domingo, 21 de novembro de 2010

conversa fiada


Nesses tempos de blogs em silêncio, de muita correria e pouco descanso, num domingo apático e parado no centro da cidade, venho aqui para conversar um pouco. Palrar (eta palavrinha enrolada). Mas que seja, bater um papo. Domingo deve ser o dia de festejo no purgatório: porque é o dia maldito. O que fazem as almas do purgatório no domingo? Sofrem. Sofrem mais do que nos outros dias, porque lá domingo é dia de festejo. Imagine festejo em purgatório! Deve ter insinuações das mais sádicas e masoquistas. As almas penadas penam ainda mais, coitadas. Mas deixemos essa prosa de alma para lá. Mãe rezava para as almas sempre no quintal, dentro de casa não. Dizia que era a reza mais forte que existia, e que mais trazia resultado. Mas nunca se deve rezar dentro de casa, nunca. Ora, imagina-se por que, nem é preciso indagar. As almas têm uma potência do além, já que se libertaram dessa matéria densa e fedorenta. Devem cheirar a jasmim, ou a perfume alfazema, esse que anunciava, em toda casa do interior, a chegada de mais um vivente ao mundo. Hoje os bebês, mesmo do interior, não cheiram mais a alfazema, disso eu me comovo. Que pena dos bebês de hoje, cheirando a perfume da natura ou do boticário. São bebês nascidos em shooping center. Lembro-me bem do enxoval que a mãe do interior fazia no quarto: um monte de vidrinhos forrados de crochê, tudo de uma cor só. O quarto era envolto num enorme segredo, um segredo com cheiro de alfazema e com cores de vidrinhos forrados com ponto de crochê: tão família, tão íntimo. Olhe só, estávamos palrando sobre alma do outro mundo e chegamos em bebês de antigamente. Conversa fiada é assim mesmo.

Imagem: "Bate-papo"(www.google.com.br)

21 comentários:

Chorik disse...

Você é um gênio. Meus domingos seriam diferentes com alguém como você para conversar.

Bj

aeronauta disse...

Chorik, que nostalgia de nossas conversas.
Bjos.

Bípede Falante disse...

Bah, eu adoro conversa fiada, encrochezada, poetizada, amada :)
bjs

Anônimo disse...

realmente os domingos são ordinariamentes tediosos, entretanto não sei de almas, tão pouco dos pulgatorios, coisas que raramente venho perder os meus devaneios sobre tais assuntos; no entanto penso em morrer em um dia de domingo quando o sol estiver apino, e os bebes nos seus sonos tranquilos sentir o calor dos que queimam no inferno do sol de meio dia.

Nilson disse...

Oi, Ângela, e não é que tive um domingo exatamente assim, com este sentimento que só os domingos evocam? E não é que o diabo do computador quase não me deixa trabalhar, de volta às complicações que infernizaram boa parte do meu percurso na web ao longo deste ano? E não é que essa sua prosa, longe de reforçar o bode, me deu alento pra bater um papo com ele? Tô eu aqui, no pé-do-ouvido, tentando tocá-lo pros quintos! Concordo com Chorik: gênio!

Carlos Barbosa disse...

E a livraria Cultura? Sigo lendo-a com o mesmo prazer de sempre. Abr (carlos barbosa)

aeronauta disse...

Bípede: bom tê-la aqui.
Anônimo: morrer em dia de domingo? Sei não.
Nílson: que bom que o texto serviu para batermos um papo nesse domingo.
Carlos: fui lá na livraria Cultura. É demais, de endoidar qualquer um.

Georgio Rios disse...

Cara Aero, só agora depois que fui alertado pelo Nilsoné que vim parar por aqui.Veja a coicidência da coisa do domingo em nossas vidas. Dá uma passada no meu blog pra vc ver uma coisa. www.georgiorios.com Diz o que achou. Um abraço!

Lidi disse...

Bom te ler, Aero, sempre. Ainda mais em um dia de domingo. Bjs

Crazier disse...

Eu realmente sinto falta do cheiro de Alfazema.

Bernardo Guimarães disse...

com alfazema, sem alfazema, com bebê, alma penada, domingo ou feriado, conversa fiada sua é papo-cabeça pra mim.
seu fã nº 1.

LÍVIA NATÁLIA disse...

Coisa mais linda estes bbs com cheiro de alfazema...o segredo. Usei o texto "quando sonho com ele" numa aula de criação e fez sucesso!

Um beijo!

Anônimo disse...

o domingo como qualquer outro digo eu, pois os dias são todos iguais, passam rastejando, implorando o suicido.o diabo as vezes fala comigo, fico impressionado, que a sua visita é sempre nos domingos ensolarados, onde o calor que sufoca inspira a volta pro limbo, rsr... quanta ternura nos dias de domingo, em ver passear as familias alegres no bosque.

Moniz Fiappo disse...

Os domingos são sempre tediosos mas com uma conversa fiada nem sentimos ele passar.

Katia disse...

Que prosa mais fantástica e genial. Chorikdisse tudo!

Maria Judith. disse...

Apois. Eu faço dos domingos dormingos, de tão horríveis que são todos eles...

Maria Muadiê disse...

engraçado, não sinto mais essa nostalgia aos domingos. gosto muito deles.
e gosto mais ainda de prosear com vc.
beijo

glaucia lemos disse...

E de repente descubro que todo mundo tem mágoas dos domingos. Eu até tenho um conto em que falo das solidões dos domingos q supunha q eram somente minhas, começa dizendo: "Ela sempre dizia que morreria num domingo" e depois q morre mesmo, pelos mal traçados caminhos do conto, termina "ela sempre dizia, ela sempre dizia".
Taí, descobri a pólvora. Mas a festa macabra das almas do purgatório nos domingos, Deus me livre. Qdo morrer hei de encontrar outra estrada q não dê no pougatório, já me bastam as purgações dos domingos em vida, q a empregada tem folga, os filhos dormem o dia todo e eu fico pondo mesa e tirando mesa... Beijo, minha linda.

Menina da Ilha disse...

Ainda bem que encontrei Maria que disse gostar dos domingos. Já estava até pensando que sou do contra porque você sabe que não tenho nada contra esse dia, pelo contrário. É o dia escolhido para passar de pernas para o ar, sem nenhum remorso(se é que essa palavra existe no meu dicionário, é o que você está pensando, tenho certeza). O único compromisso é sair para almoçar fora (que adoro). Fora isso, é cama, tv e preguiça.Ainda vou lhe ver muito feliz também aos DOMINGOS. Bjos.

Terráqueo disse...

Interessante, enquanto vivi no Sul do pais, sempre senti uma melancolia incrível nos domingos. Como no Rio, costumo encontrar com amigos no domingo a noite, não tenho mais essa sensação. Mas que o fato de as pessoas se recolherem em casa as fazem pensar, e em razão disse se deprimirem, é uma realidade. Adorei a tua conversa fiada. Bjs.

Marcus Gusmão disse...

Reli tudo o que havia perdido nos últimos dias e resolvi comentar aqui, pelo cheiro de alfazema. E não resisto ao clichê: felicidade é ficar uma parte da manhã ocupada a ler estes textos deliciosos.