domingo, 7 de novembro de 2010

o sinal de Caim


Abel era pastor de ovelhas e Caim, lavrador. Um dia Caim trouxe "do fruto da terra" "uma oferta ao Senhor". Abel também trouxe-Lhe "das primícias de seu rebanho e da gordura deste". Só que o Senhor gostou mais da oferta de Abel. Por quê?
Essa é uma das grandes perguntas que me faço diante da primeira contenda simbólica de nossa história cristã.
Claro que Caim tinha que ficar com o semblante triste: fora rechaçado.
Não sei, não sabemos, se foi em razão desse trauma inicial, a rejeição, que levou Caim a praticar fratricídio. Mas me parece possível. A dor de ser rejeitado pode levar a psique humana às mais desvairadas instâncias.
Só que Caim, ao matar o irmão, soluça sua triste sina diante do Senhor, e assim este o protege com o sinal: o sinal de Caim - quem o matar "será vingado sete vezes". O sinal é a sua proteção eterna.
Hermann Hesse, em seu livro "Demian", traz essa questão bíblica, que não é nada simples: o sinal de Caim. Ora, não esqueçamos: Caim mata o irmão e é protegido por Deus.
Ao término de "Demian", todos nós leitores achamos que somos depositários do sinal. O personagem Demian diz que o sinal de Caim é o sinal dos corajosos: aqueles que se debruçam sobre o bem e o mal na busca incessante por si mesmo. Abel tem uma passagem apagada na Bíblia, enquanto Caim se tornou herdeiro universal do mal - remetendo-nos a inquietações, perguntas. Se nos inquirirmos por que o Senhor o protegeu, uma resposta plausível é que Deus é o grande detentor e conhecedor das forças enigmáticas e relativas que existem entre o bem e o mal. O deus Abraxas, portanto, trazido à baila por Hesse; deus antigo que foge do pobre maniqueísmo que corrompe a humanidade.
Aí eu me pergunto: o Senhor a quem a Bíblia nomeia pode ser o deus Abraxas?
Lendo com lupa a ambiguidade própria das escrituras sagradas, sim.
Aqui eu termino abruptamente com um verso de Paulo Ricardo B. Silva, meu aluno: "Eu sou o pecado de Deus".


Imagem:"deusdecaim". www.google.com.br

11 comentários:

Anônimo disse...

Seu texto e "Demian" dialogam com o livro "Caim", último livro de Saramago. A tentativa humana de entender os desígnios de Deus e a vontade dos homens de ter a rédea da vida em suas próprias mãos. Isso, só matando Deus ou o que ele representa. (João Neto)

Flávia Brito disse...

A palavra saudade ja nao cabe aqui... Vou enventar outra, uma palavra que carregue na sua pronuncia um tiquinho do que estou sentindo. AAah que falta tu me faz minha doce ANgela, que falta tu me faz minha honrada professora, eterna professora de palavras, eterna professora dos sentimentos.

aeronauta disse...

Oi, Flávia, que saudades, querida! Obrigada por tão amável presença, pelas doces palavras. Espero revê-la em breve. Bjos.

Nilson disse...

Grande verso, esse de Paulo Ricardo! Li Demian na adolescência, o que me levou a ler quase tudo de Hesse e a viver, de forma anacrônica, aquela febre toda da contracultura. Demian é realmente um livro estranho, perturbador. Confesso que comecei a ler Caim, de Saramago, e acabei interrompendo. Preciso encontrá-lo no monturo de livros aqui de casa. E por falar nisso: acho que depois deste teu post sinto pulsar de novo, de alguma forma, o sinal de Caim!

Marcantonio disse...

Sempre me incomodou a passagem bíblica. Já novo, era por Caim que nutria simpatia, o primeiro anti-herói; eu achava que ele havia matado um ser inexistente, um homem que não existe, algo como um reflexo do divino (e por isso mesmo preferido por Ele)que, uma vez assassinado, poderia representar um arrependimento pela invenção desse Deus. "Acaso sou eu o guardião da representação de Deus?". Hum, não sei pensar teologicamente... Requer uma concessão simbólica que não alcanço, estou mas para Serenus do que para Adrian Leverkhun.
Mas, não dava para inverter o belo verso do Paulo Ricardo não? Deus é o meu grande pecado.

Abraço.

Crazier disse...

Talvez eu seja pior do que realmente sou, e por ser pior, sinto que conhecer a podridão concede forças para aguentar o que há de mais desumano, porque a atrocidade mais voraz, se cometido pelo homem, é humano, sou eu.

Chorik disse...

O mito de caim e abel só perde para o de adão e eva. O sentido figurativo das escrituras, levada tão ao pé da letra por alguns. A Gênese toda é uma metáfora, talvez a maior de todas.

bjo Aero, você que é um anjo.

Bípede Falante disse...

Aero, assino embaixo do comentário do Marcantonio!!!
bjs :)

Gerana Damulakis disse...

Caim, de Saramago, me veio imediatamente por associação.
Ótima postagem. E que verso maravilhoso!

Anônimo disse...

tenho um amigo que é ateu e usa as páginas da bíblia para fumar maconha. diz que a seda é melhor. depois de ter lido "caim", sugeri que ele fumasse a morte de abel. quem sabe assim a fumaça da oferta de caim não chega ao senhor? o meu amigo seria ao menos um intermédio tardio, já que, como bem colocou saramago, deus não compareceu ao cenário minutos antes. vai entender... um abraço, aeronauta! (em.dor.fina)

art & cia disse...

Samael...