sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De volta


A vida gosta pouco de literatura. E tudo que não é literatura me aborrece (peço licença a Kafka e não coloco aspas). Por isso ando muito aborrecida nesses dias. Tirando uma ou outra página lida, roubada às escondidas, nessa semana pouco existi. Quero a minha vida clandestina: no meu quarto, à frente do computador, juntando letras, tirando o espanto de dentro, esparramando o choro; indo à estante, conversando com meus mortos. Sozinha, deixando a vida do outro lado da porta, com sua roupa de serventuária da Justiça. Fora os projetos escritos e suas terminologias, fora as reuniões, fora as conversas em forma de requerimento. Quero os meus livros, os meus livros. E os amigos, que falam a mesma língua.



Imagem: www.flickr.com

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ciranda


Vida sem exagero é coisa sem graça. Vida sem metáfora é leitura de jornal. E a dor da gente não sai no jornal, sabiamente arrematou Chico. Desde pequena, portanto, invento minha vida. Por isso Dona Celé, nossa vizinha beata da infância, me contava histórias tenebrosas de santos - pra que eu tomasse tento e parasse de mentir. As folhas das carambolas lá do quintal sempre foram dinheiro, cédulas vivas e verdes, para comprar o mingau das bonecas. Tinha tanto dinheiro nessa época. E minhas bonecas, além do mingau, muitas roupas. Que mãe costurava, acreditando em tudo.
Como viver sem imagens, sem escavar o imaginário e de lá tirar uma casa, toda feita de chocolate? Ah, tantas casas tenho. Invento vestidos vermelhos, culpas que não nasceram, verdades inatingíveis e ocultas. Aqui tudo é de brinquedo, ainda guardo muitas cédulas, e meu pé de carambola nunca morre. Não, não se assuste, entre na brincadeira; é uma ciranda tão linda, é uma ciranda tão bela, é uma ciranda eterna...



Imagem: "Ciranda", por galeria TiD.
(Imagem: www.flickr.com)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

rastros


O vestido vermelho

bate nos joelhos, tem babados nos ombros e na cintura.
Os adornos que nele moram se movimentam sem vento, à espera sinuosa de uma longa festa; e meus cabelos negros descem, encorpando-o no espaço, numa dança etérea, furiosa e bela.
Nas laterais um laço; nas barras, rendas passionais de outros séculos.
Visto-o todos os dias, e, durante as noites, desapareço com ele no tempo, sonho em névoa, neblina que se esgarça nos sapatos.
Nele, portanto, rastros de milenar encontro.



Imagem: "Vestido vermelho", por andrebizoti.
(www.flickr.com)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

parasita


O diabo é a peste da culpa. Parasita que vive em mim desde tempos imemoriais, tempos que trago na pele, em camadas mais e mais subjacentes. Cheguei ao estado patético de esquecimento das atrocidades cometidas. Como matei? Quem enforquei? A quem humilhei? Como procedi à morte sob tortura? Qual praga minhas vítimas rogaram? Qual foi o olhar mais fatal que me dirigiram? Sei que cometi todos as transgressões humanas, e da maneira mais torpe, insana, cruel. A providência maior jogou um véu sobre minha memória, e tal véu é minha condenação. Por isso vivo em celas, compartimentos minúsculos, mordendo a boca, com estremecimentos convulsos, de minuto a minuto.



Imagem: "Camadas", por Mario Bezerra.
(www.flickr.com)

domingo, 1 de novembro de 2009

estranhamente firme


Não que eu esteja engordando, mas aqui dentro, aqui, sinto-me com mais peso, e isso não me incomoda. Pelo contrário: parece-me que colocaram um apoio nas pernas, assim como fazem numa mesa que vacila. Sinto-me sólida, acho que é isso, sólida, firme, estranhamente firme. Decidida a permanecer, a olhar, a ficar. A nuvem evanescente, a líquida fragilidade de brisa, a lírica e extenuante fadiga - tudo, tudo condensou-se. O chão - mais compacto, o ar na medida certa, você na mesma altura que eu. Posso olhar o seu olho sem esticar o pescoço. Braços finalmente fortes, posso lhe mostrar o corpo, sem vergonha ou medo. Nem preciso encolher a barriga, ostento as pernas, o olho vesgo, os pés tortos, a composição íntima de minha mais extrema imperfeição. Sinto-me, sei não, uma casa pronta, inteira, cheia de varandas, janelas, painéis, teto desenhado com guirlandas de igrejas.




Imagem: "lá dentro, aqui fora", por dreamland.
(www.clickr.com)

sábado, 31 de outubro de 2009

a idade de Kafka


Com essa idade. A idade de Kafka. A vida inteira levei sem ter essa idade: hoje vejo a baliza. Nunca vi a baliza, nunca vi. Ora, quase nunca nada se vê. Ora, se vive. E eu nunca vivi. E nunca viverei. Não lembro de mim em mim antes, nunca. Superfície sobre as ondas, o que eu era. Não melhorei nada, continuo péssima. Não sei fazer um bordado, não sei brincar de estátua, não sei me locomover na cozinha. Continuo péssima. Indubitavelmente infeliz.
Com essa idade, a idade de Kafka, tudo piorou. A clareira se estendeu, as árvores ficaram cada vez mais longe, dando sombras inúteis ao resto do mundo. Ganhei - nesse deserto - uma casa, lá isso é verdade. Equipada com utensílios que eu almejava com frêmito, fanatismo dilacerado. Uma televisão, um aparelho de som, muitos cedês e alguns livros. Na parede, figuras de santos, inúmeras. De todas as religiões. No quarto, Cecília; e Drummond sério, circunspecto. Sempre quis isso: uma casa, meu sonho médio, com janelas para o quartel.
Tenho isso, com a idade de Kafka, com essa idade. Nunca a senti tão fatal. De cá posso ver os presos tomando banho de sol. Todos eles magros, belos, inclinando-se para o chão. Eu me inclino para vê-los. Por isso a corcunda: por conta do zelo de contemplá-los, de perceber a mudança nas cores de suas peles, eriçadas pelo vento que não veio, que não virá nunca.




Imagem: "laberinto de Kafka", por santiagus.
(www.flickr.com)

sem véu de alegoria


Há um tempo de mudez. E é este. Bocas tampadas com esparadrapo. Não é um esparadrapo de boa qualidade, pois que a demanda é grande. As farmácias quase que só vendem esse objeto. As próprias vendedoras enchem a bolsa, e quando os fregueses chegam ficam com ódio, querendo mais e não achando. Todos querem tampar a boca. Descobriram que é bom. Dar um alívio às cordas vocais, à saliva, aos dentes, enfim, aos movimentos palatais, pode ser, acreditam, o grande segredo. Mas ainda não conseguiram alcançar o silêncio. O costume põe a boca torta, e o que saem dessas bocas são grunhidos, no esforço da comunicação sem fala. De qualquer maneira, pois, a garganta não tem descanso: o grunhido vem de lá e espoca nos olhos perplexos quando se percebe que o que "disseram" foi entendido de outra forma. Para se chegar ao estágio de descanso absoluto da garganta e adjacências é preciso muito, muito esforço, percepção e exercício. Por isso essa mudez não trouxe ainda a felicidade. É bom que esperemos. Chegará o tempo em que todos jogarão fora o esparadrapo, por consciência plena do primarismo dele. Não, não é necessário o esparadrapo, gritará um iniciado em plena praça pública. E todos tirarão aquela parafernália da boca sem nenhum grito, sem nenhum espalhafato. Bestamente iluminados.




Imagem: "iluminados", por loquetemiro.
(www.flickr.com)