sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

pela porta da esquerda


É sempre histórico escrever algo abaixo da data acima. Mesmo que o dia não seja extraordinário. Aliás, não há dia extraordinário. Aliás, não há nada, só expectativas bobas diante do grande mistério. Expectativas que nunca se cumprirão. Fernando Pessoa tem uma 'sentença' que bem ilustra isso que digo agora:
"Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho."
O que quero dizer é que sempre existirá a porta da esquerda. E que a dificuldade é aceitá-la como parte integrante de um outro tipo de sonho: esse que se impõe, e que batizamos com o nome infeliz de "realidade". Ora, se pudéssemos enxergar a realidade de maneira não pragmática, mas surreal, talvez atuássemos com maior nobreza nesse espetáculo desgraçadamente piegas que é a vida. Encaramos a realidade de maneira pragmática, querendo que ela seja a concretização de um sonho. Ora, sonho não se realiza, se vive da maneira que se nos apresenta. Sonho aleijado, eu diria, mas vivo, podendo ser tocado. E sonho aleijado é sonho surreal, felliniano.
Talvez eu tenha finalmente aprendido a sonhar aleijado. Em todo último dia do ano eu fazia uma lista do que queria para o ano vindouro. Bestagem. Hoje não perco tempo com isso, portanto, não desejo mais nada. Quero que as coisas me encontrem sem que as chame. Quero o inevitável, e, dentro disso tudo, talvez venha um riso completo. Se não, deitarei na cama e suspenderei o tempo, chorando. Vestir calcinha rosa na passagem do ano? Besteira. Pisar sete ondas? Para que esse trabalho todo? Prefiro assistir a um filme e ler aquele último livro de Baudelaire que comprei.
Chega um tempo em que descobrimos que tudo é inútil, menos a arte. E com ela podemos sonhar aleijado de uma maneira sossegada. Com ela aprendemos a ficar sozinhos, sem gritaria e apelo público. Entramos no mais fundo de nós e lá nos encolhemos, aguardando, quem sabe, se for possível, um vizinho.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

conversa de comadres


Minha irmã, inconformada com as malvadezas que o tempo fez na minha cara, marcou um dermatologista pra mim. Eu não queria ir, já me conformei com todas as malvadezas, e sou pacífica com relação ao tempo, apesar de achar tudo muito dramático. Ela fez questão de me levar de carro, numa manhã de segunda, sete e meia. Só muito amor a uma irmã, destinada mais dos que os outros ao envelhecimento, para fazer tamanho sacrifício, acordando cedo e enfrentando engarrafamento. Ela exibia um rosto maravilhoso: macio e sem manchas, sem espinhas e sem cravos: ali estava a propaganda do médico, O Milagroso. Você vai ver, você vai ver, e a gente não pode entregar os pontos, você precisa dar um jeito nesse rosto, dizia ela, enquanto estacionava o carro, já em frente ao consultório médico. Entramos, ela sempre à frente, me levando pelo elevador. Chegando, encaminhou-me à secretária. Olhei para cada rosto que estava sentado na sala de espera. Uns jovens, outros nem tanto, mas todos em busca da tão fácil esperança. Eu não tinha esperança alguma, e estava ali apenas para agradar à minha irmã. Ora, se não usei filtro solar aos vinte anos, eu queria mais o quê? Ora, se em todas as épocas eu enfrentei o solzão da estrada, para trabalhar, sem nenhuma proteção, eu queria mais o quê? Deus seja louvado. Ela entrou primeiro, iria ser atendida, o médico estava empolgadíssimo com o resultado das fórmulas que lhe medicou: rosto de bebê. Ela lá dentro adiantou a minha chegada para ele. Entrei. O médico, muito educado e gentil, me saudou com a mão, sentou-se e começou a rabiscar no papel. Sem olhar para mim me perguntou: e aí, dona Ângela? Eu disse logo a verdade, sem maiores pudores: envelheci, doutor. E ele: vamos ver esse rosto. Me levou para uma sala à parte, e constatou o que eu disse, acrescentando apenas que havia muitas manchas no meu rosto. Sério, profissional, gentil, disse que ainda tinha jeito. O homem vive também de esperanças, pensei. Prescreveu inúmeras fórmulas, saí e minha irmã me levou à farmácia. Desembolsei um dinheiro enorme, que daria para comprar vários livros e filmes. Senti remorso, mas sempre me inquietei com a esperança alheia: é bom dar crédito a ela. O pior é ter que usar todos aqueles cremes, com disciplina, coisa que nunca tive. Usei ontem e hoje amanheci com a cara grossa, vermelha e triste. Minha irmã me pediu o prazo de quinze dias. Com quinze dias minha pele vai virar outra. Oh, como minha irmã é doce, humana, demasiadamente humana.



Imagem: ato de envelhecer. In: www.google.com.br

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

canção para fechar a década


E vou terminando esse ano de maneira lírica. Enfrentei antes do Natal a doença que me escolheu: ela veio, e, por não conseguir mais confrontá-la, a abracei. Ficamos juntas, ela me beliscando por dentro, ela pinçando alfinetes na minha cabeça, ela brincando de madrasta de branca de neve, de amiga de infância, maldita e sardenta. Às vezes, num sadismo infantil, suspendia a brincadeira, eu tinha um alívio, depois ela voltava, sarcástica, com um ferro quente na mão. Ela queria porque queria me marcar a ferro com seu nome, batismo fatal. Fugi, me escondi debaixo da cama, e me sujei de poeira, nunca se limpa direito essa parte da casa, e a poeira tomou-me e ela me puxou pelo braço e vi que o ferro em brasa tinha se apagado. Depois ela me envolveu com aquela coberta de retalhos tão pequena de quando eu tinha seis anos, a coberta apenas cobriu minhas pernas, e eu me senti mergulhar na praça mais deserta do mundo.
O que muda, sussurra calado meu coração, é a folhinha, o calendário que jogo fora. Enterro 2010 com a ponta dos dedos, na areia mais densa do rio Paraguaçu. Enterro-o e depois me ajoelho, fazendo uma oração. Merecia tanto? Cada pedaço de ouro colhido jogo na água escura, gelada, água de minha infância, belamente escura como são as noites sem luz, sem poste de iluminação, sem lamparina. Mergulho nessa água deserta, fria, molho a cabeça e os alfinetes vão caindo, um por um, na correnteza silenciosa.
O que vale, de fato? Não sei. Sei que gosto demais de um abraço, um abraço inteiro, sem recalques. Gosto de encostar minha cabeça no seu peito, assim como fazia com meu travesseiro, quando criança. E de um beijo estalado no rosto, molhado, nunca nunca aquele beijo simulado que nem os lábios encostam na face. E deste silêncio gosto mais ainda, silêncio de quem convalesce, e nada sabe das festas, nada, nada; apenas adormece, calma e desaparecida.


Imagem:"Janela bailando". In: www.google.com.br

sábado, 25 de dezembro de 2010

Bilhete no criado-mudo


"... seus olhos puros, melancólicos, presos em uma tela de certo artista, instigado a produzir a obra-prima."


Imagem: "Portrait of Mrs Paley", 1936, de Henri Matisse.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

então é natal


As vidas bem organizadas. As vidas com panetone e amigo-secreto. Com ceia de Natal. Talvez a maioria das vidas seja assim: tudo no lugar, sem sobras, sem transgressão. Tudo nos conformes. Badaladas da meia-noite e abraços de confraternização. Música de Simone "então é natal, o ano termina" tocando na sala e a família com cara de beatitude, riso traduzindo uma felicidade singular, dessas condicionadas o máximo possível. Há, sim, vidas assim. E muitas. Será que os padres sabem? Sim, os que ministram a Missa do Galo? Será que os padres sabem? O que eles verdadeiramente acreditam depois de tantos e tantos anos de repetição? O que se pode trazer de genuíno diante do desgaste, do terrível desgaste da repetição?
Não sei e não quero saber. O que me intriga mesmo é que todas as vidas pretensamente organizadas se organizam mais ainda nessa época. É um tal de corre corre para pegar o shopping ainda aberto e comprar o presente de fulano, oh fulano como pude me esquecer?, ou então o enfeite da árvore, aquela bolinha vermelha que achou de quebrar antes da festa. Lojas há milênios se enchem de gente comprando sapatos, num azáfama de primeira vez. Lojas há milênios se enchem de gente comprando roupa, num azáfama de primeira vez. Repete-se, repete-se, repete-se. São as vidas bem organizadas; tudo nos conformes, pai e mãe abraçando filhos sadios e limpos e bem-arrumados. Cabelos cortados no cabeleireiro, vestidos comprados naquelas alamedas cheirando a um perfume do outro mundo do shopping salvador. Tudo tão certo, tudo tão certo. Casais nascidos um para o outro, rindo felizes entre um pitoque e outro no meio do jingle bell. Suor? Quem foi doido de não tomar um banho antes do abraço? Ainda mais na noite de Natal? Não, não, está todo mundo cheirosinho, não se admite fedor em reinos perfeitos.
E assim prospera a humanidade em mais um ano que se prenuncia.

sábado, 18 de dezembro de 2010

À FLOR DA PELE


**Paulo R. B. Silva


Chegou em casa, retirou a chave do bolso, encaixou girando a maçaneta. Entrou, retirou, e com o pé empurrou, fechando a porta. Colocou as sacolas na mesa. Tirou o sapato e a meia, deixando os pés nus em contato com o azulejo branco e frio. Dirige-se para a cozinha, abre a geladeira. Morde uma banana, pega no cabelo, deixa-o solto, tocando nas costas. Coloca leite no copo, brinca com o gato. Alisa-o com o dedão do pé, agacha e toca suas costas peludas. Arrepia-se, fica ouriçado, seu instinto animal foi acordado. Observa parado. Tira a calça apertada. Passeia de calcinha cor de rosa pela casa. Segue-a. Para na sala, liga, uma música é ouvida. Dança, acende, relaxa, respira, traga. Solta fumaça. Retira a blusa deixa cair a calcinha. Segue nua para o quarto. Ouve um miado, olha-se, chega mais perto, um reflexo nu em frente a ela. Toca o lábio, percebe o sinal perto do queixo, alisa o seio, aperta o mamilo, ri das suas formas, acha engraçada a sua chana. Uma abertura em meio às suas pernas, enfia o dedo. Sente o seu gosto, acaricia-a fazendo-a lubrificar-se. Molhada vira, suas costas, sua bunda. Imita o gato ficando de quatro. Dá mais um trago, levanta apaga, senta na beirada da cama de pernas abertas, ele caminha erguendo-se em duas patas, apóia-se na cama. E como se tivesse lambendo o próprio corpo, passa a língua na sua rata. Ela estremece, levanta as pernas no ar, de forma que só a flor se veja, delicada e deliciada. Gemia cada vez mais alto, ele permanecia como se estivesse banhando um filho. A língua ia a lingua vinha, ela se contorcia. Ele para, olha-a admirado. Passa ainda a língua mais uma vez, vendo-a delirar e gozar. Ele nessa hora parecia se alimentar. Ele sobe pra cima dela e a penetra, revelando seu corpo de pantera.
Ela acorda do seu sonho louco
Ele está ao seu lado
Observa-o
Ele vira-se
Ela sobe em cima dele
Ele encaixa
Começa a dança
Cavalga-a
Noite e estrelas
Abraça-o, levanta-o, recebe-o com mais força, arranha-lhe as costas, começam os gritos e os gemidos, a troca de fluidos, trovões, raios cortando o céu, flutuavam em cima do nada, na imensidão das galáxias. Unidos, um só corpo, um só espírito em igual proporção.


**Paulo R. B. Silva é poeta e contista. Aluno do primeiro semestre de Letras da UFRB.
Imagem: www.google.com.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

o baile de fim de ano


Com a idade chegando, se você prestar atenção, além de um insistente fio de cabelo branco que surge a segundo segundo, ao acordar verá que a madrugada fez um novo serviço no seu rosto, além das bolsas de carne embaixo de seus olhos. Tenha coragem, e olhe-se no espelho sempre ao acordar. Verá um Tempo bordador que faz coisas criativas na sua face, lhe transformando numa caricatura. Esse Tempo é bastante bem-humorado, e lhe estraga, com desvelo, a rosto e o corpo a cada dia. Prepare-se para o grande encontro de fim de ano com os amigos que não vê há vinte, e depois tente descrever esse encontro talvez como Proust o fez num de seus volumes de Em busca do tempo perdido. Um detalhe: não se atente apenas para os outros, seja cruel consigo: desenha sua nova figura. E também não vale o botox; encontre os outros, de preferência, com a cara limpa, um mero batom nos lábios, que caíram um pouco, já notou isso? Não tem problemas, seu sorriso talvez ainda se sustente, belo e maduro e triste e sábio. O cabelo, sempre longo, a despeito dos amigos dos vinte anos continuarem achando que cabelo grande não é para mulher de quarenta, pois a envelhece mais ainda. Se você quiser chocá-los, não o hidrate, deixe-o como o cabelo da medusa. Meu conselho: assombre esse povo besta. Você sabe, né, que eles irão para esse encontro com bastante capricho. E muitos exclamarão como fulana está bem, apesar dos três filhos; outros não dirão nada e cravarão os olhos nos seus pés de galinha com imensa dó, e dirão, no mais autêntico clichê, que o tempo passa. Para compensar o constrangimento, peça aquela velha música da década de 80; e saia bailando sozinha, sozinha pelo salão que desmorona, com seus cabelos assombrosos de medusa e suas mãos de Sísifo.


Imagem: "Medusa". In: www.google.com.br

domingo, 5 de dezembro de 2010

conversa de professora


Amo a minha profissão. Isso é definitivo. O que não amo são todas as coisas que a ligam à famigerada burocracia. Tudo seria mais fácil se não houvesse reuniões, salas administrativas, cadernetas, notas, e um arsenal de guerra que faz da educação um combate condicionado a quem perde e a quem ganha. Tudo seria mais verdadeiro e prazeroso se não houvesse burocracia no ensino. O aluno chega à escola já preparado para a guerra; e tem que se munir com seus instrumentos: mão em riste para assinar a folha de frequência; decoreba no juízo para responder à prova e, consequentemente, tirar uma nota para passar; traquejo no corpo para sair da aula à francesa, por não suportar mais as grades de uma sala compacta, branca, preparada para o seu aprisionamento diário... Oh, por que não podemos dar aula embaixo de uma árvore, numa esquina da rua, na praça do bosque? Oh, e para que a miserável da prova, quando tudo seria mais espontâneo e fácil com uma conversa sem algemas, uma interlocução de ideias, uma troca? E para que a miserável da nota, que faz do aluno um soldado de guerra, pronto para tentar sobreviver? Como, pergunto a vocês, como mudar tudo isso, descondicionar o que está condicionado, permitir o relaxamento dos alunos sem que eles debandem e lhe deixem sozinho? E quanto a mim, como livrar-me das reuniões, das salas administrativas, das cadernetas? Como, meu Deus, poder amar sem registros burocráticos, e abraçar meus alunos como pessoas humanas, lindas e tristes? E bailar com eles, destruindo os corredores frios das instituições e, ainda, essa terrível humilhação de ter que obedecer o que nos é imposto?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

só isso


Não se entende o fato de Gregor Samsa acordar inteiramente transformado num inseto monstruoso. E todos nós estamos carecas de saber que isso - a transformação de homem em inseto - não se trata de nenhuma metáfora. Que também não foi sonho do personagem nem nosso. E que não ter o significado pleno disso tudo é que faz de A metamorfose uma obra clássica, imortal, incomodativa. Lembro de mim, na chamada flor da idade, lendo esse livro. Senti-me terrivelmente incomodada, mas acreditava que no final teria um alívio. Não, não tive alívio no final. E constatei, desde cedo, que para ler Kafka eu necessitaria firmar esse pacto: de jamais ter alívio em hora alguma. Com isso a gente aprende o que é a vida. Aprender o que é a vida já é um grande prêmio, para nós que sequer sabemos o óbvio. Nem me pergunte o que é o óbvio, que eu, imbecilmente, também não sei. Marchas de imbecis, andamos para cima e para baixo, vergando nosso corpo que envelhece a olhos vistos e não vistos. É, porque nem todo mundo sabe que está envelhecendo; algumas pessoas têm um espelho tão fiel, mas tão fiel que lhes esconde esse dado quase que definitivo. Um espelho hipócrita, que esconde ruga por ruga, e lhes ajuda a retocar a maquiagem: lápis ao redor dos olhos para que eles vejam, e bem, o envelhecimento alheio. E como essas lindas e jovens criaturas riem das rugas alheias! Ah, dizem muito sobre como fulano envelheceu e como sicrano está com a cara caída.
Não, não me pergunte o óbvio, que eu também não sei; assim como não sei, voltando ao início de nossa conversa, por que horrores Gregor Samsa foi acordar metamorfoseado num inseto. O que apenas sei, de tudo que há na vida, é que fui criança, dado indiscutível. Uma criança com o rosto redondo, nascida em dia de lua cheia. E que usava vestidinhos curtos, e tinha medo dos castigos do Purgatório.

sábado, 27 de novembro de 2010

sem fim


Acostumei-me com o que é finito. Por isso é que não consegui ter uma boa vivência com um presente que ganhei de minha irmã, no meu aniversário: um MP-4. Eu me habituei, a vida inteira, a ouvir a música acabar; a levantar e virar o disco; a levantar e mudar o cd; a levantar e desligar a vitrola. Aí, de repente, me deparo com o infinito: o infinito musical. Senti logo que eu iria endoidar se continuasse ouvindo aquilo a viagem inteira. Fiquei encurralada na música que mais amo, diante de uma curva. Ou ela ou eu. Drástica assim mesmo, que tenho os miolos fracos. Sono? Como ter sono ouvindo músicas que nunca nunca acabam? E o tin tin tin tinindo os tímpanos. É preciso dar valor ao presente de uma irmã, não posso, não posso deixar de usufruí-lo; tenho, como ela mesma vive dizendo, que sair do século dezoito, jogar o espartilho e o chapéu fora; e, claro, também o gramofone. Aprisionado dentro de meu ouvido, Roberto Carlos às dúzias, ou melhor, numa dízima. E a diversidade? Como nunca imaginei aos onze anos, deitada naquele sofá de plástico vermelho lá de casa, ao escutar nossa velha radiola. Já duas horas de viagem e a cantoria em pé de guerra. Até que retirei o fone do ouvido, peguei tudo ligeiro e coloquei dentro da bolsa, com uma força que nunca tive. Será que farei algo semelhante ao descobrir-me um dia diante da eternidade?


Imagem: "caminho sem fim". In: www.google.com.br

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

mais um ato


Assumo agora: minha história é melodramática. Nela tem muita intriga, muito choro em surdina, e tomadas terrivelmente piegas, representações medíocres, teatro de quinta, encardido; circo velho, é isso: minha história não vale uma lona de circo velho. Pronto, que frase de efeito! Essa é a minha vida: uma coleção de frases assim, tudo para provar que tenho história. Sempre me achei personagem: me fiz melancólica, patinho feio, a fim de conseguir os holofotes. Sempre quis urdir uma bela trama, por isso vivo a escrever minha vida com enredos simultâneos, jogos de câmera, trilha sonora. Ok, tudo invenção. Não sei se vou parar com isso não; não sei se a verdade surgirá.


Imagem: "ser ou não ser". In: www.google.com.br

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

sobre a tal felicidade


Nunca fiz o mal deliberadamente, e como toda herdeira judaico-cristã trago em mim a grande culpa; porém devo confessar que quero minha felicidade. E querer minha felicidade demanda, não tem jeito, a infelicidade de alguém. Porém, não penso nisso, não penso na infelicidade de alguém que, com a minha felicidade, estará completamente infeliz. Verdade que penso sim, e chego a ficar alegrinha em imaginar a tal infelicidade daquela uma. Portanto, sou um ser humano. Mas o que ganho com a felicidade, que sei, não virá? Sei mesmo, de há muito, que essa coisa não existe não, meu filho, não existe, concordo. E não vou nem começar aqui com aquela história besta e clichê dos momentos felizes. Você sabe que nunca consegui ter um momento completamente feliz? Em todo momento alegre meu, uma formiga me morde. Também aquela tal serenidade não acredito, pois que estou sempre, por puro hábito, em total desespero. Ah, sintonizar pensamentos positivos? Ah, ah, ah. Como? Sou uma antena do infalível medo, ou seja, do que chamam, fatalmente, de negativo. Já viu, né? Não há acerto por aqui, não há. Mas, estúpida, continuo querendo a abestalhada felicidade. Durmo e acordo para isso, me alimento e tomo banho para isso, vivo para isso. Mesmo sabendo ser tudo falácia, engano, simulação, arremedo, fantasia vestida de meus antepassados que, mesmo mortos, continuam na ativa. Só pode ser, de verdade, essa vivência repetida, condicionamento de ideias no plano astral e no cotidiano. Ah, a felicidade é esse sonho apenas, essa vontade de dormir, dormir sem sustos. Talvez por isso é que morremos.

domingo, 21 de novembro de 2010

conversa fiada


Nesses tempos de blogs em silêncio, de muita correria e pouco descanso, num domingo apático e parado no centro da cidade, venho aqui para conversar um pouco. Palrar (eta palavrinha enrolada). Mas que seja, bater um papo. Domingo deve ser o dia de festejo no purgatório: porque é o dia maldito. O que fazem as almas do purgatório no domingo? Sofrem. Sofrem mais do que nos outros dias, porque lá domingo é dia de festejo. Imagine festejo em purgatório! Deve ter insinuações das mais sádicas e masoquistas. As almas penadas penam ainda mais, coitadas. Mas deixemos essa prosa de alma para lá. Mãe rezava para as almas sempre no quintal, dentro de casa não. Dizia que era a reza mais forte que existia, e que mais trazia resultado. Mas nunca se deve rezar dentro de casa, nunca. Ora, imagina-se por que, nem é preciso indagar. As almas têm uma potência do além, já que se libertaram dessa matéria densa e fedorenta. Devem cheirar a jasmim, ou a perfume alfazema, esse que anunciava, em toda casa do interior, a chegada de mais um vivente ao mundo. Hoje os bebês, mesmo do interior, não cheiram mais a alfazema, disso eu me comovo. Que pena dos bebês de hoje, cheirando a perfume da natura ou do boticário. São bebês nascidos em shooping center. Lembro-me bem do enxoval que a mãe do interior fazia no quarto: um monte de vidrinhos forrados de crochê, tudo de uma cor só. O quarto era envolto num enorme segredo, um segredo com cheiro de alfazema e com cores de vidrinhos forrados com ponto de crochê: tão família, tão íntimo. Olhe só, estávamos palrando sobre alma do outro mundo e chegamos em bebês de antigamente. Conversa fiada é assim mesmo.

Imagem: "Bate-papo"(www.google.com.br)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

hoje

GLÁUCIA LEMOS
e GUILHERME RADEL


COMENTÁRIOS: ÂNGELA VILMA E JOACI GÓES
Dia 18 de novembro, às 17 horas
na Academia de Letras da Bahia

domingo, 14 de novembro de 2010

quando sonho com ele


Quando sonho com ele, sua presença invade meu dia. O perfume dele inunda a casa, aí tomamos café juntos, e conversamos animadamente ou ficamos em silêncio, ambos com a xícara no ar, alegres ou reticentes. No almoço ele passa os pratos para mim, nessa mesa que diariamente não tem pratos, nem bocas. Quando sonho com ele, portanto, almoçamos juntos, e dividimos talheres; uma vez meu garfo caiu no chão e ele me deu o dele: esta foi a maior intimidade que um sonho me concedeu. Depois vamos à sesta, nessa cama tão larga, abraçados - como duas crianças. Ai, ai, quando sonho com ele, acordo depois do almoço com muita, muita fome, e vamos juntos à cozinha preparar brigadeiro, e nos lambuzamos com os dedos, doces, mas tão doces que até festejamos essa bondade que é a vida. Essa bondade em forma de presença materializada, que é a presença que ele deixa em mim, na minha alma, quando sonho com ele.


Imagem: www.google.com.br

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

a câmara clara


Esta foto foi tirada em 10 de novembro de 1999, à beira do rio Capibaribe, Recife. Recife bom de Bandeira; Capiberibe de Cabral. Lembro-me exatamente de todos os detalhes desse dia: acordei cedo e resolvi fazer as pazes com a cidade. Estava padecendo demais por lá, desde que cheguei - em março de 1999, estrangeira em todas as instâncias, principalmente as interiores. Naquele dia 10 - dia que para mim sempre tem uma aura diferente, resolvi dar uma trégua, acolher as pontes, o sol, ir no Teatro do Parque, passear pela Recife antiga; enfim, abraçar a cidade; e isso significava além: mudar o olhar; aquela coisa parecida com subir na mesa para ter novos ângulos, como sugeriu o professor no filme sociedade dos poetas mortos.
Sorrio na fotografia; o vento leva meus cabelos para uma outra direção; não sei o que penso, o que espero, tudo é névoa. Sei apenas o que me dá medo. Minha geração é regida pelo signo da infantilidade: sei que queria que mãe estivesse ali, com seus presentes todos embrulhados em papel reaproveitado, com fitinhas retorcidas, também reaproveitadas. Ela com seus múltiplos presentes: relógio de pulso, relógio despertador, calcinha, sutiã, camisola, brinco, tudo enrolado no mesmo papel. Ah, naquele dia azul, tão distante, eu era a mesma, a mesmíssima, menina chorando por dentro, à espera da mãe.
Hoje esse rosto não é mais o mesmo; estou aqui digitando esse texto no meu quarto, em frente à rua do salete. Mãe na sala assiste televisão, depois de ter me dado um monte de presente embrulhado em papel reaproveitado de outros presentes. A infantilidade assombrosa que sempre houve em mim dá mostras de desaparecimento. Ela, mãe, sabe que a filha agora tem sua idade. Nossas rugas conversam, dialogam, e não sabemos mais quem nasceu de quem.

domingo, 7 de novembro de 2010

o sinal de Caim


Abel era pastor de ovelhas e Caim, lavrador. Um dia Caim trouxe "do fruto da terra" "uma oferta ao Senhor". Abel também trouxe-Lhe "das primícias de seu rebanho e da gordura deste". Só que o Senhor gostou mais da oferta de Abel. Por quê?
Essa é uma das grandes perguntas que me faço diante da primeira contenda simbólica de nossa história cristã.
Claro que Caim tinha que ficar com o semblante triste: fora rechaçado.
Não sei, não sabemos, se foi em razão desse trauma inicial, a rejeição, que levou Caim a praticar fratricídio. Mas me parece possível. A dor de ser rejeitado pode levar a psique humana às mais desvairadas instâncias.
Só que Caim, ao matar o irmão, soluça sua triste sina diante do Senhor, e assim este o protege com o sinal: o sinal de Caim - quem o matar "será vingado sete vezes". O sinal é a sua proteção eterna.
Hermann Hesse, em seu livro "Demian", traz essa questão bíblica, que não é nada simples: o sinal de Caim. Ora, não esqueçamos: Caim mata o irmão e é protegido por Deus.
Ao término de "Demian", todos nós leitores achamos que somos depositários do sinal. O personagem Demian diz que o sinal de Caim é o sinal dos corajosos: aqueles que se debruçam sobre o bem e o mal na busca incessante por si mesmo. Abel tem uma passagem apagada na Bíblia, enquanto Caim se tornou herdeiro universal do mal - remetendo-nos a inquietações, perguntas. Se nos inquirirmos por que o Senhor o protegeu, uma resposta plausível é que Deus é o grande detentor e conhecedor das forças enigmáticas e relativas que existem entre o bem e o mal. O deus Abraxas, portanto, trazido à baila por Hesse; deus antigo que foge do pobre maniqueísmo que corrompe a humanidade.
Aí eu me pergunto: o Senhor a quem a Bíblia nomeia pode ser o deus Abraxas?
Lendo com lupa a ambiguidade própria das escrituras sagradas, sim.
Aqui eu termino abruptamente com um verso de Paulo Ricardo B. Silva, meu aluno: "Eu sou o pecado de Deus".


Imagem:"deusdecaim". www.google.com.br

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mã, Parabéns!

Acho que a minha maior frustração, caso fosse filha única, seria essa: não ter uma irmã. Mas tenho, graças a Deus. Uma irmã forte, com dentes pretos. Uma irmã forte, com cabelos curtos. Uma irmã forte, cujos dedos dos pés são fotocópias dos dedos de pai. Os dedos das mãos longos, as mãos grandes, os olhos expressivos. Toda ela irradia vida e segurança. Tem a timidez própria dos fortes: não se deixa levar na primeira conversa. Arredia, uma típica mulher do signo de escorpião: assume seu veneno com humor. Ficou danada quando fez vinte anos: nosso vizinho achou de morrer no dia 04 de novembro, seu aniversário - não perdoou o morto. Ela é assim: ama-se em demasia. Cuida de si mesma como algo precioso, sem nenhum remorso. E isso é próprio das pessoas fortes. Lembro de sua força, vestida de anjo na festa de Nossa Senhora da Glória: deu uma surra em outro anjo, seu desafeto, asas esvoaçando perto da ponte: violência lírica perdoada por Nossa Senhora. Acho que sempre quis ser ela, na minha inaptidão para enfrentar o mundo, para desbravá-lo, para sair de suas profundezas. O que ela faz com as profundezas? Desliza nelas, delas faz superfícies, escorregadeiras, brincadeiras de menina. Vai deslizando, deslizando, e rindo, rindo. Não sei se ela curou velhas feridas: como aquela, aos três anos, quando o bicho noturno comeu sua galinha. Ou se ficou marcas do primeiro mal concedido ao mundo: apertou um pintinho na mão e matou-o, sem a menor compaixão. Ela é o retrato mais inteiro que tenho do humano, nas suas fissuras comoventes de força, transgressão e afeto.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dia de Sylvia e Ofélia


TULIPAS

Sylvia Plath

(...)

Não queria flores, só me deitar
De mãos para cima e completamente vazia.
Quanta liberdade, você não faz ideia -
A paz é tão imensa que entorpece,
E não pergunta nada, um crachá, coisinhas de nada.
É do que se aproximam os mortos, enfim: e os imagino
Fechando sua boca sobre ela, como hóstia de comunhão.

(...)


PLATH, Sylvia. Ariel. Trad. de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo. Campinas, SP: Verus Editora, 2007, p55.

Imagem: "Ofelia muerta".
(www.google.com.br)

domingo, 31 de outubro de 2010

lua em peixes


Sou do ar - mas tenho medo de altura. Medo não, pavor. Não entro em avião. Nem dormindo gosto de sonhar voando. A sensação, dentro do sonho, é sempre que vou cair. É isso: voar é sinônimo de queda. No entanto, vivo no ar. Nem é preciso, veja, terminar o raciocínio: vivo em quedas constantes. Mesmo caindo das nuvens e não do quarto andar - e aqui contrario Machado -, a queda é braba. Ando com as pernas feridas: as perebas se alastram, sem remédio. E os braços? Ficaram tortos. A pele é ressecada, pois que o vento acaricia quem cai, e carícia constante de vento dá ressecamento na pele - a ponto de envelhecê-la mil anos. Não, não caio no chão, é essa a fatalidade. Caio sempre em outro lugar.


Imagem: www.google.com.br

o que é belo no mundo


Pai com uma máquina fotográfica nas mãos e mil ideias na cabeça. Filhas indo para todos os cantos para tirarem retratos. Eu, incrível, fui me sentar para ser retratada no lugar mais feio da casa: o monturo do quintal. Nesse monturo tinha um um pneu jogado de lado, uma panela velha e um pedação, rasgado, de papel. Eu me sentei na pedra em pose de artista, com um laço de fita no cabelo e um vestido amarelo. Clique! Eterno.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Henry Fonda


Antes que o juiz divulgue a sentença, peço a Deus que Henry Fonda me absolva. Que reúna os onze membros à mesa, lá dentro, e me defenda. Os indícios todos me incriminam, todos. Mas eu não quero ser presa. E não é por nada não; é para não ser preciso aturar os congêneres na mesma cela. Não tenho, como vocês bem sabem, diploma superior. Isso me preocupa, de fato: aturar gente perto de mim, numa cela de poucos centímetros. Suor de gente, fala de gente, risada de gente: há coisa mais detestável? Se eu estou querendo ser o Antoine Roquentin? Se eu me acho parecida com Mersault? É, pode ser. Sou metida a besta, e, por isso só, mereço esse júri. Mas Henry Fonda está lá dentro, curvado, feio, sóbrio, honesto. E irá encontrar peças falsas que sempre existem em quebra-cabeças perfeitos. Entretanto, para que eu quero mesmo a liberdade? Para que é que eu quero ser absolvida? Mulher medonha, má, misantropa, cruel... o que mereço? Talvez nada, talvez nada. Então, que o júri se dissolva e nem pense duas vezes: culpada. E Henry Fonda, finalmente, se abstenha. Quem é culpado tem de pagar, aprendi isso desde menina, na palmatória envernizada da professora. Mas sou, de fato, culpada? O olhar de Henry para mim, perante a acusação do promotor, dizia que não. Por que então esse remorso me corroendo os cabelos, arrancando fio por fio, enrijecendo-me as virilhas?

sábado, 23 de outubro de 2010

no escuro


Não há mais o que falar. Esgotaram-se os assuntos. Fiquemos em silêncio, portanto, eu e você. Apaguemos as luzes. Não, não mais direi sobre solidão, nem lhe darei o braço na noite escura. Não mais gritarei ao mundo qualquer indelicadeza: sairei à francesa, com a trilha musical de mil novecentos e sessenta, numa esquecida película em preto e branco. Apaguemos, volto a pedir, as luzes. No escuro, tudo se transforma em literatura.


Imagem: cenas do filme "A moça com a valise" (1961), de Valerio Zurlini.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

outro lado do mundo


estou do outro lado do mundo, onde não há telégrafo; cortaram os fios do telefone, e o carteiro por aqui não passa há muitos anos. A televisão é só chuvisco, assim como a neblina lá adiante, afugentando o galho daquela árvore. Pergunto o que estou fazendo comigo num lugar desse; pergunto se alguém vê meu rosto na janela, na casa de platibanda, diáfana e desaparecida no pântano. Não, não me vêem, sou eu própria desaparecida, estatística que sequer se avulta - ninguém chega à rua onde moro segurando uma placa com meu nome, com aquelas inscrições esperançosas do insistente procura-se. "Ó sombra fútil chamada gente!", grita Álvaro de Campos aos pés de minha alma. "Fazes falta?" "Ninguém faz falta", continua gritando. E eu imagino agora como seria o encontro de Fernando P'ssoa e Cecília se não fossem os astros. Os astros moram, de fato, nesse outro lado do mundo: aqui onde desaconselham sempre o contato, a troca, o encontro.


Imagem: cena do filme "Flores partidas"(2005), de Jim Jarmusch.

inscrição para os desesperados


Cavemos esse túnel. Cavemos até o mais extremo do fundo. Sei que não haverá fundo totalmente, só superfícies em camadas. Tentemos desfolhá-las, sem qualquer pudor. Seremos duas criaturas ignóbeis, imundas, com as roupas sujas de terra úmida. O importante, se quisermos alcançar, é prosseguirmos, abrindo a passagem cada vez mais firmes. Esfarrapados, pois que as pedras que se misturam à terra são pontiagudas, e rasgarão nossas vestes. Fedorentos, descendo, em momentos nem seremos mais criaturas: talvez mortos sem caixão, nauseabundos como dois fantasmas sujos.
Cavemos esse túnel, talvez lá embaixo estejam arcas fechadas, guardando as verdades que procuro.



Imagem: Filme "Eu não tenho medo" (2003), de Gabriele Salvatores.

domingo, 17 de outubro de 2010

histórias de família


Em Romances Familiares, Freud traz algo que me comove muito. É a passagem, ressaltada por ele, em que desejamos substituir os nossos pais por outros "de melhor linhagem". O que me vem à mente agora é a substituição de mãe, que eu fantasiava. Queria que minha mãe fosse uma mulher vaidosa, com sobrancelhas feitas, batom na boca, usando sapatos de salto alto e brincos enormes na orelha. Diferentemente de tudo que mãe era: usava vestidos feitos por sua própria mão grossa, cheia de calos; as sobrancelhas trazia-as desalinhadas; nenhum batom na boca, carregando nos pés sandálias baixas e na orelha brincos inexpressivos. Era exatamente o inverso daquilo que eu queria ostentar como minha mãe. Principalmente nas reuniões de pais e mestres, em que as mães de minhas colegas, com aquele perfil sonhado por mim, apareciam na escola. Devo confessar que tinha enorme vergonha dela. Ora, por que, eu me perguntava, aqueles vestidos retos, florais, fora de moda? Aquelas sobrancelhas grossas e despenteadas? Aquelas sandálias sem graça, mostrando suas unhas mal pintadas? Tinha inveja de minhas colegas, desfilando pelos corredores da escola com suas mães aristocráticas e lindas.
Freud diz que ao fazermos isso não estamos descartando nossos pais, mas enaltendo-os, pois no fundo atribuímos a esses novos pais, substitutos, qualidades que têm origem nos nossos pais verdadeiros. As qualidades são aquelas de amor e tranquilidade da infância, que se perdem na fase crítica de distanciamento. Fase em que se descobre a distância do amor tranquilo. Portanto, se nos meus quatro pra cinco anos mãe para mim era uma mulher linda, rusticamente linda, nos anos que se seguiram virou um algoz de sobrancelhas horrorosas, que me batia muito; porém, na minha cabeça tudo talvez se justificasse se ao me bater ela estivesse usando um vestido de festa, de cetim, de organdi, com as sobrancelhas refinadas.


Imagem: www.google.com.br

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

duas grandes solidões


Duas grandes solidões se encontram, sempre, à distância de um palmo, nada mais do que isso. Tocam-se as mãos e só. Duas grandes solidões se compreendem, mas não se abraçam. Ibsen disse que o homem mais forte é o homem só. Somos fortes, portanto: um homem e uma mulher demasiadamente fortes, pois que choram sozinhos. Poucos aceitam esse destino: alguns dão dois mil réis por uma prosa qualquer. Não é fácil aceitar esse destino e já perdi as contas de minhas conjurações. E que não dão em nada: volto sempre murcha para casa. E, nesse sentido, minha casa não é sua casa, pois que duas grandes solidões, repito, não se abraçam. Olham-se, apenas, estupefactas. Assim como olho pra você, e vejo-a em seu corpo. Você é o grande dono, maior latifundiário que já conheci da Solidão. Muita terra à vista, arenosa, palpitante, terra boa, de boa guarida, mas completamente inalcançável. Conheço-a, já senti nos pés a quentura dessa terra, já comi das iguarias que ela doa, mas só isso. Ela nunca será minha nem de ninguém, não há doação possível de tal propriedade. Nela apenas se repousa sobre a árvore, assim como faço com você, à distância de um palmo.


Imagem: Noite. www.google.com.br

terça-feira, 12 de outubro de 2010

salve, salve


Mãe me liga nesse feriado, bem cedinho, para me desejar feliz dia das crianças. Dou risada doméstica e digo-lhe que não sou mais criança há muito tempo. Ela retruca que para ela sou sim. Conto-lhe que sonhei essa noite com meninos me derrubando da cama. Ela imediatamente sugere que foram São Cosme e São Damião, crianças a quem recorre como proteção a mim e a minha irmã desde que éramos bebês. "Eles são assim, gostam de brincadeira". Interessante é esses dois meninos derem o ar da graça logo hoje. Se é o seu dia, ela diz. É verdade. Pois que ainda tenho uma criança birrenta, agressiva e tola aqui dentro. Pois que ainda tenho uma criança assustada, insone e que brinca de casinha no sindicato em que o pai trabalha. E que ainda insiste em ter um bonecão horroroso com o mesmo nome: Carlúcio. E o bonecão envelhece a olhos vistos, a cada dia mais branco e desbotado. E o plástico que lhe cobre o corpo está fino e depurado. Mas ela insiste em carregá-lo, niná-lo, abraçá-lo. Estúpidos, loucos, eu assim os chamaria olhando-os de soslaio, rindo deles como sempre ri de mim, vestida de anjo em festa de largo.


Imagem: Festa de Nossa Senhora da Glória (1977). Fotografia de Mozart Santana.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

a Miserável


A quem era atacado pela tuberculose naquela época era exigido o mínimo de bom humor. Segundo Manuel Bandeira* a digníssima, "uma mulher meio romântica", "excessivamente magra, a boca muito vermelha de rouge", e que sempre aparecia tossindo, foi batizada pelos poetas de a Magra.
Num contraponto a essa distinta a Magra, que nome daríamos à dissimulada doença do nosso século?
A Gorda? A Obesa? A Bozenga? A Esticada? A Murcha? Que nome, gente, daríamos à Depressão? Não consigo ser engraçada nesse momento, e ainda tem o perigo de cair nas armadilhas do politicamente incorreto.
Diferentemente de a Magra, ela (a Depressão) não é nem um pouco romântica; muito pelo contrário: é em demasia pragmática, e lhe exige vida ativa a qualquer custo. Você amanhece indisposto, com vontade de curtir um dia sem trabalho, aí ela lhe joga no cocuruto a Culpa: primeiro e inocente vírus que lhe levará à Grande.
Culpa, culpa e mais culpa - é igual a tosse, tosse e mais tosse. Só que a Magra tinha boca vermelha de rouge, enquanto que a de cá nem boca tem, quanto mais vaidade. É algo disforme, mais pra monstro, com duas garras nas mãos, e que lhe abraça com gosto de morte. Morte consciente, que deve ser a pior das mortes. Você numa espécie de duplo lhe vendo morrer, pálido, sem sentidos: sem tato nem paladar e nem olfato.
Naquele tempo se as pessoas sabiam que você estava de namoro com a Magra, mesmo querendo distância de você com medo do contágio, pelo menos lhe aconselhavam a tomar os bons ares de Minas, quiçá da Europa; na pior das hipóteses lhe desenganavam da vida e desde então lhe tratavam a pão de ló. Com a Miserável de cá muito pelo contrário: lhe desenganam é da morte, e o que lhe dão como pretensa medicação é um tanque cheio de roupa suja para lavar.
Como legitimar a Miserável? Batizá-la com outro nome é o primeiro passo. Exige-se também que tal nome seja engraçado. Hei de encontrar humor em tempos tão severos. Hei de encontrar.



*In BANDEIRA, Manuel. Crônicas escolhidas 2. São Paulo: Cosac Naify, 2009, pp. 34-35.

Imagem: Medusa. In: www.google.com.br

domingo, 10 de outubro de 2010

castigo primordial


Não sou heroína de nada, nunca salvei ninguém que estava se afogando, nem que iria se jogar do décimo andar. Por isso o castigo que me deram foi a liberdade total, provinda da solidão mais solta, mais desconectada, quase voadora. Estou aprendendo a amparar-me nas paredes, colando nelas figuras de artistas, escritores, recadinhos de seres que estão no passado, ou uma oração, uma santa, pois que preciso de ajuda do além; quando meu queixo cai por exemplo: se não fossem as entidades enfermeiras que me acompanham, hoje eu estaria com a boca tortíssima, com o queixo pendurado no pescoço. Tenho crenças, meu amigo, crenças fracas, às vezes fraquíssimas, mas crenças. São elas talvez que me sustentam nesse silêncio isento de qualquer bulha. Oh, como gosto dessa palavra: bulha. Palavra antiga, lembra crianças gritando, azáfama de pratos tilintando na cozinha, festa de família, festa de domingo. Mas se nunca fui heroína, por que mereceria uma bulha dessa? Nunca fui sequer mulher de herói, nunca serei Penélope. Para que distintivo, portanto? Mereço, e bem merecido, essa liberdade inútil. Liberdade que tolhe os movimentos, que lhe joga na cama, e lhe ensina aula prática de solidão. Aula prática de solidão é assim: corpo inerte. Aula teórica é entendimento filosófico-existencial dessa coisa verdadeira que é a solidão: você sai da aula entendendo tudo, e bem forte - compra mil livros e mil filmes e vivencia bastante essa coisa rica que é finalmente entender-se só. Dorme tranquilo, só, e acorda, tranquilo, só. Porém, na aula prática você é um verme, sabe-se verme, e sequer tem vontades de abrir o olho pela manhã. Vira personagem sartreano, camusiano, sabe-se parte de um estrangeirismo sem limites, e nem se importa se for condenado à morte sem culpa. Nada lhe importa. Esse é o resultado da aula prática. Às vezes evoluo muito na aula teórica. Faço ricas autoanálises, e em grandes momentos acho-me madura, quase heroína de mim mesma. Mas o meu maior rendimento, de fato, é na aula prática. Cair é sempre mais fácil, dormir idem, se ausentar, morrer, aceitar sem revide, deixar de existir. Esse é o preço módico de ser livre; castigo primordial por nunca ter livrado alguém de um naufrágio ou do suicídio.


Imagem: "crime e castigo". www.google.com.br

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

a solidão


Sim, já tentei colecionar selos, também cartão postal, também papel de carta, também vinis de Caetano, também livros de Lispector, etc. Já tentei colecionar pedras, assim como a colecionadora de areia a que Italo Calvino se refere no seu belo livro de ensaios Coleção de Areia. Só que colecionar pedras dói bastante o corpo do vivente, ao carregá-la no lombo tal qual Sísifo extremamente cansado. Lembro de mim descendo as serras das Lavras Diamantinas, e extraindo de cada lugar uma pedra, a fim de depositá-la na velha mochila. Minhas costas sangravam, minha coluna se acabava, mas uma pedra dali eu tirava, levando-a para a minha coleção. O pior é que eu punha na pedra o nome, à caneta, do lugar de onde veio. Ou seja, eu profanava, com uma tinta azul, algo bastante natural, vindo do ar e da água daqueles lugares. O que eu queria com aquilo? Como sugeriu Calvino, será que eu queria reter os momentos passados ali, ou mesmo o lugar? Mas a pedra não trazia tudo, o habitat, o ar, o sol que caía nela, o vento. A pedra vinha só. Um belo ensinamento, pois, sobre a solidão. A pedra vinha só, mesmo acompanhada de várias outras pedrinhas que porventura eu trazia do mesmo local. Entretanto, o cheiro de lá estava nela, e eu cheirava, e lembrava. A sinestesia sempre me salvou como consolo do que nunca pude reter, aquilo em que a solidão põe suas garras feridas.
... Então certa época inventei de colecionar cabelos. Guardei um fio deles dentro de uma caixinha de lembranças. Trazia o cheiro de seu dono: cheiro de pedra, mormaço, vento, lavras. Mas numa tarde de muita raiva joguei-o no balde de lixo. Assim como na infância desisti dos selos, dos cartões postais, dos papéis de carta. E mais tarde abri mão de ter todos os vinis de Caetano e todos os livros de Lispector...
Para que tentar reter, reter, reter numa ordem inabalável, coisas e seres, se tudo apenas sobrevive de sua inteira e larga solidão?


Imagem: Cena do filme "Um dia muito especial"(1977), de Ettore Scola.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Saudades de Maria Sampaio


Hoje acordei com imensas saudades de Maria Sampaio. Sonhei com ela; perambulamos juntas por esses espaços nebulosos trazidos pela noite, espaços de festas e de alegrias, de encontros. Acordei e senti saudades de seus comentários nesse blogue, e, principalmente, de sua plena vocação para viver. Ô essamenina, a saudade está grande, viu? Como é, já proseou muito com São Pedro por aí? Ele tem boa prosa? Ele já te apresentou a Irene preta, Irene boa? Como ela é? E o reencontro com sua mãe e seu pai? E o batuque? No céu tem caruru? E Jorge, o Amado? Já te pediu pra digitar algumas páginas do novo romance? Tem trabalhado aí, mulher? Acho que não. Acho que você só tem feito é festa, reencontrando os amigos todos que se foram antes. Nas festanças daí você dança Cajuína com quem? E as fantasias? Quais tem usado? Ah, minha amiga, são muitas perguntas. Perguntas de quem ainda passeia do lado de cá, convivendo com aquilo que mais se materializa nessas bandas: saudade.


Fotografia: blog de Maria Sampaio: http://continhosparacaodormir.blogspot.com

domingo, 3 de outubro de 2010

infância


Freud me encanta, e a cada livro dele que leio saio inebriada, algo inerente à literatura. Concordo e muito com o que ele acreditava ser a grande dificuldade dos homens: sair da infância. A infância nos persegue assim como, quando crianças, perseguimos a verdade, aquela que os adultos escondem com medo.
Digo a vocês, como quem proclama uma verdade inútil: acreditei na cegonha. Até hoje vejo-a sobrevoando o quarto, levando-me no bico (isso não é trocadilho) e depositando-me na cama, naquele mês de novembro em que mãe me esperava na mais terrível solidão. Essa é uma verdade, foi a minha verdade, tristonha e perdida. Isso porque acreditei nela, acreditei sem nenhuma dúvida, até minha irmã me mostrar, com todas as cores, a fotografia de uma mulher parindo. Como livrar-me, portanto, da crença mais antiga e do desencanto mais cruel? Eu tinha dez anos e era estúpida demais. Aquele mundo de carne e sangue me assombrava, eu que preferia acreditar ter vindo da limpeza do ar, trazida por uma ave lírica.
Minha irmã, desde aquele dia, me dava as notícias do mundo. Mas eu acreditava era em mãe, e no almanaque sadol que nas suas páginas me mostrava uma cegonha perfeitinha, levando um bebê para alguém. Parecia-me cruel demais a natureza: nascer em meio a sangue, grito e dor. Isso era mais castigo que felicidade. Foi minha irmã também quem me disse como é que os bebês se formam, o que os pais fazem, etc. Não, não eu não queria saber, tudo devia ter muita dor, sangue e desespero. Por isso aos doze anos tive pena de uma noiva que assisti casando. Durante a cerimônia do casamento eu imaginei o quanto aquela criatura iria sofrer na noite de núpcias, que seria de muita dor e sangue. Libero a risada de quem está lendo. E assumo a total estupidez.
Assumo porque, volto a dizer, eu não entendia nada, absolutamente. Somente sentia. Sentia muita coisa. A natureza em mim não trazia decodificação, palavra: era vento batendo na pele, sensação, à revelia, de que eu era dolorosamente viva.


Imagem: infância. www.flickr.com

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

exposição


Não consigo entender uma arte que não nasce da carne, da profunda dilaceração da carne, da ferida, da dor da ferida exposta, das moscas sentando em cima. Se a arte não nascer disso, é decoração, é paisagem amorfa, é epifania barata, é bordado. Camus, aqui perto, sopra no meu ouvido: "... a obra de arte deve servir-se, em primeiro lugar, dessas forças obscuras da alma". Não quero cantar roda não, menina, quero mostrar minha ferida exposta. E não é apologia ao sofrimento, é o próprio sofrimento, exposto. Quer ver? Esqueça então um pouco o seu bordado no bastidor e venha cá. Você já teve uma ferida dessa? Oh, não? Então terá, aguarde, é uma questão de tempo. E se tiver, não tente tampá-la com um mero bandeide. Deixe-a exposta ao sol da manhã. Deixe o sol cair na sua ferida, deixe-a doer, não fuja da dor. Para que, menina, vestir uma calça comprida a fim de esconder as perebas de sua perna? Não gosta da palavra "pereba"? Oh, deixe de ser decoradora de exteriores. Pois que a vida talvez seja só um grande salão interno, profundamente interno, amplo, branco, vazio; e nós, aristocratas vivendo nela, acreditamos triunfar com móveis caros.


Imagem: "Vazio". IN: www.google.com.br

terça-feira, 28 de setembro de 2010

a dança do adeus


Ah, meu amigo, me diga quantos passos darei até aquela porta. Venha comigo: vou tentar andar bem devagar, tal qual uma bailarina. Sua alma circundará esse espaço e dançará comigo no baile, aquele que os mortos fazem quando se encontram.
Ah, meu amigo, minha retina é antiga demais; e meus pés tortos, você bem sabe, não conheceram o auxílio de uma bota preta - para adestrá-los. Por isso olho sempre bem fundo, e caio. A menina é uma bailarina tosca porque hoje tem botas. É medonha a dança dela: eis porque não sei quantos passos darei para chegar àquela porta. As botas pretas me enfeiam, e demorarão anos para que os pés se desentortem.
Amigo, límpida ternura: sou ainda menina que não anda. Ensina-me os primeiros passos até chegarmos àquela porta, a última.



Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um poema de Kátia Borges


2.
Beleza, moça,
é algo que some,
nunca se garanta
nesse rosto de louça,
nesse corpo de Barbie
(já ouviu falar em gravidade?).
Beleza, moça,
é barco que parte,
nem tente atracar a sua
num cais de botox,
fica esquisito, fia,
aquele riso de plástico,
aquela face vazia.
Beleza, moça,
só no retrato se eterniza,
guardada em álbum de fotos
ou num semblante de filha.


Kátia Borges. In: Uma balada para Janis. Salvador: P55 Edições, 2009, p. 3.

Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

os estrangeiros


Dizem que a tristeza tem lágrimas, a melancolia não. A melancolia talvez seja mesmo pesada, seca, sem lágrimas; ou por demais leve, como pensou Calvino: a tristeza em sua forma plástica, bela, estética. Há os poetas da melancolia, os cineastas das películas nostálgicas, líricas, carregadas de neblina. Há imagens a escolher: águas do mar batendo de leve em pedras escuras, e um homem de sobretudo andando por perto, olhando para o chão. Há humanidades inteiramente perdidas, soturnas, sem necessidades de palavras. Pessoas que testemunham para si mesmas o mais terrível degredo: o vazio, o vazio onde nem o medo habita.


Imagem: Cena do filme "A primeira noite de tranquilidade", de Valerio Zurlini (1972).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

o desaparecimento das coisas


Sinto-me bastante comovida com o desaparecimento de alguns objetos. Remando contra, minha casa os acolhe. Acolhe meus bolachões, agora meus cds, que já estão virando algo do outro mundo. O que considero mesmo do outro mundo é o desparecimento das coisas. Para que eu vou ficar com um fone no ouvido se eu posso ligar o meu som e ouvir, deitada no sofá, a minha musiquinha? Para falar a verdade nem o controle remoto do som eu uso. Preciso, isso sim, é usar meus sentidos, tocar nas coisas: comprar o cd, abri-lo e colocá-lo pra funcionar, com minhas mãos, minhas mãos, e meu corpo em pé, em movimento. Nesse ínterim nostálgico, que falta me faz escutar os bolachões na minha radiola quebrada, sem agulha. O chiado é componente indispensável de um momento da vida que se inscrevia na voz de Legião Urbana, Lulu Santos, Caetano e Roberto. Mas guardo meus vinis, guardo-os; acharei um dia uma agulha nesse palheiro infernal que virou o nosso mundo tecnológico frio e desumano.
Não tenho nada contra o data-show, mas por favor, nas minhas aulas deixem-me usar meu lindo e mágico retroprojetor. Enquanto lemos poemas sentam-se nele, na transparência vista através de sua luz difusa, algumas mariposas, besouros, seres completamente embriagados. Sem contar que a sala ganha um escurinho de cinema e todos nós adentramos numa intimidade de alma, feérica, mística. Percebi que meus alunos já não gostam da claridade, assim como quem já se permite conhecer os mistérios do mundo. Então a luz do retroprojetor alia-se à penumbra intimista dos poemas, e todos acabamos nos encontrando naquele lugar onde há acolhimento, descanso e algo muito próximo à felicidade.
Até agora resisti a esse negócio de telefone colado ao corpo. Como disse lindamente Kátia Borges num poema, "eu venho de um tempo imóvel"; por isso não consigo entender como as pessoas são felizes com um celular pendurado no ouvido, falando em todos os lugares: na fila de supermercado, nos escritórios, no elevador. O celular é uma das piores pestes da humanidade: algo pequeno, indiscreto, inoportuno, e que faz a gente estar disponível em todos os momentos para o mundo. Como fugir, depois do celular? Muitos dizem: é só deixar desligado. Ora, desligado por desligado é melhor não tê-lo. Mas o mundo, como um grande algoz, está aí lhe cobrando um celular: você precisa ser encontrado, pois você precisa preencher formulários, ir a uma reunião extraordinária, enfim, você precisa estar a postos, semper parata como falam as bandeirantes.
Outro dia estava assistindo a um documentário sobre La dolce vita, de Fellini, e foi dito o quanto Marcello Mastroianni gostava de um telefone. Por isso em todos os cenários do referido filme tem um telefone à espreita. E o personagem Marcello Rubini fala mesmo, toda hora ele vai em busca do aparelho - que está sempre pendurado numa parede, imóvel, preto. Mastroianni alcançou o celular, já que morreu em 1996. Mas será que a fixação dele por telefone continuou ou continuaria com o celular? Tenho certeza que não. Primeiro porque aquele telefone antigo de colocar moedas tem um aparato estético, e que nos atinge inconscientemente. Não era, portanto, só o gesto de estar conectado ao mundo enquanto gravava; tenho certeza que Mastroianni era maior que isso em sua relação àquele aparelho que necessitava de um certo esforço de quem o usava, ao "puxar" os números; sem esquecer o sonzinho arrastado dos números circulando: tudo isso é algo maior, mais belo. Não tem comparação, pois, com os sons que trazem os celulares: gato miando, cachorro latindo, fiu-fiu e toda espécie de dejeto musical.
Ah, o quanto tenho sofrido ultimamente com o desaparecimento dos orelhões. Já repararam que eles não existem mais? E quando existem estão mortos, quebrados, detonados? Ora, o mundo pergunta, para que orelhão se todos têm celular? Eu não tenho, respondo com força. Até quando?, o mundo grita, num eco medonho e autoritário. Respondo apegando-me a Deus e pedindo-Lhe, numa oração infantil, que me livre dos celulares; primeiro consertando todos os orelhões; depois desmanchando essa pressa cruel que o mundo tem de nos usar como máquinas e de nos perturbar. Além do mais, meu Deus (e agora isso aqui já é uma oração adulta), ajude o homem a desistir de, além de desaparecer, diminuir os objetos: daqui a pouco em que tocaremos? O nada terá a textura do ar?



Imagem: "cena antiga". (www.google.com.br)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lívia Natália


Fui ali, na casa de minha amiga (http://osolnasbancasderevista.blogspot.com), encontrei esse poema maravilhoso e cometi um roubo, às escondidas: trouxe-o para cá. Uma das coisas mais maravilhosas e viscerais que tenho lido nos últimos tempos.


ASÉ

Lívia Natália

Sou uma árvore de tronco grosso.
Minha raiz é forte,
nodosa,
originária,
betumosa como a noite.

O sangue,
ejé que corre caudaloso,
lava o mundo e alimenta
o ventre poderoso de meus Orixás.
A cada um deles dou de comer,
um grânulo vivo do que sou
com uma fé escura,
(borrão na escrita do deus de olhos docemente azuis).

Minha fé é negra,
e minha alma enegresce a terra
no ilá
que de minha boca escapa.

Sou uma árvore negra de raiz nodosa.
Sou um rio de profundidade limosa e calma.
Sou a seta e seu alcance antes do grito.
E mais o fogo, o sal das águas, a tempestade
e o ferro das armas.

E ainda luto em horas de sol obtuso
nas encruzilhadas.



Imagem: Oxum. In: www.flickr.com

domingo, 12 de setembro de 2010

pós-escrito


Estava morrendo, na véspera de sete de setembro. Não peguei a faca amolada, nem a caneta prateada; insistente, liguei o computador e deixei a mensagem abaixo, desaforada, para que o mundo registrasse o meu desamparo. Que se dane o mundo, repito nesse domingo; porém, sem mais aquele travo de morte esfaqueada; talvez com um profundo e nobre escárnio. Um escárnio sem graça, como a cara - bem borrada - de palhaço canalha. Palhaço pago para entristecer plateia. Conhece algum? Sou eu agora, só que, para isso, não preciso de ordenado. Faço por puro diletantismo, em nome da dor que paralisa o osso do meu braço e borra a minha cara. Viu como a minha dança é uma farsa? E minhas pernas, travadas? Quase zambetas, menina que cresceu escanchada, sem carecer pisar nas pedras. Cresci fantasmática, com as pernas no ar, mas tendo, fatalmente, as pedras como destino. Hoje piso nelas, meus pés doem, palhaço que pula e dança em circo velho.



Imagem retirada do blog wallperlima.blogspot.com

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a grande lei


Não escrevo por nada não. Não tenho preocupação nenhuma em mostrar minha terra, minha condição nordestina ou coisa que o valha. Não quero descrever minha infância recheada com bolo de fubá, canjica e pamonha. Muito menos pincelar o folclórico das cantigas de roda que eu cantava e dançava. Que se dane o mundo, essa besteirada toda, escrevo por completo e total desespero. Por não ter coragem de pegar agora, na cozinha, aquela faca amolada. Talvez, como todo mundo, escrevo por puro cabotinismo: meu desespero quer se mostrar, e essa exibição, pior, tenciona ter forma estética. Meu desespero pensa, tem tempo de pensar, ao invés de simplesmente ir logo à cozinha e acabar com tudo. Enfim, meu desespero é metido a besta. Ora, ora, para que escrever, quando tudo seria mais rápido, mais fácil, com uma faca de ponta? Zaspt! Cabeça caindo no chão, obedecendo de uma vez à lei da gravidade.


Imagem: melancolia. In: www.google.com.br

Priquitinha


Que felicidade ou neutralidade deveria ter Priquitinha no seu vai e vem constante, andando apressado pelas ruas, repetindo maria veve, maria veve, maria veve. Havia algo de dramático e de nulidade ou de felicidade naquele homem. Ninguém dava ouvidos, ninguém mais olhava, era doido, diziam, doido apenas. Com uma camisa de volta o mundo azul, Priquitinha saía de casa e voltava, saía de casa e voltava, saía de casa e voltava, maria veve, maria veve, maria veve. Era belo: alto, negro, cabelos lisos, quarenta anos bem distribuídos num rosto encovado, fundo, num corpo magro. Priquitinha, meu vizinho: sua casa em frente à minha; todos os dias eu esperava sua ida e volta constantes, sua vida buliçosa e repetitiva; e eu não sei o que pensava daquilo os meus cinco anos amedrontados; o que ficou em mim, forte, apenas, foi a lembrança terrível de algo que não se fecha, que não se fecha, que se repete com uma inquieta resignação.


Imagem: www.google.com.br