segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

As regras noelinas


Presente é coisa tão bonita: vem sempre sob um papel florido, papel de festa. Alguns são quadrados, outros retangulares, outros redondos. É uma maravilha ganhar presente, mesmo que seja um mero sabonete, sozinho, perdido da caixa. Claro, mas esse sabonete precisa vir enrolado num papel brilhante, com cara de festa. E que o dono lhe dê junto com um abraço. E que ambos riem, felizes.
É uma pena que só nos aniversários e finais de anos isso aconteça com regularidade.
Sempre gostei de dar e ganhar presentes. Ao dar me sinto uma mãe adotiva, entendendo o que é a felicidade proveniente da compaixão, de dar-se para o outro, de ser um pouco com ele. E de, óbvio, respirar a felicidade pairando no ar.
Ao receber, mesmo ficando sem graça, é uma felicidade infantil. Fico logo ansiosa: quero abrir o pacote, ao mesmo tempo com cuidado, pois o papel festivo não pode ser agredido a ponto de desintegrar-se. O papel faz parte do afeto, sempre senti isso.
Abrindo e dando de cara com o presente em si, vem o abraço e a felicidade.
Vejo, portanto, que algumas vezes é muito fácil ser feliz.
Porém, como disse um personagem de Alessandro Baricco, "sempre falta algo à vida para que ela seja perfeita". E em alguns momentos os papéis floridos, assim como os objetos dentro deles, ou seja, os presentes, se tornam algo difícil de alcançar, para toda a vida.
Aí surge a menina que está indo para casa e vê na Rua dos Sete Pecados uma fila grande, grande, enorme, dobrando a praça. As crianças que estão na fila vibram a cada saída de uma outra, proveniente de uma casa ostensiva. Saem com enormes pacotes brilhantes, papéis de presente diferentes dos que vendiam na nossa cidade. Na saída as crianças agraciadas vão lascando os papéis pelas calçadas e de dentro surgem lindas bonecas com cabelo lustroso, olho que bate e vestido longo. Que felicidade a minha! Pois então ali davam presentes de Natal? Pois, pois, entrei logo na fila que eu nunca fui besta.
Permaneci na fila, diga-se, lenta de expectativa, mais ou menos uma duas horas.
Quando, molhada de suor, coloquei o pé na batente da porta-paraíso, e constatei a sala cheia de presentes, vibrei. Mas logo na porta surgiu uma dona austera, vestida com belas roupas. Me olhou e disse:
- Você não. Seu pai é rico, pode lhe dar presentes.
Ainda fiquei esperando, mas ela chamou o próximo com insistência.

***

Papai Noel lá em casa sempre foi magnânimo. Cumpria minhas cartas à risca, e eu adorava aquele velhinho. Adorava mais ainda acordar na madrugada e ouvir o barulho que meu pé fazia batendo no papel de presente. Ficava tocando seguidas vezes aquele papel diferente, tão feliz, antes de abrir o pacote e constatar a fidelidade de Noel.
Mas num Natal isso não ocorreu.
Bati o pé e não senti papel e nem presente algum.
De meu lado minha irmã vibrava com o presente dela.
Pensei: que traição, que injustiça. E claro, botei a boca no mundo com toda a força.
Mãe e pai acordaram e foram ver o que acontecia. Eu chorava e aos soluços tentava explicar-lhes que eu não ganhei presente de Natal.
O pior de tudo era que minha irmã tinha ganhado. E olhar pra ela rindo fazia com que minha infelicidade aumentasse. Chorava, então, mais alto.
Pai e mãe curiosos mandaram eu vasculhar direito a cama. Disseram: Olhe tudo, quem sabe não está aí. (Eles me davam esperança.) Acreditei neles e procurei de novo. Nada.
Aí eles disseram: olhe embaixo do colchão. Olhei, e nada. Aí eles disseram: olhe embaixo da cama. Quanto botei minha cabeça embaixo da cama achei uma carta.
Era uma carta de Papai Noel.
Escrita com uma caneta vermelha em letras de forma.
Nela o velhinho relatava, em detalhes, todas as mentiras que cometi no ano. Todas as malcriações. E concluía que, por conta disse, eu não ganharia presente algum. Abri o berreiro mais alto, me sentia absolutamente injustiçada.
No final da carta, porém, tinha um pós escrito em que ele dizia que pensou um bocado e iria, por caridade, me dar mais uma chance: portanto, meu presente estava embaixo da cama, do outro lado da parede. Mas se no próximo ano eu não me comportasse direitinho, nécas de presente, para sempre.
Foi nesse dia que descobri ser Papai Noel um doutrinador cruel que gosta de brincar com o poder que tem.
Foi nesse dia que aprendi a dureza e a dificuldade que é ganhar um presente. Muitas vezes, para ter a graça de ganhar um, é policialmente necessário que sejamos como os outros querem, dentro de regras socialmente noelinas. E esse é um exercício profundamente desgastante e infeliz.

***


Imagem: Presente I (www.flickr.com)

9 comentários:

Gerana disse...

Ambos ótimos. O 2º é interessantíssimo, Papai Noel doutrinador cruel. Será que não há um símbolo totalmente destituído de cobranças, sem Se não isto, não aquilo?

Bernardo Guimarães disse...

não gosto de natal nem reveion. passo batido, obrigado.

I.Moniz Pacheco disse...

Não gosto muito de Natal. Acho triste demais.Mas adorei sua escrita, é bem assim: toma lá, dá cá.

Janaina Amado disse...

Aero, uma passada aqui pra um abraço apertado e caloroso, noelino, enviado lá da minha nuvem, diretamente pra sua. Muitos lindos presentes neste natal.

Chorik disse...

Eu não consigo escrever um texto decente sobre o Natal e você me vem com duas preciosidades. Aeronauta, você é brilhante, mais do que papel de presente. E cruel, como certo papai noel. rs

Feliz Natal amiga. Bj

Luli Facciolla disse...

Concordo em gênero, número e grau!

Beijos Nauta! E Feliz Natal!

Maria Muadiê disse...

Maravilhosos! Amei.

Nilson disse...

Brilhante mesmo. E esse negócio de Noel tirano a nos querer certinhos me tocou bem fundo. Valeu, Aero!!!

Lidi disse...

"Aeronauta, você é brilhante, mais do que papel de presente." Concordo com o Chorik. Adorei os dois textos. Beijo!