quinta-feira, 20 de setembro de 2012

TRILOGIA DA CRUELDADE




"Filhos... Filhos?/Melhor não tê-los", todo  mundo conhece esse poema de Vinícius, o célebre “Poema Enjoadinho”: "Mas se não os temos/ Como sabê-los?" "Como saber/ Que macieza nos seus cabelos”... , etc etc etc. Várias loas, enfim: depois de mostrar o lado chato, o poema termina mostrando o lado divino de ter um filho.
Não minto, sempre tive curiosidade em saber como se dá essa divindade de amor absoluto, só nunca possuí coragem suficiente, e não é agora, com a idade já batendo na porta e pedindo guarida, que vou cometer essa temeridade. Mas, para quem ainda não tem filhos e acalenta bastante dúvida a esse respeito, e ainda tem em alta conta a sentença de Brás Cubas (aquela famosa frase: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma  criatura o legado da nossa miséria"), a essas pessoas sintonizadas com Brás-Machado de Assis, aconselho a lerem três livros importantíssimos que tratam da temática complexa que é ter filhos: "Marcoré", de Antonio Olavo Pereira (1957), "Na Relva da Tua Lembrança", de Herberto Sales (1988) e "Diário da Guerra do Porco", de Adolfo Bioy Casares (1969).
Herberto Sales sempre dizia e afirmava algo cruel: "Todo filho é um bom filho da puta". Essa sentença talvez resuma o teor dos três livros elencados acima. Marcoré, personagem que dá nome ao romance de Antonio Olavo Pereira, é tão cruel quanto os filhos que habitam os outros dois livros, “Na Relva da Tua Lembrança” e "Diário da Guerra do Porco". Nestes dois livros, os filhos, para se livrarem do incômodo que é ter pais, e velhos, resolvem matá-los. Aconselho vocês a lerem a trilogia na ordem acima, pois que "Marcoré" é o prelúdio para os assassinatos que virão nos outros dois livros. Em "Marcoré" percebemos aquilo que Rachel de Queiroz bem acentuou depois da leitura do referido romance: " (...) não perdemos os nossos filhos apenas quando os vemos mortos: todos eles morrem quando deixam de ser crianças e se viram homens e mulheres...(...)".
Eis o fato: quando o filho nasce é uma fofura, um bebê tão lindo, obra de Deus. Aos dois, três anos, lindo como anjo, fazendo coisas de tocar o coração do ser mais bronco. Dos doze anos em diante as coisas começam a mudar de feição.

3 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Eu sempre penso que é da natureza do homem CRIAR. Se não houver filhos, que hajam livros, que plantem árvores, que se exerça, de um jeito ou de outro, o dom da criação. O que se diz é que até determinada idade, precisamos "criar" corpos; com a maturidade, a criação torna-se ou deve se tornar mais sutil. Bom mesmo é que podemos criar sempre.
Abraços,

Carlos Rafael Dias disse...

Sou filho, pai e avô. E adorei esse texto, Nauta. Um verdadeiro tratado sobre filho.

M. disse...

Os filhos podem ser terríveis, os pais podem ser terríveis. Na verdade, eis o homem. Bjs