quarta-feira, 10 de novembro de 2010

a câmara clara


Esta foto foi tirada em 10 de novembro de 1999, à beira do rio Capibaribe, Recife. Recife bom de Bandeira; Capiberibe de Cabral. Lembro-me exatamente de todos os detalhes desse dia: acordei cedo e resolvi fazer as pazes com a cidade. Estava padecendo demais por lá, desde que cheguei - em março de 1999, estrangeira em todas as instâncias, principalmente as interiores. Naquele dia 10 - dia que para mim sempre tem uma aura diferente, resolvi dar uma trégua, acolher as pontes, o sol, ir no Teatro do Parque, passear pela Recife antiga; enfim, abraçar a cidade; e isso significava além: mudar o olhar; aquela coisa parecida com subir na mesa para ter novos ângulos, como sugeriu o professor no filme sociedade dos poetas mortos.
Sorrio na fotografia; o vento leva meus cabelos para uma outra direção; não sei o que penso, o que espero, tudo é névoa. Sei apenas o que me dá medo. Minha geração é regida pelo signo da infantilidade: sei que queria que mãe estivesse ali, com seus presentes todos embrulhados em papel reaproveitado, com fitinhas retorcidas, também reaproveitadas. Ela com seus múltiplos presentes: relógio de pulso, relógio despertador, calcinha, sutiã, camisola, brinco, tudo enrolado no mesmo papel. Ah, naquele dia azul, tão distante, eu era a mesma, a mesmíssima, menina chorando por dentro, à espera da mãe.
Hoje esse rosto não é mais o mesmo; estou aqui digitando esse texto no meu quarto, em frente à rua do salete. Mãe na sala assiste televisão, depois de ter me dado um monte de presente embrulhado em papel reaproveitado de outros presentes. A infantilidade assombrosa que sempre houve em mim dá mostras de desaparecimento. Ela, mãe, sabe que a filha agora tem sua idade. Nossas rugas conversam, dialogam, e não sabemos mais quem nasceu de quem.

10 comentários:

Chorik disse...

Será que foi com tua mãe que conversei?
De qualquer forma, vai que o e-mail não chegue a tempo, quero te dar um abraço virtual, te desejar um feliz aniversário e, como sempre, muita luz no teu caminho.

Teu amigo de eras,

Celso

aeronauta disse...

Oi, Chorik, foi com mãe mesmo. Ela me deu o recado.
Obrigada, viu?
Abraços de sua amiga de milênios

Marcantonio disse...

Certas coisas que você escreve me comovem profundamente.

Aliás, me identifiquei de imediato com a primeira parte, sobre a relação conflituosa com a cidade. Já subi, emburrado, na mesa, para ver diferente uma cidade que me desagradava. E o que vi se revelou belo.

Abraço de fã.

Gerana Damulakis disse...

Eu dei beijo, abraço, parabéns (tudo real, de perto), mas deixo aqui mais beijos e abraços e parabéns, porque nunca é muito.

aeronauta disse...

Queridos, obrigada por esse afeto que me comove, sempre: suas presenças, o carinho, essas coisas boas demais.

Nilson disse...

Oi, moça, belo texto como sempre, um jeito tão delicado de abordar esse dia tão próprio! Parabéns!!!

Katia disse...

Olha só! Vc em frente à rua do Salete e eu morando na Labatut. Quase vizinhas. Bem que eu queria cruzar com vc no Grão ou mercadinho da esquina e dar meus parabéns pessoalmente pelo dia e agradecer pelo presente quase diário que seus textos me dão.

aeronauta disse...

Kátia, você mora na Labatut? Com certeza já nos vimos.

Marcus Gusmão disse...

Chego tarde para dar os parabéns. E dizer também que gostei muito da última frase do post.

aeronauta disse...

Obrigada a Chorik, Marcantonio, Gerana, Nílson, Kátia e Marcus, pela visita carinhosa no dia dos meus anos. Abraços.