quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Clarice


Clarice não passa na vida de ninguém impunemente. Levo Clarice nos ossos. Já quis ser Clarice. Escrevi livro tentando imitá-la. Tenho todos os seus livros. Cito Clarice nas aulas. E falo mal de Clarice. Me perdi no mundo por causa dela. Meu horror pelo mundo vem dela. Minha salvação pela escrita também. Ela para mim era uma santa. Acendia velas. Depois comecei a perceber seus pecados, seus defeitos, sua verborragia, seus dramas inverossímeis. Descobri Galinha Cega de João Alphonsus e fiquei com raiva de sua Uma galinha. Não tem quem faça mais eu trafegar em sua A Cidade Sitiada. O Lustre? Que ele fique lá, na estante, dormitando minha adolescência perdida. Maca não, Maca está aqui, pertinho de mim, por mais que tentem fazer de A hora da estrela um livrinho popular e bobo. Ah, minha amiga Clarice, são tantos os anos de convivência! Já quis ter um cigarro igual ao seu, sabia? Já quis uma varanda perto da praia... e sua insônia recheada de cafés. Já lhe imitei usando uma máquina de escrever no colo, sentada no sofá... só faltaram os filhos por perto. Queria ter aquelas pernas de siriema, altas; queria ter aqueles olhões misteriosos. Por que será que você é tão demoníaca assim com as meninas, despertando nelas essa vontade esquisita de ser você? Será isso inveja? Loucura? Besteira? Suas fotos da década de quarenta, lindas. Seu amor por Lúcio Cardoso, tão triste amor. E aquelas entrevistas que você fez com meio mundo de gente, publicadas em "De corpo inteiro"? Ninguém, no mundo, fez entrevistas daquele modo. Você lia o corpo de seu entrevistado, os gestos, a alma. Uma das entrevistas de que mais gosto é a que você fez com Marques Rebelo. Gostei da parte na qual ele pergunta: "Clarice: você se considera uma escritora brasileira?" E depois: "Perguntei-lhe isso, Clarice, porque em geral a literatura brasileira sofre de ausência de densidade, e você é densa." Palmas para Rebelo. Palmas para você.
Clarice ultimamente é alvo de minha maior irritação. Reli "O búfalo" e me decepcionei profundamente: minha alma juvenil, perplexa, não estava mais lá. Levei "A bela e a fera ou A ferida grande demais" para a aula, e no meio de minha leitura fui ficando triste, triste. Achei aquilo tudo tão falso, tão fake, tão teatro de pequena categoria. Aquele outro conto, do cego mascando chicles, meu Deus, não dá mais não: esgotou. Oh, minha querida, o que fazer contigo no meu coração? Vou salvar para sempre suas crônicas que viraram contos. Por exemplo "Felicidade Clandestina". Gosto muito ainda também de "Os desastres de Sofia", mas se pudéssemos conversar sozinhas lhe pediria pra fazer alguns cortes. Estou ousada, não? Vá desculpando minha temeridade. E aqui finalizo repetindo suas palavras: "a prece profunda não é aquela que pede, a prece mais profunda é a que não pede mais".



Imagem: "Clarice Lispector", por aclbraga.
(www.flickr.com)

9 comentários:

Andréia M. G. disse...

Que texto bárbaro! Vê-se bem sua "intimidade" com Clarice, ao ponto de chamar Macabéa por um apelido. Maca, simplesmente Maca. Adorei!

Gerana disse...

Maravilha pura o que aconteceu com vc. Livre dela, vc fica sentindo como é bom apreciar uma Lygia Fagundes Telles, sem esse comprometimento com as angústias excessivamente femininas de Clarice. Claro, Clarice tem seu lugar, é inegável, mas a escritora q se liberta da tirania clariceana, finalmente pode escrever mais livremente. Fiquei contente com o q aconteceu: quase um rito de passagem. Parabéns!

Senhorita B. disse...

MARAVILHOSO!
Nem sei mais o que dizer, amiga.
Bjs

Alguém que admira seus textos disse...

Aeronauta,

Pensei em me calar para sempre após ver sua revelação ocorrida há poucos dias. Não acho justo continuar me escondendo agora que conheço sua imagem. Mas não tenho vontade ou coragem de mostrar a cara, então resolvi me despedir oficialmente da caixa de comentários deste blogue antes de me ocultar de vez. Continuarei por aqui, silenciosamente, talvez eu volte um dia, por ora me guardo no anonimato.

Para não dizer que não falei de Clarice Lispector, foi uma ótima escritora, inegavelmente, mas acho bom que você se liberte das amarras que te prendem a ela.

Seus textos continuam sendo admirados.

maria guimarães sampaio disse...

Tive muitos ídolos (se é que seria Clarice um ídolo para você). Aos poucos fui os descobrindo de barro e foi bom para mim ir deixando quebrarem-se.

Janaina Amado disse...

Ora, ora, ora, este blog é poderoso, não é que apareceu até um/uma comentarista anônimo/a? rs
Olhe, eu amo Clarice de paixão: amei desde a primeira vez em que li um texto dele (jamais esquecerei) e continuo amando.
Mas concordo com Gerana: o que está acontecendo com vc. é libertar-se da influência poderosíssima de Clarice, e isso a liberta (liberta você) como escritora, pois qualquer influência excessiva sobre uma escrita é amarra. Muitas conquistas ultimamente, muitos vôos, não é, Angela Wilma? Parece que sua carta no tarô agora é realmente a vôo de pássaro. Fico super contente! :-))

Maria Muadiê disse...

ê mulher corajosa retada.

LÍVIA NATÁLIA disse...

Um dos melhores testos que já li sobre Clarice. Na vida. Tem horas que chega a doer...

Verdade inventada disse...

A cada novo milimetro q se mostra admiro cada vez mais seu conhecimento... Considere-se a "MINHA CLARISCE" hoje estou presa a sua "POESIA"!