terça-feira, 28 de setembro de 2010

a dança do adeus


Ah, meu amigo, me diga quantos passos darei até aquela porta. Venha comigo: vou tentar andar bem devagar, tal qual uma bailarina. Sua alma circundará esse espaço e dançará comigo no baile, aquele que os mortos fazem quando se encontram.
Ah, meu amigo, minha retina é antiga demais; e meus pés tortos, você bem sabe, não conheceram o auxílio de uma bota preta - para adestrá-los. Por isso olho sempre bem fundo, e caio. A menina é uma bailarina tosca porque hoje tem botas. É medonha a dança dela: eis porque não sei quantos passos darei para chegar àquela porta. As botas pretas me enfeiam, e demorarão anos para que os pés se desentortem.
Amigo, límpida ternura: sou ainda menina que não anda. Ensina-me os primeiros passos até chegarmos àquela porta, a última.



Imagem: www.google.com.br

7 comentários:

Maria Muadiê disse...

lindo texto.
um bjo

Gerana Damulakis disse...

Nossa, aero, vc é uma senhora escritora, me faz suspirar após a leitura, sinal de que li sem colocar ar para fora. Maravilhosa sua escrita.

Bernardo Guimarães disse...

tão bom ler o que vc escreve...não é a toa minha escritora preferida!

Bípede Falante disse...

Aero, como você decifra o amor!!!

Chorik disse...

Eu lhe daria asas só para observá-la dançar no ar.

Matilda Caletebocana disse...

Merimã, Seus textos chega arrupia a gente toda. Te dedico gata.

Lucia Alfaya disse...

Lindo texto. Comovente. Profundo. Vontade de carregar essa bailarina e abrir-lhe todas as portas.