domingo, 11 de outubro de 2009

Caminho dos alfinetes


Minha vida intrauterina, assim como a de todos vocês, foi uma maravilha. Dizem os psicanalistas que no útero materno vivemos o estado de completude do desejo, o estado absoluto do amor: duas pessoas se juntam e se completam, sem conflitos. Mas eis que um dia nascemos para o mundo, e o mundo é a perda, a falta, todas essas palavras que estão aí para nos desequilibrar quando cá entramos. Aqui a nossa mãe já não nos completa mais, nos frustra, nos castra. E é preciso ser castrado logo, para que não levemos a vida toda com a psicose de querer sempre o estado de absoluto paraíso. Porque do lado de cá do útero da mãe, é certo: completude total nunca irá existir.
... Por que todo esse intróito?
Apenas para dizer que meu processo de castração foi dos piores.
Saí do útero e minha mãe me tratou a minha infância inteira como se eu lá permanecesse. Só que, óbvio, eu estando do lado de cá do mundo, e não mais no pleno sossego de Thanatos e Eros que era sua barriga.
Oh, lembro-me aos quatro anos, amamentado-me nos seus seios flácidos. Não é uma lembrança lisonjeira; muito pelo contrário, é uma lembrança perturbadora, constrangedora, em que o asco se junta a um profundo compadecimento de mim mesma.
Mamava em pé, na frente dos outros, ou no quarto, às escondidas. Não lembro do gosto daquilo. Percebo apenas que naquela época eu já deveria ter sido castrada completamente, mas vivia ainda o faz-de-conta impossível de uma vida intrauterina.
(Não sei a quem possa interessar tal relato. Nem mais ao meu psicanalista, que abandonou meu caso. Acho que só a mim mesma, à maneira de busca simbólica.)
Toda a problemática é que o estado de frustração, normal ao vir da castração absoluta, feita nos primeiros anos de vida com a retirada do leite materno, em mim permaneceu, em doses dilacerantes, muito mais que nos meus quatro anos de mamação. Isso formou um elo dos mais terríveis entre mim e minha mãe.
(Talvez essa aqui seja uma "Carta à mãe", de maneira indireta.)
É nítido demais o sofrimento das separações a que ela me impunha. É nítida a dolorosa lembrança de um dia em que ela, às escondidas, viajou sem mim. E eu, enganada, na casa de minha avó... Quando me dei conta da traição esgoelei o dia inteiro, gritando por ela. Minha avó, que nunca teve paciência com criança, disse que iria me bater. Aquilo doeu mais fundo e esgoelei mais alto ainda. Os passantes na estrada em frente, curiosos, perguntavam o que acontecia àquela criança ensandecida.
Terrível elo, terrível dependência, terrível hierarquia.
Não são à toa os alfinetes, os sonhos que tenho com alfinetes. Neles ela está sempre presente.
Hoje lendo sobre a primeira versão de Chapeuzinho Vermelho, descobri que o lobo pergunta à menina se ela vai para a casa da avó pelo caminho das agulhas ou dos alfinetes. Chapeuzinho responde "das agulhas". O lobo vai pelo caminho dos alfinetes e chega primeiro. Tudo começa assim.



Imagem: "alfinetes", por Marcus V.
(www.flickr.com)

7 comentários:

Gerana disse...

Excelente. É uma Carta à mãe, realmente.

maria guimarães sampaio disse...

Pô, essamenina, você vai fundo, fundérrimo. Chego perder o pé. Eu? continuo procurando a água do útero de minha mãe em sonhos recorrentes onde me sinto sempre muito bem dend'água. Embora de mesmo, há muitos anos não entre em mar, nem piscina, rio ou lago.

Ulisses disse...

Mesmo na dor do relato freudiano que você faz, como é bom te ler, menina. Estou com saudades! Um grande abrç

I.Moniz Pacheco disse...

Que análise danada! Mas quem não tem essas pendengas com mãe?
Eu continuo na mesma, procurando, procurando o que perdí e sei que não vou encontrar. Mas continuo.

Janaina Amado disse...

É um texto muito forte.

Bípede Falante disse...

Como cada um tem mesmo uma particular história. Você lembra do farto alimento materno aos quatro anos e sente-se perturbada. Eu me lembro, também aos quatro anos, de olhar para minha mãe sentada à ponta da mesa e pensar por que será que nem mesmo uma xícara de leite ela me dá...

Nílson disse...

Dilacerante! Corajoso! Forte!