segunda-feira, 21 de setembro de 2009

saudades

Nas primeiras páginas de Aurélia, capítulo intitulado "Prelúdio para a vertigem", Gérard de Nerval pontua:

"Somente pela consciência se deve evocar os mortos. Sua vida é sempre triste e terrível, pois eles sofrem com nossas faltas".

Sempre tive uma assustadora memória dessa sentença. Inconscientemente, sem a conhecer, a acolhia. Lendo-a, a reconheço. Nunca acreditei que os mortos têm felicidade plena pelo fato de terem descoberto o mistério da passagem. Ou, de lá onde estão, numa outra efervescência de ar, terem se transformado em sábios, numa bem-aventurança de fazer inveja. Sempre intuí ser difícil para eles a morte. Difícil. Intuí porque meu contato mais próximo com a morte foi com uma pessoa que eu conhecia, que eu conheci vinte e seis anos. Pessoa amorosa, que não ficava uma semana longe dos seus sem um sofrimento profundo. Que viajava para Salvador e quando voltava, com a maleta cheia de livros e presentes, transbordava de felicidade pelo retorno.
Ligado profundamente à família e à vida, ao rádio e ao seu jornal, pai tinha terrível medo de morrer. Ao saber da gravidade de sua doença, não aceitou a morte, não aceitou. Acreditava que não iria morrer, que ficaria bom, que levantaria daquela cama, daquela cadeira de rodas, e voltaria a cuidar de sua roça, de seu carro, e sentar-se na porta, de tardezinha, conversando com os que passavam. Gritando de dor, tomando morfina, aliviava-se e voltava à vida. Queria sua família por perto, todos eles. Não, nunca pensou seriamente que iria morrer. Não suportaria o desconhecido, principalmente a distância de dois mundos.
Quinze anos após sua partida, de cá sinto que ele sofre, que sente saudades da gente. Sinto às vezes sua presença perto de mim, sua presença amorosa me dizendo coisas, e lamentando eu não ter olhos para ver-lhe sentado ao meu lado, e não sentir seus braços me abraçando. Onde está, os dias são longos, e as noites insones são largas para muitas lembranças. Lembranças nossas, de sua roça, do quintal lá de casa, da praça onde jogava dominó com os amigos.
Dizem que o desapego é a prova da sabedoria. Se for assim, meu pai nunca será sábio: ele, por demais amoroso, por demais humano, nesses quinze anos não se esquece de nada; e chora, sei, chora ao nos olhar de longe.

6 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Aero, desde que compreendi mais a minha finitude creio firmemente: morrer é saudade. Seja do que eu morra um dia, continuarei a morrer sempre, de saudades.

Bernardo Guimarães disse...

fiquei profundamente impressionado e emocionado com seu texto.

Luli Facciolla disse...

Nossa!
Me arrepiei!
Lindo texto!

Beijos

Gerana D disse...

Belas palavras, belíssimas.
Não posso nem comentar tal assunto, vc sabe, a profunda empatia com tal assunto.

martha disse...

ai, quanta saudade...
um beijo

inocencio disse...

Lindo! Lindo! Lindo!
Não obstante (e talvez por isso mesmo) as palavras perfurantes como alfinetes.
É mais ou menos como dizer assim: doeu, mas foi bom.