quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

perto das águas


POEMA PARA ANTONIO


Eu te amo, Antonio, e teu nome
Abre minha alma: nada se esconde.
Tu vês essa transparência e nele te dissolves
Etéreo e silencioso, como céu no inverno.

No ritmo das pedras que se eternizam
Perto das águas, em ti me detenho.
E como as estradas, teu amor amor me acolhe
No abandono mais triste, mais sereno.



Imagem: "Cada ser tem sonhos...", por Paloma Parentoni. (www.flickr.com)

domingo, 27 de dezembro de 2009

canção para adormecer os sonhos


Por aqui há inverno, flores docemente se balançam ao vento lírico, vento vindo de Paris, daquele café onde nos sentamos, há milênios, entre uma nuvem e o rio Sena.
Sorrateira, tenho apenas a certeza de uma realidade tangível, meu braço tocando facilmente o teu.
Meus olhos, perfeitamente duráveis, multiplicam-se nesses minutos que caem, um a um, num mundo sem festas, calmo, compartilhado.
Antídoto contra a tristeza, bebo gota a gota a melancolia. Para sair flanando atrás de alguma coisa, um sonho desses por exemplo, diferente de tantos, como daquele em que roubei um carro e morri de remorso.
E o outro, mais besta, em que roubei uma moto.
Oh, por que não roubar rubis? Ou bonecas de porcelana guardadas em baús envelhecidos?
Ou livros com dedicatórias para Antônio ou João ou Manuel...
E ser eu, quem sabe, Margarida, Teodora, Beatriz? Com um vestido longo e branco, andando por corredores, chamando teu nome, à guisa dos filmes antigos?...
Por aqui há inverno, flores docemente se balançam ao vento lírico, vento vindo de Paris, daquele café onde nos sentamos...


Imagem: "Winter sunset along the Seine, Paris", por Rita Crane Photography.
(www.flickr.com)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

As regras noelinas


Presente é coisa tão bonita: vem sempre sob um papel florido, papel de festa. Alguns são quadrados, outros retangulares, outros redondos. É uma maravilha ganhar presente, mesmo que seja um mero sabonete, sozinho, perdido da caixa. Claro, mas esse sabonete precisa vir enrolado num papel brilhante, com cara de festa. E que o dono lhe dê junto com um abraço. E que ambos riem, felizes.
É uma pena que só nos aniversários e finais de anos isso aconteça com regularidade.
Sempre gostei de dar e ganhar presentes. Ao dar me sinto uma mãe adotiva, entendendo o que é a felicidade proveniente da compaixão, de dar-se para o outro, de ser um pouco com ele. E de, óbvio, respirar a felicidade pairando no ar.
Ao receber, mesmo ficando sem graça, é uma felicidade infantil. Fico logo ansiosa: quero abrir o pacote, ao mesmo tempo com cuidado, pois o papel festivo não pode ser agredido a ponto de desintegrar-se. O papel faz parte do afeto, sempre senti isso.
Abrindo e dando de cara com o presente em si, vem o abraço e a felicidade.
Vejo, portanto, que algumas vezes é muito fácil ser feliz.
Porém, como disse um personagem de Alessandro Baricco, "sempre falta algo à vida para que ela seja perfeita". E em alguns momentos os papéis floridos, assim como os objetos dentro deles, ou seja, os presentes, se tornam algo difícil de alcançar, para toda a vida.
Aí surge a menina que está indo para casa e vê na Rua dos Sete Pecados uma fila grande, grande, enorme, dobrando a praça. As crianças que estão na fila vibram a cada saída de uma outra, proveniente de uma casa ostensiva. Saem com enormes pacotes brilhantes, papéis de presente diferentes dos que vendiam na nossa cidade. Na saída as crianças agraciadas vão lascando os papéis pelas calçadas e de dentro surgem lindas bonecas com cabelo lustroso, olho que bate e vestido longo. Que felicidade a minha! Pois então ali davam presentes de Natal? Pois, pois, entrei logo na fila que eu nunca fui besta.
Permaneci na fila, diga-se, lenta de expectativa, mais ou menos uma duas horas.
Quando, molhada de suor, coloquei o pé na batente da porta-paraíso, e constatei a sala cheia de presentes, vibrei. Mas logo na porta surgiu uma dona austera, vestida com belas roupas. Me olhou e disse:
- Você não. Seu pai é rico, pode lhe dar presentes.
Ainda fiquei esperando, mas ela chamou o próximo com insistência.

***

Papai Noel lá em casa sempre foi magnânimo. Cumpria minhas cartas à risca, e eu adorava aquele velhinho. Adorava mais ainda acordar na madrugada e ouvir o barulho que meu pé fazia batendo no papel de presente. Ficava tocando seguidas vezes aquele papel diferente, tão feliz, antes de abrir o pacote e constatar a fidelidade de Noel.
Mas num Natal isso não ocorreu.
Bati o pé e não senti papel e nem presente algum.
De meu lado minha irmã vibrava com o presente dela.
Pensei: que traição, que injustiça. E claro, botei a boca no mundo com toda a força.
Mãe e pai acordaram e foram ver o que acontecia. Eu chorava e aos soluços tentava explicar-lhes que eu não ganhei presente de Natal.
O pior de tudo era que minha irmã tinha ganhado. E olhar pra ela rindo fazia com que minha infelicidade aumentasse. Chorava, então, mais alto.
Pai e mãe curiosos mandaram eu vasculhar direito a cama. Disseram: Olhe tudo, quem sabe não está aí. (Eles me davam esperança.) Acreditei neles e procurei de novo. Nada.
Aí eles disseram: olhe embaixo do colchão. Olhei, e nada. Aí eles disseram: olhe embaixo da cama. Quanto botei minha cabeça embaixo da cama achei uma carta.
Era uma carta de Papai Noel.
Escrita com uma caneta vermelha em letras de forma.
Nela o velhinho relatava, em detalhes, todas as mentiras que cometi no ano. Todas as malcriações. E concluía que, por conta disse, eu não ganharia presente algum. Abri o berreiro mais alto, me sentia absolutamente injustiçada.
No final da carta, porém, tinha um pós escrito em que ele dizia que pensou um bocado e iria, por caridade, me dar mais uma chance: portanto, meu presente estava embaixo da cama, do outro lado da parede. Mas se no próximo ano eu não me comportasse direitinho, nécas de presente, para sempre.
Foi nesse dia que descobri ser Papai Noel um doutrinador cruel que gosta de brincar com o poder que tem.
Foi nesse dia que aprendi a dureza e a dificuldade que é ganhar um presente. Muitas vezes, para ter a graça de ganhar um, é policialmente necessário que sejamos como os outros querem, dentro de regras socialmente noelinas. E esse é um exercício profundamente desgastante e infeliz.

***


Imagem: Presente I (www.flickr.com)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

tocantins


Estávamos todas em Tocantins. Pegamos a excursão no ato. Preço módico: trezentos reais pelas três: eu, mãe, minha irmã. Nem pensamos duas vezes: dali mesmo, na rua, com a roupa do corpo, entramos no ônibus. Tocantins era uma cidade plana, com tantas pessoas comuns andando nas ruas, com uma atmosfera de nave de igreja, um destino deliberado em mãos alheias. É, as pessoas liam as mãos pelas calçadas, com a boa vontade jamais vista. Notei que tinha chegado no lugar certo e estirei as mãos aos passantes como quem abre as cartas ao mundo. Lembro perfeitamente do meu eme na mão esquerda, espalmada ao crepúsculo. Era um final de tarde, tão lindo o lusco-fusco em Tocantins! Ah, o meu amor vindo, vindo, previsto nas linhas de um eme torto, cheio de garras e descaminhos...



Imagem: Fim de tarde no tocantins, por luiz pantoja.
(www.flickr.com)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

cumplicidade


Quer ouvir um treco assim, bem baixo astral, num feriado religioso? A humanidade é fictícia. (Acho que peguei leve demais.) Não existe a coletividade. O que existe dentro dela é o indivíduo morrendo. Uns dançando, claro, rodeados de cerveja; outros querendo morrer, outros querendo que morram todos. Tudo, portanto, é enganação: bolo festejando aniversário de casamento, casa com bibelô na porta escrito na roupa "aqui existe amor, felicidade", essas baboseiras todas. Está vendo? Ninguém dará por minha falta no mundo, ninguém. Basta eu chegar ali na cozinha, pegar aquela corda e me pendurar feito um espantalho. Ah, não quer ler texto assim? Vá pra outro blogue, a internet está cheia de felicidade; bata em outra porta. Aqui não tem jeito: você só verá carne e sangue; há algo mais visceral que sangue? Pois aqui tem, demais. Pode ter sangue alheio: é só você continuar lendo. E sabe por que estou dizendo tudo isso? Porque preciso abanar essa ferida. Não está vendo esta ferida grande aqui? Puxa vida, que miopia a sua. Aproxime-se. Chegue perto. Já tirei a campainha da casa há muito tempo, pode entrar. Está vendo agora? Ah não? É tão invisível assim? Invento tudo? Aumento tudo? Sou louca? Sou doente? Epa, moço, não vá embora não. Veja direito. Lembrei de quando mãe me dava mingau com os dedos. Não tenha nojo não. Você não comeria mingau vindo dos dedos de sua mãe? É a mesma coisa. Não há imundície, há dor. Você não quer compactuar? Quer me mandar ir tomar banho de mar, ler livro de autoajuda, fazer acupuntura ou meditar? Oh, meu querido. Quero apenas tua cumplicidade, nenhuma palavra, nenhuma. Poder trafegar contigo por essas linhas; só isso.



Imagem: "Cumplicidade", por Mário Tadeu.
(www.flickr.com)

sábado, 5 de dezembro de 2009

sem trégua


Voltei ao antigo lugar onde trabalhei há vinte anos atrás. Estava tudo quieto. Na sala onde ficava a secretaria, ao invés dos móveis de aço havia uma cama de madeira, velha e puída. Nela uma senhora deitada com um vestido florido, pálida, tentava dormir. De sua presença exalava o odor das doenças impossíveis, sem trégua, sem compadecimento, sob um chão sujo, amarelo, e paredes úmidas. Saí imediatamente e fui andando pelo corredor, em busca de algum outro cômodo aberto. Tinha: o lugar onde as crianças faziam as refeições. Antigamente era uma sala larga, repleta de pratos e copos azuis, aberta para a cozinha. Agora apenas mais um quarto. Nele outra doente, com uma roupa branca, deitada numa cama de hospital. Tudo naquele lugar emanava sujeira e abandono. Quis fugir dali o mais rápido que os meus pés pudessem. O ar pesado, porém, me fazia arrastar pelo cimento. Andei mil anos até chegar ao portão. Antes de abrir o cadeado, ouvi uma voz conhecida vinda do primeiro quarto. Resolvi voltar e constatei mãe, bastante compenetrada, limpando o chão imundo com minhas melhores roupas.



Imagem: "Sueños", por Yolanda Carbajales.
(www.flickr.com)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

espião e traidor


Há uma escrita entre mim e ti. Não sei se provém do I Ching, com seus hexagramas indecifráveis. Há uma escrita; dessas que a gente lê nos sonhos, rapidamente, em letras oníricas, e desaparece. Escrita impossível, diria, livro que não se permite abrir, com capa e letras góticas. Talvez Deus esteja lá dentro, guardando tudo, devoto que é de muitas línguas; e dentro de nós, vivendo como espião fervoroso, para que nem pensemos em abrir o livro. Oh, mas uma força maior, Deus mesmo, como traidor, nos permite saber da escrita! E nos incita a essa ternura perversa e desesperada, ideograma dos suicidas.



Imagem: "Falling down", por Lilith Ecate.
(www.flickr.com)

domingo, 29 de novembro de 2009

Os deliciosos cacófatos de Bandeira


SAUDAÇÃO A VINÍCIUS DE MORAES

Marcus Vinícius
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
A tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais;
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
esta tetinha)

Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
- Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!


MÁRCIA

Se tomares como Norma
Reto caminho na vida
Viverás da melhor forma:
Terás bom nome, conforto
E ventura garantida,
Pois chegarás a bom porto
Como ela (ou sem moela!)
Márcia bela.


*Grifos meus. In: BANDEIRA, Manuel. Mafuá do malungo.
Imagem: www.google.com.br

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Cena 1


Toda noite sonho com as mesmas ruas, as mesmas árvores, e a nossa antiga casa. Só nos sonhos ela resta inteira, sem qualquer reforma. E quando acordo nas manhãs penso estar na minha cama, aquele berção que usei até os dezesseis anos. Sinto ainda o cheiro da grade que separava esse berção da cama de minha irmã. A coberta de chinil cor de abóbora sei ainda da textura nas minha mãos.
Toda manhã, portanto, é a mesma coisa: acordo lá, como uma menina velha. Alguns segundos são o suficiente pra eu perceber: não existe berção mais, nem casa mais, nem mais nada. E naquele tempo nem era tão bom assim: odiava aquele berço, odiava dormir na frente, tinha tanto medo de defunto. Minha irmã ria vitoriosa, pois era SUA a parede para virar a cara pra dormir, espantando assim todos os defuntos do mundo. Eu não, na frente não havia escapatória; então virava a cara para a grade. Por isso até hoje aquele cheiro no nariz. Cheiro forte de madeira de lei, que ajudava a me livrar dos mortos e a tentar dormir em paz. Minha irmã ao acordar saltava a grade com barulho. Aquilo me irritava demais. E como eu odiava aquela proteção que lhe deram: a parede!, tão almejada por mim. Ela dizia que tinha sorte e eu azar.
Não sei onde tudo começa de verdade. Mas minha vida começou naquela casa. Tinha seis anos quando nos mudamos pra lá. Era uma casa estiradona, com um corredor imenso, e apenas dois quartos. Minha memória guarda tudo com perfeccionismo. Até as manchas de umidade na parede do corredor, que não tinha tinta que tirasse, até isso. O cimento vermelho e gelado. O barulho da enceradeira. Os crótons nas latas forradas de jornal.
Os banheiros separados: chuveiro num cômodo e vaso sanitário num outro cômodo. Pra lavar o rosto? Uma bacia pequena, branca. Lembro dessa salinha onde ficavam todos esses apetrechos de higiene: era também de cimento vermelho, trazia no chão umas partes quebradas que faziam dali um lugar ideal pra jogar giribita. Assim, as pedras feitas com caco de telha não deslizavam muito e podíamos ampará-las com dedos adestrados e felizes.
Nas noites recupero aquela escadinha do quintal que dava para o rio. Recupero também o quintal. E uma pedra meio inclinada onde minha irmã sentou numa tarde de sábado para morrer. E as janelas cheias de grades (das salas) que se viravam para o pé de carambola. Ali mãe colocava uma bacia enorme para nos dar banho. Na janela as roupas que ela escolhia pra gente usar. Perto da bacia, o tonel verde - cemitério de coisas inúteis. Era lá dentro que mãe jogava as coisas que o rio iria levar na próxima enchente. Foi lá que ela jogou, escondido de mim, todas as minhas revistas em quadrinhos. Corta!


Imagem: Rua da ilha, 1990.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

por que ler os clássicos


Não sei quem foi o primeiro dono desse exemplar. Comprei-o no sebo. Estava num balaio, que trazia em cima a seguinte inscrição: "3 por 1 real". O seu primeiro dono possivelmente é morto há muito tempo, pois que essa edição é de 1949. Não sei quem passou por essas páginas, por onde passei hoje numa velocidade estarrecedora. Não jantei. Não tomei banho. Minhas mãos ficaram congeladas no livro. Esse é um dos seus feitiços, dentre tantos, maiores que a história que carrega. E veio forrado de um plástico cor de rosa, talvez por seu primeiro e único dono. A cada toque o plástico ia desfalecendo nos meus dedos. Porém, o afeto foi muito, e o forro da capa resistiu mais de que sua totalidade. O cheiro de passado nele é forte, e na página 62 tem o número 10 escrito a lápis de um jeito desajeitado, parecendo feito por dedos incipientes de uma criança. Talvez fosse o filho do dono ou da dona do livro. São muitas histórias a especular. Todas provenientes de uma maior, contada por um estilo que enfeitiça, juntamente com as páginas antigas, amarelas e seu cheiro forte de passado...

"(...) E como se o céu comprazesse e comungasse com esta grande felicidade dos dois, um raio de sol atravessou a floresta, esverdeando cada folha e acendendo cintilações nos cinzentos troncos das vetustas árvores. A claridade dominava tudo e o riacho iluminado revelava, por fim, seu misterioso percurso no seio da floresta." (p. 133)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Inútil


O mundo celestial é perversamente silencioso. Olhamos para os santos nos altares e eles nos devolvem o olhar, inertes. Os anjos dão suas gargalhadas, acredito, mas essas não ecoam no lado de cá. Existe uma parede forrada que nos separa do mundo angelical, dos seus burburinhos, de suas festas; que nos separa dos mistérios e possíveis alegrias do mundo divino. Aqui ele é mudo, perversamente mudo. Tento entoar ladainhas, mantras, música clássica, mas me vejo fazendo espetáculo morto, para mim mesma, numa espécie de arremedo ridículo do que sou. Ai, como extrair de dentro de mim o silêncio bendito, contrito, extraordinário... Não, não há solução. Olho para todos os santos e eles me olham, parados. Meu espírito deve ser um fio cortado; como estabelecer conexão com esse silêncio tão bem pensado... por Deus?
Aguardo a resposta. Minha fé é grosseira, espessa, pronta para polimento. Mas eu não tenho esses instrumentos de ponta, próprios para refinar matéria em estado bruto. Aliás, verdade seja dita, eu não tenho nada. Na minha casa, que não é minha, meu corpo é a única testemunha: dorme, come, lê, e, com o tédio mais dilacerado do mundo, chama por Deus numa língua vã, cheia de sons, inútil.


Imagem: "Anjo da colina", por Thiago Nehring.
(www.flickr.com)

sábado, 21 de novembro de 2009

mais esta cena


Descubro agora, atravessando a longa passarela no centro da cidade, que foi tudo invenção. Um escritor (não lembro o nome) disse ser todo inconsciente folhetinesco. Diria que meu consciente, pobre consciente, é dotado de uma parca vocação para criar enredos. Até hoje nada de muito importante aconteceu na minha vida, nenhum fato grandioso, nenhum heroísmo. Nada acontece mesmo na nossa vida, "não há experiências, só ilusões", isso foi outro escritor quem disse. Piglia. Ricardo Piglia. Respirando artificialmente o ar que os carros deixam sob meu nariz, atravesso a passarela urrando um eureca melancólico diante da descoberta mais óbvia, e tenaz. Aqui, sobre a rua em movimento, percebo contornos precisos de todas as mentiras criadas. Com uma sacola de livros nos braços, vejo que tudo na minha vida foi tentativa de fazer literatura; invencionice barata, literatice pra compensar a infelicidade. Botei sorrisos mágicos em olhos vazios, opacos, cinzentos, por conta de graus e graus de miopia e astigmatismo voluptuosos. Repeti a cena milhões de vezes, tentando ser linear e simultânea, aproveitando signos de todos os silêncios presenciados. Deles fiz o que quis, estúpida como um arlequim; quase grotesca - com tanta delicadeza inventada, impulsionada a vivê-la.
Atravessando a sem graça passarela no centro da cidade, com uma sacola de livros nos braços, crio mais esta cena.



Imagem: "Ilusão", por Nuno Ferreira.
(www.flickr.com)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De volta


A vida gosta pouco de literatura. E tudo que não é literatura me aborrece (peço licença a Kafka e não coloco aspas). Por isso ando muito aborrecida nesses dias. Tirando uma ou outra página lida, roubada às escondidas, nessa semana pouco existi. Quero a minha vida clandestina: no meu quarto, à frente do computador, juntando letras, tirando o espanto de dentro, esparramando o choro; indo à estante, conversando com meus mortos. Sozinha, deixando a vida do outro lado da porta, com sua roupa de serventuária da Justiça. Fora os projetos escritos e suas terminologias, fora as reuniões, fora as conversas em forma de requerimento. Quero os meus livros, os meus livros. E os amigos, que falam a mesma língua.



Imagem: www.flickr.com

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ciranda


Vida sem exagero é coisa sem graça. Vida sem metáfora é leitura de jornal. E a dor da gente não sai no jornal, sabiamente arrematou Chico. Desde pequena, portanto, invento minha vida. Por isso Dona Celé, nossa vizinha beata da infância, me contava histórias tenebrosas de santos - pra que eu tomasse tento e parasse de mentir. As folhas das carambolas lá do quintal sempre foram dinheiro, cédulas vivas e verdes, para comprar o mingau das bonecas. Tinha tanto dinheiro nessa época. E minhas bonecas, além do mingau, muitas roupas. Que mãe costurava, acreditando em tudo.
Como viver sem imagens, sem escavar o imaginário e de lá tirar uma casa, toda feita de chocolate? Ah, tantas casas tenho. Invento vestidos vermelhos, culpas que não nasceram, verdades inatingíveis e ocultas. Aqui tudo é de brinquedo, ainda guardo muitas cédulas, e meu pé de carambola nunca morre. Não, não se assuste, entre na brincadeira; é uma ciranda tão linda, é uma ciranda tão bela, é uma ciranda eterna...



Imagem: "Ciranda", por galeria TiD.
(Imagem: www.flickr.com)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

rastros


O vestido vermelho

bate nos joelhos, tem babados nos ombros e na cintura.
Os adornos que nele moram se movimentam sem vento, à espera sinuosa de uma longa festa; e meus cabelos negros descem, encorpando-o no espaço, numa dança etérea, furiosa e bela.
Nas laterais um laço; nas barras, rendas passionais de outros séculos.
Visto-o todos os dias, e, durante as noites, desapareço com ele no tempo, sonho em névoa, neblina que se esgarça nos sapatos.
Nele, portanto, rastros de milenar encontro.



Imagem: "Vestido vermelho", por andrebizoti.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

parasita


O diabo é a peste da culpa. Parasita que vive em mim desde tempos imemoriais, tempos que trago na pele, em camadas mais e mais subjacentes. Cheguei ao estado patético de esquecimento das atrocidades cometidas. Como matei? Quem enforquei? A quem humilhei? Como procedi à morte sob tortura? Qual praga minhas vítimas rogaram? Qual foi o olhar mais fatal que me dirigiram? Sei que cometi todos as transgressões humanas, e da maneira mais torpe, insana, cruel. A providência maior jogou um véu sobre minha memória, e tal véu é minha condenação. Por isso vivo em celas, compartimentos minúsculos, mordendo a boca, com estremecimentos convulsos, de minuto a minuto.



Imagem: "Camadas", por Mario Bezerra.
(www.flickr.com)

domingo, 1 de novembro de 2009

estranhamente firme


Não que eu esteja engordando, mas aqui dentro, aqui, sinto-me com mais peso, e isso não me incomoda. Pelo contrário: parece-me que colocaram um apoio nas pernas, assim como fazem numa mesa que vacila. Sinto-me sólida, acho que é isso, sólida, firme, estranhamente firme. Decidida a permanecer, a olhar, a ficar. A nuvem evanescente, a líquida fragilidade de brisa, a lírica e extenuante fadiga - tudo, tudo condensou-se. O chão - mais compacto, o ar na medida certa, você na mesma altura que eu. Posso olhar o seu olho sem esticar o pescoço. Braços finalmente fortes, posso lhe mostrar o corpo, sem vergonha ou medo. Nem preciso encolher a barriga, ostento as pernas, o olho vesgo, os pés tortos, a composição íntima de minha mais extrema imperfeição. Sinto-me, sei não, uma casa pronta, inteira, cheia de varandas, janelas, painéis, teto desenhado com guirlandas de igrejas.




Imagem: "lá dentro, aqui fora", por dreamland.
(www.clickr.com)

sábado, 31 de outubro de 2009

a idade de Kafka


Com essa idade. A idade de Kafka. A vida inteira levei sem ter essa idade: hoje vejo a baliza. Nunca vi a baliza, nunca vi. Ora, quase nunca nada se vê. Ora, se vive. E eu nunca vivi. E nunca viverei. Não lembro de mim em mim antes, nunca. Superfície sobre as ondas, o que eu era. Não melhorei nada, continuo péssima. Não sei fazer um bordado, não sei brincar de estátua, não sei me locomover na cozinha. Continuo péssima. Indubitavelmente infeliz.
Com essa idade, a idade de Kafka, tudo piorou. A clareira se estendeu, as árvores ficaram cada vez mais longe, dando sombras inúteis ao resto do mundo. Ganhei - nesse deserto - uma casa, lá isso é verdade. Equipada com utensílios que eu almejava com frêmito, fanatismo dilacerado. Uma televisão, um aparelho de som, muitos cedês e alguns livros. Na parede, figuras de santos, inúmeras. De todas as religiões. No quarto, Cecília; e Drummond sério, circunspecto. Sempre quis isso: uma casa, meu sonho médio, com janelas para o quartel.
Tenho isso, com a idade de Kafka, com essa idade. Nunca a senti tão fatal. De cá posso ver os presos tomando banho de sol. Todos eles magros, belos, inclinando-se para o chão. Eu me inclino para vê-los. Por isso a corcunda: por conta do zelo de contemplá-los, de perceber a mudança nas cores de suas peles, eriçadas pelo vento que não veio, que não virá nunca.




Imagem: "laberinto de Kafka", por santiagus.
(www.flickr.com)

sem véu de alegoria


Há um tempo de mudez. E é este. Bocas tampadas com esparadrapo. Não é um esparadrapo de boa qualidade, pois que a demanda é grande. As farmácias quase que só vendem esse objeto. As próprias vendedoras enchem a bolsa, e quando os fregueses chegam ficam com ódio, querendo mais e não achando. Todos querem tampar a boca. Descobriram que é bom. Dar um alívio às cordas vocais, à saliva, aos dentes, enfim, aos movimentos palatais, pode ser, acreditam, o grande segredo. Mas ainda não conseguiram alcançar o silêncio. O costume põe a boca torta, e o que saem dessas bocas são grunhidos, no esforço da comunicação sem fala. De qualquer maneira, pois, a garganta não tem descanso: o grunhido vem de lá e espoca nos olhos perplexos quando se percebe que o que "disseram" foi entendido de outra forma. Para se chegar ao estágio de descanso absoluto da garganta e adjacências é preciso muito, muito esforço, percepção e exercício. Por isso essa mudez não trouxe ainda a felicidade. É bom que esperemos. Chegará o tempo em que todos jogarão fora o esparadrapo, por consciência plena do primarismo dele. Não, não é necessário o esparadrapo, gritará um iniciado em plena praça pública. E todos tirarão aquela parafernália da boca sem nenhum grito, sem nenhum espalhafato. Bestamente iluminados.




Imagem: "iluminados", por loquetemiro.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Rito


Desde o meu primeiro dente de leite caído da boca e jogado no "mourão", brinco falsamente com as perdas: Mourão mourão toma o meu dente podre e me dá um são. Claro que meu dente de leite não estava podre, eis o problema. Se estivesse podre poderia, sem dó, jogá-lo fora; estava novinho, mas caiu, saiu de minha gengiva. Mesmo assim fui obrigada a me livrar dele, lançando-o em cima da casa, com aquela cantiga falsa, cantada porque todo mundo cantava. Não importava a qualidade do dente, importava o ritual mentiroso.
Sofri muito com a perda de meus dentes de leite. Chorava pedindo a mãe meus dentes de volta. Esta foi a primeira imposição de desapego que a vida vociferou para mim. Ia comer e sentia falta deles; sorria e me via um ser sobrenatural. O pior foi o nascimento dos segundos dentes: cada um maior que o outro, maior do que eu, maior de que minha infância: dentões amarelos sem querer rir.
Ai, ai, brincar com as perdas. Pensar que o que vem depois é bom. Como gostar daqueles novos dentes? Como? Quadradões, impositivos, adultos? Eu queria era meus dentinhos suaves, discretos, inocentes. Brincar com as perdas. Pegar o dentinho de leite e jogá-lo sobre a casa com aquela cantiga besta. Ai, brincar com as perdas tendo uma lágrima por dentro. Volto a reiterar: meu dente estava saudável, saiu sem precisar ser amarrado com barbante, sem precisar ter ido ao dentista. Pronto: caiu sozinho, novo em folha. Essa configura a pior das perdas: a que se perde "naturalmente", que a natureza impõe sem conversa, sem réplicas ou negociações.




Imagem: Perdas... por mhaulzanardi.
(www.flickr.com)

domingo, 25 de outubro de 2009

Oferenda


Mais uma vez, ontem, teu dia, não fui ao mar. Fui criada na água doce, águas do rio santo antonio desembocando no rio baiano, rio gafanhoto. Lá não tem onda pra me assustar. O máximo que tem pra dar susto é um limo aqui e acolá, uma escorregadinha, ou uma areia funda levando para as profundezas nossas pernas. Água vermelha, água preta, água amarela, água branca. Friazinha que dá gosto abrir as mãos em concha para bebê-la. Depois deitar o corpo nas pedras, sentindo o cheiro do mato e da areia.
Oh, minha mãe, perdoa-me o mau costume. Tenho medo de tuas águas. E já estou ficando velha para aprender a fazer castelos e abrir cacimbas. Noutro dia levei flores para ti, veio de lá uma onda de uns dois metros e quase me carrega junto com as flores. Sou desajeitada para te agradar, não sei vestir branco, muito menos azul, e nem cuidar do meu ori. Meu juízo é quente, minhas mãos fechadas, meu semblante triste.
Ontem, sábado, mais uma vez não fui à tua casa; então te ofereço, hoje, lindas rosas brancas aqui mesmo - nesse mar que tenho por dentro, azul, largo, infinito.




Imagem: "Iemanjá". In: www.flickr.com

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Inscrições antigas"


LIVRO DA PELE

Ricardo Nonato

Deites
Quero riscá-la
Desenhar no alto
De suas pernas
Inscrições antigas
Lembrança dos faraós
Rupestres dizeres de nada

Deites
De braços abertos
Que vou segurando
Seus ombros
Remando levemente
Sons de Orpheu.

É madrugada
Sua pele desliza no vale
Dos meus olhos
Para beber fluente
Da carne
De minha boca.

Deites
Quero riscá-la
Arranhar em você
As estrelas do meu peito.

Com língua enlouquecida
Derramar teus sumos
Sabores
Pelo chão de nós dois.

Deites,
quero riscá-la
Na colina das tuas ancas
Plantar sonho haveres
Tronco tombado
Em teu vale

Deites,
Quero
Tremular meu desenho
Borrar seu retrato
Em meu peito.

O borro do gozo
No amor.



Imagem: "Anima e corpo", por Amperora.
(www.flickr.com)

domingo, 18 de outubro de 2009

pirlimpimpim


DEIXAI-ME, DESTINO

Deixai-me, Destino, ver-me menina
Andando num milharal antigo, a ouvir
Meus breves passos no chão...
Deixai-me.

Que nem é tarde ainda, mas minha mãe me chama
Para que eu a acompanhe...
E a manhã vai longe, caindo pelas casas
Que pouco a pouco encontramos...

Deixai-me, Destino, ir com ela de novo.
Meu vestido é curto, o mesmo de antes:
bordada na frente, uma carrocinha de flores.




Imagem: "Menina em Itatiaia" - Alberto da Veiga Guignard, óleo 1942
(www.flickr.c0m)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Arte bonita


Se Mallarmé estava certo e, de fato, tudo existe para resultar num livro, posso dizer que acordei cedo hoje só para ler microscopicamente essa frase de Mário de Andrade, solta num ensaio: "(...) artes mais ou menos bonitas que gozaram e gozam, com justiça, as galas e regalias da prostituição".
Soco na barriga.
O que seriam, hoje, "artes mais ou menos bonitas" gozando, "com justiça", as "regalias da prostituição"?
É arriscado responder a essa pergunta. É dar o pescoço à guilhotina.
Ainda mais agora que a aeronauta já tem rosto. E endereço no mundo.
O que seria arte bonita vivendo na prostituição?
E os escritores prostitutos? Onde estão? E o que é ser escritor?
De braço dado com o maniqueísmo sempre lutamos para defender os nossos, colocando-os em altares, livrando-os de toda má língua.
A literatura, a arte, que bom, evola-se do homem que a fez nascer.
O homem é uma peste, é um anjo, é uma peste e é um anjo, mas cria algo maior de que uma peste e um anjo.
Nas superfícies da história estão as "artes bonitas" que se prostituiram na sua época, ganhando muito em troca como publicações e nomes em voga, para depois entregarem os pontos de sua beleza diante de um leitor indiferente.
Kafka foi à luta para publicar seus livros. Fazia leitura dos seus textos nos cafés. "Não se isolou". Mas sua arte nunca foi bonita.
Cruz e Souza, conforme atestam os críticos, também participou de rodas literárias para depois "se isolar" em sua chamada "torre de marfim", morrendo na mais absoluta pobreza. Mas sua arte nunca foi bonita.
Drummond não quis saber de academia brasileira de letras, e sua timidez ganhou status de refinamento e respeito. Mas sua arte também nunca foi bonita.
O que é, afinal de contas, uma "arte bonita"?



Imagem: "Havaianas e acessórios em tecido", por cintiacmc25.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

em silêncio


Acalma-te, Hamlet. "Vê como a Dor te transcendentaliza!" Jesus, depois da revolta, entregou-se. "Muss es sein? Es muss sein!" (É preciso? É preciso! É preciso!) Dias inteiros sem mistérios, sob um céu de artifício, onde nada explica, nada acontece. Acalma-te. "A injustiça não se resolve". Tudo permanece, imóvel. Deus, entre as flores do campo, se esconde de ti. Não busque-o, deixe-o brincar, mover-se entre os mortos jasmins. Tua oração precisa ser branca, inerte, parada. Enfim, dilua-te no vinho, na água. Beba-te inteiro, sem exageros, quieto. (Tua mágoa apenas entedia o universo.)



Imagem: "Mar revolto, por Marina Palmeira.
(www.flickr.com)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

grades


Essa sempre foi a minha pergunta mais íntima: por que os presos seguram nas grades. Por que eles não ficam lá no seu canto, sem precisar apertarem as mãos naquelas grades sebentas. Ou então, que permaneçam em pé vendo a paisagem do corredor mas que não segurem nas grades sujas e enferrujadas. Eu, por exemplo, aqui na minha casa, não me grudo nas grades da janela. Assisto a tudo solta no ar. Não gosto de fixar minhas mãos nas coisas. Não gosto. Sinto gastura quando, nas poucas vezes em que vou à rua, alguém toca de raspão na minha pele. O contato suorento do outro me dá um nojo do cão. Gente é um trem nojento, essa frase é a minha cara. Meu primeiro marido gostava de escovar os dentes pela casa toda, e aquilo me dava uma raiva. Era uma lavação de dente zoadenta como se estivesse lavando pratos. Passeava por todos os cômodos naquele chap chap dos diabos, mais de uma hora fazendo isso. E a gengiva continuava sã, a raiva que me dava era essa, por que a gengiva não se descolava de vez. Se sou assassina? Estou em prisão domiciliar. Daqui posso dizer que entendo tudo de solidão. Seu corpo duro é uma tábua no prego. Mas não seguro em grades, não seguro. A ferrugem que habita nas grades entra para sempre na pele dos dedos, incrusta nas unhas e cutículas, levando o desgraçado para outro mundo.



Imagem: "Grades?", por Viniciusmaquifer.
(www.flickr.com)

domingo, 11 de outubro de 2009

Caminho dos alfinetes


Minha vida intrauterina, assim como a de todos vocês, foi uma maravilha. Dizem os psicanalistas que no útero materno vivemos o estado de completude do desejo, o estado absoluto do amor: duas pessoas se juntam e se completam, sem conflitos. Mas eis que um dia nascemos para o mundo, e o mundo é a perda, a falta, todas essas palavras que estão aí para nos desequilibrar quando cá entramos. Aqui a nossa mãe já não nos completa mais, nos frustra, nos castra. E é preciso ser castrado logo, para que não levemos a vida toda com a psicose de querer sempre o estado de absoluto paraíso. Porque do lado de cá do útero da mãe, é certo: completude total nunca irá existir.
... Por que todo esse intróito?
Apenas para dizer que meu processo de castração foi dos piores.
Saí do útero e minha mãe me tratou a minha infância inteira como se eu lá permanecesse. Só que, óbvio, eu estando do lado de cá do mundo, e não mais no pleno sossego de Thanatos e Eros que era sua barriga.
Oh, lembro-me aos quatro anos, amamentado-me nos seus seios flácidos. Não é uma lembrança lisonjeira; muito pelo contrário, é uma lembrança perturbadora, constrangedora, em que o asco se junta a um profundo compadecimento de mim mesma.
Mamava em pé, na frente dos outros, ou no quarto, às escondidas. Não lembro do gosto daquilo. Percebo apenas que naquela época eu já deveria ter sido castrada completamente, mas vivia ainda o faz-de-conta impossível de uma vida intrauterina.
(Não sei a quem possa interessar tal relato. Nem mais ao meu psicanalista, que abandonou meu caso. Acho que só a mim mesma, à maneira de busca simbólica.)
Toda a problemática é que o estado de frustração, normal ao vir da castração absoluta, feita nos primeiros anos de vida com a retirada do leite materno, em mim permaneceu, em doses dilacerantes, muito mais que nos meus quatro anos de mamação. Isso formou um elo dos mais terríveis entre mim e minha mãe.
(Talvez essa aqui seja uma "Carta à mãe", de maneira indireta.)
É nítido demais o sofrimento das separações a que ela me impunha. É nítida a dolorosa lembrança de um dia em que ela, às escondidas, viajou sem mim. E eu, enganada, na casa de minha avó... Quando me dei conta da traição esgoelei o dia inteiro, gritando por ela. Minha avó, que nunca teve paciência com criança, disse que iria me bater. Aquilo doeu mais fundo e esgoelei mais alto ainda. Os passantes na estrada em frente, curiosos, perguntavam o que acontecia àquela criança ensandecida.
Terrível elo, terrível dependência, terrível hierarquia.
Não são à toa os alfinetes, os sonhos que tenho com alfinetes. Neles ela está sempre presente.
Hoje lendo sobre a primeira versão de Chapeuzinho Vermelho, descobri que o lobo pergunta à menina se ela vai para a casa da avó pelo caminho das agulhas ou dos alfinetes. Chapeuzinho responde "das agulhas". O lobo vai pelo caminho dos alfinetes e chega primeiro. Tudo começa assim.



Imagem: "alfinetes", por Marcus V.
(www.flickr.com)

sábado, 10 de outubro de 2009

Poeta Baiano


EURICO ALVES:



DESLUMBRAMENTO

Diante da tua beleza e do silêncio da tua alma,
a minha alma fica feito uma criança
que folheasse inocentemente um livro de missa...



TRANSUBSTANCIAÇÃO

Um pouco de leite fresco, orvalhado que dormiu ao sereno...
Ah! Eram os teus seios pálidos de frio
dentro das folhas trêmulas sonhando...



ORAÇÃO

Ave, Senhora feita de árias de luz!...

As minhas mãos múrmuras beijam-te os pés.

E, se nunca hás de viver no meu amor,
deixa a tua alegria bailando no meu pranto,
para o deslumbramento interior da minha angústia.





*In: ALVES, Eurico. Poesia. Salvador: Fundação das Artes/Empresa Gráfica da Bahia, 1990.

Imagem: "apego".
(www.flickr.com)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Clarice


Clarice não passa na vida de ninguém impunemente. Levo Clarice nos ossos. Já quis ser Clarice. Escrevi livro tentando imitá-la. Tenho todos os seus livros. Cito Clarice nas aulas. E falo mal de Clarice. Me perdi no mundo por causa dela. Meu horror pelo mundo vem dela. Minha salvação pela escrita também. Ela para mim era uma santa. Acendia velas. Depois comecei a perceber seus pecados, seus defeitos, sua verborragia, seus dramas inverossímeis. Descobri Galinha Cega de João Alphonsus e fiquei com raiva de sua Uma galinha. Não tem quem faça mais eu trafegar em sua A Cidade Sitiada. O Lustre? Que ele fique lá, na estante, dormitando minha adolescência perdida. Maca não, Maca está aqui, pertinho de mim, por mais que tentem fazer de A hora da estrela um livrinho popular e bobo. Ah, minha amiga Clarice, são tantos os anos de convivência! Já quis ter um cigarro igual ao seu, sabia? Já quis uma varanda perto da praia... e sua insônia recheada de cafés. Já lhe imitei usando uma máquina de escrever no colo, sentada no sofá... só faltaram os filhos por perto. Queria ter aquelas pernas de siriema, altas; queria ter aqueles olhões misteriosos. Por que será que você é tão demoníaca assim com as meninas, despertando nelas essa vontade esquisita de ser você? Será isso inveja? Loucura? Besteira? Suas fotos da década de quarenta, lindas. Seu amor por Lúcio Cardoso, tão triste amor. E aquelas entrevistas que você fez com meio mundo de gente, publicadas em "De corpo inteiro"? Ninguém, no mundo, fez entrevistas daquele modo. Você lia o corpo de seu entrevistado, os gestos, a alma. Uma das entrevistas de que mais gosto é a que você fez com Marques Rebelo. Gostei da parte na qual ele pergunta: "Clarice: você se considera uma escritora brasileira?" E depois: "Perguntei-lhe isso, Clarice, porque em geral a literatura brasileira sofre de ausência de densidade, e você é densa." Palmas para Rebelo. Palmas para você.
Clarice ultimamente é alvo de minha maior irritação. Reli "O búfalo" e me decepcionei profundamente: minha alma juvenil, perplexa, não estava mais lá. Levei "A bela e a fera ou A ferida grande demais" para a aula, e no meio de minha leitura fui ficando triste, triste. Achei aquilo tudo tão falso, tão fake, tão teatro de pequena categoria. Aquele outro conto, do cego mascando chicles, meu Deus, não dá mais não: esgotou. Oh, minha querida, o que fazer contigo no meu coração? Vou salvar para sempre suas crônicas que viraram contos. Por exemplo "Felicidade Clandestina". Gosto muito ainda também de "Os desastres de Sofia", mas se pudéssemos conversar sozinhas lhe pediria pra fazer alguns cortes. Estou ousada, não? Vá desculpando minha temeridade. E aqui finalizo repetindo suas palavras: "a prece profunda não é aquela que pede, a prece mais profunda é a que não pede mais".



Imagem: "Clarice Lispector", por aclbraga.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

até o pano


Saudade dos vendedores de livros que passavam de porta em porta com aqueles livrões encardenados. Na rua, desciam do carro e iam cada um para uma casa. Com sorriso vasto, jeitão próprio de quem convence a uma compra grande, batia palmas lá na porta. Eu abria com outro sorriso. A família toda na sala. Livros saindo das caixas, ah tantos, parecia que brotavam dali num passe de mágica, sem parar. Machado de Assis, capa vermelha, letras douradas; Aluísio Azevedo, capa cinza, letras douradas; Jose Lins do Rego, capa marrom, letras douradas; José Mauro de Vasconcelos, capa azul com letras douradas. Ali era tudo dourado, ouro legítimo. Pai, na sua generosidade, fazendo cheques. E nós arrumando a estante. E mãe comprando bicho branco de louça para enfeitá-la diante dos livros. Lembro de um cachorrão de dois metros de altura que ela colocou logo abaixo da coleção preferida de pai: o mais amado por ele, Jorge. O cachorrão era mal encarado, não combinava naquele mundo de brilho, onde os livros juntinhos se colavam numa intimidade amorosa. Mas por nada nesse mundo mãe tirava ele dali. Fazia guarda, só Deus sabe se aos livros ou a sua televisão, misturada àquele mundo de papel em pompas. É, os livros eram pomposos, próprios para enfeitar casa de interior. Tanto eram para enfeitar que, depois de arrumados, para tirar um de seu lugar dava trabalho; eles se colavam uns nos outros, parece até que não queriam ser lidos. Não sei que cola era aquela, invisível, que se esgueirava na encardenação luxuosa. Briga boa: eu puxando os livros, desarrumando tudo, mãe reclamando, os bichos saindo do lugar: bois e gatos se desmoronando em tempo de cair. Menina, menina, cuidado com meus bichos! Enfim, saiu daquele horror, inteirinho, Vamos aquecer o sol, de Zé Mauro. Zé Mauro, Zé Lins, tudo gente íntima, morando lá em casa, naquela estante cheirando a óleo de peroba. Que cheiro inesquecível. Até o pano, meio preto meio branco, embebido no óleo, minha memória guardou.



Imagem: o brilho ausente do nosso lembrar, por stop me.
(www.flickr.com)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Encontro



E finalmente se encontraram. Coincidentemente, de verde.

fuga


Sou mais leve que a euforia de um anjo, verso de Raul de Leoni que me marcou a semana. A euforia de gente é alegria de folião, e de anjo? Oh, caminhos da poesia! Como gosto de andar por eles! Nesse inverno primaveril em que Iemanjá me olha de lado lembrando-me de suas flores, e meu anjo da guarda reclama suas velas, só tenho preguiça. Uma preguiça tão grande, uma preguiça tão lírica, me estico na cama sonhando o mais absurdo dos sonhos. Quebrei, com minha lassidão, as fronteiras do possível, e olho o chuvisco da janela pensando como seria bom fugir para dentro de um livro. Levanto-me e vou à estante: Aura, de Carlos Fuentes.



Imagem: "fluidez", por vabemor.
(www.flickr.com)

sábado, 26 de setembro de 2009

Meu querido Vinícius


Uma menina dançando caminho das índias; um menino dançando mickael jackson; um menino jogando bola; uma menina cantando música da própria autoria; um menino com um microfone feito por ele, vestido com o paletó do pai, brincando sério com a vocação de repórter. Cinco meninos disputando duas vagas num concurso intitulado talento mirim. Claro que eu estava torcendo para o meu menino, talentoso demais; entretanto não pude deixar de perceber que a menina de onze anos, cantando música da própria autoria, também se destacava. O jogador também, via-se claro o talento nas pernas. Mas quem ganhou foi quem requebrou: a dançarina de caminho das índias e o mini mickael jackson. Como não lamentar? Oh, meu querido Vinícius, não fique triste, eu também perdi na sua idade muitos concursos. Aos doze anos cantava visceralmente uma música de rita lee. Não levei nada. Aos vinte, trinta participei de vários concursos de poesia. Chegava perto, mas nunca levei nada. Sei como é essa dor por dentro: parece que o peito vai se fechando, fechando. Dá vontade de dar um murro no mundo, quebrar os dedos de quem votou naquela menininha besta dançando caminho das índias; e intimar os pais do mini mickael jackson para uma conversa na delegacia. Ih, não leve a sério minha violência, você sabe que é só fachada. Mas hoje me senti com a sua idade, injustiçada num mundo que decide ser talento não as vocações intelectuais, mas tão somente àquelas relacionadas ao corpo e seus movimentos requebráveis.



Imagem: www.flickr.com

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

resoluta e firme


Florentino Ariza esperou cinquenta e poucos anos, alguns meses e alguns dias. Juvenal Urbino era a peça pior do triângulo: conseguiu viver aqueles cinquenta e poucos anos, alguns meses e alguns dias. Para onde vão esses anos? No vácuo de todas as esperanças, resistem incólumes, sem nenhuma lembrança que perdure, que interrompa a espera. Juvenal Urbino viveu, Florentino sonhou. Fermina Daza, a amada: nos cinquenta e nos anos seguintes. A pior peça do triângulo precisa morrer, Florentino quer. E aguarda. E consegue. A vida às vezes é benéfica: aquele besta história de quem ri por último. Mesmo que seja rir com setenta. Enfim, Florentino mais inteligente que Werther. Que suicídio, o quê! Melhor esperar a morte da pior peça do triângulo: o eleito. Arquétipo da obsessão esperançosa, Florentino guia os amantes do impossível: cinquenta, ou cinco, ou dez, ou quinze, aqui estarei, resoluta e firme.



Imagem: "A espera" Marli Cincotto. Galeria de Artexplorer.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Talento Mirim

Meu sobrinho - Marcus Vinícius - venceu hoje a primeira etapa do Concurso Talento Mirim, da TV Bahia, com o vídeo abaixo. Vejam que lindeza... (Se vocês quiserem conhecer mais sobre esse futuro repórter, vão ao www.jornaldomarcus.blogspot.com) Nesse sábado, dia 26 de setembro, acessem o www.ibahia.com e votem nele para a semifinal(durante o programa Bahia meio dia).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

sem imagens

A configuração desse "blogger" não me deixa mais adicionar imagens; por isso sinto-me fora de casa. Os textos ficaram viciados: querem vir, desde que ilustrados por imagens. Sem elas nada feito. Estou desbotada por dentro, igual a essa página.
Procura-se um consertador de blogger.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

saudades

Nas primeiras páginas de Aurélia, capítulo intitulado "Prelúdio para a vertigem", Gérard de Nerval pontua:

"Somente pela consciência se deve evocar os mortos. Sua vida é sempre triste e terrível, pois eles sofrem com nossas faltas".

Sempre tive uma assustadora memória dessa sentença. Inconscientemente, sem a conhecer, a acolhia. Lendo-a, a reconheço. Nunca acreditei que os mortos têm felicidade plena pelo fato de terem descoberto o mistério da passagem. Ou, de lá onde estão, numa outra efervescência de ar, terem se transformado em sábios, numa bem-aventurança de fazer inveja. Sempre intuí ser difícil para eles a morte. Difícil. Intuí porque meu contato mais próximo com a morte foi com uma pessoa que eu conhecia, que eu conheci vinte e seis anos. Pessoa amorosa, que não ficava uma semana longe dos seus sem um sofrimento profundo. Que viajava para Salvador e quando voltava, com a maleta cheia de livros e presentes, transbordava de felicidade pelo retorno.
Ligado profundamente à família e à vida, ao rádio e ao seu jornal, pai tinha terrível medo de morrer. Ao saber da gravidade de sua doença, não aceitou a morte, não aceitou. Acreditava que não iria morrer, que ficaria bom, que levantaria daquela cama, daquela cadeira de rodas, e voltaria a cuidar de sua roça, de seu carro, e sentar-se na porta, de tardezinha, conversando com os que passavam. Gritando de dor, tomando morfina, aliviava-se e voltava à vida. Queria sua família por perto, todos eles. Não, nunca pensou seriamente que iria morrer. Não suportaria o desconhecido, principalmente a distância de dois mundos.
Quinze anos após sua partida, de cá sinto que ele sofre, que sente saudades da gente. Sinto às vezes sua presença perto de mim, sua presença amorosa me dizendo coisas, e lamentando eu não ter olhos para ver-lhe sentado ao meu lado, e não sentir seus braços me abraçando. Onde está, os dias são longos, e as noites insones são largas para muitas lembranças. Lembranças nossas, de sua roça, do quintal lá de casa, da praça onde jogava dominó com os amigos.
Dizem que o desapego é a prova da sabedoria. Se for assim, meu pai nunca será sábio: ele, por demais amoroso, por demais humano, nesses quinze anos não se esquece de nada; e chora, sei, chora ao nos olhar de longe.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

a existência, talvez

Nunca estive nesse lugar: a atmosfera é outra e um astro mais ofuscante que o sol não muito longe fulgura.
(Kafka)

Vez em quando, andando na rua, dá-se um estalo. Em mim algo se quebra, a existência talvez. É preciso continuar andando, ir ao banco, depois almoçar, depois viver. Vidro partido dentro do peito, água transbordando no corpo, olho parado no vácuo. Será isso o nada? Será isso a infelicidade? Será isso a sombra? O que será isso? pergunto, pergunto, pergunto, pergunto: quatro vezes. Se você tem a chave, me dê. Porque toda vez que o vidro estala, meu corpo se recolhe. Deita-se na cama, e dorme. Não há como catar os estilhaços: é tudo por dentro, misturado com o sangue que se petrifica.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Tua imagem


Ah, a imagem do amor, tua imagem, no recanto da sala. Tem uma luz macia, mortiça, de candelabro do século dezoito, com poucas velas reunidas, numa claridade calma e amena.
A vontade é de dormir sob teus olhos, agasalhar-me sob as sombras que tua alma prenuncia, legítimas - como as sombras das árvores.



Imagem: "Comes love, nothing can be done", por Pri Martins.
(www.flickr.com)

sábado, 12 de setembro de 2009

a sombra e o silêncio


A sensação é que o deserto é amplo; o ar seco; o sol escaldante. Eu estou só. Mas não há silêncio. Acordo com as costas ardendo na areia quente e me deparo com minha sombra sentada ao meu lado. Solidão é estar acompanhado dessa sombra. Eloquente: fala tanto que não me deixa encontrar o grande silêncio. Há muitos anos estou aqui e nunca o ouvi. Tem muito barulho dentro de mim. Vozes provenientes de casarões antigos, de corredores imensos, gemendo, pedindo alento. Ou então, damas de salão clamando por música, mais música, porque a festa não pode nunca acabar. Cortesãs vestidas de vermelho alçando seu amante pela camisa e a grande imagem vista no espelho da frente. Ah, a balbúrdia nesse deserto é aviltante. Meu corpo frágil se deita, se curva e a sombra o imita. É muito difícil conviver com ela, com a memória que lhe habita, que é minha, minha, só minha, e que ela a detém. Como então roubar de vez tua imagem, essa que é a imagem do amor, e guardá-la aqui dentro, só em mim, aqui, aqui dentro, para que eu possa, enfim, ouvir o silêncio do deserto?



Imagem: Dani Burman.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

diminutivos


Tenho pavor a diminutivos. Herdei tal pavor de mãe, que odeia se chamar Terezinha. Cresci ouvindo sua revolta ecoando pelos corredores lá de casa. Minha intuição ficou, acredito que por conta disso, aflorada diante dos diminutivos. Mãe, nas suas várias encarnações, intuía o peso deles; o peso não, sua inconsistência. Diminutivo não me convence. Tenho medo de gente que insiste em mostrar sua ternura com diminutivos: lindinha, queridinha, fofinha... argh! Te esconjuro!
Linguagem é coisa séria: rastros que nossos instintos bem detetivescos caçam e lêem, com a alma. Até hoje meu instinto, portanto, com relação aos diminutivos, nunca me enganou: sufixos sem expressividade, retratam o vácuo e o perigoso que há no falso.
Mãe é uma pessoa autêntica: por isso nunca gostou do nome que lhe deram. Que nos perdoem Santa Terezinha, coitada, mas esse inha, esses inhos parecem mais ganidos pavorosos. Não, nada contra os cães, mas contra essa gente diminuta que, em falsete, não sabem embalar sua "ternura".



Imagem: "partículas de identidad", por García Peña.
(www.flickr.com)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

para onde ir


Não sei quantos rostos me deram, pressinto que foram muitos. Deixei que me pintassem com mil cores, de mil formas, com traços tênues de nuvens que se espalham, com a presença diáfana de todas as ausências. Queria ser bela, muito bela. Princesa refugiada numa torre bem alta, de lá mandando cartas, pinceladas com a mais dura de todas as pátinas: a que marca o desejo de ser amada. Escondendo-me de olhares humanos, fui doce, amarga, encantadora; embalaram-me no colo, em mil sedas; deram-me colares preciosos, anéis de rubi. Fizeram de mim o que eu nunca seria, rainha por demais delicada, com a mais macia das peles, com os cabelos mais leves, e os pés - transparentes - sobrevoando mundos. Era isso o que eu queria: ser sonho. Somente isso. Agora, completamente à vista, por demais humana, não sei para onde ir.




Imagem: "atingire_diafana_by_spirala", por nhoccon2004v.
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grave delito


Virar alguém pelo avesso, rasgando pela barriga, é assistir ao espetáculo de ver vísceras e coração. Botar a mão em cheio no sangue, sangue vermelho rubro. Oh, meu amigo, não adianta depois lavar as mãos. É tarde, essa mancha não sairá de seu avental, pois mais que o lave. E nas suas mãos ela se tornará a continuação do mais grave delito, a cumplicidade infernal que há em todos os paraísos, como na escrita e no amor.




Imagem: solo sangue, por zimbia.
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domingo, 6 de setembro de 2009

nomes


Seria Verônica. Não, não gostaria de ter sido, de ser Verônica. Esse nome não se parece comigo. Esse rô no meio soa rouco, a proparoxítona parecendo um lamento solene e triste. Se eu tivesse sido Verônica certamente agora estaria com uma toga, administrando audiência, com um olhar vago e melancólico.
De todos os nomes que gostaria de ter, ganhei dois. Gosto demais de um. O conjunto soa harmônico, é a minha cara, inocência e destruição. Aqui sinto falta dele. Aqui esse nome está gritando agora, como as loucas gritavam nos fundos dos casarões mal-assombrados. Ele quer chegar à sala de visitas, mas os donos da casa ainda não deixam; ainda não é a hora. Guardo, portanto, meu nome, como antigamente se guardavam as senhoras loucas.
Talvez por isso os inúmeros apelidos. De meus tios, de meus pais, de meus primos. Sempre fui muitas. Coisa por demais vulgar, certamente. Mas sempre quis ser uma, una com os meus dois nomes, mas nunca quiseram, e só me chamaram de outras. Meu nome, pomposo, apenas nas cadernetas da professora; na hora da chamada todos viravam para conhecer a sua dona. Até que se acostumaram. Mas se forem hoje na minha cidade, e bem alto recitarem meu nome, ninguém saberá dizer quem é.
Quem é?
Pergunta insistente. Oh, você aí, que se encontra comigo algumas vezes, sou eu, lembra-se? Estava com um vestido florido, e eu sabendo que você conhecia em mim o que há de mais secreto. Mas ali, pra você, eu era uma estranha. Ao mesmo tempo em que eu me divertia, lamentava profundamente.
Não, não sei quem é. Me deram esse nome, colei-o na minha mão direita, e ele vai nos atestados, nas declarações, nos envelopes. Ah, está na parede antiga, no certificado de conclusão do curso de datilografia. Tinha quinze anos, e a assinatura vai ingênua, pura, doce, bem feita.
Eu, com um pimpão na cabeça, aos doze anos, no fundo a bandeira nacional, assinando um livro aberto, rindo. Fingia que assinava para o retratista clicar. Ah, o fingimento sempre me perseguiu. Colaborei, fingi, ri, assinei, e depois voltei pra sala. Naquele lugar sentou-se a classe inteira, fingindo assinar o livro. Não sei se todos riram.
Foi pai quem me deu esse nome. Mãe não queria. Ele foi escondido ao cartório, enquanto ela estava de resguardo. Voltou, desconfiado, mas com a certidão de nascimento na mão, garantindo no papel aquele nome, nome duplo que mãe não queria. Um dos nomes, dizia ela, era de uma inimiga sua.



Imagem: "Cida Muffa "Passeio na chuva" técnica mista", por Artexplorer.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

lúdico


Nem se eu quisesse poderia acabar com esse blogue; assim como nem se eu quisesse poderia deixar de lhe amar. As duas coisas são para sempre, para sempre, independe de minha vontade, é como tomar água, lúdica e límpida água, meu amor. As duas coisas, esse blogue e você, são o que sou, o que trago como força e dilúvio, tempestade que vai se acalmando, bebê acarinhado no rosto. Você um dia me deu uma pasta com lápis de cor, um caderno de desenho, e eu comecei a desenhar o mundo; você me abraçou fundo, num regresso sem fim; sem precisar beijar na boca você confirmou nosso encontro. Um abraço guardado, na mais comovente sinceridade. Um idílio na linguagem, palavra roçando palavra, o êxtase, a perplexidade. Amor se faz assim, tecendo verbos imaginários: eu e você nesse olhar que não consome, que conforta, que brinca ludicamente com a morte...



Imagem: "Ludicamente", por Luz Delorenzini.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Eu


Feliz deve ser quem pode viver sem escrever. Eu não. Mais fico doente se não escrevo. Em cima da cama, por favor, me dê minha máquina de escrever, que esse negócio de laptop não entrou ainda no meu mundo. E quem está escrevendo aqui sou eu, eu, eu, eu. Quantas vezes tenho que dizer esse pronome possessivo? Mil vezes. Eu, eu eu, eu sou ela, quem não sabe fique sabendo agora. Por que preciso mostrar minha cara na carteira de identidade? Para ser aceita? Para ser rejeitada? Para ser mandada para um manicômio? Oh, filho, coloque-se um pouco do lá de cá pra sentir o que é bom pra tosse; não é frescura não. Afinal não sou nenhuma Malu Mader. Que esse negócio é coisa de minha cabeça, sei desde que comecei a ouvir falar que tudo é psicológico. Mas vá lá: pode chamar de frescura, de calundu, de loucura, tudo isso sou eu. Você mesmo assim ainda quer me levar? Precisa olhar meus dentes? Não valho muita coisa não, querido. Falo mal da vida alheia, tenho ressentimentos profundos, mas gosto muito, muito de rir. Não se engane nunca: ela sou eu. Não se esqueça disso. Não, sei que você sabe, você que me ama por dentro sabe. Sabe que quem vive a crise de identidade agora não sou eu, mas a criança da década de setenta. Uma criança birrenta e medrosa. E que tem medo de cachorro. Medo de soldado (igualzinha a Maca). Medo de homem da sucam. Medo dos coleguinhas da escola. Medo de sair de perto da mãe. Se isso aqui é divã? Ora essa, isso aqui é o que eu quiser. Que hoje não estou pra ficar ouvindo voz chata de superego zombador. Estou é pra reclamar o que é meu: esse espaço, eu. Pode parecer autoritário, mas eu preciso ser mandona agora. Não, não vou matar ninguém, Aeronauta muito menos, porque não posso me matar: nunca tive vocação pra suicida. Acho meio besta isso, esse negócio de se atirar de pontes, viadutos, ou botar bala de revólver na cabeça. Quero apenas dizer, de novo, que quem fala aqui sou eu, quem chora aqui sou eu, quem xinga aqui sou eu, blá, blá, blá. E foi assim que João Bicho D'Água, doido de minha cidade, honrou seu nome na praça. Foi gritando no meio da rua, com valentia, pra todo mundo ouvir "homem é eu, cabra da peste", foi gritando assim que ninguém mais tomou pilhéria com ele, a cidade começou a lhe respeitar. Então grito, faço espalhafato, me chamo pra briga, "Aeronauta sou eu, cabra da peste". Preciso assegurar o meu lugar nessa joça, afinal de contas sem entender nada de internet fiz esse blogue, a facão mesmo. Deu um trabalho danado. E fui eu quem pegou no pesado, mouse pra cá, mouse pra lá; eu, essa que vos fala, que não é nenhuma Malu Mader. Por que insisto nessa história de Malu Mader? Faça você sozinho sua interpretação. Estou malcriada hoje, soltando os diabos. Sou agora a menina que deixou de ser besta, de apanhar das colegas, de se escorar na parede. Acho que já aprendi até a dar cascudos. Estou doidinha pra arrumar uma cabeça pra ploft! dar um cascudão bem forte. Igualzinho a muitos que ganhei na infância. É divã? É, Superego; cale-se! Hoje muita gente vai apanhar. Vou arrancar cabeça de muita gente. Já estou sarando, já pensou numa coisa dessas? Só porque resolvi botar a minha máquina de escrever na cama, no meu colo e dedilhar essa prosa. De verdade, só escrevendo existo, só escrevendo sou; se você quiser me levar assim mesmo, pode olhar os dentes.



Imagem: "Sensações", de Tuba Sinnhofer.
(www.flickr.com)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As irmãs


E a menina, desse jeitinho aí, vai ao lançamento de Maria e Nilson. Junto com a irmã. As duas cresceram, mas o jeito delas é o mesmo. A menina vestida de verde, eu, sempre afundando dentro da parede, sem saber direito o que fazer com as mãos. A irmã, ladina, estala seus dedos, em festa. Ela é profundamente especial: veja só o seu olhar: arteiro, espirituoso, como quem acabou de chegar de uma corrida de guerrô. Os olhos tristes da outra são uma condenação. O espanto é uma sina. Só escorando na parede é possível estar para os outros.
É no lançamento de Maria e Nilson, as duas irmãs juntas, que a vestida de verde, eu, descobre os malefícios do nome que ela mesma lhe colocou a fim de mais afundar na parede. Descobre que agora só Aeronauta vive, a monstra. Aeronauta eclipsou o seu outro nome, roubou a cena. Nos dois livros, a dedicatória impressa não está para ela, eu, mas para a Aeronauta. Ela sente ciúmes, inveja, ódio dessa impostora que inventou. A irmã, na festa inteira, tenta ajudá-la, mas ela continua se comportando como nessa foto: buscando a parede como apoio frio. A irmã, risonha e espirituosa, tenta ampará-la, tirá-la do meio das estantes da livraria, mas ela quer mesmo é entrar num livro daqueles, de preferência de um que nunca será vendido.
A menina de verde tem dentro de si o demônio clariceano, e quer matar uma das duas. Não a irmã, claro, a irmã será imortal nas suas mãos. Ela quer matar esse personagem que ganhou tanta vida própria a ponto de morar nas dedicatórias que seriam suas. O mal que habita o mundo infantil é genuíno, não se prendem crianças por assassinarem gatos. Ou se mata o personagem, ou se mata quem criou o personagem. Não há mais espaço para uma figura e uma sombra, uma sombra e uma figura. Como realizar o crime perfeito? Dostoievski me espreita, cúmplice, e eu pego na estante Os irmãos Karamazovi.



Imagem: "As irmãs". Década de 70. Retrato de Mozart Santana.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Amanhã, um grande momento




Conheço essa menina linda há muitos anos, pois que fui sua vizinha em 1958, no Chame Chame. Não sei se ela se lembra de mim desse tempo, quando eu ficava espiando de longe seus belos vestidos, costurados com tanta delicadeza por sua mãe. E depois retratada com tanto, mas tanto amor, por seu pai. Lembro-me que brincávamos juntas, de muitas brincadeiras, como boca de forno, cozinhado, pula-corda. E eu, que sempre tive medo de cães, aprendi com ela a amá-los.
Eis que se passaram anos, e um dia ela me achou na blogosfera. Foi no São João do ano passado. Amizade reencontrada, maravilhosa, que me rendeu outras. Com ela vieram Bernardo, Janaína, Judith, Edu, e muitos muitos outros seres desse mundo, inigualáveis. Com ela vieram para minha vida, como presentes que nunca findam, sua fotografia e sua literatura.

O rapaz bonito, também aí em cima, chama-se Nílson, e eu o conheci há um ano. Detectei a beleza de sua alma num dos posts mais corajosos que escrevi. Claro, porque a beleza precisa ser dita, proclamada a todos os ventos, sem nenhum pudor. Tal beleza nasce da conjunção do poeta e do homem que o habita. Tanta humanidade só pode resultar em poesia. É um dos mais completos poetas que conheço.

Essas duas pessoas lindas se encontrarão, amanhã, no Tom do Saber, autografando seus livros, para minha felicidade. Estarei lá, vestida a la década de 50, na fila de autógrafos. O convite está anexado: vamos juntos?



*Não aprendi ainda a colar imagens. Era para todas ficaram lado a lado. Não acertei fazer tão difícil coisa.
Foto de Nílson: Maria Sampaio.
Foto de Maria Sampaio: Mirabeau Sampaio, 1958.

domingo, 30 de agosto de 2009

Amor


Desde a quinta-feira vivo num transe, no qual nem sei como lidar direito. Desde a quinta-feira tenho recebido amor, mas muito amor mesmo. Claro, sempre recebo amor, mas dessa vez a dose tem sido muita, coisa de assombrar. Não sei o que houve no mundo nos últimos dias, qual a energia que ronda o último sol e a última lua; se os anjos resolveram se manifestar, com suas asas nas costas, feito querubins arrebatados; se Deus resolveu perdoar, para sempre, todos os pecados da humanidade. Ou se eu, finalmente, encontrei sintonia com as brisas do mar. Pois que desde a quinta-feira, por ando passo, vou recolhendo presentes: olhares de ternura, abraços intensos, rosas vermelhas, bombons de chocolate, cartões com palavras doces, e uma promessa, ah uma promessa de maciez e tranquilidade. O amor é isso mesmo? Essa coisa malemolente, semelhante a corpo balançando na rede depois do almoço? Essa vontade de ser mãe do mundo? É, levar o mundo pra casa, dar-lhe de presente todos os livros de poesia, afagar-lhe os cabelos longos... Ah, meus amados alunos, como agradecer-lhes a doação dessa coisa viva, pulsante, que traz água nos olhos e sentimento de felicidade? Ah, queridos amigos, como devolver-lhes o carinho da companhia agradável, driblando todos os tédios da existência? O que apenas posso dizer agora, diante dessa embriaguez, é que o amor faz com que a minha alma se parta, desapegada, em mil pedaços, voando sem endereço certo...



Imagem: cartão-de-flores, homenagem de meus alunos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

se você deixar


Você tem jeito de homem da roça, trabalhador de enxada, sertanejo dos bons. Pouca fala, muito o que fazer. Pôr um cigarro de palha na ponta de sua boca e esperar a baforada seria algo por demais maravilhoso. Pegar você e colocar num banco, sentado na porta, que epifania! O melhor de tudo é sua singularidade: você não é estereotipado - nada pior do que sertanejo estereotipado, desses que a gente vê em certos teatros. Você é o que é, homem largado no mundo, sem se importar com as rugas no rosto nem com os botões da camisa. Personagem do velho Graça, paisagem transformada em gente. Ora árvore ressequida, galhos secos decorando a tarde mais triste, ora riacho fremente, devastadora cheia esverdeando tudo. Deve ser muito boa a sua companhia, para o resto dos tempos. Se você deixar, ficarei aqui, todos os dias, lhe olhando em silêncio, como quem escuta água em beira de rio.



Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Uma saída


Aprendi com o ex-macaco kafkiano que não existe por que sonhar com liberdade, mas apenas com uma saída. É preciso encontrar uma saída. Dentro da jaula, embalada para o circo de variedades, preciso encontrar uma saída, e por aqui mesmo. Batendo com minha cara no caixote. É preciso que eu me curve, minhas costas doem, meu pescoço tem um nó bem naquele lugar perto da coluna, chamado vulgarmente por minha irmã de cupim de boi. Eta nó desgraçado de grande e dolorido. É preciso que eu me desentorte, fique em pé com as mãos na cintura, buscando quem sabe o sonho de ser bailarina; mas o lugar é limitado para minha altura, ficar em pé nem pensar, mesmo eu medindo um metro e cinquenta e dois.
A saída que preciso buscar não pode ser a mesma do macaco kafkiano. Não quero imitá-lo, nem aos homens nem às mulheres que vêm à jaula observar meu sofrimento. Busco outra saída, e passo ao largo das imitações. Não quero outra condição humana, quero continuar sendo eu, mesmo dentro dessa morada apertada, com as costas lavadas de suor, as pernas agachadas, e a corcunda feito um morro. Quero, a todo custo, preservar minha sensualidade dessa limitação de estar em muito menos de um metro quadrado de cubículo. A sorte é que guardei minha cara do espetáculo público: joguei nela uma máscara qualquer, desenhada a bico de pena por um desenhistazinho que chegou um dia para me ver. Condoído daquela minha exposição ao sol e ao vento, ao riso e ao escárnio, desenhou num papel, e depois cortou, o rosto de uma atriz. Não a conheço. É melhor assim. E a primeira das saídas talvez seja mesmo esta: ninguém imaginar o que há por trás desse meu outro rosto.



Imagem: "saída", por eduhhz.
(www.flickr.com)