assim, essas coisas acontecem. Abaixo o livro e o email de agradecimento.



Oi, Sandra, venho aqui lhe agradecer o grande presente que você me deu. Falo de "O fio das missangas", de Mia Couto. O livro é simplesmente encantador, e o senti tocar fundo dentro de mim. Cada conto, cada expressão poética, cada expressão bem humorada dialogaram com meu espírito. Saí sublinhando tanta coisa! Gostei tanto de "O homem cadente": delicadeza maior com as coisas do mundo visível e do invisível! Me senti uma "aero-anjo", tal como Zuzé.Todos os contos me tocaram muito, mas como esquecer "o adiado avô"? A sutileza das descobertas em "Mana Celulina, a esferográvida"? E a gordinha Isadorangela? "A infinita fiandeira" é um tratado poético-filosófico da arte! Se pudesse falaria sobre cada conto, mas sou menor diante deles. 
Tocou demais em mim os doidos de Mia Couto. Puxa vida, aquele que criou o aparelho televisivo para ver jogos. A outra que enterrou a televisão do amado junto dele. E o menino que queria morrer, "ir em caixa daquelas" !!
Obrigada, Sandra, por sua delicadeza, por me conhecer tão bem ao me presentear com um livro raro em beleza, lirismo e humanidade.
Abraço carinhoso,

Ângela.

domingo, 22 de julho de 2012

Zé Lope

Como esquecer Zé Lope? Impossível. Este morreu e continua no mundo dos vivos. Dos vivos que foram retratados por ele. O homem era retratista, gente; um retratista genial. Tinha mania de psicólogo na hora de tirar nosso retrato três por quatro para a matrícula do colégio: o cabelo precisava estar solto. Além do cabelo solto, era necessário uma seriedade enorme nossa, solenemente sentadas na cadeira tosca com um pano branco atrás. O pior é que íamos sempre em bando tirar fotos, e uma atiçava a outra para rir. O homem ficava nervoso e começava a cantar; digo, a falar: falava cantando, pois que tinha pedaço da língua cortada por Mané Besta, o doido mais lerdo e valente que já conheci.  Foi discutir com Mané Besta e deu no que deu: Mané Besta saiu no lucro e nós saímos perdendo, pois que ouvir Zé Lope falar era algo irritante. Ele era irritante, e sua fala cantada ainda mais nos irritava. Nunca vi pessoa mais compenetrada e rigorosa como aquela na arte de fotografar. E o resultado era sempre medíocre e mentiroso.
Ele tirou uma foto minha e não era eu. Foi entregar e eu não queria aceitar, pois que aquela menina horrorosa, com cabelo horrível, não era eu. Ele ficou nervoso e acabou falando aquela barbaridade cantada nunca esquecida por mim: mais ou menos que ele não tinha culpa de eu ter o cabelo que a barata roeu.
O homem era desaforado.
Não há como esquecer os desaforados.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A cidade dos invisíveis


Dizem que sempre estamos a poucos milímetros da esquizofrenia. Basta querer correr pro mato. Sempre quero correr pro mato, só que onde moro o mato não é confiável. Onde moro a vida é de uma dificuldade pavorosa. Não conseguimos ser invisíveis para os passantes: todos nos olham, nos avaliam, vêem nossos intestinos. Se fosse só isso. Há muitos, mas muitos carros de som gritando pela cidade inteira, desde as sete da manhã. Tem um correio que não funciona regularmente: as faturas chegam com dois meses de atraso. Tem uma mortificação no ar, os paralelepípedos gemem um choro doloroso, e que não chega a comover. Minha rua, no crepúsculo, lembra as penumbras perturbadoras de  Hitchcock, e eu quase vejo, cotidianamente nessa hora, a multidão de pássaros bicando o teto das casas. Também tem muito parecença com a cidade retratada em "A peste", de Camus: "um lugar neutro", "(...) uma cidade sem pombos"; por aqui tem árvores, mas "não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas":"(...) aqui as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos". Eu mesma vivo num tédio assombroso, beirando a esquizofrenia, porque não consigo criar hábitos. Todos por aqui têm hábitos, como em qualquer parte do mundo. Mas a diferença é que em outras partes do mundo as pessoas são vivas, e aqui não. Já foi estatisticamente comprovado que aqui há mais mortos que vivos. Não os enxergam só quem não usa uma discreta lupa invisível, ou nunca tiveram um soluço de mais de vinte minutos, sem cessar. São muitos mortos, todos de sobrecasaca, uns falam de um cinema antigo que houve por aqui, outros de um jornal, todos choram um tempo inexistente e feérico. Contam, os tais mortos, que a maldição do lugar envolve o desaparecimento do cinema. "Os que se acham vivos", dizem os mortos, "são mortos de fato"; e acrescentam: "nessa nossa frase não há metáfora". "Estão mortos e pensam que vivem, nessa vidinha de merda tomando cerveja e olhando os passantes", confirmam eles.
 Tais vivos-mortos têm uma curiosidade mórbida pelos que chegam; principalmente aqueles que não querem ser mortos e entrar na triste estatística da cidade. Só que a azaração do olhar é tão cruel e miasmática, que nós que aqui chegamos cumprimos de imediato outro destino: o endoidamento, a gastura no juízo, e a vontade obsessiva de criar uma sociedade por aqui inexistente: a sociedade dos loucos, dos loucos de pedra, senhores de vestimenta desigual e palavreado estrangeiro, e sair pelas ruas como saltimbancos, rindo de tudo, dançando e tocando Nino Rota em filme de Fellini.


Imagem: cena de "La estrada", de Fellini (1954).

terça-feira, 17 de julho de 2012

Ele

Havia um problema com o ano do nascimento dele, mas que era perfeitamente explicado pelas eleições. Os candidatos a prefeito, vereador, etc, queriam o seu voto, então foi obrigado a aumentar mais um ano na sua identificação para o mundo. Um ano mais velho no papel. Assim, ele dizia ter nascido em 1937 e a certidão dizia 1938. Essa história introdutória é parecida com a de muitos nordestinos, "por aí aos montes" como sentenciou Clarice Lispector. O poder quer o seu voto, não importa se o 'elemento' (como "eles" chamam)  passa por um processo de ressignificação de sujeito.
Não sei se ele - com o ano de nascimento mudado - passou por tal processo de "ressignificação": palavra refinada e artificial demais para a sua simplicidade de mateiro. Não sei também se no fundo lhe agradava ser mais moço no papel.  Ele vai vaidoso, por certo; gostava de uma camisa de casimira, gostava dos cabarés e das mulheres, e da voz nostálgica de Silvinho e de Vicente Celestino. Ele gostava de música, de poesia, dos repentes e dos repentistas. Ele nos levava para as noitadas de repentistas na roça. Ele era bastante sentimental: sempre recitava, com os olhos marejados, "Meus oito anos" de Casimiro de Abreu. E cantava todinha, em todas as partes, a música "Triste Partida", de Luiz Gonzaga. Cantava "Triste Partida" sempre chorando e dizendo que "era assim mesmo": ele passara por quase tudo aquilo, pois que 'a coisa ficou feia' e ele também um dia partiu para São Paulo.
Esse texto aqui talvez apenas interesse a minha irmã, sua eterna apaixonada; e a mim, que ora o homenageio no seu septuagésimo quinto aniversário. Não consigo imaginá-lo com essa idade, ele que se foi moço e belo, aos cinquenta e seis anos. Lembro que em todos os dezessete de julho nós lhe dávamos um presente,  acompanhado de um cartão. Os cartões desapareceram do mundo e os presentes são coisas por demais sólidas, pesadas. Portanto, hoje envio para ele, como presente que ambiciona ser leve, essas palavras, e inscritas no ar, ao vento dessa manhã.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

em preto e branco


Insisto que um dia partirei de trem; nunca, nunca de avião, nunca de ônibus, nunca de táxi. Partirei como nos  filmes antigos: na estação ferroviária, em pleno inverno, com sobretudo e chapéu de plumas. Entrarei na minha cabine e fumarei um cigarro, enquanto espero o cavaleiro à minha frente. Sonharei forte, como só se sonha na década de 50, com o trem apitando em  preto e branco.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

sobre os mistérios

Da série: Freud bem que poderia me ajudar...

Sonho sempre com elevadores indo para o mais alto dos céus; ou com escadas rolantes perigosas que rolam a torto e a direito os pés que se arriscam a nelas tentar pisar. Ontem sonhei dentro de um edifício macabro, onde tinha mais elevadores que espaços; um deles me levou para o vigésimo primeiro andar, em círculos. Lá, dentro de um caixa eletrônico, me esperava uma prova: nela eu precisava discorrer sobre um livro que nunca li. A atmosfera era de fim de mundo.

terça-feira, 10 de julho de 2012

às vesperas


Não esquecer que eu existo é a minha condenação. Meu corpo funciona, acorda, vive. Até quando?
Desde que fui refém num assalto ao Banco do Brasil, vivo sabendo o que é estar às vésperas. Como as pessoas esquecem que, rápido como um trovão, a bala pode sair da metralhadora?
Nessa semana atravessei o mar no ferry boat. Já tinha feito isso duas outras vezes. Só que dessa vez foi diferente: eu olhava a todo instante para o rosto das pessoas esperando o momento da correria. Um novo titanic? Vivo assim, espantada, espreitando a hora.
Seja dentro de um ônibus, sentada na sala, dormindo na minha cama, Ela me olha. É alta, como só uma tia pode ser alta; é magra, com os ossos de fora. É bela, a desgramada.
Um dia, saindo da livraria Cultura, com as mãos cheias de filmes e livros, uma amiga querida me perguntou para quem eu iria deixar - quando chegasse a hora, como para todos chegam - para quem eu iria deixar aquele manancial de provisões espirituais.
Para quem eu irei deixar.
É uma tarde de terça-feira, e eu aqui, aqui sempre às vésperas.


Imagem: cena do filme "L'avventura" (1960), de Michelangelo Antonioni.

terça-feira, 3 de julho de 2012

festa de aniversário

No dia 04 de julho de 2007 nasceu Aeronauta.
Na minha família nunca houve costume de festejar aniversário. Pai dizia que isso era coisa de rico.
O máximo de festa que já tive, em se tratando de aniversário, foi aos 14 anos. Uma festa verde, penitência que mãe pagou para sua filha mais nova (já contei aqui).
Depois disso, nada. Tenho horror a negócio de vela, chegou a hora de apagar a velinha, essa bestajada toda.
Mas não sei por que meus aniversários são lembrados por mim.
E também sempre lembro do aniversário da Aeronauta.
Ela irá fazer amanhã cinco anos de idade.
Jovem demais. E nem sei se pra ela serve o clichê: "tem uma vida toda pela frente". Isso só depende do blogspot: o desaparecimento desse é a morte certa da Aeronauta. Não salvei em nenhum lugar seus escritos.

A Aeronauta sou eu, agora arremedo Flaubert, sem qualquer glamour.


sábado, 30 de junho de 2012

cidades


É preciso muita atenção ao escolher a cidade em que você vai morar. A cidade é como a casa, a família, os pertences mais íntimos. Cada praça, cada paralelepípedo, muro, esquina vão estabelecer uma conexão com os seus órgãos vitais. O estrangeiro que chega a um lugar que nunca viu, logo irá conhecê-lo através desse contato com suas percepções, sua própria história, suas memórias em letargia. Muitas vezes uma mangueira numa dessas ruas sem saída pode ser a salvação de uma vida em exílio. É possível sim ficar em completo exílio numa cidade, mesmo com suas praças convidativas.
É bom lembrar que em toda e qualquer cidade, além dos vivos sabidos em números de estatística, há também os mortos, os seus mortos, arquivados. Eles são sempre muitos, guardam seus hálitos em ventos e dentro de alcovas particulares. Os mortos têm sempre muita intimidade conosco, nós que somos novos habitantes de um lugar só deles. Por isso é preciso cuidado, atenção e afeto; afeto, mesmo quando tudo parece hostil. Como poder amar uma cidade que não traz nossos traços, nem nossa memória, e boceja a toda hora em que passamos por ela? Como poder amar suas motocicletas barulhentas, seus carros de som desesperados, suas curvas em precipício?
Lembrei-me agora de uma cidade que conheci há muito tempo atrás: suas ruas eram praças largas, larguíssimas, e a impressão que tínhamos era que, ao andarmos por elas, as casas iam dando pra traz, cada vez mais, ficando cada vez mais longe, nos deixando num campo aberto.
Não há como negar: há cidades antipáticas, grosseiras, frígidas, feias.
Também há cidades que nos trazem de volta a nós mesmos: palmeiras, casarios, muros, esquinas, heras, tudo diz coisas para nossa alma muda. Há cidades sedutoras, maternais, belas, introspectivas, vivas. Gostaria de um dia, por exemplo, tomar chuva numa viela em Paris.
Gosto muito de cidades, pois todas têm história escondida. Cada soleira abandonada de uma casa nos convida a entrar e a conhecer o invisível. Se deixarmos nosso sobretudo e chapéu na entrada, seremos convidados para uma festa em preto e branco, como nas fitas do cinema antigo.
Ah, as cidades! Gostaria de poder conhecer seus traumas mais íntimos; por que por exemplo nessa avenida há tantos atropelamentos, e naquela os gemidos lacerantes de um vento. E naquela outra uma indiferença palpitante. E nessa minha, esse asfalto grosso, concreto, condutor de carros velozes, sempre indo, sempre indo, sempre indo, incessantemente...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

meu, nosso e vosso Destino


Primeiro eu percebi uma coisa estranha na minha bochecha esquerda. Ela estava meio rasa. Achei estranho; e a partir daquele momento, toda vez que ia ao banheiro verificava o rosto no espelho da pia. Depois, com aqueles espelhinhos de bolsa, numa tarde em que me espreguiçava tentando encontrar espinhas e cravos, vi que meu rosto caía quando eu abaixava mais a cara. Na mesma época, minha amiga de infância me ligou só pra dizer que fazia ginástica em casa quando, na hora de deitar-se com o rosto para o chão, incidentalmente viu um espelho por perto. Ao descer e subir e, por último, descer, ela viu muito mais! Viu, claro, no espelho, seu rosto descendo também. E me ligou pra comunicar isso e pra pedir que eu fizesse o teste. Ri, desconsiderei e não fiz. Portanto, foi com grande assombro que constatei em mim também naquela hora a minha cara caída. Descobri, de quebra, outra coisa: os famigerados pés de galinha plantados no canto dos olhos.
Desse tempo longínquo (mais de dez anos) até hoje, diariamente há uma sucessão de descobertas, de surpresas. Lembro quando percebi um esgar em minha boca. Pensei: não; estou feliz hoje, não estou desdenhando a vida. Mas o esgar estava lá: os cantos da boca caíam. É impressão minha ou meus lábios estão mais finos?, perguntei ao Nada, e ele não respondeu. Fui a uma foto antiga minha e verifiquei perplexa essa nova transformação. Perguntei de novo ao Nada: cadê eu? Agora ele respondeu: não sei.
A cada dia desaparece uma parte do que fui. Agora é a vez das orelhas. Ao trocar um brinco, ontem, notei o inevitável: minhas orelhas pendendo para baixo. Retirei imediatamente os brincos e examinei bem perto do espelho: é, elas estão indo, considerei com tristeza.
No seu livro sobre a velhice, Simone de Beauvoir o introduz trazendo a história da descoberta da velhice feita por Buda quando este ainda era jovem. Por estar sempre fechado em seu palácio, Buda não sabia que existia a velhice. Um dia escapou pelos arredores e o que primeiro encontrou foi um homem velho, alquebrado, apoiado em uma bengala. Ele ficou perplexo, sem entender o que era aquilo. Quando o cocheiro lhe explicou que ali se tratava de um velho, Buda disse:
"Que desgraça é não enxergarem a velhice os seres fracos e ignorantes, ébrios do orgulho da juventude! Voltemos depressa para casa. De que valem folguedos e alegria se a velhice vindoura já habita em mim?"
Não sou e nunca fui iluminada, obviamente. Por isso só descubro agora, na maturidade, a velhice me espreitando, com seus olhos fundos. Jovem, nunca me interessei pelo assunto, não queria descobrir naquele tempo minha "velhice vindoura" já habitando em mim. Sou, como todo mundo, ignorante de meu Destino.
Sarcástico Destino: um dia marcarei uma audiência contigo. De fotografia em fotografia me dirás a que vim ao mundo. Aqui, dirás, para chorar, ali para rir, ali para escrever, acolá para descobrir. "Descobrir é a inteira revelação", reiterarás com solenidade. E nada mais dirás. Eu sei.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

crônica familiar


Quando chegar o Juízo Final não irei para a fila dos julgamentos. Paguei todos os meus pecados, e adquiri entrada grátis para o céu, o paraíso, o éden. Tudo isso porque ontem o Destino me incumbiu de levar mãe para ver o show de Luan Santana, claro, a pedido dela. Chegando lá, escutei o comando maternal, bem nítido, saindo de sua boca; esse comando foi traduzido assim:  ela queria ficar bem perto do palco. O show estava marcado para as dez, e às nove - hora de nossa chegada -  já tinha gente saindo pelo ladrão. Perto do palco lá fomos nós. Às quinze para as dez as pessoas começaram a enlouquecer, pois o locutor surgiu gritando que Luan Santana já estava vindo, já vinha, já estava lá, mas só daria as caras às dez em ponto. O povo, eriçadíssimo, foi chegando para perto de onde estávamos eu e mãe. Um empurra empurra dos diabos nos levou para mais distante do palco, e os altos tomaram a frente dos baixos. Eu somente não acreditava que amor de filha pudesse ganhar tais proporções: me sentia ridícula ali no meio daquela meninada histérica, e não podia dar no pé, claro, pois que me preocupava com a integridade física de mãe. O pior é que, naquele apertuche, ela, em plena generosidade, abria caminho para o povo. E tome passa gente, passa boi, passa boiada, até passarem uns dez soldados armados com cassetetes; não sei como não atravessaram nosso corpo, tamanha força moral e física. Quando o tal Luan (que mais parecia deus) apareceu, percebi que nossos ouvidos estavam quase que colados na caixa de som. O som fortíssimo bateu dentro dos meus intestinos, cabeça, tronco, costas, dedos, e eu pensei que iria enlouquecer. Olhei para mãe, e constatei que ela estava miudinha, amassada, mas feliz; disse que o som não estava atrapalhando não.O que lhe atrapalhava era o cabelão de uma menina na sua frente. A menina ouviu e retrucou que ela não tinha nada a ver com isso. 
As pessoas empurravam eu e mãe, sem dó nem piedade. Nunca me senti tão humilhada. Mãe só reclamava que não estava conseguindo mais ver Luan Santana (claro, todos os altos do mundo reclamaram seus direitos), porém não achou ruim o destempero do som nos ouvidos não. Eu disse: se ficar aqui enlouqueço. Ao ouvir isso, preocupou-se comigo e aceitou buscar um lugar menos apertado, sem risco de morte. E fomos abrindo caminho na multidão de gente. Nesse esforço desumano, meu cabelo ficou preso no anel enorme de uma moçoila, e eu senti uma dor terrível no meio da cabeça; tive que fazer meia ré para tirar o cabelo do anel da menina, enquanto pegava na mão de mãe para encontrar passagem. Encontramos um lugarzinho mais distante, mas dava pra ver as pernas magrelas de Luan. Mãe, com a cara descontente: agora reclamava que não via mais nada, pois a luta de ombros com as outras pessoas, os altos, continuava, só que com a desvantagem de não ver de mais perto o cantorzinho de sua predileção. A essa altura eu fazia um esforço pungente para ter paciência com mãe. E o tal Luan no palco com pinta de galã, de deus, e aquele mar de moças desvairadas. Só que o repertório dele foi acabando, e de repente começou a cantar música de Teló. Agora só ouvíamos a sua voz, porque o corpo tinha sumido de órbita junto com o palco, tudo isso em virtude do poderio corporal que a avalanche humana possui. Eu dei graças a Deus por essa perda de visão nossa com relação a Luan, e rezava para mãe pedir pra ir embora. Foi nesse momento que ela soltou tal preciosidade:
- Soube que num show, ele teve disenteria no palco.
Eu:
- No palco???
Ela:
- Foi.
Eu:
- Nem pra ele ter disenteria agora.
Ela se acabou de rir, e na boa vontade aceitou ver o tal homem num telão, colocado em lugar mais calmo do bosque. Eu apenas olhava, de soslaio, aquele fenômeno da mídia que agora cantava sentado. As meninas, todas devidamente de botas e sapatos de salto alto, faziam corações com as mãos enquanto ele dizia de lá do alto "beijo no coração de vocês". Uma fã alucinada mandou uma carta, que o locutor leu no início, em que pedia para ser sua nega. Outra fã subiu no palco e começou a dançar tão colada, se esfregando no cantor, que dois homens da produção a tiraram às pressas dali.
Não sei se vale a pena estar contando tudo isso. Afinal o tormento acabou antes da meia noite. E, graças a Iemanjá (é, pedi proteção pra ela na hora mortal do empurra empurra)  chegamos sem um arranhão em casa.

P.S.: Mãe passa agora pela sala, me pergunta o que estou escrevendo e eu digo. Ela ri e constata:
- Quá! Luan é muito frágil; cantou quase todo o tempo sentado.



Imagem: Eu e mãe fazendo pose para o retratista, pós show de Luan Santana

quarta-feira, 20 de junho de 2012

cidade Facebook (quem diria, estou lá)


Sabe uma tabaroa chegando na cidade grande? Fui eu chegando ontem na cidade chamada Facebook. Gente, nunca me senti tão atarantada; só quando, aos seis anos, fui a Salvador pela primeira vez. Por que eu fui a Salvador bem me lembro: estava com hepatite e precisava de tratamento. Por que eu fui para o Facebook já não sei responder direito. Deu um tino no juízo e de repente estava pedindo a alguém para me cadastrar. Será que eu fiz isso mais para ter acesso à vida alheia, com fotos, mensagens e tudo? Será que era para ter com quem conversar nas noites solitárias? Ou será que foi por mero instinto? Acho que foi pelas três coisas.
O que me deixou imensamente assustada é que em menos de uma hora depois do cadastramento já tinha 40 pessoas batendo na porta querendo entrar. Ou seja, quarenta amigos querendo ser adicionados. Levei um susto horroroso. O que fazer? Quem me cadastrou só fez cadastrar e foi embora. Esperei encontrar depois  esse anjo torto e ele me ensinou a ir clicando um a um nos amigos que queriam ser adicionados; ou seja, me ajudou a abrir a porta para esse povão todo entrar.  E mal ia abrindo e chegava mais e mais gente chamando. Fiquei espantada, a me perguntar de que toca saía tanta gente conhecida. Muita gente que gosto, alunos inesquecíveis, pessoas amadas por mim e desaparecidas; agora me acenando, com foto e tudo. Aí eu aprendi rapidinho a clicar na aprovação, abrir a porta. Entretanto, preocupada. Alegre por encontrar velhos amigos, mas preocupada; será que vou dar conta desse negócio?
O Facebook é uma cidade difícil de andar: muitas tabuletas direcionando, pedindo preenchimento (as tais "fichas") e que só fazem me desorientar. Não sei nada, nada... Como botar fotos? Como botar músicas preferidas? E os livros? E os filmes? Nem dizer que fiz curso superior na UEFS consegui; quis dizer que fiz pós graduação na UFPE e saiu que fiz curso superior na UFPE; quis consertar e não consegui. Meu anjo torto, veterano do mundo virtual, também não conseguiu.
Estou perdida, pois então, na grande Metrópolis.
Hoje à tarde, ao conversar com esse meu anjo, lembrei de Roberto Carlos cantando, na década de 70, "eu quero ter um milhão de amigos..." Claro, o Rei cantava essa ambição de maneira hiperbólica; sabíamos que ele nunca iria conseguir ter um milhão de amigos (naquela época). Eu ria comentando isso quando o tal anjo torto, diante do que ouviu, fez a seguinte constatação: "É, hoje rola". Pois é, hoje rola ter 1 milhão de amigos e muito mais.
Conheço alguém que traz o sonho de ter cinco mil amigos nessa cidade pós moderna chamada Facebook. Deus seja louvado.


Imagem: cena do filme "Metrópolis" (1927), de Fritz Lang.

terça-feira, 19 de junho de 2012

a verdade âmago


Não tenho dúvidas que o grande livro de Clarice Lispector é A Hora da Estrela. O meu exemplar, presente de uma pessoa querida, traz a data: "17.11.90". De lá pra cá já o percorri muito, e possui rabiscos feitos a lápis, anotações de vários tempos, várias leituras. A cada nova leitura o livro se ergue, cada vez mais. A cada nova leitura, percebo mais a genialidade de quem o escreveu. Tenho minhas conhecidas brigas e implicâncias com Clarice, mas nesse livro ela consegue a unção absoluta, o momento divino da iluminação; e tal  iluminação nos pega em golpe, como um soco no estômago e uma felicidade. O livro - sabe disso quem o leu, claro - é a construção do livro; Macabéa e Rodrigo S.M., seu autor, são personagens, e Clarice é Deus - aquele que cria destinos, faz nascer e faz morrer.
Hoje mais uma vez percorri A Hora da Estrela inteiramente, me deliciando ao constatar tamanha genialidade ali inscrita. Na página 78 parei e fiquei pensando muito, ao ler esse trecho:

"Sim, estou apaixonado por Macabéa, a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém.Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:

- Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém, todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha." (grifo meu)

Como não se deter diante desse grito?
Como não emudecer o corpo e pensar?
Aliás, como não roubar para nós essas palavras que o autor queria que Macabéa pronunciasse?
Ora, somos sozinhos no mundo, e todos mentem.
Cadê e o que é a verdade?
Nenhum ser, de fato, fala com o outro?
É mesmo: a verdade só me vem quando estou sozinha (não, não vou aspear).
Sozinha, vejo todas as mentiras. As minhas, as suas, as vossas, as de todos. Vejo os hiatos que nos distanciam. Somos péssimos atores, canastrões. E burros: achamos que não somos vistos.
Oh vejo sim sua mentira, é doce e eu acredito nela, minha amiga. Vês? Acreditas também nas minhas.
Meu amor, te vejo nu, todos os dias; não adianta vestir-se.
Mãe, jurei sempre dizer a verdade quando me ensinaste o pai nosso. Mas só digo a verdade dentro de mim: ela vem enorme, principalmente antes de dormir. A verdade inteira, sem palavras, sem imagens, sem signos: nem literatura nem cinema; a verdade âmago, como diria Clarice.


Imagem: capa do meu exemplar. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 9a edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

sábado, 16 de junho de 2012

sábado, no confessionário

Cedo aprendi a amar: desde a coitada da formiga que poderia morrer com um pisão de pé meu, e que eu resolvia salvar, até os cabelos alheios.
Aos oito, nove anos eu me sentava na porta de casa com um pente na mão e ia chamando todos que passavam na rua, indistintamente, para pentear-lhes os cabelos. Alguns acediam, eu caprichava nos penteados, e não sei como não foi desse modo que peguei piolho.
Na escola minha prática de amar era absurda: eu entrava na fila da merenda duas vezes para alimentar minha colega mais gulosa e malvada. Em troca ganhava cascudos.
Muita gente chamava isso de bestagem, de idiotice, de ingenuidade.
Digo que continuo sofrendo disso aí.
E que fui assistir "Noites de Cabíria" e, tal como a protagonista, acreditei na conversa bonita do contador; e, tal qual Cabíria, me vi perto do rio descobrindo que ele iria me matar. Deitei na grama, tal Cabíria, morrendo de chorar, me descabelando; também descobrindo que eu era ela, como fui Gelsomina, como sou Macabéa.
Minha educação sentimental é por demais dolorosa.
Os livros não conseguiram me livrar dessa culpa infernal de ser eu, nessa carteira de identidade antiga, feita quando ainda estava no colégio.
No colégio eu era gorda e sem jeito. Vejo bem isso nas fotografias daquela época. Sempre fui sem jeito, não sei estar na vida como todos estão, confortáveis como numa festa. Na festa é onde me sinto mais desconfortável: lá a alegria é o mais cruel imperativo.
Em toda festa que vou me lembro de Guilherme Arantes gritando querer o escuro de seu quarto à meia noite, à meia luz.
Acho que são essas mãos que não ficam bem no bolso, nem soltas. O olhar que não sabe onde se fixa. É sempre tão melhor não ter obrigação de falar. Por isso meu repúdio às reuniões, ao namoro sem interlocução, ao médico diante da consulta.


Imagem: Fotografia de Robert Parkeherrison. In: www.google.com.br

segunda-feira, 11 de junho de 2012

profunda oração


Tive tantos namorados: um que apenas tocou minha mão; outro que sequer me amou, e aquele que, na rodoviária, ao se despedir, me deu um saco de pipoca. Guardei o saquinho, hoje bastante fino e amarelecido, na caixa bordada com laço de fita. Não esqueci não, moço, aquela despedida eterna numa lanchonete de Feira, quando todo mundo passava vivendo em plena manhã de segunda; nunca mais vi aquele mormaço: seu rosto desapareceu nele, assim como todas aquelas pessoas, na multidão sem nome. E o seminarista? E o gari? E o poeta falastrão? Não, nem todos os meus namorados tiveram chapéu. Mas um eu me lembro bem, tinha um paletó antigo, era quase um homem do outro mundo. Em compensação outro era por demais terreno, gostava de carnaval, e de história da religião. Os mais amados foram os artistas, os cabeludos, os tocadores de música. Desses minha alma é devota, em profunda oração.


Imagem: "Flor de romã transformada". In: www.google.com.br

em busca do tempo

Um amigo na década de 90, bastante inteligente, sensível e culto, tinha uma fita cassete de Reginaldo Rossi. E enquanto tocava no seu toca-fitas "Mon amour, meu bem, ma femme", ele dizia com a voz emocionada: "Como não sentir um negócio por dentro ao ouvir isso? Dói!"
É verdade. Dói.
Sem contar com aquela  menina da cadeira de rodas e da roda gigante de Fernando Mendes. E aquela do hospital, na sala de cirurgia, de Amado Batista. Músicas que, quando menina, ouvia chorando, imaginando as cenas, sofrendo com aqueles personagens profundamente trágicos.
Teve outra que marcou minha infância; a história da música resumia-se mais ou menos nisso: o homem bateu na porta da sala, a mulher saiu pela da cozinha, ele perguntou onde ela estava, ela respondeu da casa da vizinha, etc, etc. No dia em que a rural de pai virou, estava tocando essa música no rádio lá de casa. A música em si não é triste, fala de marido traído, mas, relacionada à hora em que soubemos do acidente, ganhou uma tonalidade cinza como aquela segunda-feira da década de 70.
Música é perfume, de fato.
E "Luzes da ribalta" na voz de José Augusto?
Dói; Andaraí sai do retrato na parede.
Depois vem Legião Urbana, a festa do clube, parece cocaína mas é só tristeza; eu tenho muito tempo... Era isso o que eu não pensava: que eu não tinha todo o tempo do mundo.
Paulinho Pedra Azul, os mineiros todos, Lô Borges, Dércio Marques, Tadeu Franco.
Uma menina de cabelo comprido rebelde, uma franjona na testa, correndo atrás de tocador de violão. Cantando nas pontes, sob o coaxar dos sapos. Uma menina engraçada eu fui, afinal de contas, mesmo com aquela melancolia bem vista nas pernas grossas. Uma menina sem uma marca no rosto.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Baby



para Mã


Onde se escondeu a menina
que colocava rabo de papel nos transeuntes?
O que foi feito dela, a Baby de Raul Seixas,
namorando escondido?
O que foi feito de seus treze anos,
límpidos, como vitrines de outro mundo?

Tenho saudades dela,
livre da moral dos homens.
Tenho saudades dela,
primitiva, como os sonhos.

Seus cabelos cacheados estão presos
na fechadura de uma porta antiga.
É preciso que anjos terríveis,
aqueles que transgridem no céu,
soltem seus cabelos, esses cachos,
tragam de volta a menina.


terça-feira, 5 de junho de 2012

réquiem

Tem coisas que a gente tem vontade de esquecer. Daquele domingo, ao voltarmos sem ele. Tomei banho e acordei no outro dia assustada ao ouvir minha irmã falar ao telefone: "pai  morreu ontem". Não dava para acreditar, levei um susto e quase saí correndo para desmentir. De fato, ele não tinha vindo com a gente. Lá em casa ficaram sua camisa de listras, suas calças, seu paletó verde, seus sapatos. Nós três estávamos numa outra cidade, depois de tudo, para tentar esquecer. Desde esse dia - 05 de junho de 1994 -, eu, minha irmã e mãe não paramos mais em casa, somos estranhas espécies de nômades. Pensar que hoje faz dezoito anos que ele nos deixou, involuntariamente, me entristece. Não sou dessas fiéis que aceitam com subserviência a vontade de Deus; na verdade queria saber mais sobre essa vontade; sou por demais curiosa com essa vontade. Dia 05 de junho para mim é sempre dia de luto, dia fechado, sem alegria. Hoje sequer abri a porta da rua.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

um presente

Não gosto de - como dizemos na minha terra - me "amostrar", publicando coisas que acontecem comigo, mostrando nesse blog o que dizem, elogiosamente, de minha poesia. Mas o presente que recebi na manhã de hoje me deixou muito feliz: pois mais do que dizer de minha poesia disse de minha alma. Eu não sabia que minha alma desesperada produziria no olhar de alguém significados tão belos. Falo do poema de minha amiga Denise Magalhães, postado no blog http://vertigensclandestinas.blogspot.com e copiado abaixo:


A poeta
               (Para Ângela que me ensina a beleza e a liberdade, sem saber)

Houvera de andar, por aí
A colecionar detalhes
E tecer em versos
Raras minúcias
Fina agulha
No abismo mais temido da alma
Docemente atingida
Devassada
Sem saída
Houvera de andar, por aí
Escolhida pelas palavras   
Para o dizer
Mais improvável
Mais pungente
E provocar
Silenciosamente
O estranho grito de se ser
Houvera de andar, por aí
Com a força  latente da terra
Dos rios
Do mato
Impregnadas com suas garras
Na rebeldia de seus longos cabelos
Que ela esvoaça, por aí
Suavemente
E os bobos nem percebem
 Andar-aí.

Denise Magalhães