terça-feira, 28 de setembro de 2010

a dança do adeus


Ah, meu amigo, me diga quantos passos darei até aquela porta. Venha comigo: vou tentar andar bem devagar, tal qual uma bailarina. Sua alma circundará esse espaço e dançará comigo no baile, aquele que os mortos fazem quando se encontram.
Ah, meu amigo, minha retina é antiga demais; e meus pés tortos, você bem sabe, não conheceram o auxílio de uma bota preta - para adestrá-los. Por isso olho sempre bem fundo, e caio. A menina é uma bailarina tosca porque hoje tem botas. É medonha a dança dela: eis porque não sei quantos passos darei para chegar àquela porta. As botas pretas me enfeiam, e demorarão anos para que os pés se desentortem.
Amigo, límpida ternura: sou ainda menina que não anda. Ensina-me os primeiros passos até chegarmos àquela porta, a última.



Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um poema de Kátia Borges


2.
Beleza, moça,
é algo que some,
nunca se garanta
nesse rosto de louça,
nesse corpo de Barbie
(já ouviu falar em gravidade?).
Beleza, moça,
é barco que parte,
nem tente atracar a sua
num cais de botox,
fica esquisito, fia,
aquele riso de plástico,
aquela face vazia.
Beleza, moça,
só no retrato se eterniza,
guardada em álbum de fotos
ou num semblante de filha.


Kátia Borges. In: Uma balada para Janis. Salvador: P55 Edições, 2009, p. 3.

Imagem: www.google.com.br

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

os estrangeiros


Dizem que a tristeza tem lágrimas, a melancolia não. A melancolia talvez seja mesmo pesada, seca, sem lágrimas; ou por demais leve, como pensou Calvino: a tristeza em sua forma plástica, bela, estética. Há os poetas da melancolia, os cineastas das películas nostálgicas, líricas, carregadas de neblina. Há imagens a escolher: águas do mar batendo de leve em pedras escuras, e um homem de sobretudo andando por perto, olhando para o chão. Há humanidades inteiramente perdidas, soturnas, sem necessidades de palavras. Pessoas que testemunham para si mesmas o mais terrível degredo: o vazio, o vazio onde nem o medo habita.


Imagem: Cena do filme "A primeira noite de tranquilidade", de Valerio Zurlini (1972).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

o desaparecimento das coisas


Sinto-me bastante comovida com o desaparecimento de alguns objetos. Remando contra, minha casa os acolhe. Acolhe meus bolachões, agora meus cds, que já estão virando algo do outro mundo. O que considero mesmo do outro mundo é o desparecimento das coisas. Para que eu vou ficar com um fone no ouvido se eu posso ligar o meu som e ouvir, deitada no sofá, a minha musiquinha? Para falar a verdade nem o controle remoto do som eu uso. Preciso, isso sim, é usar meus sentidos, tocar nas coisas: comprar o cd, abri-lo e colocá-lo pra funcionar, com minhas mãos, minhas mãos, e meu corpo em pé, em movimento. Nesse ínterim nostálgico, que falta me faz escutar os bolachões na minha radiola quebrada, sem agulha. O chiado é componente indispensável de um momento da vida que se inscrevia na voz de Legião Urbana, Lulu Santos, Caetano e Roberto. Mas guardo meus vinis, guardo-os; acharei um dia uma agulha nesse palheiro infernal que virou o nosso mundo tecnológico frio e desumano.
Não tenho nada contra o data-show, mas por favor, nas minhas aulas deixem-me usar meu lindo e mágico retroprojetor. Enquanto lemos poemas sentam-se nele, na transparência vista através de sua luz difusa, algumas mariposas, besouros, seres completamente embriagados. Sem contar que a sala ganha um escurinho de cinema e todos nós adentramos numa intimidade de alma, feérica, mística. Percebi que meus alunos já não gostam da claridade, assim como quem já se permite conhecer os mistérios do mundo. Então a luz do retroprojetor alia-se à penumbra intimista dos poemas, e todos acabamos nos encontrando naquele lugar onde há acolhimento, descanso e algo muito próximo à felicidade.
Até agora resisti a esse negócio de telefone colado ao corpo. Como disse lindamente Kátia Borges num poema, "eu venho de um tempo imóvel"; por isso não consigo entender como as pessoas são felizes com um celular pendurado no ouvido, falando em todos os lugares: na fila de supermercado, nos escritórios, no elevador. O celular é uma das piores pestes da humanidade: algo pequeno, indiscreto, inoportuno, e que faz a gente estar disponível em todos os momentos para o mundo. Como fugir, depois do celular? Muitos dizem: é só deixar desligado. Ora, desligado por desligado é melhor não tê-lo. Mas o mundo, como um grande algoz, está aí lhe cobrando um celular: você precisa ser encontrado, pois você precisa preencher formulários, ir a uma reunião extraordinária, enfim, você precisa estar a postos, semper parata como falam as bandeirantes.
Outro dia estava assistindo a um documentário sobre La dolce vita, de Fellini, e foi dito o quanto Marcello Mastroianni gostava de um telefone. Por isso em todos os cenários do referido filme tem um telefone à espreita. E o personagem Marcello Rubini fala mesmo, toda hora ele vai em busca do aparelho - que está sempre pendurado numa parede, imóvel, preto. Mastroianni alcançou o celular, já que morreu em 1996. Mas será que a fixação dele por telefone continuou ou continuaria com o celular? Tenho certeza que não. Primeiro porque aquele telefone antigo de colocar moedas tem um aparato estético, e que nos atinge inconscientemente. Não era, portanto, só o gesto de estar conectado ao mundo enquanto gravava; tenho certeza que Mastroianni era maior que isso em sua relação àquele aparelho que necessitava de um certo esforço de quem o usava, ao "puxar" os números; sem esquecer o sonzinho arrastado dos números circulando: tudo isso é algo maior, mais belo. Não tem comparação, pois, com os sons que trazem os celulares: gato miando, cachorro latindo, fiu-fiu e toda espécie de dejeto musical.
Ah, o quanto tenho sofrido ultimamente com o desaparecimento dos orelhões. Já repararam que eles não existem mais? E quando existem estão mortos, quebrados, detonados? Ora, o mundo pergunta, para que orelhão se todos têm celular? Eu não tenho, respondo com força. Até quando?, o mundo grita, num eco medonho e autoritário. Respondo apegando-me a Deus e pedindo-Lhe, numa oração infantil, que me livre dos celulares; primeiro consertando todos os orelhões; depois desmanchando essa pressa cruel que o mundo tem de nos usar como máquinas e de nos perturbar. Além do mais, meu Deus (e agora isso aqui já é uma oração adulta), ajude o homem a desistir de, além de desaparecer, diminuir os objetos: daqui a pouco em que tocaremos? O nada terá a textura do ar?



Imagem: "cena antiga". (www.google.com.br)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lívia Natália


Fui ali, na casa de minha amiga (http://osolnasbancasderevista.blogspot.com), encontrei esse poema maravilhoso e cometi um roubo, às escondidas: trouxe-o para cá. Uma das coisas mais maravilhosas e viscerais que tenho lido nos últimos tempos.


ASÉ

Lívia Natália

Sou uma árvore de tronco grosso.
Minha raiz é forte,
nodosa,
originária,
betumosa como a noite.

O sangue,
ejé que corre caudaloso,
lava o mundo e alimenta
o ventre poderoso de meus Orixás.
A cada um deles dou de comer,
um grânulo vivo do que sou
com uma fé escura,
(borrão na escrita do deus de olhos docemente azuis).

Minha fé é negra,
e minha alma enegresce a terra
no ilá
que de minha boca escapa.

Sou uma árvore negra de raiz nodosa.
Sou um rio de profundidade limosa e calma.
Sou a seta e seu alcance antes do grito.
E mais o fogo, o sal das águas, a tempestade
e o ferro das armas.

E ainda luto em horas de sol obtuso
nas encruzilhadas.



Imagem: Oxum. In: www.flickr.com

domingo, 12 de setembro de 2010

pós-escrito


Estava morrendo, na véspera de sete de setembro. Não peguei a faca amolada, nem a caneta prateada; insistente, liguei o computador e deixei a mensagem abaixo, desaforada, para que o mundo registrasse o meu desamparo. Que se dane o mundo, repito nesse domingo; porém, sem mais aquele travo de morte esfaqueada; talvez com um profundo e nobre escárnio. Um escárnio sem graça, como a cara - bem borrada - de palhaço canalha. Palhaço pago para entristecer plateia. Conhece algum? Sou eu agora, só que, para isso, não preciso de ordenado. Faço por puro diletantismo, em nome da dor que paralisa o osso do meu braço e borra a minha cara. Viu como a minha dança é uma farsa? E minhas pernas, travadas? Quase zambetas, menina que cresceu escanchada, sem carecer pisar nas pedras. Cresci fantasmática, com as pernas no ar, mas tendo, fatalmente, as pedras como destino. Hoje piso nelas, meus pés doem, palhaço que pula e dança em circo velho.



Imagem retirada do blog wallperlima.blogspot.com

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a grande lei


Não escrevo por nada não. Não tenho preocupação nenhuma em mostrar minha terra, minha condição nordestina ou coisa que o valha. Não quero descrever minha infância recheada com bolo de fubá, canjica e pamonha. Muito menos pincelar o folclórico das cantigas de roda que eu cantava e dançava. Que se dane o mundo, essa besteirada toda, escrevo por completo e total desespero. Por não ter coragem de pegar agora, na cozinha, aquela faca amolada. Talvez, como todo mundo, escrevo por puro cabotinismo: meu desespero quer se mostrar, e essa exibição, pior, tenciona ter forma estética. Meu desespero pensa, tem tempo de pensar, ao invés de simplesmente ir logo à cozinha e acabar com tudo. Enfim, meu desespero é metido a besta. Ora, ora, para que escrever, quando tudo seria mais rápido, mais fácil, com uma faca de ponta? Zaspt! Cabeça caindo no chão, obedecendo de uma vez à lei da gravidade.


Imagem: melancolia. In: www.google.com.br

Priquitinha


Que felicidade ou neutralidade deveria ter Priquitinha no seu vai e vem constante, andando apressado pelas ruas, repetindo maria veve, maria veve, maria veve. Havia algo de dramático e de nulidade ou de felicidade naquele homem. Ninguém dava ouvidos, ninguém mais olhava, era doido, diziam, doido apenas. Com uma camisa de volta o mundo azul, Priquitinha saía de casa e voltava, saía de casa e voltava, saía de casa e voltava, maria veve, maria veve, maria veve. Era belo: alto, negro, cabelos lisos, quarenta anos bem distribuídos num rosto encovado, fundo, num corpo magro. Priquitinha, meu vizinho: sua casa em frente à minha; todos os dias eu esperava sua ida e volta constantes, sua vida buliçosa e repetitiva; e eu não sei o que pensava daquilo os meus cinco anos amedrontados; o que ficou em mim, forte, apenas, foi a lembrança terrível de algo que não se fecha, que não se fecha, que se repete com uma inquieta resignação.


Imagem: www.google.com.br

sábado, 4 de setembro de 2010

parede-e-meia


É em mais uma noite de sábado como essa que, ao invés de ir deitar e descansar esse corpo velho, insisto em dedilhar teclas. Para quê? Me pergunto com ferocidade, como quem rasga a roupa nos dentes. Para quê? Quem está aí do outro lado? Está me escutando? Lembrei que mãe conversava com a vizinha pela parede. As casas do interior têm uma intimidade desconcertante: são parede-e-meia. Quer dizer, tudo se ouve, e se tudo se ouve tudo se vê. Pois bem, mãe na cozinha batia altos papos com Dona Nena. Para que telefone? Nem precisavam falar alto. Conversavam normal, como se estivessem uma em frente à outra sem parede de permeio. Acredito em parede-e-meia no mundo internético, por isso desisto de ir dormir e converso com você. Digo que a coluna está um caco: parece que vai quebrar. Já viu conversa mais comezinha? É dessa que preciso. Deixemos pra falar do livro de poesia numa outra noite; nesta eu quero falar de coisas outras, bestas, dar umas risadas, falar da vida alheia com graça, rir, rir. Saudades, amigo, de nossas conversas. Rir do universo sem pensar que estou sendo politicamente incorreta. Rir de mim, da parentalha, falar que raimundinho está na área e eu com medo dele. Está me ouvindo aí do outro lado? Se está vai se lembrar quem é raimundinho. Já conversei com você sobre ele; se não se lembrar coloque a palavra na busca aí em cima e você acha. Você vai rir, tenho certeza, pois que a rima drummondiana que meu primo carrega é mesmo sem solução. Sabe do que estou falando? É tão boa essa empatia. Saudade de sentir sua risada alta, o hálito bem perto, presença corporificada no universo. Vamos parar com essa rima? Não quero que isso aqui ganhe conotação poética, literária. Quero o retrato de nossas conversas o mais despojado possível, o mesmo de mãe conversando com Dona Nena pela parede da cozinha. Elas falavam coisas corriqueiras, como tempero de comida, comentavam sobre alguém que estava no rio lavando roupa, sei lá, coisas sem envergadura filosófica. É disso que preciso hoje, nesse sábado altamente profundo que me carrega.


Imagem: "com a noite de sábado". In: www.google.com.br