segunda-feira, 20 de setembro de 2010

os estrangeiros


Dizem que a tristeza tem lágrimas, a melancolia não. A melancolia talvez seja mesmo pesada, seca, sem lágrimas; ou por demais leve, como pensou Calvino: a tristeza em sua forma plástica, bela, estética. Há os poetas da melancolia, os cineastas das películas nostálgicas, líricas, carregadas de neblina. Há imagens a escolher: águas do mar batendo de leve em pedras escuras, e um homem de sobretudo andando por perto, olhando para o chão. Há humanidades inteiramente perdidas, soturnas, sem necessidades de palavras. Pessoas que testemunham para si mesmas o mais terrível degredo: o vazio, o vazio onde nem o medo habita.


Imagem: Cena do filme "A primeira noite de tranquilidade", de Valerio Zurlini (1972).

7 comentários:

Gerana Damulakis disse...

É mesmo, o vazio é pior que o medo. Vazio = nada.

Lidi disse...

Sinto, muitas vezes, esse vazio. Adorei a imagem. Um beijo, Aero.

Anônimo disse...

Aero, minha amiga, tenho esse vazio cravado aqui dentro. É a minha sina e maior atributo. A vida apenas, o resto é ilusão em demasia. Belo e fortíssimo texto, bela e poderosíssima imagem. Aquele abraço.

Bípede Falante disse...

Três coisas a gente não pode perder na vida: o riso, o sonho e as palavras.
Beijo.

Chorik disse...

Tô pensando aqui num tratamento de choqe pra senhora... me aguarde!

Banho Veneno disse...

Acho que me vi nesse seu comentário..."Um poeta das neblinas..."

Nilson disse...

O vazio onde nem o medo habita é algo terrivelmente sugestivo, que só você pra sugerir. Na mosca!