terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

a câmara clara e a sétima arte: elucubrações sobre o real


Estamos acostumados com uma existência previsível, cotidiana e cansativa. Nela nos arrastamos, comendo e dormindo, sem percebermos sua transitoriedade e seus signos, visíveis em cortes quase que cinematográficos. Para cada lugar que olhamos é certo que ali se recorta o enigmático, a pulsação de tudo que é inesperado e secreto. O mundo é amplo, nosso ângulo de visão fragmentado; portanto, nosso espírito age como diretor, recortando as cenas principais.
Todo esse preâmbulo para dizer que no domingo que antecedeu ao último, no início da tarde, passei por um final de rua em Feira de Santana. Naquele exato instante, havia milhares de jovens conversando. Meu olhar recortou apenas o rosto de um, e o recortou em primeiro plano, com bastante nitidez. Ele sorria, e usava boné.
Quatro dias depois soube que esse mesmo rapaz havia sido morto por dois homens que pilotavam uma motocicleta.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

festa no mar


Minha mãe querida,
Aqui não há mar, nem água, nem nada.
O que faço para te saudar?
Onde arranjar flores brancas, velas azuis,
perfume para teus pés?
Onde colher conchas, onde jogar pentes
e coisas para teu deleite?

Minha mãe querida,
Livra-me dos perigos, mesmo sem presentes,
sem mar, sem pentes,
nesse dia de festa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

sonho


Onde pai andará, nesse instante?
Com auréolas de rei, abrindo cancelas
Na sua roça de milho, eterna?

Buscando as sandálias, ao entardecer,
Como tanto fazia antes?
Fechando as janelas, com a chegada da noite?

O que de hábito permaneceu, à distância,
Nesses dezoito anos de ausência,
Para que continuasse tão perto?

Decerto o chão de nossa casa
Com o vermelho cimento encerado
Fazendo espelho aos seus pés

Decerto essa frágil permanência
do outro lado, onde tudo reverbera
em aquiescência e abandono

Decerto o mundo, mesmo,
Com seus vestígios de sonho
Trazendo-o como dono; de tudo.

sem poesia (à guisa de confissão)


O que tenho para dizer hoje não tem poesia, nem salvação. Nem uma gota de lirismo; e nenhuma gota de humor. Não é assunto para post, não é assunto para a vida. É assunto talvez para fantasmas, fantasmas eivados de maldade. Assistiram "Viridiana"? O mundo não está preparado para a doação. As pessoas têm cheiro de enxofre. As pessoas são visguentas, tem miasmas repugnantes, são hipócritas. Moro numa cidade em que o mal total da humanidade se concentrou. Nem vou dizer o nome dela porque terei a tentação de fazer um trocadilho, e este não terá a menor inventividade. Toda a concentração dos sem caráter, sem palavra, sem respeito está aqui. Ah se Gregório de Matos ainda vivesse! Eu o convidaria a passar uns dias na minha casa; e juntos poderíamos botar fogo nas ventas desses viventes. Há poesia no que digo? Nenhuma. Só Lampião e Corisco dariam cabo dessa demanda. Quem sabe depois disso nasceria um cordel.


Imagem: cena (terrível) do filme "Viridiana" (1961), de Luis Buñuel.

domingo, 22 de janeiro de 2012

mobília


Registro interno de solidão:
tenho 32 cadeiras.
Receberei um dia 32 visitas?
32 pessoas um dia aqui se sentarão?
Há de diversas formas: de balanço, de varanda, de jantar. Cadeira artesanal, espreguiçadeira, banquinhos.
Há uma parecida com aquelas da sala de jantar de lá de casa: aquelas que beliscavam nossas bundas.
Se faço coleção?
Se é uma estranha mania?
Registro interno de solidão:
Tenho quatro grandes mesas.
E dois bules de café.
Tenho muitos talheres.
Uma casa enorme para ouvi-los tilintar.
Mãe comia de colher, às escondidas de pai.
E de colher me ensinou a comer.
Pai era civilizado: sabia andar em Salvador,
sabia escrever bem, lia Dona Flor,
usava roupa de casimira e paletó.
Mãe não: suas roupas eram sempre estampadas
costuradas por suas mãos
com cheiro de cebola.
Registro interno de solidão:
Tenho um guarda-roupa antigo.
Nele contém uns dez vestidos estampados.
Envelheço como mãe, e nela me misturo
aos seus traços entalhados,
às rugas mais fundas, mais velhas,
e juntas nos parecemos, engraçado,
à nossa antiga geladeira.

sábado, 21 de janeiro de 2012

os homens


Os humanos me decepcionam, sempre.
Gostaria de com eles me entender, em sânscrito,
ou em língua indígena. No entanto,
não nos entendemos nunca, e eu acho absurda
sua mania higiênica e asséptica
de limpar, todos os dias, o umbigo
e nele plantar rosas de vidro
sem perfume.

Os humanos me entediam, de fato,
E eu os acho imbecis como um automóvel
andando na rua.
Para que existem tantos, meu Deus?
pergunta meu coração vazio.
Meu coração que só entende de um frio
absoluto; de uma ternura esmagada;
rosto que rompeu a máscara.


Imagem: Cena do filme Vanilla Sky (2001).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

exílio


Sei que desse mundo não venho, nem ficarei
por muitos anos, sob o assombro aprisionada.
E que amigos moram em suas próprias casas
como se nunca estivessem em viagem.

Sei que é longe o hospício pra onde me levam
com tantas folhas mortas na entrada,
E de uma escada me olha o filho que não veio
no segundo mês que o esperava.

Sei de tudo, meu amor, e mais ainda
que a vida, estranha porta que se abre,
é vaga.
E na varanda, uma velha hera
se estilhaça.