terça-feira, 13 de outubro de 2009

grades


Essa sempre foi a minha pergunta mais íntima: por que os presos seguram nas grades. Por que eles não ficam lá no seu canto, sem precisar apertarem as mãos naquelas grades sebentas. Ou então, que permaneçam em pé vendo a paisagem do corredor mas que não segurem nas grades sujas e enferrujadas. Eu, por exemplo, aqui na minha casa, não me grudo nas grades da janela. Assisto a tudo solta no ar. Não gosto de fixar minhas mãos nas coisas. Não gosto. Sinto gastura quando, nas poucas vezes em que vou à rua, alguém toca de raspão na minha pele. O contato suorento do outro me dá um nojo do cão. Gente é um trem nojento, essa frase é a minha cara. Meu primeiro marido gostava de escovar os dentes pela casa toda, e aquilo me dava uma raiva. Era uma lavação de dente zoadenta como se estivesse lavando pratos. Passeava por todos os cômodos naquele chap chap dos diabos, mais de uma hora fazendo isso. E a gengiva continuava sã, a raiva que me dava era essa, por que a gengiva não se descolava de vez. Se sou assassina? Estou em prisão domiciliar. Daqui posso dizer que entendo tudo de solidão. Seu corpo duro é uma tábua no prego. Mas não seguro em grades, não seguro. A ferrugem que habita nas grades entra para sempre na pele dos dedos, incrusta nas unhas e cutículas, levando o desgraçado para outro mundo.



Imagem: "Grades?", por Viniciusmaquifer.
(www.flickr.com)

6 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Falou e disse, essamenina! E quem agarra garrafa de refrigerante ou água com a mão inteira? Vixe! Seguro na pontinha dos dedos.

Gerana disse...

Que texto, viu? Excelente!

Bernardo Guimarães disse...

pois eu,se preso fosse, viveria grudado em uma grade. ela seria como uma chave, como um remo, uma varinha de condão. ensebada, mas possível salvação. ou então alamberia para que os zilhões de micróbios acabassem logo com aquela vida maldita.

Domingos da Paixão disse...

Se tem uma coisa nojenta é gente. por isso é que acho que escolhemos par fazer parte de nossas vidas as menos nojentas.

Nílson disse...

Belo texto! Estás afiada!!!

em.dor.fina disse...

Arrebatador do início ao fim. Um desabafo. Fantástico! Cada vez mais acompanho e admiro seus escritos.